*Rangel Alves da Costa
Longe se vão aqueles anos 40, quando o sertão
passou a acolher em seu solo um filho amado. Filho de Dona Emeliana e Seu
Ermerindo, então nascia Alcino Alves Costa, em sua amada Poço Redondo, sertão
sergipano. Nesta última quarta-feira 17 de junho, sem eventos comemorativos
abertos ao público em virtude da pandemia, ainda assim o povo sertanejo
intimamente saudou a data no mais profundo do coração.
Oitenta anos já se passaram desse primeiro
encontro do filho com sua terra. E mais de sete anos se vão que o eterno menino
sertanejo retornou a casa do Pai, vez que falecido a 1º de novembro de
2012. Viveu setenta e dois anos entre os
seus, pouco perante a esperança de vida do sertanejo, mas de forma tão
grandiosa e construtiva que os anos na terra vingaram uma eternidade pelos seus
feitos.
Apenas setenta e dois anos vividos, mas
quanta imensidão gestada nos seus passos, nos seus escritos, em suas palavras,
em suas ações. Foi menino sertanejo traquina, foi rapaz sonhador, foi prefeito
antes de ser político, foi político de nomeada em seu Poço Redondo. Mesmo não
tendo formação acadêmica – ou quase nenhuma formação educacional -, pois o
ensino primário foi o seu limite de sabedoria escolar, Alcino conseguiu ser
doutor no que fez. Seu anel de formação, contudo, apenas brilhando no olhar a sua
lua e o seu sol. Como era apaixonado pelo sertão!
Uma paixão tão indescritível que além de ser
filho da terra e conviver com seu chão, tudo o que na vida fez sempre teve o
sertão como mote de arte e criação. Na verdade, em Alcino o sertão corria nas
veias, pulsava no coração, guiava o seu passo, era seu sopro de vida e sua guia
de viver. Não se sentia bem e nem gostava de estar noutro lugar senão no seu
chão sertanejo.
Sempre calçando havaianas, com a ponta da
camisa num canto da boca, tantas vezes cabisbaixo e cantarolando baixinho uma
velha canção sertaneja, lá ia Alcino pelas ruas e esquinas de sua Poço Redondo.
Encontrava um banco de praça e passava a dialogar com o mundo sertanejo, com
suas histórias e suas memórias. Seu silêncio meditativo, contudo, apenas
ocultando diálogos com as vozes matutas, com os grunhidos dos bichos, com a
catingueirama se abrindo em espanto para cangaceiro passar.
Ouvia, no seu mais profundo íntimo, aquelas
vozes antigas de um povo que desbravou os sertões, que fez curral e pastagem,
que fez a vingar em meio aos hostis carrascais. Ouvia Adília contando suas
histórias de ex-cangaceira. Ouvia Mané Félix relatando seus passos de afamado
coiteiro e seu convívio com o Capitão Lampião. Em seu silêncio, tudo isso
Alcino ouvia.
E ouvia para depois tudo transformar em
escritos, em livros, em canções, em prosa cheirando a flor de mandacaru.
Aquelas vozes se tornavam muitas, e tudo depois ganhando a moldura do próprio
sertão. Pesquisador, escritor, poeta, compositor, radialista, palestrante,
apaixonado e divulgador da música caipira de raiz, Alcino deixou um insuperável
acervo de conhecimentos, principalmente sobre o sertão e seus feitos
históricos, sua geografia, suas tradições, suas riquezas culturais, o seu povo.
Apaixonado pelo tema cangaço, sobrinho do
cangaceiro Zabelê e primo de Correnteza, foi amigo de ex-cangaceiros e
ex-coiteiros, e daí ter se tornado num dos maiores expoentes das lutas e
vinditas cangaceiras sertões adentro. Em letra miúda ou dedilhando em velha
máquina de escrever, foi construindo um sertão inteiro! É de sua autoria um dos
mais importantes livros e aclamados sobre o cangaço: Lampião Além da Versão:
Mentiras e Mistérios de Angico. E também Lampião em Sergipe e O Sertão de Lampião.
Mas escreveu muito mais.
O Sertão de Alcino e tão bem descrito por
Alcino, é o Sertão dos canoeiros e comboeiros, dos cangaceiros e das volantes,
dos coronéis e dos jagunços, dos rezadores e benzedeiras, dos vaqueiros e das
boiadas, dos mateiros e caçadores, das beatas e das promessas matutas, da
religiosidade e da fé, mas primordialmente de um povo que tira da secura da
terra o verdor da digna sobrevivência.
E assim porque meu pai Alcino foi imenso, foi
múltiplo, foi diversificado, foi largo e longo demais pelas estradas de seu
mundo e mais além. Mesmo sempre fincado no seu chão amado, fez com que o mundo
o reconhecesse pela sua obra. Foi esposo, foi pai, foi avô. Alcino foi irmão,
foi parente, foi amigo e conhecido. Mas gestou e conviveu com um mundo maior: o
mundo sertanejo. O sertão de sagas, de lutas, de sofrimentos e alegrias.
Alcino foi tudo, e mais além do que
certamente almejava ser. Mas hoje é também uma imensa saudade. Oitenta anos de
nascimento, setenta e dois anos de vida, sete anos de partida, um calendário
que alegra e faz doer.
E uma imensa saudade!
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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