SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 20 de agosto de 2019

UMA CARTA



*Rangel Alves da Costa


“Bom dia, boa tarde, boa noite... Como vai, tudo bem? Espero que esteja sim, pois o que mais precisamos é de um pouco de paz nessa vida. Gostaria que o abraço fosse acompanhado desta xícara de café que agora tenho diante de mim. Na verdade, nunca estou sem uma xícara de café por perto. Outra coisa que jamais deixo de ter comigo é uma janela aberta. Ah quanto bem me faz uma janela aberta e a imaginação indo além de seu vão e seu umbral.
Custou-me muito escrever essa cartinha. Na verdade, quase não escrevo mais. Também abdiquei das muitas leituras. Agora somente o essencial. Mais fácil ler receita de bolo que filosofia, mais fácil ler horóscopo do que notícias sobre política. Um enojamento só. Também não admiro a filosofia como antigamente. Ora, vivemos num mundo real e assustador demais para que, além disso, adentremos nos infindáveis mistérios filosóficos. Diga-me, por favor: qual a valia da retórica filosófica ao mundo?
Não concebo mais me adentrar nas entranhas daqueles velhos filosóficos que nunca chegavam a consensos entre eles mesmos. Até hoje não sei se houve algum vitorioso na guerra do ser, do nada ser, do vazio, do caos, da síntese, da antítese, da síntese da antítese. Segundo um conhecido, viver de pensar só existe para quem não tem o que fazer. Certo que existe algo inteligível na concepção filosófico, mas - e repito - continuo não sabendo o motivo de se cavar um poço que nunca tem fundo. E a filosofia faz isso.
Na verdade, gosto mais do simples, do acessível. Gosto de imaginar apenas quando estou na minha janela. No demais, sempre achei com maior validade sentir a força do vento, a chuva molhando, a terra sobre os pés, o grilo cantando, o vaga-lume acendendo seu candeeiro, o cheiro de café na chaleiro ou do ovo de capoeira na frigideira. Ora, são coisas plausíveis, sensíveis, alcançáveis. Que luxo da vida poder beber da água fria de uma fonte que se mostra límpida e transparente bem adiante do caminhar.
Penso muito em também abdicar da cidade e ir de vez para as distâncias. A cidade não existe mais. O que se tem é apenas medo, violência, abusos, absurdos, buzinas, gritos, brutalidades e arrogâncias. Na cidade, um mundo de portas e vidas fechadas, e por medo de tudo. O homem da cidade também desumanizou, esta a verdade. Aquele que passa parece mirando um inimigo que também passa. Olhares arrogantes, frios, brutais. Aquele velho bom dia ou boa tarde já não existe mais. Ninguém mais se senta em banco de praça ou coloca sua cadeira na calçada. Ninguém é doido de fazer assim.
Nas cidadezinhas distantes ainda persiste outra realidade. Logicamente que o mundanismo e os modismos já abriram todas as cancelas e porteiras, mas ainda é possível viver com mais prazer, segurança e dignidade. Sei que muita gente é avessa a isso, mas vejo como possibilidade de me exilar pelos campos, pelos beirais de estradas, ou mesmo dentro dos matos, em refúgio numa casinha modesta, humilde, singela. Criar galinha, ter alguns bichos de cria ao lado, semear o grão e colher o necessário à sobrevivência. Que bom será dialogar com a natureza, caminhar pelas veredas, avistar o sol se pondo e a lua surgindo. E ter um oratório para dignificar minha fé.
Assim o que penso, amigo. Como dito, esse café de que me sirvo agora seria bem mais saboroso se houvesse sido preparado naqueles sertões que eu citei. Não me importo de tomar água de moringa nem de preparar comida em fogo de chão. Talvez um radinho de pilha ao lado e um caderno para escrever qualquer coisa. Ah! Isso eu não posso esquecer: uma rede para armar e nela adormecer para o sonho bom. Acho que será possível ainda encontrar esse mundo. E por isso mesmo me despeço agora para arrumar mala e sonhar. Até mais. E apareça por lá!”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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