Outros anos de solidão
Quando saí de Macondo
fugindo de cem anos de solidão
e da loucura certeira
que acerta os que pensam
que são normais
não pensei que seria tão triste
sair da solidão para encontrar
um povo que não se ama
que não se quer
que não sabe o que é destino
ou coisa parecida com vida
deixai lá minha bela Remédios
pensando encontrar outras curas
para o amor que nunca tive
porque quis amar diferente
amar demais e eternamente
e pensava que estava louco
por pensar amar assim
amar demais e eternamente
e continuou louco por ser assim
amor tão grande que é paixão
na eternidade da solidão.
Rangel Alves da Costa
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 8 (Conto)
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 8
Rangel Alves da Costa*
Lucinha não estava mais visitando o jardim como de costume. Antes de o sorriso ser roubado e a tristeza começar a tomar conta de si, assim que acordava ia passear entre os amigos, conversar com eles, observar se tudo estava em ordem. Do mesmo modo fazia quando retornava da escola e em vários outros momentos do dia. Mas era ao amanhecer e ao entardecer os instantes de maior diálogo, de maior proximidade, de maior envolvimento.
Verdade é que para ela, a morte das flores foi apenas mais um acontecimento diante de tantos que se somava para aumentar ainda mais o seu entristecimento. Estava triste, e pronto. Os motivos pouco importam quando tudo parece ajudar a tristeza.
Daí não sentir nenhuma motivação ou encorajamento para fazer quase nada, fosse no quarto, dentro da casa ou no jardim. A orientadora educacional da escola já havia telefonado para os seus pais perguntando sobre o que estava acontecendo.
Quando o jardineiro gritou diante do solar, próximo à janela do quarto, dizendo que precisava que ela fosse até o jardim para ver a nova planta que havia chegado, Lucinha estava sentada num canto do quarto, com os olhos fixamente voltados para passarinhos de plásticos dependurados desde o teto. As lágrimas desciam sobre o rosto e uma palidez dos doentes começava a tomar conta da bela e vivaz menina.
Quando ouviu os gritos do jardineiro pela segunda vez, e não querendo mais ser incomodada, levantou sem enxugar os olhos e foi até a janela simplesmente dizer que dali há instantes iria até lá. Até a voz havia mudado, estava mais fraca, quase inaudível.
Seu Heleno ficou espantado, sem acreditar quando viu o aspecto da menina. Ele mesmo ficou entristecido com aquela situação e imediatamente deu a volta pelos lados da casa e foi ver se encontrava os pais dela para relatar o que tinha visto. Por sorte encontrou os dois na sala naquele momento.
"Seu Paulo e Dona Nadir, me desculpem estar aqui desse jeito e até pra falar de uma coisa que nada tem a ver com o jardim. Lá está tudo bem. Probleminhas ocorrem, mas está tudo bem. O problema é com aquela que se diz dona do jardim, a pequena Lucinha. Acreditem, mas fui até a janela do quarto para avisar a ela que havia chegado uma nova espécie de planta no seu jardim e eis que me aparece na janela a tristeza e o desalento em pessoa. A bichinha apareceu com o rosto ainda banhado em lágrimas, com os cabelos em desalinho, com os olhos do outro mundo e o rosto também. Fiquei até assustado quando vi as feições da menina, e por isso mesmo vim até aqui relatar o ocorrido, de modo a que vocês vão imediatamente até lá para ver o que está se passando com a nossa amiguinha. Era só isso que eu tinha a dizer. Desculpe, obrigado e até mais ver".
"Não há do que pedir desculpa Seu Heleno, nós é que devemos agradecer ao senhor por ter se preocupado e vindo até aqui para nos informar sobre Lucinha. Nós também estamos achando que ela anda muito estranha, triste e arredia demais. Ninguém vê mais ela brincando, cantando, conversando, correndo por aí. Nem comer quer mais. A mãe comprou maçã do amor, que é uma das coisas que ela mais gosta, mas ficou ali sem ao menos beliscar...". Falava o pai, quando foi interrompido pela mãe:
"E lembre Paulo do telefonema que a direção da escola nos deu informando sobre o jeito esquisito dela também em sala de aula e durante o recreio. Disseram que ela não fala com ninguém, vive de cabeça baixa e toda triste, só faltando mesmo soltar um rio de lágrimas diante dos coleguinhas. Temos até que ir lá. Mas muito obrigado Seu Heleno e cuide muito bem daquele jardim maravilhoso, que na verdade realmente pertence a Lucinha. E se estiver precisando de alguma coisa pode nos procurar. Está bem?".
Quando o jardineiro saiu, os pais de Lucinha ficaram se olhando sem conseguir encontrar palavras. E num instinto correram até o quarto e entraram sem bater na porta. Encontraram apenas os passarinhos se balançando ao sabor do vento que entrava pela janela.
Olharam por todos os lados, de cima a baixo, e não avistaram nem sombra da filha. Chamaram pelo nome da menina e repetiram os chamados por diversas vezes, sem nenhuma resposta. Até que ouviram sons fraquinhos de soluços que vinham debaixo da cama.
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Lucinha não estava mais visitando o jardim como de costume. Antes de o sorriso ser roubado e a tristeza começar a tomar conta de si, assim que acordava ia passear entre os amigos, conversar com eles, observar se tudo estava em ordem. Do mesmo modo fazia quando retornava da escola e em vários outros momentos do dia. Mas era ao amanhecer e ao entardecer os instantes de maior diálogo, de maior proximidade, de maior envolvimento.
Verdade é que para ela, a morte das flores foi apenas mais um acontecimento diante de tantos que se somava para aumentar ainda mais o seu entristecimento. Estava triste, e pronto. Os motivos pouco importam quando tudo parece ajudar a tristeza.
Daí não sentir nenhuma motivação ou encorajamento para fazer quase nada, fosse no quarto, dentro da casa ou no jardim. A orientadora educacional da escola já havia telefonado para os seus pais perguntando sobre o que estava acontecendo.
Quando o jardineiro gritou diante do solar, próximo à janela do quarto, dizendo que precisava que ela fosse até o jardim para ver a nova planta que havia chegado, Lucinha estava sentada num canto do quarto, com os olhos fixamente voltados para passarinhos de plásticos dependurados desde o teto. As lágrimas desciam sobre o rosto e uma palidez dos doentes começava a tomar conta da bela e vivaz menina.
Quando ouviu os gritos do jardineiro pela segunda vez, e não querendo mais ser incomodada, levantou sem enxugar os olhos e foi até a janela simplesmente dizer que dali há instantes iria até lá. Até a voz havia mudado, estava mais fraca, quase inaudível.
Seu Heleno ficou espantado, sem acreditar quando viu o aspecto da menina. Ele mesmo ficou entristecido com aquela situação e imediatamente deu a volta pelos lados da casa e foi ver se encontrava os pais dela para relatar o que tinha visto. Por sorte encontrou os dois na sala naquele momento.
"Seu Paulo e Dona Nadir, me desculpem estar aqui desse jeito e até pra falar de uma coisa que nada tem a ver com o jardim. Lá está tudo bem. Probleminhas ocorrem, mas está tudo bem. O problema é com aquela que se diz dona do jardim, a pequena Lucinha. Acreditem, mas fui até a janela do quarto para avisar a ela que havia chegado uma nova espécie de planta no seu jardim e eis que me aparece na janela a tristeza e o desalento em pessoa. A bichinha apareceu com o rosto ainda banhado em lágrimas, com os cabelos em desalinho, com os olhos do outro mundo e o rosto também. Fiquei até assustado quando vi as feições da menina, e por isso mesmo vim até aqui relatar o ocorrido, de modo a que vocês vão imediatamente até lá para ver o que está se passando com a nossa amiguinha. Era só isso que eu tinha a dizer. Desculpe, obrigado e até mais ver".
"Não há do que pedir desculpa Seu Heleno, nós é que devemos agradecer ao senhor por ter se preocupado e vindo até aqui para nos informar sobre Lucinha. Nós também estamos achando que ela anda muito estranha, triste e arredia demais. Ninguém vê mais ela brincando, cantando, conversando, correndo por aí. Nem comer quer mais. A mãe comprou maçã do amor, que é uma das coisas que ela mais gosta, mas ficou ali sem ao menos beliscar...". Falava o pai, quando foi interrompido pela mãe:
"E lembre Paulo do telefonema que a direção da escola nos deu informando sobre o jeito esquisito dela também em sala de aula e durante o recreio. Disseram que ela não fala com ninguém, vive de cabeça baixa e toda triste, só faltando mesmo soltar um rio de lágrimas diante dos coleguinhas. Temos até que ir lá. Mas muito obrigado Seu Heleno e cuide muito bem daquele jardim maravilhoso, que na verdade realmente pertence a Lucinha. E se estiver precisando de alguma coisa pode nos procurar. Está bem?".
Quando o jardineiro saiu, os pais de Lucinha ficaram se olhando sem conseguir encontrar palavras. E num instinto correram até o quarto e entraram sem bater na porta. Encontraram apenas os passarinhos se balançando ao sabor do vento que entrava pela janela.
Olharam por todos os lados, de cima a baixo, e não avistaram nem sombra da filha. Chamaram pelo nome da menina e repetiram os chamados por diversas vezes, sem nenhuma resposta. Até que ouviram sons fraquinhos de soluços que vinham debaixo da cama.
continua...
Poeta e cronista
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domingo, 21 de novembro de 2010
ADÍLIA, A CANGACEIRA QUE CONHECI (Crônica)
ADÍLIA, A CANGACEIRA QUE CONHECI
Rangel Alves da Costa*
Conheci Adília dentro da minha casa, no convívio cotidiano com minha família em Poço Redondo. Lembro como se fosse hoje da morena trigueira, chegando ao escurecido, alta, esguia, esbelta, de rosto alongado, queixo fino e olhos negros sempre brilhantes, cabelos também negros e aquele jeito simples de mãe de família que nem de longe parecia aquela mesma Adília que ainda mocinha, quase menina, entrou para o bando do Capitão Virgulino; a mulher/menina companheira do cangaceiro Canário.
Pena que a historiografia, os estudiosos e pesquisadores tratam os seus personagens com a frieza da conveniência, muitas vezes traçando um painel muito diferente daquilo que a pessoa pesquisada realmente foi. Pedindo desculpas aos cangaceiristas (a moda é cangaceirólogo, vixe Maria!) das academias, não tenho dúvidas em afirmar que Adília, mesmo durante as batalhas sangrentas, sempre foi muito mais aquela menina meiga e pacata do Alto de João Paulo, do que uma sedenta e furiosa figura de arma em punho.
Com o pouco que convivi com ela posso afirmar isso, pois é impossível que aquela doçura de mulher tivesse mudado repentinamente seu comportamento após a morte de Lampião (28 de julho de 1938, na Gruta do Angico, em Poço Redondo), sem ter sido sempre, em qualquer lugar e circunstância, a dedicada mãe de família e alegre amiga, sem jamais deixar transparecer resquícios da vida passada, mágoas ou ressentimentos.
Nascida Maria Adília de Jesus, entrou para o cangaço com menos de dezesseis, influenciada pelo grande amor de sua vida, o conterrâneo e também cangaceiro Canário. Como a sua família não aceitava o namoro, a menina prometeu ao namorado que iria com ele até o inferno se fosse preciso. Se não foram para as agonias dos subterrâneos de Hades chegaram bem perto disso, pois a vida no cangaço teve na dor e no sofrimento algumas de suas principais características.
Como afirmado anteriormente, lembro como se fosse hoje. Meu pai, Alcino Alves Costa, prefeito à época, a casa da Rua de Baixo sempre cheia de familiares e amigos, no entra e sai de pessoas uma destas sempre se demorava mais ali, ficava horas e até o dia inteiro ajudando minha mãe D. Peta. Era a ex-cangaceira tomada de amizade à nossa família, numa consideração que de repente eu já estava chamando ela também de mãe.
Falando e sorrindo com suas duas covinhas no rosto, mandava que eu sentasse no seu colo e começava a fazer cafuné e contar histórias, mas coisas muito diferentes do que poderia muito bem falar. Mas o menino nada tinha a ver com sua vida cangaceira, nem ela gostava de revirar baús curtidos pelo resto do embornal. E contava que era uma vez, e dizia que um dia, mas tudo bonito e sem sofrimentos, balas e mortes no meio.
E foi num desses momentos de intenso convívio que um dia descobri em Adília um pequeno detalhe que jamais esquecerei e que me uniu cada vez mais a ela, num amor de filho e mãe. Eis que atirado pelo chão e ela sentada, enxerguei na sua perna, não lembro bem se direita ou esquerda, já próximo ao pé, uma parte mais funda na pele, que chegava adentrar o osso. Era como se a perna tivesse sido fortemente ferida naquele ponto e que, depois da ferida curada, ficou uma visível cova.
Perguntava o que tinha sido aquilo e num sorriso bonito dizia sempre que já tinha nascido com aquela barroquinha na perna, porém talvez recordando a cada momento a saraivada e a bala da volante atingindo o local e os instantes seguintes de dor e desespero. Mesmo que pensar nisso ainda lhe doesse no espírito, respondia com o sorriso e deixava que brincasse com aquela marca na pele e osso das durezas da vida cangaceira.
Nossa amizade ficou tão fortalecida depois dessa descoberta que nem se importava quando eu mandava ela sentar no chão e estirar a perna para que eu colocasse água na barroquinha. E veja o que menino faz: enchia e sugava a água na perna da ex-cangaceira. Assim, muitas vezes brinquei com aquela marca e bebi água dali sem saber que a minha boca experimentava o verdadeiro sertão. Era uma cacimba cangaceira!
Depois fui crescendo e a sede da meninice foi indo embora. Pensei que havia crescido e nunca mais atravessei o riachinho e fui ao Alto de João Paulo ao menos visitar Adília na sua casa simples e aconchegante. Morando na capital, soube de sua morte em março de 2002, aos 82 anos.
Fui ingrato Adília, perdoa-me. Só quando a gente tem sede é que lembra que existe água...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Conheci Adília dentro da minha casa, no convívio cotidiano com minha família em Poço Redondo. Lembro como se fosse hoje da morena trigueira, chegando ao escurecido, alta, esguia, esbelta, de rosto alongado, queixo fino e olhos negros sempre brilhantes, cabelos também negros e aquele jeito simples de mãe de família que nem de longe parecia aquela mesma Adília que ainda mocinha, quase menina, entrou para o bando do Capitão Virgulino; a mulher/menina companheira do cangaceiro Canário.
Pena que a historiografia, os estudiosos e pesquisadores tratam os seus personagens com a frieza da conveniência, muitas vezes traçando um painel muito diferente daquilo que a pessoa pesquisada realmente foi. Pedindo desculpas aos cangaceiristas (a moda é cangaceirólogo, vixe Maria!) das academias, não tenho dúvidas em afirmar que Adília, mesmo durante as batalhas sangrentas, sempre foi muito mais aquela menina meiga e pacata do Alto de João Paulo, do que uma sedenta e furiosa figura de arma em punho.
Com o pouco que convivi com ela posso afirmar isso, pois é impossível que aquela doçura de mulher tivesse mudado repentinamente seu comportamento após a morte de Lampião (28 de julho de 1938, na Gruta do Angico, em Poço Redondo), sem ter sido sempre, em qualquer lugar e circunstância, a dedicada mãe de família e alegre amiga, sem jamais deixar transparecer resquícios da vida passada, mágoas ou ressentimentos.
Nascida Maria Adília de Jesus, entrou para o cangaço com menos de dezesseis, influenciada pelo grande amor de sua vida, o conterrâneo e também cangaceiro Canário. Como a sua família não aceitava o namoro, a menina prometeu ao namorado que iria com ele até o inferno se fosse preciso. Se não foram para as agonias dos subterrâneos de Hades chegaram bem perto disso, pois a vida no cangaço teve na dor e no sofrimento algumas de suas principais características.
Como afirmado anteriormente, lembro como se fosse hoje. Meu pai, Alcino Alves Costa, prefeito à época, a casa da Rua de Baixo sempre cheia de familiares e amigos, no entra e sai de pessoas uma destas sempre se demorava mais ali, ficava horas e até o dia inteiro ajudando minha mãe D. Peta. Era a ex-cangaceira tomada de amizade à nossa família, numa consideração que de repente eu já estava chamando ela também de mãe.
Falando e sorrindo com suas duas covinhas no rosto, mandava que eu sentasse no seu colo e começava a fazer cafuné e contar histórias, mas coisas muito diferentes do que poderia muito bem falar. Mas o menino nada tinha a ver com sua vida cangaceira, nem ela gostava de revirar baús curtidos pelo resto do embornal. E contava que era uma vez, e dizia que um dia, mas tudo bonito e sem sofrimentos, balas e mortes no meio.
E foi num desses momentos de intenso convívio que um dia descobri em Adília um pequeno detalhe que jamais esquecerei e que me uniu cada vez mais a ela, num amor de filho e mãe. Eis que atirado pelo chão e ela sentada, enxerguei na sua perna, não lembro bem se direita ou esquerda, já próximo ao pé, uma parte mais funda na pele, que chegava adentrar o osso. Era como se a perna tivesse sido fortemente ferida naquele ponto e que, depois da ferida curada, ficou uma visível cova.
Perguntava o que tinha sido aquilo e num sorriso bonito dizia sempre que já tinha nascido com aquela barroquinha na perna, porém talvez recordando a cada momento a saraivada e a bala da volante atingindo o local e os instantes seguintes de dor e desespero. Mesmo que pensar nisso ainda lhe doesse no espírito, respondia com o sorriso e deixava que brincasse com aquela marca na pele e osso das durezas da vida cangaceira.
Nossa amizade ficou tão fortalecida depois dessa descoberta que nem se importava quando eu mandava ela sentar no chão e estirar a perna para que eu colocasse água na barroquinha. E veja o que menino faz: enchia e sugava a água na perna da ex-cangaceira. Assim, muitas vezes brinquei com aquela marca e bebi água dali sem saber que a minha boca experimentava o verdadeiro sertão. Era uma cacimba cangaceira!
Depois fui crescendo e a sede da meninice foi indo embora. Pensei que havia crescido e nunca mais atravessei o riachinho e fui ao Alto de João Paulo ao menos visitar Adília na sua casa simples e aconchegante. Morando na capital, soube de sua morte em março de 2002, aos 82 anos.
Fui ingrato Adília, perdoa-me. Só quando a gente tem sede é que lembra que existe água...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Cuidado (Poesia)
Cuidado
Te digo porque já fui um dia
te digo porque conheço a estrada
te digo porque a distância é grande
te digo porque o caminho é perigoso
te digo porque já me perdi
te digo porque não me achei
te digo porque estou aqui
cuidado com o que vai fazer
cuidado com a decisão tomada
cuidado com o ódio repentino
cuidado com a ira exagerada
cuidado se for dizer adeus
cuidado por não querer perdoar
cuidado com aquela porta
cuidado com o primeiro passo
cuidado se for olhar pra trás
cuidado pra não querer ir mais
te digo porque já fui embora
te digo porque não pensei na hora
te digo porque quando retornei
não era o mesmo nem a ti eu encontrei
encontrei você e não a que amei
e a dor e o sofrimento é tudo o que mais sei.
Rangel Alves da Costa
Te digo porque já fui um dia
te digo porque conheço a estrada
te digo porque a distância é grande
te digo porque o caminho é perigoso
te digo porque já me perdi
te digo porque não me achei
te digo porque estou aqui
cuidado com o que vai fazer
cuidado com a decisão tomada
cuidado com o ódio repentino
cuidado com a ira exagerada
cuidado se for dizer adeus
cuidado por não querer perdoar
cuidado com aquela porta
cuidado com o primeiro passo
cuidado se for olhar pra trás
cuidado pra não querer ir mais
te digo porque já fui embora
te digo porque não pensei na hora
te digo porque quando retornei
não era o mesmo nem a ti eu encontrei
encontrei você e não a que amei
e a dor e o sofrimento é tudo o que mais sei.
Rangel Alves da Costa
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 7 (Conto)
O ROUBO DO SORRISO DA MENINA – 7
Rangel Alves da Costa*
Quando a acácia gritou dizendo que sabia quem havia matado as flores o jardim em peso se transformou num pandemônio, num rebuliço só, em incontidos gestos de espanto e de agonia. Não havia uma só flor, um pé de planta, um pássaro, um bicho, nada, que não estivesse atônito e amedrontado.
"Já que sabe diga logo. Desvendando logo esse crime e logicamente aplicando a punição devida àquele ou àquela que praticou tão sinistro ato, depois iremos atrás das outras coisas. Iremos procurar um jeito de devolver o sorriso à menina Lucinha, nem que para isso tenhamos de desenterrar os mortos. Vamos, diga logo acácia!...". Ordenou o jardineiro.
E a acácia, que é flor caracterizada pelo comedimento e pela honestidade, olhava para todos e começou a soltar a maior gargalhada, sorrindo espalhafatosamente sem parar, até que enfim começou a dizer entre soluços causados pelo riso solto:
"Fui eu, quem matou fui eu! Fui eu, quem matou fui eu...". E começou a cantarolar bem alto, como se estivesse completamente transtornada: "Fui eu, quem matou fui! Fui eu, quem matou fui eu!...". E repetia parecendo que não ia mais parar, até que o jardineiro deu um grito mais alto ainda, para espanto das outras flores que já estavam mais calmas pelas palavras insanas da outra. Dizendo coisa com coisa acabou não acusando ninguém.
O que se pensava que seria coisa séria, que realmente apontaria nome ou nomes, terminou em frustração. Enraivecido, Seu Heleno apontou o dedo para a flor enlouquecida e disse com voz ameaçadora:
"Eu sei o que tenho para mentirosos e doidos. Vou buscar agora mesmo um remédio que você vai tomar e dormir dois dias sem parar. Vai ser coisinha simples, vou juntar uma porção de pesticida, outra de agrotóxico do mais arrebentador que houver, mais uma de fungicida e inseticida, e ainda mais uma de veneno de matar rato. Você abriu a boca e falou besteira, mostrou que está completamente enlouquecida de vez, então o remédio para doida igual a você é a mistura que vou fazer. Mas vou dizer uma coisa e é bom que você não esqueça quando acordar desse sono profundo: ainda vai ter que explicar direitinho essa conversa de ter matado as flores. Ouviu bem?"
Quando o jardineiro saiu em direção ao depósito para preparar as dosagens e fazer com que a acácia tomasse, todas as espécies do jardim se olharam, conversaram rapidamente e decidiram por unanimidade que para o bem de todos e até da própria acácia ela deveria ser eliminada naquele mesmo instante, deveria ser morta. Cochicharam rapidamente e combinaram as armas.
Eliminando a louca da acácia ficariam despreocupados que mais tarde ela pudesse abrir a boca para acusar um ou outro de verdade ou até fazendo recair injustamente sobre uma espécie a prática do crime. E morrendo em plena loucura até que seria menos mal e doloroso para a própria planta, que dali há instantes teria que tomar poderosíssimos venenos e talvez nem suportasse tanto sofrimento.
Assim, quando Seu Heleno chegou com uma espécie de mamadeira grande contendo os remédios já encontrou a acácia desacordada, sorrindo, como se quisesse falar. Estava mortinha da silva. Dessa vez todos sabiam quem teve a incumbência de fazer aquilo, menos o jardineiro logicamente. E porque todas sabiam e fizeram um pacto para praticá-lo, certamente nem o mais esperto dos detetives descobriria. Ao menos era o que pensavam.
Quando Seu Heleno se aproximou da acácia e constatou o fato, jogou o remédio pelo chão e gritou novamente:
"Nem mais um segundo, vou buscar agora mesmo uma planta investigadora, dessas que chamam de invasoras por não fazer parte das espécies ruins que são vocês. E vou logo avisando que planta invasora em jardim com espécies nativas vem logo chegando com a maior fúria, pra acabar com tudo, pra não deixar pedra sobre pedra. Sorte de vocês que quando ela descobrir quem andou matando por aqui darei um jeito de devolvê-la ao seu lugar de origem. Isso se eu consegui, pois uma vez fincada na terra a planta invasora não quer sair mais de jeito nenhum".
E saiu, ninguém sabe pra onde, em busca de uma planta originária de um outro país, de um outro bioma, exótica como muitos chamam. Uma vez instalada num jardim dificilmente as espécies nativas terão condições ou chances de competir com ela. Torna-se predadora das outras.
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Quando a acácia gritou dizendo que sabia quem havia matado as flores o jardim em peso se transformou num pandemônio, num rebuliço só, em incontidos gestos de espanto e de agonia. Não havia uma só flor, um pé de planta, um pássaro, um bicho, nada, que não estivesse atônito e amedrontado.
"Já que sabe diga logo. Desvendando logo esse crime e logicamente aplicando a punição devida àquele ou àquela que praticou tão sinistro ato, depois iremos atrás das outras coisas. Iremos procurar um jeito de devolver o sorriso à menina Lucinha, nem que para isso tenhamos de desenterrar os mortos. Vamos, diga logo acácia!...". Ordenou o jardineiro.
E a acácia, que é flor caracterizada pelo comedimento e pela honestidade, olhava para todos e começou a soltar a maior gargalhada, sorrindo espalhafatosamente sem parar, até que enfim começou a dizer entre soluços causados pelo riso solto:
"Fui eu, quem matou fui eu! Fui eu, quem matou fui eu...". E começou a cantarolar bem alto, como se estivesse completamente transtornada: "Fui eu, quem matou fui! Fui eu, quem matou fui eu!...". E repetia parecendo que não ia mais parar, até que o jardineiro deu um grito mais alto ainda, para espanto das outras flores que já estavam mais calmas pelas palavras insanas da outra. Dizendo coisa com coisa acabou não acusando ninguém.
O que se pensava que seria coisa séria, que realmente apontaria nome ou nomes, terminou em frustração. Enraivecido, Seu Heleno apontou o dedo para a flor enlouquecida e disse com voz ameaçadora:
"Eu sei o que tenho para mentirosos e doidos. Vou buscar agora mesmo um remédio que você vai tomar e dormir dois dias sem parar. Vai ser coisinha simples, vou juntar uma porção de pesticida, outra de agrotóxico do mais arrebentador que houver, mais uma de fungicida e inseticida, e ainda mais uma de veneno de matar rato. Você abriu a boca e falou besteira, mostrou que está completamente enlouquecida de vez, então o remédio para doida igual a você é a mistura que vou fazer. Mas vou dizer uma coisa e é bom que você não esqueça quando acordar desse sono profundo: ainda vai ter que explicar direitinho essa conversa de ter matado as flores. Ouviu bem?"
Quando o jardineiro saiu em direção ao depósito para preparar as dosagens e fazer com que a acácia tomasse, todas as espécies do jardim se olharam, conversaram rapidamente e decidiram por unanimidade que para o bem de todos e até da própria acácia ela deveria ser eliminada naquele mesmo instante, deveria ser morta. Cochicharam rapidamente e combinaram as armas.
Eliminando a louca da acácia ficariam despreocupados que mais tarde ela pudesse abrir a boca para acusar um ou outro de verdade ou até fazendo recair injustamente sobre uma espécie a prática do crime. E morrendo em plena loucura até que seria menos mal e doloroso para a própria planta, que dali há instantes teria que tomar poderosíssimos venenos e talvez nem suportasse tanto sofrimento.
Assim, quando Seu Heleno chegou com uma espécie de mamadeira grande contendo os remédios já encontrou a acácia desacordada, sorrindo, como se quisesse falar. Estava mortinha da silva. Dessa vez todos sabiam quem teve a incumbência de fazer aquilo, menos o jardineiro logicamente. E porque todas sabiam e fizeram um pacto para praticá-lo, certamente nem o mais esperto dos detetives descobriria. Ao menos era o que pensavam.
Quando Seu Heleno se aproximou da acácia e constatou o fato, jogou o remédio pelo chão e gritou novamente:
"Nem mais um segundo, vou buscar agora mesmo uma planta investigadora, dessas que chamam de invasoras por não fazer parte das espécies ruins que são vocês. E vou logo avisando que planta invasora em jardim com espécies nativas vem logo chegando com a maior fúria, pra acabar com tudo, pra não deixar pedra sobre pedra. Sorte de vocês que quando ela descobrir quem andou matando por aqui darei um jeito de devolvê-la ao seu lugar de origem. Isso se eu consegui, pois uma vez fincada na terra a planta invasora não quer sair mais de jeito nenhum".
E saiu, ninguém sabe pra onde, em busca de uma planta originária de um outro país, de um outro bioma, exótica como muitos chamam. Uma vez instalada num jardim dificilmente as espécies nativas terão condições ou chances de competir com ela. Torna-se predadora das outras.
continua...
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sábado, 20 de novembro de 2010
OS OUTROS (Crônica)
OS OUTROS
Rangel Alves da Costa*
Talvez seja por uma questão de vaidade, egoísmo, soberba, desrespeito ou discriminação, mas diante de cada um geralmente o outro não vale nada. Não diz com a boca, mas o pensamento só falta acabar de vez com o próximo. Mas por quê?
Porque o outro vive sorrindo, demonstrando alegria e satisfação, e quando abre a janela ou a porta pela manhã agradece a vida e abre os braços para receber fluídos positivos. Bicho besta o outro diz!
Porque o outro vive feliz com a família, sai de mãos dadas com a esposa, brinca de bola com os meninos e leva todos a passear, faz do fim de semana uma festa e parece que tudo isso ainda é muito pouco. Cara antigo o outro diz!
Porque o outro deita na rede lendo jornais e revistas, senta na varanda para escrever, não vive sem um papel ou caneta na mão, leva pra casa livros e mais livros e dizem até que está escrevendo um romance. Esse além de besta é louco, o outro diz!
Porque viaja a trabalho, é convidado para participar de cursos e seminários, só vive pensando em estudar ainda mais para aumentar o conhecimento e crescer na profissão; não descansa enquanto não alcança o que deseja nem tem preguiça pra nada. Esse nem sabe viver, diz o outro!
Porque não gosta de estar como fofocas nem com vizinhos nem com conhecidos, não vive com aleivosias nem falando mal de ninguém, levantando suposições no intuito exclusivo de denegrir a imagem e a honra dos outros; nem quer saber da vida do próximo para que também não interfiram na sua. Mas êta cabra metido a besta por querer ser sério demais, o outro diz!
Porque ajuda quem bate à sua porta, dá esmola, compartilha um pedaço de pão ou um prato de comida, dá uma roupa usada e deixa até que menores abandonados sentem no banco do seu jardim e adultos pedintes passeiem por entre os canteiros, colham alguma flor e enchem os olhos de lágrimas. Esse quer ser bonzinho sem ser, diz o outro!
Porque abre a janela e fica com a face entristecida olhando o sol que se põe, sentindo melancolicamente a brisa da tarde, voando nos pensamentos quando a chuva cai de mansinho, surge a revoada e os seus passarinhos, a natureza dá sinais de beleza e mistérios, demonstrando ternura e meiguice, sofrimento e dor. Cara de molenga, é o que o outro diz!
Porque de vez em quando fala alto, grita, demonstra estar revoltado, enraivecido ou injuriado, e até chuta o muro, dá murro na parede e depois coloca as mãos na cabeça e começa a refletir sobre um monte de coisas. Agora enlouqueceu de vez, diz o outro!
Porque gosta de roupas simples nas simples ocasiões, se veste com extrema elegância em outros momentos, tem jeitos adequados para cada ocasião diferente, e até fala e sorri diferente dependendo de onde esteja e com que esteja. Só pode ter duas caras, o outro diz!
Porque vai com a família à missa aos domingos, gosta de ler a bíblia, possui salmos e passagens inteiras do livro sagrado na memória, e de vez enquanto discute questões religiosas com outras pessoas como se fosse verdadeiro teólogo. Também querer ser padre aí já é demais, diz o outro!
Porque sabe que a vida por mais longa que seja ainda é curta, e quem quer aproveitá-la na sua plenitude deve agir com retidão, ser honesto e viver como homem no pleno exercício da humanização, com a consciência de que cada um somente é perante a medida daquilo que faz. Só faltava querer se meter em filosofia, diz o outro!
Este sabe dizer obrigado, boa sorte, até! E o que terá a dizer o outro?
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Talvez seja por uma questão de vaidade, egoísmo, soberba, desrespeito ou discriminação, mas diante de cada um geralmente o outro não vale nada. Não diz com a boca, mas o pensamento só falta acabar de vez com o próximo. Mas por quê?
Porque o outro vive sorrindo, demonstrando alegria e satisfação, e quando abre a janela ou a porta pela manhã agradece a vida e abre os braços para receber fluídos positivos. Bicho besta o outro diz!
Porque o outro vive feliz com a família, sai de mãos dadas com a esposa, brinca de bola com os meninos e leva todos a passear, faz do fim de semana uma festa e parece que tudo isso ainda é muito pouco. Cara antigo o outro diz!
Porque o outro deita na rede lendo jornais e revistas, senta na varanda para escrever, não vive sem um papel ou caneta na mão, leva pra casa livros e mais livros e dizem até que está escrevendo um romance. Esse além de besta é louco, o outro diz!
Porque viaja a trabalho, é convidado para participar de cursos e seminários, só vive pensando em estudar ainda mais para aumentar o conhecimento e crescer na profissão; não descansa enquanto não alcança o que deseja nem tem preguiça pra nada. Esse nem sabe viver, diz o outro!
Porque não gosta de estar como fofocas nem com vizinhos nem com conhecidos, não vive com aleivosias nem falando mal de ninguém, levantando suposições no intuito exclusivo de denegrir a imagem e a honra dos outros; nem quer saber da vida do próximo para que também não interfiram na sua. Mas êta cabra metido a besta por querer ser sério demais, o outro diz!
Porque ajuda quem bate à sua porta, dá esmola, compartilha um pedaço de pão ou um prato de comida, dá uma roupa usada e deixa até que menores abandonados sentem no banco do seu jardim e adultos pedintes passeiem por entre os canteiros, colham alguma flor e enchem os olhos de lágrimas. Esse quer ser bonzinho sem ser, diz o outro!
Porque abre a janela e fica com a face entristecida olhando o sol que se põe, sentindo melancolicamente a brisa da tarde, voando nos pensamentos quando a chuva cai de mansinho, surge a revoada e os seus passarinhos, a natureza dá sinais de beleza e mistérios, demonstrando ternura e meiguice, sofrimento e dor. Cara de molenga, é o que o outro diz!
Porque de vez em quando fala alto, grita, demonstra estar revoltado, enraivecido ou injuriado, e até chuta o muro, dá murro na parede e depois coloca as mãos na cabeça e começa a refletir sobre um monte de coisas. Agora enlouqueceu de vez, diz o outro!
Porque gosta de roupas simples nas simples ocasiões, se veste com extrema elegância em outros momentos, tem jeitos adequados para cada ocasião diferente, e até fala e sorri diferente dependendo de onde esteja e com que esteja. Só pode ter duas caras, o outro diz!
Porque vai com a família à missa aos domingos, gosta de ler a bíblia, possui salmos e passagens inteiras do livro sagrado na memória, e de vez enquanto discute questões religiosas com outras pessoas como se fosse verdadeiro teólogo. Também querer ser padre aí já é demais, diz o outro!
Porque sabe que a vida por mais longa que seja ainda é curta, e quem quer aproveitá-la na sua plenitude deve agir com retidão, ser honesto e viver como homem no pleno exercício da humanização, com a consciência de que cada um somente é perante a medida daquilo que faz. Só faltava querer se meter em filosofia, diz o outro!
Este sabe dizer obrigado, boa sorte, até! E o que terá a dizer o outro?
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Teus olhos (Poesia)
Teus olhos
Desde que a janela fechou
e não há mais portão no jardim
nunca mais pude enxergar
nunca mais pude ver os teus olhos
hoje os meus olhos
reconhecem os teus olhos
quando se abrem no azul do mar
avistam luzir luarar
a revoada que vai passar
e se encanta e chora
porque vê teus olhos
mas não sente teu olhar
se os teu olhos me enxergassem
ao menos na ventania
ou na nuvem que se desfaz
enxergariam um resto de olhar
na vida que se esvai
de tanto procurar você
e sem encontrar jamais
a não ser na imensa saudade
e tudo que ela traz.
Rangel Alves da Costa
Desde que a janela fechou
e não há mais portão no jardim
nunca mais pude enxergar
nunca mais pude ver os teus olhos
hoje os meus olhos
reconhecem os teus olhos
quando se abrem no azul do mar
avistam luzir luarar
a revoada que vai passar
e se encanta e chora
porque vê teus olhos
mas não sente teu olhar
se os teu olhos me enxergassem
ao menos na ventania
ou na nuvem que se desfaz
enxergariam um resto de olhar
na vida que se esvai
de tanto procurar você
e sem encontrar jamais
a não ser na imensa saudade
e tudo que ela traz.
Rangel Alves da Costa
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