SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 22 de setembro de 2019

HISTÓRIAS DO MEU LUGAR



*Rangel Alves da Costa


Poço Redondo, meu sertão querido, o seu álbum e suas molduras ainda vivem em mim como imagens eternizadas no coração. Por isso tanto me lembro, tanto recordo, tanto busco nas nostalgias suas feições mais singelas.
Ainda me lembro da tábua de pirulitos de mel de Dona Luisinha, do arroz-doce de Baíta ao entardecer, de Maria do Piau aparecendo na esquina com sua piaba salgada em cesto na cabeça. Mãeta em sua calçada dando a benção a quem passasse e pedisse a proteção. Seu João Retratista chegando de Pão de Açúcar e armando seu tripé perante aquele que desejasse uma fotografia como recordação. 
Nas proximidades da Festa de Agosto, Manezinho Tem-tem, famoso engraxate daqueles idos, atravessava o rio para fazer verdadeiros milagres em sapatos tortos, tronchos, de muito caminho andado. Delino vendendo banana, Delino com o seu bar, e das três portas adentro o forró comendo no centro.
Certa feita, num dia de forró de Festa de Agosto, Heraldo Carvalho da Serra Negra entrou pelas portas do bar com cavalo e tudo. Quem reclamava? Quantos sanfoneiros bons já animaram aquele passado poço-redondense: Zé Aleixo, Zé Goití, Dudu, Agenor da Barra, Dida e tantos outros. Zelito era a voz do forró de Zé Aleixo. Miltinho abria as portas de seu bar para resgatar aquele forró pé-de-serra que já descambava para o esquecimento.
Camisa chique de volta-ao-mundo, calça boca-de-sino, brilhantina no cabelo e nos bolsos um pente e um espelhinho ovalado. Ali na Praça da Matriz, bem defronte à casa de Tia Cordélia, a marinete de Seu Vavá parando depois de mais de cinco horas de viagem por estrada de chão, e todo o sacrifício para chegar ao sertão. E, tantas vezes, para fazer retornar sertanejos depois de uma estadia no sul.
Gente passando menos de ano pelo Rio de Janeiro e São Paulo e logo chegando com falar diferente, num carioquês ou paulistês desavergonhado que só. Trazia sempre uma radiola e discos de Maurício Reis, Odair José e Fernando Mendes. Depois era uma farra, mas só até o dinheiro ir minguando e o sertanejo se virar como podia para se manter. Tudo isso ainda possui presença forte na minha memória.
As calçadas do entardecer tomadas pelas senhoras e suas almofadas de renda de bilros. Araci, Maria de Iaiá, Dom, Clotilde, uma irmandade que era só maestria no tracejar dos bilros fazendo encantamentos sobre as marcações das almofadas. No barraco de Zé de Lola a pinga boa. Não havia quem não se encantasse com o doce de leite de bolas do Bar de Noélia. Também local onde a vaqueirama se juntava para a farra e o aboio.
Quando Zé Ferreira, Ademor e tantos outros chegavam por ali, então tudo parecia cheirando a terra e a gado, mas principalmente a aboio e toada, e tudo em meio a uma cervejada sem fim. Pelas ruas, o que sempre há em toda cidade interiorana: os doidos, desajuizados, ou aluados, como melhor se dizia. Zé Gabão, Expedito e até Tonho Bioto, quando a lua desandava o seu juízo. Tonho Doido e Nalvinha viviam na paz de seus poucos juízos, sendo amigos de todo mundo.
Pano de roupa de festa, florido, bonito, tudo era encontrado com a irmandade Izabel Marques, Mãezinha e Conceição. Uma vez por ano, eis que a cidade parecia ser outra. Além da roupa nova para a Festa de Agosto, também as fachadas das casas recebiam pintura nova. Nas calçadas, por riba de cadeiras, colchas e panos rendados ao sol. Também uma forma de mostrar as posses daquela família.
Um dia inesquecível foi a chegada da televisão na cidade. O colorido era apenas numa tela de plástico de diversas cores colocada sobre o chuvisquento preto e branco. Parecia coisa do outro mundo! Mas nada igual ao Cassimicoco de Julinho e as serenatas ao som da sanfona de Zé Goiti pelas noites enluaradas da cidade. Já perto da meia-noite a Praça do Cruzeiro parecia só de Alcino. Chegava com sua radiola e discos sertanejos e então deixava se embriagar pela lua e as estrelas de seu sertão.
Poço Redondo era um mundo assim, de viver singelo e pacato, mas de uma grandiosidade sem fim. Aquela Rua dos Vaqueiros e suas porteiras agora saudosas dos grandes homens: Abdias, Tião de Sinhá, Mané Cante, Bastião Joaquim e tantos outros. Chico de Celina ora passava esquipando em cavalo bom ora passava tangendo um carro-de-bois. Mariá juntava uma trouxa grande e seguia com as muitas roupas em direção às pedras do riachinho.
Maninho chegava junto pé do balcão e pedia uma relepada boa, não demorava muito e já estava esfuziante: “Ora, pois, pois...”. Dizia sem nada reclamar da vida. Nos anos 70, a inauguração da energia elétrica fez a noite virar dia. Galinhas, pintos e galos, confundidos com o clarão, desceram de seus poleiros e tomaram a cidade inteira, dividindo as ruas com as pessoas maravilhadas.
E eu aqui apenas com muita saudade, tendo que me contentar em abrir aqueles velhos baús para reencontrar o doce e nostálgico passado de Poço Redondo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Memorial Alcino Alves Costa, Poço Redondo, sertão sergipano





Um cantinho pra nós dois (Poesia)



Um cantinho pra nós dois


Assim como um pequeno ninho
coisa pouca ou até um pedacinho
quarto miúdo ou mesmo apertadinho
eu quero pra nós dois um cantinho

um cantinho pra nós dois
que tenha feijão com arroz
ou mistura em baião-de-dois
café batido em pilão
fervido em fogo de chão
açucarado pelo mel do coração

que seja apenas um quartinho
mas que seja nosso cantinho
que caiba nossa grandeza de amor
e um jarro antigo com bela flor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Lampião ainda não morreu



*Rangel Alves da Costa


LAMPIÃO AINDA NÃO MORREU. Isso é fato. Prometem matá-lo de vez no próximo ano, em pleno Seminário (evento que será realizado em Piranhas, nas Alagoas), em meio aos estudiosos, pesquisadores e fanáticos, como no Senado Romano: “Até tu, Brutus!”. Até agora está comprovado que o Rei do Cangaço não morreu. Estou esperando apenas que saia do ventre da mãe, vez que também ainda não nasceu. A verdade é que como andam as coisas, com todo dia surgindo um novo absurdo, Virgulino Ferreira ainda será dado à luz. E daí por diante podem matá-lo todo dia, como, aliás, vêm fazendo todo dia. Isso mesmo, todo santo dia inventam um fato novo sobre o cangaço, uma aberração, uma fantasia sem pé nem cabeça. Lampião morreu, não morreu. Morreu com um tiro, com três, com mil. Morreu envenenado, morreu baleado, nem morreu. Acreditar mais em que, em quem? Noventa por cento de mentiras, oito por cento de quase verdade, dois por cento de verdade que ninguém quer acreditar. Durma com um fantasma desses!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


sábado, 21 de setembro de 2019

O CAÇADOR



*Rangel Alves da Costa


Não é todo mundo que acredita em história de pescador ou de caçador. Dizem que é lorota boa ou simplesmente história pra boi dormir. Mas eu acredito, principalmente se o causo envolver aventuras de caçador. E quanto mais arrepiantes melhor.
Eu conheço um caçador que me conta cada uma de não acreditar ou de deixar o cabelo em pé. E assim por que suas caçadas sempre ocorrem no meio da noite e pelos caminhos sempre perigosos e medonhos da escuridão.
Mas Bastião é homem sério. Assim, prefiro acreditar a negar os relatos de suas aventuras no meio do mato, perante as tocas de pedras e tufos nos escondidos. Mas mesmo acreditando, difícil não ficar com alguma dúvida se a história contada aconteceu daquele jeito mesmo.
Segundo Bastião, caçar pelo dia, ainda que aconteçam mais coisas mirabolantes e misteriosas do que se imagina existir, não chega nem aos pés do que acontece depois da boca da noite. O caçador que entra no mato no meio da escuridão pode saber que vai encontrar de tudo, desse e doutro mundo.
Certa feita – nas palavras de Bastião -, caminhava por uma vereda em noite de breu, quando de repente tudo clareou como se fosse dia. Intrigado, já com cabelo arrepiado, olhou adiante e viu como se fosse um cemitério. Só podia ser cemitério, pois um lugar cheio de cruzes fincadas por riba de pequenos montes de terra.
Não pode ser, pensou Bastião. Aqui não há cemitério algum, disse a si mesmo. Encontrou alguma força nas pernas e deu mais alguns passos adiante. E foi quando conseguiu ler na madeira nas cruzes: O tatu que você matou, o peba que você matou, a cotia que você matou, o veado que você matou, a nambu que você matou, a onça que você matou...
E assim por diante. Acima de cada cova a cruz, o nome do bicho e a seguir “que você matou”. O que seria aquilo, pelo amor de Deus? Por que isso? Começou a se perguntar. O problema é que sabia que já tinha matado todo tipo de bicho mesmo. Mas o mais agonizante veio com o que avistou em seguida.
Lá no canto do tal cemitério de bichos, numa cova parecendo maior e com mais quantidade de terra por riba, avistou, conseguiu ler e quase desmaia. Lá estava escrito na cruz: “Aqui é pra você”. Passou a mão pelos olhos, leu novamente e não teve dúvidas do que estava escrito: “Aqui é pra você”.
Tremendo igual vara verde, já sem se encontrar em si mesmo, só lembra que se preparou para fugir dali em correria. Já aprumando o passo na maior velocidade que conseguiu encontrar, foi quando ouviu um barulho e viu quando os bichos começavam a sair de suas covas.
“Ai minha Nossa Senhora do Caçador. Ai minha Nossa Senhora da Cotia e do Guaxinim. Ai minha Nossa Senhora da Onça Pintada. Ai minha Nossa Senhora do Mato, me salve minha Nossa Senhora!...”. Ia gritando enquanto corria desembestado, na certeza maior do mundo de estar sendo seguido pelos bichos mortos.
Não lembra como, só sabe que caiu e ficou desacordado. Acordou já com o dia clareando e com uma caipora bem parada em sua frente. Abriu mais os olhos e viu que o ser encantado das matas e fumador sem igual, estava com feixe de cipós na mão, e em posição ameaçadora. E a ameaça ganhou vida quando ouviu da caipora: “Ei, seu safado, trouxe meu rolo de fumo?”.
Não havia levado. Havia esquecido o fumo daquela vez. Então já sabia o que iria lhe acontecer em seguida. Tomou uma surra tão grande da caipora que chegou em casa mais parecendo um molambo cheio de lanho e dor. Passou uma semana sem poder levantar da cama. E sonhando com aquela cruz: “Aqui é pra você”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Vida ribeirinha...





Venha (Poesia)



Venha


Se você vier
a flor do jardim será tua
o horizonte na janela será teu
o azul do firmamento será teu
em tuas mãos entregarei um livro
de poesias só com o nome teu

mas se você não chegar
eu irei até onde você estiver
para levar a flor e o horizonte
para levar o firmamento e o livro
e dizer do meu imenso amor por você.

Rangel Alves da Costa