SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

LIÇÃO DA NOITE



*Rangel Alves da Costa


Anoitecer normal, noite com seu percurso de jantares ou arremedos, noticiários, novelas e proseados, até o passar das horas e chegar o instante dos recolhimentos. Preces, orações, leituras por cima da cama, uma música ao ouvido, tantas vezes tristeza e solidão. Insônia em uns, cochilos em outros, adormecimento total na maioria.
A noite se prolonga com seus intervalos de saudades, lágrimas, amores, sonhos, fome e sede, inusitados e pesadelos. Na madrugada adentro é que o sono parece chegar mais pesado. Contudo, não demorará muito para o galo cantar, o relógio da igreja despertar, a primeira alva do dia surgir pela fresta da janela ou no telhado quebrado lá em cima. Também nos relógios, despertadores, nos instintos próprios de cada um.
Contudo, aquela noite foi longa demais. Até eterna, como afirmaram depois. Gente que abriu o olho no meio da escuridão achou tudo de uma estranheza sem igual. Tudo escurecido, puro negrume. O relógio havia parado sem qualquer explicação. Adormeceu novamente na expectativa de já despertar com os primeiros sinais da manhã.
Dormiu profundamente e acordou num pulo. Não deveria ter dormido tanto, mas olhou de canto a outro e a mesma escuridão da noite mais fechada. O relógio não saía do lugar, o galo não cantava, não havia nenhum barulho próprio do amanhecer. Quem abriu a janela só avistou a lua brilhando lá em cima. Os grilos continuavam com seus barulhos noturnos.
Com todo mundo estava acontecendo o mesmo, com essa noite que parecia não ter fim e uma manhã que nem dava sinais que logo mais iria surgir. Muita gente, porque já havia dormido o suficiente ou porque tinha certeza que já devia levantar, saiu da cama quase que para acordar a manhã, chamá-la, fazê-la existir.
Mas nada da luz da manhã aparecer. E o pior que a escuridão parecia ainda mais fechada e noturna. Em todo lugar, a madrugada vem trazendo consigo uma cor diferente, um sombreado que aos poucos vai clareando. Contudo, era noite sem madrugada e sem qualquer sinal que a manhã teria de acontecer.
E realmente não aconteceu. Os relógios recomeçaram seu funcionamento normal, os minutos passavam, a hora matinal já sendo marcada, porém nada de qualquer luz do alvorecer. Um desespero total entre todos, pois todos já haviam despertado e levantado e agora procuravam, espantados e amedrontados, uma explicação para aquilo tudo.
Queriam saber por que a noite não ia embora, porque aquele negrume fechado não se findava de vez, porque a escuridão continuava tomando o lugar do despertar da natureza, do canto dos pássaros, das janelas abertas, dos primeiros de sol. Queriam principalmente saber se aquele acontecimento logo passaria ou seria prolongado. E se a noite não fosse mais embora e a manhã jamais voltasse a brilhar?
Então começaram as preocupações mais acentuadas, as lágrimas, os desesperos, as tristezas, as agonias, as aflições. Gente ajoelhada orando, de mãos dadas em rogos e promessas, debruçada pelos cantos imaginando o pior. Uns diziam que era o fim dos tempos, outros afirmavam que o pecado do homem havia provocado aquele eclipse eterno.
Uma multidão nas portas, janelas, calçadas, no meio das ruas, nas praças, em todos os lugares. Palavras, gritos, murmúrios, soluços, um desespero total. Olhando para o alto, implorando por um pouco de luz da manhã, gritavam e repetiam que juravam jamais deixar de aproveitar o melhor que as manhãs pudessem oferecer e a luz do dia permitisse realizar para o bem de todos.
Uns falavam em regar os jardins todas as manhãs, em fazer as orações matinais, em colher frutos para distribuir com os pobres, em semear a terra e fazer o bem desde o amanhecer. Outros diziam que iriam transformar totalmente suas vidas, aproveitando cada instante de luz que a vida lhes oferecesse. Já outros, em total desespero, revelavam abertamente seus pecados e crimes, e ajoelhados afirmavam que nunca mais trairiam, roubariam, mentiriam ou injustamente difamariam o próximo.
O alvoroço era tanto que quase ninguém percebeu quando uma nuvem se abriu e um pedaço da luz da manhã começou a brilhar. Depois disso foi uma festa só. E quando o amanhecer surgiu completamente, lindo e inspirador, cada um tomou o seu rumo, deixando para trás as promessas feitas.
E tudo voltou à normalidade entre as pessoas, com os mesmos ódios, pecados e desperdícios da grandiosidade da vida.


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Lá no meu sertão...


Em Bonsucesso, povo de fé...



Belo e doce é o amor (Poesia)



Belo e doce é o amor


Ontem abracei
hoje beijei
e adormeço ao lado
de um corpo amado

belo e doce é o amor
sentir a proximidade
e a certeza no coração
que amar é devoção.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Jureminha excomungado



*Rangel Alves da Costa


Aboiolado, o vigário Florinaldo lançou o olhar meloso sobre Jureminha e sentiu um estremecimento por dentro. Ato contínuo, e sob paga bem paga, e Jureminha já estava contratado como sacristão. Nunca se viu sacristão ser contratado, mas assim aconteceu para regozijo do espertalhão. Sabedor das intenções maliciosas do vigário, o novo sacristão tudo fazia para não entrar na sacristia, ainda que o padre o chamasse para dividir vinhos e queijos. O safado dizia que sabia ser pecado um sacristão beber além do vinho, mas só gostava mesmo de pinga de balcão. Evitando o da batina, o que Jureminha fazia era ainda mais pecador. Logo armou uma estratégia mirabolante para ganhar mais dinheiro ali mesmo na igreja. Às escondidas, passou vender “hóstia sagrada da salvação”, escrever bilhetes para os santos entregarem no céu, cobrar caro para que as beatas ouvissem, ao vivo, a voz dos santos (ele mesmo falando por trás de panos). Estava dando tudo certo, mas eis que Jureminha não deu sorte no acerto que quis fazer com o ceguinho que pedia esmola na igreja. Ameaçou expulsá-lo acaso não dividisse com ele toda a esmola do dia. O ceguinho argumentou que não podia, pois já dividia a esmola recebida com o vigário. Mas Jureminha exigiu sua metade. Vendo-se sem saída, o ceguinho cuidou de enviar um bilhete para a Diocese, e relatando ao bispo que o sacristão estava exigindo todo o dinheiro da esmola. Mentiu, é verdade, mas isso causou um desacerto danado a Jureminha. Não demorou muito e o vigário recebeu uma missiva com selo eclesiástico com a seguinte ordem, a ser cumprida de pronto: Excomungue o Sacristão! O padre só faltou desmaiar com a ordem recebida. O sacristão era Jureminha, e ele tinha uma caída pelo religioso serviçal, e fazer o que, então? No dia seguinte enviou a resposta ao bispo: O Sacristão foi Excomungado! Mas tudo de mentira. Jureminha continuou sacristão e o ceguinho teve que lhe repassar, diariamente, trinta por cento da esmola recebida. Contudo, o ceguinho esperto, começou a esconder a maior parte da esmola. Tomando conhecimento do fato, Jureminha quase mata o pedinte de tapa e por enforcamento, ali mesmo na porta da igreja. Foi preso e passou mais de três meses atrás do xilindró. O vigário, não suportando a ausência do safado, pediu pra ser transferido para outra paróquia. Ao sair da prisão, Jureminha começou a pular a janela da balofa mãe do delegado. Aí é que a coisa foi feia...


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sábado, 25 de julho de 2020

NOITES DO SERTÃO



*Rangel Alves da Costa


As noites do sertão são lindas, grandes, imensas, poéticas, nostálgicas, orantes, pedintes. São portas que se abrem ao alto para, em direção ao luar, buscar os encantamentos da noite e da vida.
Quando as noites chegam e seu manto vai encobrindo a terra com suas cores sombreadas e escurecidas, logo as chamas do candeeiro da lua se acendem para tudo recobrir com seu dourado de paz e encanto.
A muitos, que apenas tratam a noite como parte escurecida do dia e a lua como o oposto do sol, tanto faz que após o entardecer os horizontes se encham de fogo e magia, e que os encantamentos surjam em cada raio de luar e em cada estrela que vagueia brilhosa pelos espaços.
Nada entendem de noite, de lua, e muito menos de luar sertanejo. Certamente não sabem que a lua carrega em si o dom da transformação e em cada dourado que espalha há um descortinar de sentimentos sem fim.
Igualmente não sabem de quanta simbologia há num clarão de luar sertanejo. No sertão, o luar não é de lua qualquer, não é apenas um astro noturno que brilha, não se contenta em ser somente uma luz clareando na noite.
O luar do sertão é sentimento aceso em fogo e brasa, é chama que reacende saudades, reencontros e recordações. O luar sertanejo crepita por dentro como tição e fagulha, como labareda e faísca. E tanto queima que é preciso cuidado ante sua luz.
Somente a luz do luar sertanejo para afastar as medonhices da noite e os medos dos esquecimentos. Impossível não abrir janelas, não reabrir velhos álbuns, não buscar fotografias, não reencontrar imagens de faces e feições, perante a luz que brilha lá em cima.
Nas noites do meu sertão, nada mais preciso que a luz do luar. Nas noites do meu sertão, meu coração só quer luar. E no luar o retrato vivo daquilo que sinto saudade, que amo, que merece ser recordado.
Nas noites do meu sertão, quando a lua se abre em flor, então os jardins da memória começam a brotar suas pétalas. Olhar para o alto e se encantar com o amarelado da lua, avistar a luz imensa perante a escuridão, tudo isso conforta a alma e o espírito.
Nas noites do meu sertão, quando os silêncios chamam à reflexão, nada melhor que compartilhar da voz interior com a auréola iluminada que desce do alto e a tudo envolve. Uma lua tão bela e sertaneja, tão cheia de palavras e vozes, que o silêncio se transforma em poesia e encantamento.
Bem disse o poeta: “Não há, oh gente, oh não, luar como esse do sertão...”. E digo mais: Uma luz que pacifica a alma, uma cor que enobrece o ser, um brilho que envolve todo o coração.
Na noite, nos altos e nas alturas da noite, é como se as recordações chegassem com a luz do luar. Um cheiro de café torrado, um cheiro de fogão de lenha. Vagantes vaga-lumes, réstias de candeeiros, fagulhas ainda vivas das fogueiras do tempo.
E uma canção no vento. Um vento que vem das montanhas, lá detrás dos montes enluarados, trazendo a cor da lua e o brilho das estrelas e para, perante o meu silêncio noturno, ecoar uma linda canção de amor.
De amor ao sertão. De amor à sua lua, ao seu luar.


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Lá no meu sertão...



Pássaro em silêncio (Poesia)



Pássaro em silêncio


Passarinho em silêncio
é doloroso e triste

também silenciei
e entristeci

meu pássaro quer voar
viver e amar

pela janela aberta
vejo o pássaro alçando voo

e canta uma canção
de renascimento

para quem no silêncio
sofre na mesma gaiola.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – casou com a jumenta de Leotério



*Rangel Alves da Costa


No sertão existe cada uma! Quem me contou assevera ser verdadeira essa história. Eu mesmo não acredito, mas não posso dizer que é mentira uma ladainha que vive percorrendo de boca em boca. E assim aconteceu. Crisostino, rapazote e ainda se mantendo virgem, já não suportava mais a vontade de experimentar os prazeres da carne. Pra seu azar, o Cabaré de Gerimuna havia fechado as portas e as quengas partindo com ela pra outra freguesia. Então o donzelo se via sem saber o que fazer, mesmo que ouvisse dizer que a quenguice ali rolava solta, desde novinha a mulher casada. Inexperiente, envergonhado, apenas orava pra que ali aparecesse um pote que matasse a sua sede. Mas certa feita, armando umas arapucas pras bandas das terras de Leotério, homem que era tido como a ignorância em pessoa, eis que o rapaz virgem avistou umas ancas interessantes. Contudo, nada de bunda de mulher, mas o rabicho da jumenta nova do tal de Leotério, o metido a valentão. Mas Crisostino logo se apaixonou pelas ancas da jumenta. E pareceu que ela também havia gostado dele, pois bastou ele passar a mão por detrás e ela logo levantou o rabicho. Amor à primeira vista e logo nos finalmente. Entretanto, o pior aconteceu logo quando o donzelo deixava a donzelice. Leotério apareceu de repente e logo desfez a cena de amor. E mais: exigiu que o rapaz casasse com a jumenta. Ou casava ou a jumenta ficava viúva antes de casar. Com a espingarda nas fuças, ele não teve outra saída. Aceitou sem dizer nada. E teve que sair dali correndo, mas levando consigo sua jumentinha.


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terça-feira, 21 de julho de 2020

LAMPIÃO, CORDIAL AMIGO



*Rangel Alves da Costa


Ache estranho não, moço bom. Haverá de dizer que pelo tempo, pelas distâncias de tudo, eu jamais poderia ser dos idos de Virgulino Ferreira da Silva, aquele que depois se fez Lampião, e ainda mais tarde Capitão, e muito menos de ter sido seu amigo. Mas fui amigo sim, e ainda sou, e de modo que jamais seja desapartado nosso laço de amizade. Maluquice, doideira? Não, moço. Nada disso. Vi Virgulino na infância, eu vi Lampião conhecendo uma arma pela primeira vez, e vi o Capitão já patenteado na luta. E vi muito mais, conforme haverá de saber.
Até pode não acreditar, mas vou dizer sim senhor. Nesta manhã de sertão, avistando o arvoredo gemendo a sua dor, enxergando a ventania levando garrancho e folhagem, tudo numa sequidão de causar sofrimento, eis que ao longe foram surgindo as carnicentas. Urubus, gaviões, carcarás. O que será, que bicho morreu, foi o que me perguntei. Desceram em rasante mais adiante e sumiram. Não havia cheiro podre, de bicho morto, de carniça ou de sangue novo. Fiquei pensativo demais.
Pouco depois me lembrei de suas palavras, ainda meninote, nas bandas de cá do cercado da fazendola de seu pai. Você, amigo Lampião, ainda era no tudo e no todo aquele nascido como Virgolino Ferreira da Silva. No nome assinado assim, mas na palavra dita a pronúncia Virgulino, aquele mesmo menino que espantado avistava as aves carnicentas descendo em nuvem para bicar vaca morta pelas mãos odiosas da vizinhança. Como disse, espantado, entre o entristecido e o enraivecido, eu ouvi você apenas dizer: Vão me pagar!
Coisas que eu nem gostaria de recordar, juro por Deus. Um menino tão quieto, tão comportado, mas parecia pelo avesso perante os acontecimentos que se repetiam. Naquele tempo, igualmente meninote, eu também não atinava muito para as durezas da vida, apenas via o que faziam à sua família, apenas sentia o sangue fervendo nas entranhas dos seus, mas sequer conhecia uma frase que depois fiquei conhecendo: Pisado, até um verme se revira! Isso mesmo, amigo Lampião, o boi só suporta a canga por que não tem a mesma vara de ferrão.
Recordo-me muito bem quando você deu o primeiro tiro. Mirou na ponta do pedaço de pau e a carcaça oca da cabeça de vaca ali colocada foi parar ao longe. Desde aquela vez, sua mão nunca tremeu segurando arma. Difícil imaginar quantos tiros deu, mas ainda hoje se ouve grito e gemido da bala acertada. Mas depois de tanto tempo, depois de ouvir tantas histórias tronchas sobre sua vida, eu achei até bom que ontem você tivesse me aparecido em sonho para contar a verdade sobre muita coisa que andam lorotando de canto a outro, na palavra e na escrita.
Também não posso deixar de lembrar quando sua mãe exigia que jamais se esquecesse das horas sagradas. Meio-dia, e estivesse onde estivesse, você tinha que tremular na boca uma reza e fazer o sinal da cruz. Do mesmo modo na hora maior, já na boca da noite, quando o anoitecer surgia. Foi por isso mesmo que você sempre carregou tanta fé. Foi por isso mesmo que você jamais se separou das coisas sagradas, dos anjos e santos, das rezas, da crença em milagre e da fé. Sua fé era tão grande que levava oração nos apetrechos do corpo e sempre que podia se afastava um pouco para falar com o seu Deus e sua Nossa Senhora da Conceição.
Perante os olhos de muitos – e de modo que até se acredita -, no seu coração já não cabia mais nenhuma piedade, compaixão ou fé. Ledo engano, amigo, eu bem sei disso. Não só se abnegava pelas forças do alto como da terra. Padre Cícero é exemplo maior. Quanta devoção e respeito você sempre nutriu por ele. Quando, em 26, você foi chamado a Juazeiro para ser patenteado como Capitão, eu não tenho dúvida que nenhuma patente lhe interessava, não lhe interessava perseguir a Coluna Prestes e muito menos firmar qualquer tipo de compromisso militar com o Estado. Você só foi por que o chamado foi feito pelo Padre Cícero. O que lhe interessava mesmo era estar com aquele que, em sua opinião, já era um santo homem.
Amigo Lampião, só eu sei o quanto relutou para não levar adiante a vida de bandoleiro, de sanguinário, de bicho entrincheirado nas caatingas. Mas também só eu sei de sua determinação em não permitir que a sua honra e de sua família fossem ultrajadas pelo poder e o mando. Ora, invadiram suas terras, feriram seu pequeno rebanho, intimidaram e, por fim, fizeram com que fossem como que expulsos do próprio lar. Já havia sido demais. E por todo lugar que chegassem havia perseguições e ameaças. Como se diz, amigo Lampião, o seu sangue já estava envenenado de tanta desdita. E ainda por cima foram ferir um seu bem maior: mataram seu pai.
Daí em diante o homem se tornou cangaceiro. E aquele “vão pagar” começou a ser escrito com toda voracidade. E durante vinte anos você varou os carrascais nordestinos em intensa luta de vida e de morte. Chorei muito quando soube da notícia do acontecido lá em Angico. E entristecido continuei até você me aparecer em sonho para dizer o inimaginável: “Ainda tô vivo. E ainda tô vivo por todo lugar!”.


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Lá no meu sertão...


Lindo São Francisco




O mesmo amor (Poesia)



O mesmo amor


Escrevi um bilhete de amor
desenhei coração no jardim
risquei o seu nome na areia
soprei na mão um doce beijo
e deixei flor no umbral da janela

assim eu fazia em nome do amor
mas nada esqueci do que eu fazia
novamente em faria pelo que sinto
e jamais poderei esconder sentimentos

ontem mesmo eu pisquei o olho
mas ela passou e sequer me olhou
quero chamar seu nome e dizer do amor
mas ela simplesmente passou.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – cadernos



*Rangel Alves da Costa


Dos meus cadernos surgem rabiscos inesperados, sublimes, agonizantes. Assim, assim: Chego na beirada do pote e o barro antigo, lanhada de tempo e sede, sempre me ensina alguma coisa. Chego perante a cancela do velho casebre e os restos toscos e encardidos daquele mundo, ecoam a me chamar para conhecer suas entranhas. Olho ao redor, no beiral da estrada tomado de jurubeba em flor, então sinto vontade de ficar um pouco mais para uma prosa de olhar, mas sei que tenho de seguir. E vou...  A cada passo um encontro que faz valer o sacrifício de tanto andar. Casas, casebres, moradias fincadas no barro e cipó. Aió e embornal pelos cantos, candeeiro de parede e oratório de fé, tudo me ensina. Enxada e enxadecos, foice e gadanho, retalhos de chão e história, de luta pela sobrevivência e retratos do mundo-sertão. Sou moço do mato, sou da cidade não. Nem quero ser. O batente ainda manchado do sangue da luta, o tronco alquebrado mais adiante, o esquecido baú com suas saudades guardadas, tudo isso me ensina. E também me ensina a palavra matuta, a mão calejada, a face marcada de tempo. Olhares fundos e profundos, testemunhos de tudo aquilo que tanto eu quero ouvir, saber e conhecer.


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quinta-feira, 16 de julho de 2020

O SERTÃO E O PÃO REPARTIDO



*Rangel Alves da Costa


No sertão, quem vê cara vê o coração. A feição humilde do povo sofrido, o rosto sincero do povo lutador, a tez marcada de esperança do povo trabalhador, tudo isso também revelado no coração desse povo. Um povo sertanejo que não nega sua autenticidade nem vive a inventar uma vida além daquela que realmente possui.
Logicamente que não todos, mas a grande maioria da gente sertaneja guarda em si, dentro da alma, o que mostra na face. É verdadeiro do lado de fora e por dentro, não guardando a desonra de ser diferente daquilo que se mostra no seu dia a dia. Por isso que não adianta pensar em ego sertanejo, mas tão somente uma junção singela de corpo e alma.
Por consequência, não pense em encontrar diferente o que o sertanejo afirma ser de determinado modo. Ou é ou não é, sem rodeios ou embromações. Daí sua coragem de enfrentar a difícil realidade sem medo, daí o seu senso de verdade acima de tudo e de todos. Acaso diga que há três dias não coloca uma panela no fogo por falta de arroz ou feijão, que ninguém duvide do fogão em cinzas.
O senso de enfrentamento sem medo da realidade é o que torna o sertanejo ajustado à terra, ao tempo, ao clima, ao barro, ou ao pingo d’água, à molhação, à semente, à paisagem verdosa de seu sertão. Assim como mandacaru espera mil anos a chuva chegar, mesmo que de braços abertos implorando trovoada, assim também o homem da terra diante de sua esperança imorredoura.
Por isso que nunca vive tempo ruim. Vive tempos difíceis, mas não ruins. Na ótica sertaneja, o ruim é o que é provocado pelo homem, é o que vem a mando ou por feitura humana, mas não aquilo que é da vontade de Deus. Sua alegria e sua tristeza dependem das forças divinas. Os tempos difíceis chegam para que o homem não se esqueça dessa força maior sobre tudo. E é na fé, na oração, na força da religiosidade, que tudo se refaz depois que a trovoada começa a cair.
Mas seja em tempos de bonança, com a terra molhada, a boneca de milho brotando, o feijão em tempo de colheita e a melancia e a abóbora ao redor, ou em tempos difíceis, quando tanto o homem como o bicho não tem o que comer nem beber, a postura do sertanejo é uma só, sem mudar um tantinho assim. A prova disso se dá toda vez que alguém, amigo, conhecido ou forasteiro, bater à porta de sua casinha de cipó e barro.
É nas lonjuras sertanejas, nas moradias esquecidas no meio do mato, ou mesmo nas pequenas propriedades de quintal, malhada e dois bichos berrando, que o homem da terra mostra sua grandeza. Avista-se uma casinha pobre – como de fato é -, um velho umbuzeiro ao redor, um cercado de troncos caídos, uma desolação de doer no coração. Parece casa abandonada, um lar deixado para trás por retirantes da seca. Não se avista ninguém, nada se ouve além dos sons da mataria gemendo a secura e um cachorro magro que surge do nada. Mas eis a pujança da vida.
Lá dentro talvez apenas tamboretes, alguns utensílios de madeira, barro e alumínio, uma imagem do Senhor na parede de barro, um candeeiro apagado, um velho jarro com velhas flores de plástico, pouca coisa mais do que isso. Ou mesmo numa casa mais alentada, com mesa e cadeira de pé, bico de luz, fogão a gás e até rádio ou televisão. Não importa. Pois o que importa mesmo é a forma como o povo dessas moradias recebe o visitante.
Um toque na madeira e o silêncio lá dentro. Passos se arrastam e chegam rente à porta para olhar pela fresta. Se é gente desconhecida, espera-se que se anuncie. “Oi de casa, estou de passagem e queria apenas um copo d’água, se acaso ainda restar no fundo do pote ou na moringa”. “Oi de fora, se vem na paz de Deus, então espere que já vou abrir a porta. A casa é de pobre, mas não deixa de matar a sede de quem caminha debaixo do sol”. E assim a porta vai rangendo para aparecer o olhar sincero do morador. Distante, profundo, parecendo de pouco brilho, mas com uma intensidade que chega a encantar. Não há sorriso ainda, mas dentro da alma o coração já acolhe.
A partir de então o jeito de ser sertanejo se mostra em toda sua dimensão. A moradia é pobre, pouca coisa em cima do fogão ou no armário, mas logo surgirá a xícara apetitosa de café, o pão com manteiga, o pedaço de bolo, a coalhada, o pedaço de queijo, o doce de leite ou de goiabada. A água fresquinha da moringa é oferecida em caneca que chega a brilhar de tão areada. E em tudo um prazer infinito de bem servir.
Assim no sertão, assim no coração sertanejo. Por mais empobrecido que seja, seu pão será repartido e sua acolhida tão cordial que não há palacete mais rico que ao menos pareça com esse reino de grata humildade.


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Lá no meu sertão...


No Memorial Alcino Alves Costa - Gibão de Vaqueiro



Ao entardecer (Poesia)



Ao entardecer


Ao chegar o entardecer
a saudade sempre cresce
entre canções marejadas
como agonia entre preces

então chegam os beijos
os carinhos e abraços
os afagos de tanto amor
um tempo de entrelaços

o amor assim doloroso
pela distância entre nós
sempre chega ao entardecer
seu nome na minha voz.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Dona Guiomar Vito



*Rangel Alves da Costa


Dona Guiomar Vito, já na beirada dos cem anos, mas ainda em pé e firme na sua trajetória de luta, de tradições, de cultura. Mora no mato, nos afastados da cidade, mas bastando que um folguedo se assanhe pra ela chegar pertinho. E brincar, e cantar, e dançar, e rodar. Jamais terei sabedoria igual a ela. Ela dança samba-de-coco por cima de meus anéis. Ela dobra e redobra a embolada por cima de meus diplomas. Ela roda na roda, bate a mão, bate o pé, e eu sem sair do lugar. Ela tem palavra bonita e sorriso festeiro que faz humilhar minha altivez. Ela abre um livro de vida que nenhum outro livro jamais me ensinou. Ela silencia e no silêncio diz muito mais que o meu grito. Ela olha com um espelho tão profundo no olhar que logo se ressente o medo de ouvir: menino, menino! Ela bate as palmas da mão como eu não sei fazer. De sua voz ecoa a canção raiz, sai o canto ancestral, sai o retrato pulsante de terreiros dançantes, de tambores alegres, de poeiras alucinadas pelos compassos. E este sobrenome que carrega, este Vito de fulgor imemorial, é prova maior que se eleva em pedestal.


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domingo, 12 de julho de 2020

ZABELÊ, CORRENTEZA E DINDA: MEUS PARENTES CANGACEIROS



*Rangel Alves da Costa


Nos dias de hoje, a cada esquina de rua de Poço Redondo, no sertão sergipano, o caminhante acaba encontrando um parente de cangaceiro ou de coiteiro. Certa feita disseram que em Poço Redondo quem não era cangaceiro era coiteiro. E não há nenhum absurdo em tal afirmação. Era quase assim mesmo. Na pequena povoação e na vastidão de seus arredores, grande parte da população ou estava junto com Lampião ou a seu serviço.
Mais de trinta e quatro mocinhas e rapazes fizeram parte do bando do Capitão Virgulino. Mas um número indescritível de poço-redondenses fez parte do rol daqueles que, mesmo não seguindo os passos do cangaço, intermediavam o bem-estar, a segurança e a proteção dos cangaceiros. Estes eram os coiteiros.
Como diz o outro, coiteiro em Poço Redondo teve de “ruma”, e cangaceiro teve de “montão”. Acaso alguém se debruce sobre as raízes familiares destes sertões do Velho Chico, das terras de China do Poço e de Zé de Julião, dificilmente não encontrará um parente que foi cangaceiro. Minha família paterna, a família Marques, por exemplo, contou com dois cangaceiros: Zabelê e Correnteza. Já minha família materna, do tronco dos Alves, teve a cangaceira Dinda como sua representante.
Manoel Marques da Silva, o Zabelê, era irmão de minha avó Emeliana. Alcino Alves Costa, meu pai, filho desta, era, portanto, sobrinho do cangaceiro. E eu, então, um sobrinho-neto. Este Zabelê foi, certamente, o último dos três Zabelê que existiram do bando de Lampião. E assim porque o Zabelê dos Marques de Poço Redondo estava em Angico naquele fatídico dia 28 de julho de 1938, quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram mortos pelas forças volantes. E não haveria como ter surgido outro Zabelê pós-Angico.
Manoel Marques, o Zabelê de Poço Redondo, foi um dos sobreviventes à chacina. Contudo, até hoje a família jamais soube de seu paradeiro após a fuga. Era o segundo homem dos onze filhos de Antônio Marques da Silva e Maria Madalena de Santa (Mãe Véia), sendo oito mulheres, dentre as quais minha avó Emeliana. Cangaceiro com nome de passarinho, quando fogo de Angico começou a zunir por todo lugar, então bateu asas e voou. E voo tão apressadamente alto que até hoje é desconhecido seu paradeiro. Já nos céus, na terra, ninguém sabe.
Outro parente meu, pelo lado de meu pai Alcino, foi o cangaceiro Correnteza, de nome Joaquim Marques da Silva. Correnteza era primo “carnal” de Zabelê e, como quase todos os poço-redondenses que foram para o cangaço, acabou servindo ao subgrupo de Zé Sereno (companheiro de Sila, também de Poço Redondo). A admissão de tantos filhos de Poço Redondo neste subgrupo parece ter apenas uma explicação: Sila. Esta era uma espécie de Maria Bonita no subgrupo do companheiro. Igual à companheira de Lampião, certamente também possuía muito poder de mando junto a Zé Sereno. Daí chamar seus conterrâneos para o seu lado.
Correnteza, ao contrário do que se imagina, não nasceu em Porto da Folha, mas nas terras da família Marques já na povoação de Poço Redondo, na Lagoa de Dentro ou arredores. Seu pai era irmão de meu bisavô Antônio Marques. Diferente de seu primo Zabelê, Correnteza não suportou as agruras do cangaço e fugiu do bando enquanto estava acoitado na fazenda Boa Lembrança, em Poço Redondo. Da fuga desesperada, só retornou ao sertão sergipano após a morte do Capitão. Sabia o seu destino acaso fosse encontrado pela cangaceirama.
Já a cangaceira Dinda, que certamente possuía outro prenome e Alves Feitosa como sobrenome, pois filha de Presentino Alves e Eutímia Feitosa, sendo seu pai irmão de meu avô Teotônio Alves China (o China do Poço Redondo), foi uma das sete mulheres de Poço Redondo que enveredaram no mundo carrasquento dos cangaceiros: a própria Dinda, Sila, Adília, Enedina, Áurea, Rosinha e Adelaide.
No cangaço, Dinda foi companheira de Delicado (João Brás de Souza, ou João Mulatinho, irmão da cangaceira Adília), também de Poço Redondo. Os dois jovens sertanejos eram noivos quando João Mulatinho resolveu seguir Lampião. Sua noiva Dinda não suportou a saudade e pediu-lhe para fazer companhia naquela vida de ilusões, desilusões, dores e sofrimentos. Estava no Angico durante o fogo matador. Os noivos, contudo, restaram salvos da terrível chacina.
Assim, relatos sobre uma parentagem que fez parte da saga cangaceira. Depois de seus feitos e de suas partidas, restou aos que ficaram a guarda de suas memórias. Memórias cangaceiras, é verdade. Mas, acima de tudo, História. Há gente que não gosta de ser reconhecido com tal parentesco. Mas um vínculo que não pode ser afastado por um desejo próprio. Que se honre ou não a afinidade familiar, o que não se pode ocultar é a verdade desde muito enraizada.


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Lá no meu sertão...


Sertão. Passado. Presente...



Lembranças e saudades (Poesia)



Lembranças e saudades


No meu aió
levo lembranças
levo saudades

um retrato
de minha amada
faceira e bela

um bilhete dela
dizendo do amor
e um beijo dado

levo ela comigo
dentro do aió
juntinho de mim

um aió de caroá
que é meu coração
de amar.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – Mãêta, minha avó Marieta



*Rangel Alves da Costa


Mãe de minha mãe Dona Peta. Poço Redondo, no sertão sergipano, ainda a guarda em boa memória, em grandes recordações. Já era religiosa, mas sua religiosidade aumentou muito depois que seu esposo China do Poço (Teotônio Alves China), de repente recebeu e visita de Lampião e parte do bando, e justo num momento que o Padre Arthur Passos cochilava num dos quartos da residência do casal. Então minha avó se entregou aos céus, aos santos, se desfez em rogos, preces e orações, e ajoelhada passou os dedos por mais de dez rosários de fé. Dizem que nesse dia rezou mais de cem Pai Nosso e Ave Maria. E tudo para que a cruz não entrasse em desarranjo com a espada, para que Lampião e Padre Arthur não entrassem em duelo aberto. E as preces e orações deram certo, pois logo os dois estavam à mesa brindando com vinho de Jurubeba e desbragada comilança. Dizem que o padre enchia tanto a boca que sequer podia falar. E a comida oleosa chegava a escorrer pelos dedos e anéis do Capitão do Sertão.



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sexta-feira, 10 de julho de 2020

CONHECER AS RAÍZES



*Rangel Alves da Costa


Como já dizia o Coronel Tibúrcio Tertuliano nos tempos idos, assim que se aboletava na sua cadeira de balanço de varanda e poder, nada melhor que reinar em meio a um povo esquecido. E ajuntava: Aquele Euclides estava errado. O sertanejo não é antes de tudo um forte, mas antes de tudo um povo esquecido. E quem não tem mente para o passado não pode conhecer o presente, eis que tudo uma boiada num caminho só.
Jamais reconhecerei sua patente, mas não posso deixar de dar razão ao coronel. O sertanejo é um povo esquecido mesmo. Não só esquecido como alheio à sua realidade, até mesmo ausente do chão onde pisa. O viver para o momento o torna, além de alheio perante a realidade passada, também um descompromissado com o presente. Ora, acaso não volte seu olhar às raízes, às promessas, ao que ainda não foi feito por completo, ou sequer terá como reconhecer a si mesmo.
Nascer, crescer e viver num determinado lugar não significa muito se a pessoa não reconhece o seu berço e tanto faz ter nascido ali como noutro lugar. Deve haver um compromisso umbilical entre o sujeito e o seu chão, e ajuste este que envolve o conhecimento não só dos antepassados como da realidade presente. É como se um livro tivesse que estar sempre aberto para que jamais se afaste tanto das lições como dos novos escritos.
Com efeito, o sertão é desconhecido pelo próprio sertanejo. Não na generalidade de seus habitantes, mas grande parte pouco ou quase nada conhece de sua história, sua saga de lutas, sua geografia diferenciada, sua imensa riqueza cultural, as manifestações e tradições próprias de seu povo. Não conhece as raízes, olha para o passado somente até onde vão seus avôs e sequer possui a devida preocupação com o presente e os destinos de sua nação encourada.
Os mais velhos ainda cuidam de sua história, de sua memória, daquilo que lhe fez proveito. Muitas vezes, seus instantes presentes nada significam senão o espelhamento do passado. De seus presentes apenas fazem a devida comparação. Então dizem que antigamente era assim, que tudo era diferente e nada sequer parecido com a realidade de agora. Convive com o novo, mas sem jamais se esquecer daquilo que lhe acompanhou ou foi de serventia na caminhada. Porém nem todos de mais idade são assim, vez que muitos se declaram desapartados do tempo e até se negam a recordar.
Com os mais jovens, então tudo se deslancha mesmo. Para a maioria dos jovens, o ontem já passou e nenhuma valia terá recordar. Para estes, o passado é coisa tão velha que poderá até envelhecer se olhar pra trás. E assim se descompromissam totalmente com a realidade de sua cidade, seu município ou sua comunidade, pois apenas existindo sem ao menos saber de onde veio, quais as profundezas de suas raízes e de onde vem sua história.
Jamais deveria ser assim. Mas também culpa das escolas que não ensinam como deveriam ensinar. E assim porque há o repasse de conteúdos gerais sem haver a mínima preocupação com a história ou geografia local. Datas importantes, percursos de lutas, figuras ilustres, como o povo foi gestando na comunidade, como se deu a formação da povoação, nada disso parece ser importante para ser ensinado como conteúdo escolar. Então os alunos entram e saem da escola sem conhecer a realidade de seu próprio mundo.
Por isso mesmo que o sertão, lugar de tantas lutas, tantas histórias e tantas vultosas memórias, está ficando cada vez mais desconhecido, e para o seu próprio filho, o sertanejo. Não se valoriza mais nada. Manifestações culturais e tradições culturais, ao invés de serem permanências no povo, tornaram-se objeto de pequenos grupos, que pelo viés artístico ainda propagam suas existências. Não interesse sequer em saber como sua povoação foi fundada, como se deu a povoação até chegar ao presente, como tudo se encaminhou para se achegar onde chegou.
Por isso mesmo que não há mais autêntico forró-pé-de serra, não há mais brincadeiras noturnas, não há mais ciranda, cavalo de pau ou boneca de pano. As tecnologias surgidas foram trazendo consigo o dom de apagar o passado. E, como um quadro de giz, o sertão e sua história vão sendo apagados a cada dia. A moda é o modismo, o sertanejo vive segundo os ditames televisivos ou dos grandes centros urbanos. Muitos até renegam suas origens e se transmudam para o mundo que não é seu.
E o preço de tudo isso é sempre cobrado em dobro. Gerações inteiras alheias ao seu mundo e forjando realidades que não são condizentes com sua própria realidade. No intuito de querer inovar demais ou querer ser outro a todo custo, outro futuro não haverá senão o de serem engolidos pelo nada. O abismo do nada que aguarda a todos.
       

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Retratos...



Amo (Poesia)



Amo


Amo
o cabelo despenteado dela
pois é ela que amo
e não só o cabelo dela

amo
a raiva que surge nela
pois é ela que amo
e não a raiva dela

amo
quando ela diz hoje não
pois é ela que amo
e não o desejo dela

amo
do jeito que ela estiver
pois é ela que eu amo
e não o jeito dela.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – menino



*Rangel Alves da Costa


Menino, e ainda menino. Criança eu fui, menino sou. Ainda sou. Cresci sem querer crescer. Coisa complicada a idade que faz o que quer com a vida da gente. Deveria ser mais controlada pela própria pessoa. Eu mesmo nem teria pressa de ver passar os anos, de envelhecer. Mas mesmo assim ainda sou aquele menino daquele passado que não é esquecido um só instante. Sou ainda menino por que assim quero ser. E pronto. Sem a chupeta, ainda choro. Olhar tristonho, mas assim mesmo. Corro na vida sem ter mais quintais, sem bola de gude ou baleadeira, sem cavalo de pau nem rosário de aricuri. Ah como eu gostaria que aquele passado voltasse. Pés descalços, banho no riachinho, a nudez do menino pelo meio da rua debaixo da chuvarada. Menino fui, menino ainda sou. Daquilo que passou e de tudo que esvoaçou, o que me alenta e me faz viver é o menino que em mim restou. E o meu Poço Redondo onde ainda estou.


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segunda-feira, 6 de julho de 2020

FRUTA NA BOCA



*Rangel Alves da Costa


Ainda com a boca cheia e já querendo mais. E já com saudade, e já imaginando como será possível viver sem aquela delícia. Ainda com os bagos quase inteiros, mas desejoso de nunca acabar. É o amor pela fruta da terra.
Mesmo com as mãos lambuzadas e cheias de visgo, ainda assim meto a mão com avidez e vontade de demais, como se fosse um faminto perante o melhor prato do mundo. Uma visão que encanta os olhos e enche a boca de prazer. É o amor pela fruta da terra.
Ainda com o sumo escorrendo pelos cantos da boca e descendo e sujando a camisa, mesmo assim mordo com mais avidez, chupo com mais voracidade, sugo como se não pudesse deixar nem caroço nem casca. É o amor pela fruta da terra.
Mesmo que os outros olhem com olhar assustado e digam de minha gulodice. Mesmo que os outros estranhem meu apetite voraz e minha sanha em querer mais. Pego mais, quero mais, mordo mais, nunca sinto que já me basta. É o amor pela fruta da terra.
Fruta grande ou pequena. Fruta graúda ou pequenininha. Fruta de casca lisa ou de casca mais grossa. Fruta de casca rugosa ou de seda. Fruta amarela ou avermelhada. Fruta esverdeada ou de qualquer cor. Mais doce ou de leve acidez, nada importa se é fruta da terra.
Encanto-me e desencanto-me em gulodice toda vez que acordo e logo sigo para a feira interiorana. E bem pertinho de casa quando estou aqui – como agora – no meu berço de nascimento. Enquanto eu caminho, meus olhos passeiam e minha boca logo se enche d’água perante as frutas da terra.
Bananas, laranjas, goiabas, melancias, pinhas, jacas, mangas, mamões, jabuticabas, melões de mato, graviolas e muito mais. Aquele perfume que vai subindo, aquele cheiro saboroso que vai se espalhando, aquela vontade louca de sair experimentando uma a uma.
Cestos, balaios, caixas, sacos, tudo cheio de frutas. As bancas tomadas de cores vivas e sabores apetitosos. Corredores inteiros com aquelas frutas arrumadinhas e talvez dizendo me pegue, me experimente, me leve, me chupe. E levo mesmo.
Em instantes assim, logo recordo o grande Jorge Amado e suas descrições das frutas chegando aos portos baianos. Como diz, frutas gordas, olorosas, todas chegadas em profusão dos litorais. É como se as embarcações de repente surgissem como pomares deliciosos sobre as águas.
Mas tenho um esclarecimento a fazer. A fruta de minha predileção quase não existe mais: o araçá. Lembro-me bem que noutros tempos, principalmente nos idos de minha infância, a vendedora de araçás despontava pela rua com a lata na cabeça e gritando seu nome: olhe o araçá, quem vai querer araçá!
Então eu pedia de cuia. Uma cuia, duas cuias. E depois despejava uma porção na mão aberta e começava a me fartar. Como o araçá é uma fruta miudinha, só mesmo muita para produzir satisfação. E quanto mais comia mais eu queria outra porção daquele verdadeiro favo de mel na minha boca.
Mas meu araçá, como dito, quase não existe mais. Tornou-se uma raridade pelos sertões. Outro dia, alguém me trouxe uma pequena porção. Saudoso, dei-me ao prazer apenas com um tiquinho. O restante eu deixei guardado na geladeira para não morrer de saudade.
Mas hoje me lambuzei na jaca. Tanto faz a jaca ser dura ou mole, eu gosto de todo jeito. Tanto faz que as mãos fiquem apenas sujas ou cheias de visgo, tanto faz. Quando a jaca é graúda e os bagos grandes, então até se esquece até da sujeira que faz. O que se quer é comer mais.
Agora mesmo me deu uma fome danada. Não quero nem maçã nem pera. São frutas, mas não são da terra. Um amigo me trouxe uns umbus madurinhos e é na sua direção que estou indo agora. Quer?


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Lá no meu sertão...


Espelho e moldura



Minha menina (Poesia)



Minha menina


Um amor
que desamou
coração
desanimou
alegria
que murchou
flor
que vento levou

menina
minha menina
o adeus
não é a sina
volto logo
e me anima
beija eu
minha menina.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – moldura de tempo



*Rangel Alves da Costa



O barro, o velho barro da casa antiga, da casa velha, parece ser livro aberto querendo ser lido. A telha, a telha carcomida da velha casa, parece ser letra querendo ser lida. A porta e a janela, a porta e a janela da casa de barro e cipó, parecem ser as palavras ecoando de lá de dentro. E eu, eu que pouco sei ler do passado, contento-me em prostrar-me em sua viga e pedir que o tempo venha no tempo para me ensinar. E vem. Chega uma folha seca, velha, carcomida da estação. E vem. Chega uma poeira soprada no vento, chega uma canção de pó, de restos antigos e amarelados. Os olhos miram a estrada longa. O caminho vai estreitando, estreitando, até sumir lá longe. Ninguém aparece. Ouço vozes, mas vozes de ninguém. Ali na casa velha só mora a idade, os anos, o passado, os restos, os tempos idos. Mas ouço uma voz. Ouço vozes. E dizendo que o café está pronto, chamando a meninada para entrar em casa porque vai chover, dizendo que vá logo juntar lenha para o dia seguinte. Um relincho, um cavalo que chega. Tudo ouço. Ouço tudo, mas não há ninguém. Depois me despeço das vozes, do barro da casa, dos restos caídos, da memória antiga. E sigo adiante sem olhar pra trás. Mas levo a velha casa comigo. Em mim, dentro de mim. E o que sou, e o que somos? O que somos senão uma casa velha que o tempo cuidará de tornar em pó.


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sábado, 4 de julho de 2020

FAMÍLIA: CONCEITO E FORMA



*Rangel Alves da Costa


O que se conhece por família vem, ao longo dos anos, passando por tamanhas transformações que atualmente se torna até difícil encontrar uma conceituação que se aproxime de sua realidade.
Com efeito, o que se observa é uma divergência entre os conceitos e as realidades. Juridicamente, família pode ser definida como o conjunto de pessoas que descendem de um tronco ancestral comum. Ou ainda como o conjunto de pessoas ligadas por um vínculo de sangue. Neste sentido, fazem parte da família toda a raiz ancestral, desde os bisavôs, tataravôs, etc.
Em sentido comum, família pode ser conceituada como o núcleo familiar formado pelos pais e filhos, englobando as raízes paternas dos pais, bem como os laços consanguíneos destes. Significa que a família seria um núcleo formado por pais e filhos, avôs, tios, sobrinhos, etc. De qualquer modo, o que caracteriza a linhagem familiar é o vínculo sanguíneo existente entre os seus membros.
A divergência é mais reconhecível quando se observa o entendimento comum sobre família. A conceituação ampla diz que a família é formada por um ancestral comum, através de vínculo sanguíneo, o que significa uma olhar para um passado distante de parentesco, que vem desde os pais do pai e da mãe, os pais daqueles, ainda os seus pais, e assim por diante, sempre em direção ao passado. Já o entendimento comum é bastante diferenciado.
Diferenciado por que geralmente considera a família apenas como o núcleo familiar existente a partir de um lar, ou seja, desde o pai e da mãe. Daí os laços sanguíneos nascidos com os filhos, os netos, os bisnetos. Ou seja, como se a família não tivesse nascido de outras raízes, dos pais dos pais, mas somente a partir do surgido após um casamento ou uma união. Por isso mesmo que atualmente a pessoa, ao dizer que é de determinada família, diz apenas que é filho, por exemplo, de João e Maria.
Que situemos, então, a família como um conjunto formado por pessoas nascidas num mesmo lar e formada pelos pais e pelos filhos. Tal recorte será necessário para que melhor se conheça o que move e o que nega este núcleo tão pequeno e de tão difícil compreensão. E logicamente que considerando a realidade atual, vez que, como dito, os tempos modernos desfiguraram totalmente a antiga feição familiar. A família de hoje, na maioria das situações, sequer se aproxima da família de outros tempos.
Para uma ideia da família de antigamente, preciso que se diga que era alicerçada no respeito e na consideração. Filhos eram filhos que obedeciam aos pais. Pais eram pais que, até mesmo de modo exagerado, educavam e cuidavam dos seus até mesmo na idade adulta. As famílias sentavam à mesa nas refeições, os pais conheciam as amizades e os problemas dos filhos, os pais acompanhavam a vida escolar dos seus, os pais mantinham seus filhos como se através de um caderno de deveres e obrigações. Nada de chegar além da hora, nada de viver em más companhias, nada de enveredar pelos maus costumes. Havia diálogo entre pais e filhos e estes jamais se esqueciam de pedir a benção aos seus genitores.
Na região sertaneja, por exemplo, o namoro de antigamente só acontecia com a permissão dos pais. Ainda assim os encontros somente aconteciam nas residências familiares, em cadeiras separadas e sob a observação do pai ou da mãe. Nada de namoros escondidos nem gravidez antes do casamento. Até para namorar tinha de pedir a mão da moça. Depois do namoro firme até de anos, o noivado era antecedido de anel de compromisso. Somente após é que havia o noivado em si e a permissão para o casamento. De vez em quando tal regra era quebrada, pois o rapaz levava, no meio da noite, a moça de sua casa. Acaso isso acontecesse, o casamento tinha de ser logo feito “sob ameaça de chicote”.
E o que se tem hoje por família? O conceito certamente continua, mas a realidade do convívio entre os familiares está muito diferenciada. Muitas famílias, erroneamente tidas como conservadoras, ainda procuram manter tanto o lar como os filhos dentro dos limites do respeito e da obediência. Os filhos respeitam os pais e estes não aceitam que suas lições sejam simplesmente rasgadas depois da porta da frente. Os filhos, mesmo convivendo em meio ao novo e aos modismos, ainda assim conhecem bem os limites que são impostos pelos genitores.
Famílias existem, contudo, que se descaracterizam de tal forma que nem os pais cuidam dos filhos nem os filhos respeitam os pais. Filhos são colocados ao mundo como bichos de cria ou objeto qualquer. Os pais não perguntam onde andam, o que fazem, o que pretendem da vida. Os filhos tratam seus pais como estranhos e muitas vezes passam dias ou semanas sem uma palavra sequer. Entram e saem de casa como se ali estivessem apenas desconhecidos.
Por que assim acontece? Ora, falta de berço, falta de criação, falta de cuidado. Filho só se desgarra dos pais quando estes primeiros se desgarram dos seus. Pais que não amam e não cuidam dos seus desde a primeira idade, certamente não amarão nem cuidarão depois. Por consequência, os filhos acabam se tornando aquilo que os pais desejaram: ausentes, desobedientes, estranhos naquilo que se chama de lar. Pais que agem assim sequer se preocupam se já está tarde e o seu ainda não retornou.
Mas nem tudo se perdeu. Família é conceito tão forte que vai além de mero parentesco e linhagem de sangue. Não é apenas um vínculo de sobrenome, mas um vínculo de coração. Família é a primeira amiga, é a mais fiel conselheira, é amais protetora que possa existir. Quando o mundo parece desabar, é a família que se faz presente como auxílio e amparo. É na família, pois, que o ser humano expressa suas melhores virtudes. E dai ao mundo, com honradez e caráter.


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Lá no meu sertão...


Pelas ruas do meu sertão...