SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ZEZINHO NO MUNDO E O MUNDO DE ZEZINHO – 6 (Conto)

ZEZINHO NO MUNDO E O MUNDO DE ZEZINHO – 6

Rangel Alves da Costa*


A senhora, já bastante idosa, com roupas simples e gestos educados, conduziu Zezinho para uma verdadeira mansão. Quando, ainda se aproximando, informou qual era a casa que morava, o menino ficou espantado.
"Me desculpe perguntar, mas a senhora mora num muro senhora?". E a velha sorriu, achando engraçada a pergunta do menino. "É isso mesmo, meu filho, infelizmente temos que morar atrás de muros como estes, sob pena de que entrem na nossa casa e levem ou destruam tudo", respondeu a senhora.
O jardim da velha senhora era grandioso em tudo, mas naquele momento principalmente no abandono, na feiúra, na tristeza. Aos olhos de Zezinho logo veio a lembrança do sertão esturricado pelas estiagens, com plantas morrendo e folhas espalhadas pelo chão.
"Mas dona, do jeito que está isso aqui nem chuva de três dias seguidos vai trazer o verde de volta. Nem bicho ia gostar de pastar por aqui, pois veja só isso que judiação, tudo derrubado, tudo destruído, tudo se acabando...", dizia o menino, andando de um lado para outro, levantando caqueiros e ajeitando galhos pendidos.
E a senhora, que resolveu sentar num dos muitos banquinhos, levantou o olhar em direção às nuvens e começou a falar, toda cheia de melancolia e tristeza:
"Quando o Brigadeiro era vivo tudo era diferente meu filho, tudo era bonito e conservado, tudo era verdejante e florido. Esse jardim era famoso pelo perfume de suas flores, pelos peixinhos que viviam nadando naquele pequeno lago e na quantidade e qualidade de plantas de todos os tipos, desde as nativas às mais exóticas. Mas depois que o Brigadeiro foi chamando dessa vida, aqui mesmo num entardecer desse jardim, enquanto fazia um buquê para mim e cantarolava uma velha canção napolitana, nada mais foi como antes...".
E Zezinho percebeu que a senhora já se deixava molhar pelas lágrimas de saudade. E continuou a entristecida mulher:
"... Depois que ele se foi fiquei praticamente sozinha e abandonada. Tenho muitos filhos e muitos netos, mas é quase como se não existissem para mim, pois vivo esquecida por eles. Só aparecem aqui quando precisam de dinheiro, mas nunca, nem uma vez sequer, perguntaram como eu estava me sentindo, se estou precisando de alguma coisa, se tenho mais doença do que saúde, se tenho vontade de passear ou se gostaria de ter empregados aqui me ajudando em tudo. Mas não, pois o que fazem é buzinar fora daquele portão e pronto, e o resto nem querem saber de nada. Por essas e outras é que vivo cada vez mais entristecida e me sentindo abandonada e essas coisas ruins da vida vão fazendo com que eu deixe de cuidar das coisas que eu mais gosto, como este jardim que era tão maravilhoso e hoje está assim tão desprezado. Mas veja o que pode fazer meu filho, ao menos varrendo um pouco, ajeitando essas plantas que estão ao deus-dará, capinando um pouquinho e depois jogando água na torneira por toda a sua extensão, tá certo? Faça o que puder que será bem recompensado, tá certo?".
E então Zezinho passou a usar sua experiência de menino sertanejo para começar a dizer sobre o que achava daquilo tudo, do jardim e das outras coisas que ela tinha falado:
"Sobre esse negócio de família que a senhora falou aí eu não entendo nada não, mas pelo que a senhora disse isso não é nem família. A senhora só vale alguma coisa pra eles pelo que dá, só presta pelo que tem, e não ache estranho não se já não tiverem pensado na senhora bater as botas para caírem em cima do que a senhora deixar igualzinho a gavião em cima de carniça...".
Ouvia-se agora o choro mais alto da mulher, sentindo as palavras realistas do menino.
"Não é diferente não. Só gostam do dinheiro, só chegam aqui para pedir isso ou aquilo. Quando a senhora morrer e eles se acabarem por eles mesmos, brigando feito inimigos pelo que a senhora deixar, depois que tudo se acabar aí é que a senhora vai ser esquecida de vez. Primeiro porque morreu e depois porque acabou o que eles gostavam, que era o seu dinheiro. Mas vamos deixar isso pra lá...".
E a mulher continuava aos prantos. E Zezinho continuou:
"Agora vamos falar sobre o jardim, que vai ser o modo que a senhora vai encontrar deles saberem que a senhora está bem vivinha e não está nem aí pra eles. E quando eles se sentirem também rejeitados, aí vão entrar na casa, vão se surpreender com a senhora mais contente e vão saber que a sua felicidade pode ser comprovada pelo jardim que tem...".
"Mas você pode fazer isso mesmo, meu filho?", perguntou. "Eu não, mas vou deixar em ponto de bala pra senhora chamar um jardineiro", respondeu Zezinho.
"E você acha que isso pode dar certo, meu filho?". "Minha senhora, se um jardim bonito não mudar a sua vida a senhora pode mudar de vida", foi o que prontamente respondeu o pequeno lavrador, de pá e enxada na mão.


continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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