SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 23 de outubro de 2019

POÇO REDONDO, ETERNO AMOR!



*Rangel Alves da Costa


Poço Redondo, meu amor! Um dito sem falsidade, escrito na mais pura verdade, de um filho do sertão que canta sua terra em louvor. Poço Redondo, meu amor, no meu coração ecoou!
E como é grande, como é imenso, o meu amor por você. Ter no peito a identidade, pulsando nordestinidade, e filho de uma irmandade que se chama sertaneja, desde os matos à cidade.
Filho de Poço Redondo, filho da crença e da fé. Menino do Gado Manso, do Riacho Jacaré, das Beiradas do Tanque Velho, de Dona Lídia o café, da lavadeira Mariá e de tanta Maria e José.
O parque da Festa de Agosto e no alto-falante a canção, a meninada brincando com alegria e animação. Seu João Retratista preparando o tripé pra foto não escurecer, enquanto o mercado é lavado pro baile do Embalo D.
Um tempo de saudade. Charisma e Toque de Amor, Tabu e Topaze. Calça boca de sino, espelho e pente no bolso, uma dança agarradinho. Enquanto o globo girava o casal se abraçava querendo ir pro escurinho.
Coisa boa é recordar. Não havia noites mais animadas que os noturnos do lugar. As praças repletas de gente, e todo mundo contente e querendo ir pra Discoteca dançar. Ou se encostar na janela de Dom e se danar a namorar.
Não vou desatinar meu destino de ter nascido nordestino, pois isso orgulho maior e coisa que mais estimo. Orgulho de ser sertanejo, da flor do mandacaru no meu beijo, do vaga-lume o seu relampejo.
Orgulho do meu Poço Redondo, onde nasci e não escondo e vou sua história compondo. Não há orgulho maior de ter a lua e ter o sol, da terra nua e seu arrebol, vida minha e vida sua, floridas igual girassol.
Orgulho do meu sertão, do Padim Ciço e Lampião, de Alcino e Zé de Julião, de todo Zé e todo João. Relembro o tempo antigo do casebre como abrigo, do vaqueiro e seu perigo, da seca maior castigo.
Orgulho na vereda matuta, da mataria sem ter fruta, mas não faltando a labuta. Lua maior sem igual, a passarada em madrigal, no céu o melhor sinal. Pelos campos a boniteza, a vida maior beleza, de um povo humilde a riqueza.
Porta aberta ao madrugar, pra barra do céu logo olhar, e nos olhos a esperança e o temor de não trovejar. Sou de um sertão de humildade, de pobreza sem maldade, no homem a sinceridade, no viver a honestidade. Homens de mãos calejadas, de faces de sol enrugadas, de alpercatas e pegadas, nas sinas e nas estradas.
Nos tempos de antigamente, potes na cabeça e rodilhas, cabelos presos em presilhas, roupas de chitas em barrilhas, em tudo as maravilhas. Moringa na janela da tarde, em tudo uma saudade, doce de cocada de frade e a gostosura em alarde.
Quixaba nos escondidos da mata, araçá trazido em lata, araticum juntado em cascata, vida doce e tão pacata. Panela de barro no chão, graveto para o fogão, e por riba do tição o toicinho em queimação.
Comer em prato de estanho, coisa que é hoje estranho, mas que nas mesas humildes era luxo sem tamanho. Ouvir o sino tocar, e logo a beata a rezar, Marizete leva o santo e na voz o seu belo cantar, pela rua em procissão, pela estrada em maior devoção, a religiosidade de um povo na sua santa missão.
Cavaleiros e cavalhadas, pegas-de-boi e vaquejadas, festas de mato e caçadas, saudades pelas estradas. Nas calçadas mais antigas, os proseados de amigas, falando se santas e raparigas, dos milagres e das intrigas.
Nas tardes de bordadeiras com suas mãos tão ligeiras, traçando os bilros nas beiras, assim aquelas vidas rendeiras. Ralar o milho em quintal, ovos na gordura animal, colocar tudo na mesa e ter o de comer sem igual.
Assim a vida de um povo tão renegado no novo, mas por tudo ainda louvo e só de pensar me comovo. Pois sou de um sertão assim, de um tempo do sem-fim, e mesmo que tudo em trampolim, nada se faz tão ruim. Acredito no sertão, pois amo este meu chão, é como uma fé chamejante bem dentro do coração.
Pois este filho de Alcino, que um dia foi tão menino, traz no seu figurino a feição ensolarada de sertanejo genuíno. E ama tanto o seu chão que canta em verso em canção, a vida desse seu povo que tem na moradia o sertão.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

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