SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: ALI O SILÊNCIO, ALI A SOLIDÃO... (22)


                                                     Rangel Alves da Costa*


Ao lançar o olhar na fenda um pouco mais deslocada, e ainda que estivesse um tanto escurecido ali dentro, Crisosta conseguiu avistar a serpente enrodilhada. Mas estava envolta em si mesma de tal modo que a primeira coisa que viu foi a marca do luto.
Era ela, a maldita cascavel que havia mordido e matado seu pai. Estava lá, e ainda que num relance, viu o anel enegrecido bem próximo a cauda de guizos. Assim que se afastou rapidamente, assustada, começou a ouvir o som característico da serpente.
Os guizos soltavam chiados terríveis, sinais de que ela havia percebido a pessoa e começava a se preparar tanto para se defender como para atacar. Ao ouvir o barulho, já sabendo do que se tratava, o cachorro começou a latir.
Por segurança, a mocinha afastou-se um pouco mais, fez com que o cachorro ficasse menos agitado e começou a pensar rapidamente no que poderia fazer. Temia se aproximar para remexer lá dentro com o pau e ela dar um bote certeiro em sua direção.
Porém de repente, assim que lançou o olhar novamente para o local da fenda já avistou a cascavel totalmente do lado de fora, começando a açoitar o rabo levantado e aumentado ainda mais o chiado.
E neste momento, sem que ela pudesse fazer nada para impedir, o cachorro avançou em correria naquela direção. Já conhecendo cobras de outras caçadas, avançou mas não foi em cima da peçonhenta, apenas ficou latindo raivoso na proximidade, ameaçando atacar.
Então a cascavel enfureceu de tal modo que se voltou apenas para o animal e preparou a ofensiva, o bote. Quando jogou o corpo numa velocidade de luz, teve que se dobrar diante da paulada que recebeu.
Tentando continuar o bote, não teve mais forças diante da fúria da mocinha, batendo tão fortemente que a cabeça foi completamente esmagada e o sangue chegou a espirrar na sua roupa. Depois jogou o pau adiante e respirou profundamente. Estava vingada.
Após tanto esforço, procurou retomar as forças caminhando de lado a outro pela pastagem ressequida. Dava uma tristeza danada ver aquilo tudo se acabando por falta de chuva, por falta de água, por circunstâncias até incompreensíveis diante do poder divino.
E pensou no que não queria pensar. Mas pensou e se perguntou. Se Deus tudo pode, tudo vê, tudo sente, está em todo lugar, por que tem esquecido de abrir seu coração sempre misericordioso para essa região tão sofredora?
Se Deus é o pai dos aflitos, dos carentes, dos necessitados, dos pobres, dos famintos, por que não estende piedosamente sua mão paterna em direção aos seus filhos? Dando água, fazendo chover, já estaria doando também o alimento, a esperança, a vida.
Aquele povo sempre pobre e agora na mais completa miséria é o povo que mais confia em Deus, mais tem fé, devoção, se apega a uma religiosidade até mesmo exacerbada. Em cada coração há um templo, em cada casa uma igreja, pelo telhado um céu, em tudo um paraíso.
É o povo da vela, da missa, da procissão, do altar, da imagem do santo em casa, da fita pendurada no oratório, da ladainha, do jejum, do joelho ao chão, das mãos em oração, dos olhos penitentes, do coração fervorosamente confiante. Então por que não ouvir os seus rogos, meu Deus?
É o povo que logo cedinho sai à porta da casinha de taipa para ver se enxerga nuvem de chuva no horizonte; povo que enterra semente em vidros na esperança de semear um dia; povo que sofre calado, amargurado, angustiado demais. Mas chega um tempo que também é um povo que se sente totalmente desamparado por quem mais confia, que é o seu Deus.
E Deus sabe muito bem o quanto dói nesse povo vender tudo o que tem, abandonar sua terra, fechar a porta de casa, pegar a estrada dos retirantes e sair pelo mundo a vagar. Pai, mãe, menino, cachorro, papagaio, tudo virando a curva da estrada empoeirada porque o seu Deus parece ter esquecido do seu lugar.
Tudo isso lhe amargurava tanto o coração que a fazia chorar. Estava vendo isso tudo, sentindo isso tudo, sendo vítima também dessa seca terrível que parecia não mais ter fim. Tinha certeza que jamais fecharia sua porta para sair por aí sem destino, mas o restinho da criação que seu pai havia deixado tinha de ser desfeito.
E saiu para juntar as vaquinhas e levar para a malhada da casa. Chegando lá pensaria no melhor que poderia fazer.
 

Poeta e cronista
e-mail: rac3478@hotmail.com
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