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quarta-feira, 2 de março de 2011

DESCONHECIDOS - 40 (Conto)

DESCONHECIDOS – 40

Rangel Alves da Costa*


“Mas padre, que sonho estranho é esse. O reverendo acha que é um presságio, um mero pressentimento ou algum aviso importante?”, perguntou Doranice.
“Quisera eu saber, minha boa senhora, quisera eu saber. O que posso afirmar é que tenho visões de coisas muito estranhas acontecendo ali nos arredores, nas margens e até dentro do rio. São pessoas desconhecidas, são sombras, são gritos, festins, enfim, algo como um carnaval diabólico que de repente vai tomando conta de todos e de tudo. Mas também surge um silêncio assustador, um silêncio medonho que desce os barrancos e entra na água na maior algazarra. Mas tudo parece calmo e normal, tudo num cotidiano maravilhoso, até que aos poucos as coisas vão se transformando. E muito mais coisas que vão envolvendo esses desconhecidos...”.
E a viúva interrompeu o padre por um instante para perguntar: “Como padre, enquanto pessoa que conhece muito mais desses mistérios do que a gente, poderia ao menos imaginar o que seja?”.
“São muitas coisas que fico imaginando ainda deitado e ao amanhecer, e infelizmente durante o dia inteiro. Já fui lá por três vezes jogar água benta naquele leito maravilhoso do rio, bem como pelas suas margens e tudo na esperança que se algum mal ali quiser fazer moradia que vá logo embora com as águas. Mas sou muito fraco para tanto e somente construindo uma igrejinha por lá as coisas ficarão mais bem protegidas. Na presença da casa de Deus nenhum mal faz vizinhança, por isso é que precisamos muito dessa construção...”.
E foi interrompido novamente: “Quanto a isso não se preocupe não, pois amanhã mesmo providenciaremos tudo a contento, sem faltar um tostão, graças ao bom Deus e ao trabalho do meu falecido esposo. Mas o senhor não me respondeu bem à última pergunta. Lembro que perguntei se o senhor, enquanto padre e mais conhecedor desses mistérios do que a gente poderia ao menos imaginar o que esteja ocorrendo por lá?”
Então o padre Marchelort, era esse o nome dele, juntou as mãos num gesto de prece, levou-as até a altura do rosto e disse: “As águas do rio estão chamando desconhecidos para perto de si, com a intenção de lavar a alma e renovar os espíritos, porém quando os caminhos dos desconhecidos se cruzarem é que tudo poderá acontecer e nem as águas mais fortes poderão sobrepor-se aos homens...”.
“Então o senhor quer me dizer que...”, falou a pensativa Doranice. “Que são as forças por trás dos desconhecidos que podem causar o pior. Isso mesmo, os desconhecidos serão, a seu modo, causa e efeito, paz e guerra, luz e trevas. Resta saber quem são esses desconhecidos e como quando chegarão”, observou o reverendo.
“Mas então será muito difícil de saber quais são esses desconhecidos, vez que muita gente perambula e faz moradia por aquela região do São Pedrito, ao menos é isso que imagino”, disse Doranice. “Esse é um problema sim, pois não podemos ver ninguém que chegue, ande ou more por lá como pessoa perigosa. É por isso que vamos construir essa igrejinha, bem no alto da serra, defronte ao rio, para que as forças divinas possam refrear os ânimos das coisas ruins”, concluiu o padre Marchelort.
Por fim, a viúva afirmou que até gostaria de continuar mais um pouco na igreja, mas diante do adiantado da hora tinha que se recolher para descansar. Asseverou ao padre que às dez horas do dia seguinte estaria ali para entregar a encomenda de ajuda para a construção da igreja. E disse ainda que tinha certeza de participar de sua inauguração, pois ficaria na região ainda por muitos dias.
Despediu-se da prima com outro abraço, recomendando saúde e cuidados ao demente e avisando que poderiam se encontrar ali mesmo na igreja no horário já combinado. E lá fora encontrou Carlinhos e Yula em pé ao lado de um banco da praça, proseando com um senhor vistoso e imponente, que outra pessoa não era senão o coronel Demundo Apogeu em pessoa.
Depois das apresentações e cumprimentos, Yula informou à velha amiga: “Pena que já está tarde, mas a senhora não iria acreditar nas histórias que este senhor nos contou. Sabia que aquela mansão imponente logo ali é dele? Outro amigo que estava aqui e saiu agorinha disse que a noite seria curta para nomear toda a riqueza desse homem. Por isso mesmo ainda é chamado de coronel sem nunca ter patente oficial. Mas segundo o coronel acabou de dizer, daria toda riqueza que dispõe se pudesse ter o seu filho de volta, morto pelas próprias mãos há pouco tempo...”.
“Meus pêsames se a dor perdura coronel, mas é uma história intrigante, ou seja, histórias intrigantes, que é a sua, se sobrepondo tão positivamente nessa pobre região, o que já nos enche de orgulho, e a de seu filho, partindo assim de forma tão inesperada. Ah, como eu gostaria de ter tempo para conversar sobre essas coisas, mesmo que o sofrimento tenha de ser partilhado com as realizações...”. Falava a viúva, quando foi interrompida pelo coronel, tentando esconder os olhos lacrimejantes:
“Por hoje não vou perguntar nem dizer mais nada, mas apenas fazer um pedido e convite para que aceite tomar um cafezinho e tomar um licor também de café lá na minha residência. A partir das dez da manhã, a hora que quiser, pode aparecer por lá. A casa estará de portas abertas”.
“Pelo jeito terei um dia bastante corrido amanhã antes de partir em frente, mas não farei essa desfeita ao coronel”.
E a cidade de Mormaço já estava fechando suas portas para repousar, ou apenas encostando as portas para tudo acontecer. Mesmo cansada, nessa noite Dona Doranice ainda demorou a dormir. E quando adormeceu sonhou que Carlinhos estava pendurado na cruz da igrejinha defronte ao rio.




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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