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A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CAJUEIRO DE ÁGUA CRISTALINA, NO SEU LEITO AZUL UM OLHAR DE MENINA



*Rangel Alves da Costa


Também na geografia, Poço Redondo, município sergipano e sertanejo localizado no Alto Sertão do São Francisco, nasceu divinamente abençoado. São 26 km de rio e beirais, num São Francisco que corre entre montes, serras, pedras e mandacarus.
Poço Redondo tem Bonsucesso, tem Curralinho, tem Jacaré, tem Cajueiro, e tudo beira de rio, tudo às margens do Velho Chico. Poço Redondo tem a piscina de águas límpidas e azuladas do Rio São Francisco em Cajueiro.
E povoado Cajueiro de tanta história, de tanta memória, de famílias tradicionais que ainda povoam as raízes da povoação. Um nome que vem de doce fruta, de cajus e cajueiros que se avolumavam pelas beiradas úmidas e pelos quintais molhados nos tempos passados. Um verdadeiro pomar sertanejo.
Cajueiro de cangaceiros, de coiteiros, de políticos, de pescadores, de sertanejos acostumados ao redor das águas e das brenhas carrasquentas sertões adentro. Cajueiro do candeeiro antigo e da vela acesa aos pés do velho oratório. Beatas e beatos nos seus ofícios de fé perante a igrejinha.
Cajueiro da vida mansa e do burro sendo selado para chegar à cidade. Ou da embarcação aportada esperando seu viajante. O mesmo Cajueiro da Gruta do Angico e da Família Félix e de tantos outros troncos familiares. Lourival Félix, Mané Félix, Adauto Félix, Erasmo Félix, Messias Caduda, tudo vingado e enraizado nas suas entranhas. Félix, Azevedo, Cruz, Rodrigues, sobrenomes que são também sobrenomes de Cajueiro.
A pedra grande no meio do rio e as casinholas que foram levadas ao chão para dar lugar a suntuosas moradias de forasteiros. As canoas antigas que ainda adormecem às margens brandas e como em colcha macia das águas cristalinas do rio. Infelizmente, poucas raízes continuam fincadas daquele Cajueiro de passado tão suntuoso.
Grande parte de seus moradores - e também muitas famílias - simplesmente migrou para a sede municipal ou mesmo para as Alagoas, no outro lado do rio. Casas foram fechadas, portas foram trancadas, e apenas as sombras do passado continuando saudosamente presentes.
Hoje Cajueiro é mais do turista, do visitante, daquele que deu vintém numa moradia e a transformou em casa bonita de final de semana e veraneio. Mas a história não foi apagada e nem as raízes mais profundas deixaram de existir. Os que permanecem em seu berço de nascimento continuam regando as flores de amor pelo seu sertão beiradeiro.
De Cajueiro ainda vingam doces cajus, assim como Robertinha (Robertinha de Cajueiro) que cantarola ao sopro da brisa boa e perante o amarelo avermelhado da flor do cacto: “Do Velho Chico sou, no seu leito de história nasci, vivendo ao seu lado ainda estou, pois de suas águas um dia eu bebi...”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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