SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 28 de abril de 2010

RAZÕES DO CORAÇÃO (Crônica)

RAZÕES DO CORAÇÃO

Rangel Alves da Costa*


Ter olhos somente para ver, boca apenas para falar e mãos unicamente para tocar ou recolher, não nos parece fazer o uso correto desses sentidos. De algum modo, animais ditos irracionais também fazem uso desses meios de relacionamento com o que os rodeia e de forma mais inteligente que o próprio homem. A este, caracterizado como racional por poder agir com discernimento do bem e do mal, resta ainda aprender a ter olhos para o que não está presente, ter boca para ficar em silêncio e ter mãos para buscar o que não está ao alcance.
Razão dou ao coração que não é sentido, mas age ilimitadamente em busca daquilo que deseja. Desconhece fronteiras para trazer e guardar dentro de si o que lhe fortalece e dá sentido à vida; rompe as barreiras da impossibilidade para tornar possível ao menos a esperança; enfrenta os labirintos assombrosos para resguardar o fio de Ariadne; torna-se onipresente onde quer estar e onipotente naquilo que quer ter. Por isso dou razão ao coração que sabe o que deseja e não precisa dos sentidos para agir. Aquilo que sente procura fazer acontecer.
Vou contar uma pequena história para ilustrar o que pretendo esclarecer. Um dia, havia um quarto com duas janelas envidraçadas, dispostas nas duas paredes laterais. Dentro do quarto havia uma menina triste, muito triste. A única saída para acabar com o sofrimento seria abrir a porta do quarto e sair em busca de qualquer coisa que lhe desse alegria. Quis ver como estava o tempo lá fora e pelo vidro das janelas viu que de um lado chovia e do outro fazia sol.
Estava cansada daquele tormento. De um lado, o sol brilhando e do outro a chuva caindo. A natureza impõe vizinhanças inimagináveis. Sair ou ficar, eis a questão; ir para as incertezas da chuva ou correr para a alegria do sol. Tudo seria muito simples de se resolver, pois as pessoas, agindo pela primeira intuição mental, nem pensam muito no que escolher, pois o sol é muito mais convidativo e prazeroso do que o horizonte enegrecido pela natureza revoltosa. O problema (seria problema?) é que a menina não queria o sol, mas sim a chuva, a tempestade. E o que fazer agora?
A menina tinha os seus motivos. Gostava muito dos dias ensolarados, dos passeios pelos parques e jardins, de sair e passear com as coleguinhas, de aproveitar ao máximo as facilidades do tempo firme, só que naquele momento não estava disposta a viver essa claridade convidativa. Só isso! E por quê? Se perguntasse a ela certamente ouviria que há muito tempo tinha vontade de experimentar sair para a rua e se molhar inteirinha num dia de chuva, gostaria de sentir os pingos caindo em sua cabeça e molhando o seu corpo, sonhava em dar pulos em poças d'água, correr descalça pelas calçadas e abrir os braços como se fosse planta que está com sede.
A menina queria experimentar algo diferente, uma experiência nova e bonita que era sair para a rua e tomar banho de chuva, brincar com água e depois sentir aquele friozinho na roupa molhada. O coração estava pedindo isso, há tempos que estava implorando para ser banhado por outras águas, para ser lavado das impurezas da solidão e do abandono, para se encharcar de vida nova, para ser molhado, reconstruído, refeito.
Ora, pensou a menina, todos os dias o sol me acompanha nessas andanças da vida e ele mesmo é cúmplice e testemunha de que o que tenho refletido é muito pouco para ser enxergada, vista, desejada, amada. Isso é o que parece ser, pois procuro brilhar mais do que o próprio sol e as pessoas me enxergam como se fosse sombra. Por isso mesmo é que hoje prefiro a chuva, e que venha uma tempestade para me banhar muito mais e ainda levar pra bem longe as réstias que restam do sol da solidão.
E pulou a janela e foi pra chuva, cantar, sonhar, brincar, viver, porque esse era o desejo do seu coração. E banhou o corpo e lavou o espírito. E depois da gripe arrumou um namorado bonito como o sol.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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