SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 22 de fevereiro de 2020

HOJE FOI DIA DE MATO



*Rangel Alves da Costa


Hoje, em pleno sábado de carnaval, eu preferi tornar o meu dia num dia de mato. Quer dizer, ao invés de estar na cidade acompanhando as folias carnavalescas, peguei a estrada e fui conhecer outros sertões do meu sertão.
Ao amanhecer e o itinerário já estava certo. E o destino era uma comunidade chamada Garrote do Emeliano – ainda que não seja formada por habitações conjuntas, mas em propriedades ladeando umas às outras.
O Garrote do Emeliano, assim denominado em homenagem a Emeliano Vito da Silva, um senhor de profunda religiosidade que possuía moradia, está localizado nas proximidades do povoado Santa Rosa do Ermírio, no município de Poço Redondo, sertão sergipano do São Francisco.
Nesta região, minha intenção primeira – como de fato aconteceu – era visitar o amigo Marcos Moreira, um exímio artesão que me despertou curiosidade pelas miniaturas de carros antigos que faz em madeira. Uma perfeição.
A família de Marcos é maravilhosa, animada, muito acolhedora. Seu pai, um misto de criador e agricultor, parece viver e respirar sua terra, seu rebanho, suas criações. Sua mãe, que depois revelou sua maestria artística em tecidos, outra pessoa maravilhosa. Assim também com sua cunhada e outro senhor que ali faz moradia.
Interessantes também os três sobrinhos de Marcos, o pequenino Fael, e seus irmãos Emanuel e Larissa. Que meninos ativos, brincalhões, conversadores, nos seus moldes de todo menino que se expões em plenitude perante sua idade. E falavam, e explicavam, mostravam coisas interessantes pelos arredores. Três amores de crianças.
A arte produzida por Marcos é de uma beleza sem igual, coisa mesmo de quem tem muito cuidado e paciência para trabalhar a madeira e a tudo transformar em miniaturas de ônibus, tratores, carros-pipas, caminhões, caminhonetes, uma gama imensa de veículos, principalmente antigos.
De sabor sem igual o almoço servido após o meio-dia. Galinha de capoeira, macarrão, arroz, feijão e, como sobremesa, mel de abelha legítimo e ali mesmo produzido e umbuzada. Uma panelada de umbuzada, feita no capricho, que quanto mais era bebida mais se tinha vontade de colocar mais. Meu gosto era tanto que a mãe de Marcos compreendeu meu apetite pela iguaria sertaneja e me presenteou com uma vasilha cheia.
Depois da despedida de tão proveitosa visita, já na estrada resolvemos fazer outras visitas pelos arredores. Seguimos, então, em direção a casa de Dona Guiomar Vito. Esta senhora quase sexagenária é uma das matriarcas de uma importante família dos sertões de Poço Redondo: a Família Vito.
A Família Vito, passando de geração a geração, perpetua diversas feições da cultura sertaneja, pois desde os tempos antigos que preservam a arte dos pífanos, do aboio e da toada, dos folguedos e de diversas tradições. Dona Guiomar Vito ainda hoje é reconhecida pelos seus dotes no samba-de-doce, tanto como emboladeira (cantora de coco) como dançante.
Encontramos Dona Guiomar ao descanso da tarde, mas assim que chamada em seu quarto, logo surgiu alegre e sorridente. O peso da idade mostra suas marcas em Dona Guiomar, pois tem dificuldades para ouvir e também enxergar, além de caminhar quase sempre com bengala ou amparada por parente.
Perante Dona Guiomar, apresentei-me como filho de Alcino e logo vi nascer um sorriso na face. Relembrou meu pai e minha mãe e daí em diante pareceu mais encorajada para falar. Perguntada sobre os seus dotes no samba-de-coco, disse que naquela idade já não fazia mais nada. Mas para nossa surpresa, a velha matriarca logo começou uma cantoria de indescritível beleza. E cantou embolada como se estivesse numa roda de samba. Que força persiste e resiste nesta mulher!
O último destino foi uma visita a velha casa daquele que dá nome ao local: Emeliano. A velha moradia, no barro batido, ainda está de pé. Seu filho Antônio abriu suas portas e adentramos num mundo de religiosidade tão antiga como a própria fé. Retratos antigos pelas paredes, imagens de Padre Cícero e Frei Damião, objetos do passado, raízes ainda preservadas pela família.
Assim, um dia de mato, mas também de história, de arte, de cultura, de religiosidade e tradições.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Um menininho sertanejo




Como sopro de vento (Poesia)



Como sopro de vento


O vento sopro
as folhas esvoaçam
as velhas cartas
retornam ao olhar

assim também
com o amor
que persiste
em voltar

a saudade sopra
o desejo esvoaça
as asas do amor
vão buscar seu ninho.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – reencontrar



*Rangel Alves da Costa


Ontem reencontrei uma pessoa que admiro muito, que gosto muito. Não quero entrar no mérito do que nos fez distanciados. As pessoas têm desavenças, se desgostam, se distanciam e, ainda que não fosse o nosso caso, ainda assim estávamos ausentes demais um do outro. Mas reencontrar essa pessoa foi muito bom. Conversamos pouco, tivemos pouco tempo de diálogo, mas pudemos conversar o básico para muitas recordações do passado. Não sei quando será o nosso próximo encontro, ainda que não seja difícil pela pouca distância, mas espero que seja breve, de modo que novamente nossas memórias e afinidades voltem novamente à gaveta cheia de traças do tempo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA



*Rangel Alves da Costa


Quem possui sentimento de humildade, dificilmente estará apegado a bens ou coisas materiais. O ter significa apenas uma necessidade, não um luxo ou meio de ostentação.
Há pessoas, contudo, que forjam o ter como forma de demonstração de felicidade, de poder, de diferenciamento social. Mas aí as aparências servindo apenas para esconder os reais sentimentos.
E assim por que não há sorriso bonito sendo forjado, não há feição tomada de contentamento se o corpo e a alma estão apreensivos e descontentes, não há verdadeiro viver se a vida foi construída ou está sendo mantida sobre castelos de areia.
Somente é verdadeira a felicidade espontânea, nascida da conquista ou do reconhecimento de cada um de suas limitações. E para ser ato de normalidade, sem repentinos altos e baixos, o sentido da felicidade deve estar alicerçado na real valorização que cada um faz de si mesmo.
Ora, quando mascarada ou mantida em fingimento, a felicidade acaba se tornando um fardo a ser carregado. É possível mascará-la sempre? Nunca. Sorrisos dourados não significam nada. Se o coração não está sorridente e confortado, de nada adianta um rosto aberto e mãos brilhando de diamantes.
Carro de luxo não traz felicidade, anéis dourados não trazem felicidade, casarão de moradia não felicidade, ostentar que possui muito dinheiro e outras riquezas não traz felicidade.
Será que pode ser feliz aquele pobre casal que vive embrenhado nos cafundós do sertão? Será que traz consigo a felicidade aquela mocinha de chinelo barato no pé e vestido de chita? Será que encontra motivos de felicidades aquele rapazinho que sabe que tem pouco e por isso não vai além do que tem?
Sim. Ninguém vai ao supermercado comprar dois pacotes de felicidade, ninguém entra num banco para sacar um milhão de felicidades, ninguém entra numa loja chique para se vestir e revestir de felicidade. A felicidade não se compra.
Repita-se: a felicidade não se compra. A felicidade é como uma comunhão de aceitação de si mesmo com a negação daquilo que constantemente lhe é exposto para ser diferente. A felicidade é uma junção de humildade, de sabedoria, de nobreza da alma e de comedimento.
A felicidade é uma conquista que não precisa ser plantada para ser colhida, pois já florescendo dia após dia. A felicidade é ato de coração, de olhar, de palavra. Todo mundo conhece quem finge, quem mente, quem forja ser o que não é.
Muitas vezes, parece até um peso ruim e negativo estar ao lado de quem não é verdadeiro por viver revestido de ilusões de ser o que não é ou ter o que não possui. Outras vezes, uma pessoa carente se aproxima e é como um véu de alegria e de leveza boa se espalhe por todo lugar.
Ora, traz o bem no coração, chega com feição verdadeira, não traz consigo nada além do que o ser em si mesmo. Daí parecer ornada de luz, iluminada por dentro e por fora. E tornando o instante um prazeroso momento na vida.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Na magia do Velho Chico Sertanejo!




Voos e luas (Poesia)



Voos e luas


O dia passa
e a noite vem
meu coração
tão passarinho
voa também

asas para amar
para voar
ir mais além
subir ao alto
ser um luar

e o brilho
da lua minha
no meu olhar
fazem da noite
versos de amar.

Rangel Alves da Costa