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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: OS CANGACISTAS

ESTÓRIAS DOS QUATRO VENTOS: OS CANGACISTAS

                                          Rangel Alves da Costa*



Conto o que me contaram...
Os mais velhos contam - e se for lorota que se acerte com eles – que nos idos das lides cangaceiras no sertão nordestino, coisa dos inícios do século passado, grande parcela da juventude sertaneja, principalmente nas brenhas mais distantes dos sertões, tinha como sonho maior fazer parte do bando do cangaceiro mais famoso que existia: Virgulino Ferreira da Silva, alcunhado por Lampião.
Muitos conseguiram tal proeza, enveredaram pelos caminhos dos matos e pactuaram sangue com o destino. E que destino cruel e desumano, arrepiante e horripilante! E dizem que boa parte dos que passaram a fazer parte do bando foi através de uma velha prática muito conhecida por todos: a indicação de poderosos, coroneis e coiteiros amigos.
Os que não conseguiram o intento de ser bandoleiro e lutar naquelas vastidões sob a liderança do grande Capitão, planejaram e até colocaram em prática uma estratégia revanchista. Não se sabe os motivos, se por ciúme ou raiva, mas a verdade é que os jovens rejeitados decidiram formar um bando particular de cangaceiros, denominado cangacistas. E veja agora a maluquice: Para enfrentar na bala o bando de Lampião.
Um de um lugarejo outro de outro, juntando mais um e mais outro, de repente os cangacistas já era um grupo desejoso demais do enfrentamento. Contudo, como não tinham os instrumentos apropriados para a vida nas brenhas espinhentas dos sertões nem as ferramentas que cuspiriam fogo contra os inimigos – o bando de Lampião -, então decidiram logo que a primeira a se fazer era roubar dos próprios familiares e conhecidos as roupas de couro e as armas.
Depois do roubo, os cangacistas se tornaram verdadeiramente criminosos, perseguidos, e tiveram que adentrar nas matas para fugir do cerco policial. Ficaram mais de mês na caatinga sem encontrar o bando inimigo de cangaceiros, mas por outro lado também correndo desesperadamente para fugir do encalço da volante, que era como se denominava a polícia que caçava bandidos nas matas.
De repente, por trás de uma montanha de moita fechada, a volante deu o disparo de aviso para que se entregassem, pois estavam todos cercados e qualquer um que fizesse menção de tocar na arma morreria. Após o episódio com tanto sucesso, pois achava que tinha rendido todo o bando de Lampião, o chefe da volante já sonhava com os louros que receberia. Até reconheceu um dos cangacistas como sendo o troféu maior, o verdadeiro Capitão.
Que Lampião que nada. Mas o danado, entrincheirado por perto com o seu bando, observou tudo na mansidão. Esperou de tocaia numa curva de estrada onde passariam volante e prisioneiros, e assim que se aproximaram o Capitão ordenou o avanço. Num instante, os cangaceiros surpreenderam todo mundo e o que se viu em seguida foi uma danação de poeira levantando, pé batendo na bunda, gente gritando por mamãe, pedindo socorro aos anjos do ceu.
E da carreira que deram diz que até hoje não pararam. E outro dia um loroteiro teve a coragem de contar que tinha visto um bando de cangacistas correndo nuzinho da silva pela estrada. Vai-te pra lá mentiroso!




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

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