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A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 16 de março de 2011

48 ANOS: QUEM DERA SOMAR, MULTIPLICAR...

48 ANOS: QUEM DERA SOMAR, MULTIPLICAR...

Rangel Alves da Costa*


Exatamente hoje, 16 de março, estou completando 48 anos de idade. Sou sertanejo de raiz, de terra rachada e bicho na moita, amigo de preá e de xiquexique, nascido lá nos idos de 1963, no sertão sergipano do São Francisco, em Poço Redondo. Lá mesmo onde Lampião foi morto em 38.
Por que 48 anos, se nasci ontem, sou menino, molecote, ainda traquina? Somente o espelho do tempo saberia responder por que a gente envelhece e nem sente tanto, a não ser quando bate a saudade de outros tempos, dos dias muitos distantes, de coisas que a gente não pode fazer mais.
Por que 48 anos se gostaria de ser muito mais moço ou muito mais velho, menos com essa idade? Se eu fosse mais moço não ia ter a saudade do sertão como tenho agora, pois deixei meu riachinho e minha bola de gude por lá dizendo que logo iria voltar e só retornei de sapato e calça comprida. Não era mais eu sertanejo, mas apenas eu.
Não ia ter a saudade do sertão como tenho agora porque teria vivido muito mais a infância; teria sido menino sertanejo em toda sua plenitude, correndo pelos matos, catando araçás, armando arapuca pra pegar passarinho, pulando a cerca pra roubar goiaba, tomando banho nu pelas ruas em épocas de chuvas fortes, brincando de soltar pipa e jogar no campinho, namorando a menina mais linda do lugar.
Se eu fosse mais velho certamente estaria angustiado e amargurado por não ter amado mais meu sertão, não ter escrito muito mais sobre suas belezas, seus encantos naturais, sua história, sobre os meus irmãos lutadores e tão cheios de fé. Teria certeza que tudo que escrevi não bastou para contar nem a metade dessa saga sertaneja sem igual. A Saga de Um Povo Tão Alegre e Tão Triste, meu Deus!
Tudo isso me faz alegre e triste. Com 48 anos nada mais fiz do que acumular um aprendizado que traz muito mais pessimismo do que alegria, e isto porque cada vez mais vou aprendendo que praticamente nada ainda foi feito. Claro, estudei, alcancei uma formatura, trabalho na minha profissão, sou metido a escritor e pintor, vivo catando motivos para dizer da minha existência.
Mas tudo isso é quase nada porque o mais importante ainda não fiz. Não voltei para o meu sertão, não moro ainda em meio aos mandacarus e catingueiras, não comprei uma casinha no mais alto da mais alta montanha sertaneja para colocar minha rede de balanço e ficar matutando sem chorar, nunca compus uma toada para os meus amigos vaqueiros aboiarem em dias de vaquejada, não consigo virar matuto novamente. Tudo isso é inquestionavelmente importante para mim e infelizmente ainda não fiz.
Mas o que sou agora, então, senão esse ser dividido entre a terra de plena aridez e o cimento que não deixa rastro? Bem que eu poderia andar com um sapato e uma alpercata de couro cru, de gibão e gravata, com um código numa mão e um berrante na outra.
Bem que eu poderia falar como se fala lá no sertão, ser mais esperançoso como é o povo de lá, ser mais feliz com o quase nada que consiga. Mas aqui esqueceu que existe acolá, ignora as coisas de lá e zomba da gente como se fosse de outro mundo. Por isso quero voltar pra lá.
O menino de hoje não pode dizer que não está feliz porque o velho de amanhã já está chamando. E assim que o corpo não possa mais negar mais a idade que tenho e uns e outros começassem a me chamar de senhor, então chamarei o molecote que ainda vive em mim e seguiremos sertão adentro. Enfim, o menino e o velho serão uma só pessoa sem qualquer idade. E isto porque a idade não se faz com anos, mas com o desejo de se ter a idade que se quer.
Se algum dia os meus sonhos e planos puderem se realizar, então que o menino e o velho não completem apenas 48 anos, mas uma infinita soma, um infinito multiplicar. E a minha idade será a da realização.





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns, Rangel! Que Deus o cubra de saúde, alegrias, conquistas muitas e inspiração onstante para nunca deixar de nos ofertr a boa e preciosa literatura. Abraços com intenções de felicidades. Paz e bem.
PS: Você empatou comigo. Daqui a seis meses eu desempato e passo para os 49.