SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 11 de dezembro de 2010

PEDAÇOS DO PASSADO (Crônica)

PEDAÇOS DO PASSADO

Rangel Alves da Costa*


A vida é cheia de novidades, basta sair pelas ruas e voltar com sacolas cheias de quinquilharias e objetos da moda. Até mesmo no conforto da casa, as compras são feitas virtualmente e basta esperar que os embrulhos tragam as novidades tecnológicas, os lançamentos, o necessário e o absolutamente dispensável.
Nas casas, os objetos novos, adquiridos recentemente, ou são usados no mesmo instante ou são expostos no lugar mais visível. Tem que ser assim, pois o novo é tão consumível, descartável e passageiro, que dali a instantes ou dias não trará nenhuma lembrança. Desse modo, as casas se enfeitam para o presente, talvez para o dia, de tão frágil e fugaz que é o brilho sem trazer o sentimentalismo dentro de si.
Falo em sentimentalismo nas casas, nos quartos, nas paredes, nos objetos, porque é quase sem sentido viver sem ter ao lado a lembrança de ontem, as saudades das gerações familiares, a necessidade de recordar para o diálogo entre o instante e o distante. Esse encontro e diálogo só é permitido àqueles que preservam nas suas moradias objetos e coisas que um dia eram eles mesmos em outras pessoas, pois bisavós, avós, pais, irmãos e outras descendências.
No quartinho quase sempre fechado, numa despensa mal iluminada, por trás da cortina no quarto, em qualquer lugar, de vez em quando ainda possível encontrar velhos baús, malas antigas de couro legítimo, bolsas, alforjes, caixas, sacolas, até mesmo guarda-roupas inteiros e seus objetos, além de estantes ou ambientes de trabalho preservados como estiveram presentes um dia.
Nos baús trabalhados artesanalmente, de madeira fina e ornamentados a cinzel, talhados com figuras míticas e lendárias, basta espanar o pó que os encobre, abri-los com devoção e saudade, para que o passado ressurja como tão necessário ao presente.
E quantos objetos nos baús: cartas amareladas, ainda dentro de envelopes com selos que também são história; bilhetes dobrados como se estivessem guardando as letras a sete-chaves; fotografias embrulhadas, retratos soltos, uma pessoa de chapéu e bigode, o outro cheio de brilhantina, a mulher parecendo artista de rádio, o menino vestido de marinheiro, uma reunião em família; o retrato de um cachorro, familiares pranteando um parente morto, o morto estendido no chão, uma moça passeando no jardim, uma fotografia da casa, da mesma casa de agora, mas como ela está diferente, muito mais bonita e com aspecto de casario colonial.
Lá bem dentro, bem embaixo do baú, uma fotografia numa moldura com vidro. O retrato acompanhou a dona e também já está sem cor, sem vida, restando uma imagem embaçada onde ainda é possível enxergar uma mulher linda, com sorriso perfeito e olhos tristonhos. Como você está linda e quem dera que desses lábios ainda pudesse sair uma voz dizendo "Meu filho, cuidado com os caminhos que escolhe para caminhar!".
Além desses baús, as memórias são preservadas numa infinidade de objetos que aparentemente não possuem nenhum significado e valor. Por exemplo, aquela cristaleira toda feita em madeira de lei e vidro importado era de sua avó, que tinha mais ciúmes dela do que do marido. Ainda sobraram algumas coisas, mas era cheia de cristais finos, copos e taças reluzentes, objetos que incidiam todas as vezes que a luz do sol entrava pela janela.
E perto da janela havia aquela cadeira de balanço que ainda está ali, onde sua avó sentava ao entardecer e ficava observando a vida que passava, talvez pensando noutras pessoas de outros tempos, de um tempo muito distante...



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

Cacá disse...

Olá, Rangel! Esta modernidade "embrulhada para presente" efêmero está, no meu entender, destruindo as identidades pessoais e familiares. Tudo é muito rápido, muito descartável, sem estima, sem história. Ainda bem que no meio disso tudo existe a máquina digital. Se não forem deletando as fotos que tiram em profusão, pelo menos se terão lembranças para contar histórias às futuras gerações. Um abraço. Paz e bem.