SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 6 de março de 2017

NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL SERTANEJO


*Rangel Alves da Costa


Tem razão o livro bíblico do Eclesiastes: nada acontece de novo debaixo do sol. Eis o que diz: Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Abro a janela, ponho-me ao umbral, lanço o olhar adiante e começo a refletir que realmente nada de novo há debaixo do sol. Abro a porta, caminho pelos arredores, alongo a vista pelos horizontes, simplesmente para mais uma vez reconhecer que nada acontece de novo debaixo do sol. Tudo como já escrito nos livros antigos, tudo como já acontecido noutros tempos, tudo apenas se repetindo com antigas e novas feições.
Há de se ver que o sol se repete sempre naquelas bandas de aridez e sofrimento chamadas sertão. Fala-se nas grandes secas de 2015 e tantas outras de vultosas devastações, e agora mesmo se fala numa estiagem de iguais proporções. Mesmo com novas feições, os mesmos sofrimentos se repetem no homem, no bicho, na terra. Assim, no gado de couro e osso de hoje ainda se ouve o eco daquele berro de despedida de outros tempos.
O que acontece de novo quando se fala em grandes secas dizimando sertões inteiros? Absolutamente nada. O que foi ainda é, como um dia aconteceu agora tudo se repete, ainda que as tecnologias humanas tenham avançado muito na resolução dos problemas da estiagem. Contudo, o que sempre se observa são as mesmas e ineficazes ações se repetindo, as mesmas esmolas sendo repassadas ao povo, a mesma humilhação imposta ao pobre ao pobre e calejado homem da terra.
Nada de novo debaixo do sol sertanejo. As águas dos rios tão próximas e parecendo de distâncias impraticáveis, os tanques secos e tomados de barro duro e as máquinas eleitoreiras cavando mais para se dizer que alguma coisa está sendo feita. Os carros-pipa são os mesmos e nos mesmos percursos das estradas tão esburacadas como noutros tempos. As paisagens esturricadas, acinzentadas de fogo e de sol, são as mesmas dos primeiros tempos. A mesma secura da terra, a mesma magreza no bicho, o mesmo sofrimento no homem. E todas as promessas novas surgidas não passam de repetição daquelas mesmas lorotas políticas surgidas em tempos assim. Nada acontece de novo debaixo do sol sertanejo.
Pelos idos de 1877, durando mais de dois anos, o sertão teve que suportar a denominada “Grande Seca”. Já em 1890, a fome dizimava quase metade da população cearense. Após tal episódio devastador, o imperador Dom Pedro II fez ecoar a célebre frase: "Não restará uma única joia na Coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome". Com efeito, algumas medidas emergenciais foram tomadas para combater o problema. Mas nos anos seguintes, com a chegada das constantes e duradouras estiagens, logo se percebeu que o problema, além de não ter sido solucionado, aumentava o sofrimento sertanejo. Comprovado estava que as secas nordestinas somente eram tidas como problemas a serem resolvidos nos seus instantes mais alarmantes.
E quantas outras grandes secas surgiram sem que outras soluções chegassem senão as emergenciais? Ora, nada de novo de novo acontece debaixo do sol sertanejo. A cada nova seca e a mesma cuia de esmola, a mesma humilhação, a mesma troca de favores eleitoreiros por uma carrada d’água, a mesma dependência por conta de um quilo gorgulhento de arroz ou de feijão. Se antigamente o governo enviava cestas de fubá quarentinha, jabá e mortadela de quinta e outros alimentos de bicho engulhar, hoje a situação não é diferente, pois tudo esmola e com a mesma finalidade de submeter o homem através de seu estado de absoluta carência.
Como diria o livro bíblico, o Eclesiastes medita do alto de seu monte e entristecido reconhece nada, absolutamente nada, haver de novo debaixo do sol. Contudo, ao contrário da ação pendular da vida humana, onde tudo nasce e tudo morre, onde a tristeza chama a alegria e onde tudo que seca se mostra novamente pujante, o mesmo parece não ocorrer com o sofrimento sertanejo perante seu eterno estado de dependência do clima e do homem. Não vem a seca e depois a fartura, nunca vem a calamidade e depois o duradouro renascimento, mas sempre a esperança que a chuva chegue apenas para amenizar as dores de bichos e seres humanos.
No sertão, a verdade é que não se aprende a conviver com a seca, pois não há como ser educado no sofrimento. O aprendizado que há - e tudo na inventividade de sobrevivência sertaneja - diz respeito a cultivar a fé, seja perante o bicho caindo de fraqueza ou diante do menino choroso sem comida no prato. Mas como apenas a fé não mata nem a sede nem a fome, o que o homem faz é chamar para si a certeza de que amanhã haverá pingo d’água, depois a semente lançada na terra, e ainda depois a comida no fogo. E por isso mesmo cata folha e pinica carne de cacto para matar a fome do dia. E sempre assim, pois nada acontece de novo debaixo daquele sol sertanejo.


Escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

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