EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 55
Rangel Alves da Costa*
A partir das palavras do rapaz, que felizmente conseguiu assegurar um quilo de carne para sua família, Lucas pôde constatar que as mãos do prefeito podiam ser vistas em quase tudo aquilo que estava ocorrendo nos últimos dias. Quem usa do poder para ameaçar verbalmente bem poderia mandar fazer muito pior por detrás. Seria a lenta consumação de suas pretensões. Mas que o dito administrador municipal continuasse agindo assim, porém ele próprio, Lucas, não se curvaria nem um centímetro às propostas indecentes que lhe foram dirigidas.
Os últimos fatos chegaram aos ouvidos do Padre Josefo e este decidiu fazer uma visita ao amigo quando o sol estivesse menos cheio de vida, sapequento e calorento demais. Pessoa naquela idade não podia se submeter aos rigores do ambiente. E assim, lá pelas quatro horas da tarde chegou caminhando calma e pacientemente ao local, recebido por Lucas que já havia se adiantado ao encontro do religioso.
Por mais de vinte minutos o sacerdote se pôs a ouvir o amigo relatar suas desventuras. Daí em diante começou a fazer suas considerações:
- Com a licença divina, em verdade em verdade vos digo que o homem está sendo tentado como Cristo o foi no deserto da Judéia. Primeiro o inimigo procura oferecer demais para ver até onde vai a fraqueza do outro, depois começa a usar de todas as artimanhas e artifícios, agindo pontualmente no espírito, que é para ver se o outro cede diante da carência e da necessidade. Por fim, quando sabe que não será fácil e até impossível ludibriar, passa a utilizar de armas mais perigosas. Neste aspecto é onde mora o perigo, como dizem comumente. Cristo foi tentado e não prostrou nem se submeteu porque alçado à condição de um ser superior, hábil a combater o mal e expulsá-lo, destruí-lo, porém com a certeza de que o mal nunca é destruído completamente. Mas ali, amigo Lucas, era outra situação. Estamos no mundo dos frágeis onde o mal disputa lado a lado com o bem, onde o mal age assustadoramente e o bem se defende pacífica e silenciosamente. Daí esse poder tão grande que o mal possui em assustar, em querer dobrar à força o outro, precisamente porque o bem não tem cara nem usa armas, não chega derrubando nem destruindo, matando e seguindo adiante para praticar outras maldades. E chega um momento, amigo Lucas, porque o mal está se prevalecendo demais de determinadas situações, raivoso porque o bem não chama para o combate em campo aberto, que intercessão superior se torna necessária. E foi isto que ocorreu com você, pois os mensageiros divinos somente se mostram, mesmo que quase invisivelmente, à luz do dia, quando vem para mostrar à pessoa que combate em nome do bem, que é o seu caso, que não está sozinho, mas sim protegido por forças superiores...
- Mas então, tudo o que está ocorrendo não é uma junção de situações seqüenciadas para tentar me fragilizar, mas uma conspiração maior para me destruir? – Perguntou o apreensivo Lucas.
- Exatamente. Nada disso é acaso, uma situação solta, ora aqui ora ali, mas sim um todo agindo em junção. O que fizeram há alguns dias atrás está no mesmo passo do que fizeram ontem e poderão fazer amanhã. Na minha humilde opinião você deveria contra-atacar, pois este é o momento do contra-ataque. E como você poderá fazer isto? Simplesmente fazendo o que está protelando fazer, que é dizer ao seu coração que foi escolhido para ser, como tantos outros, semeador dos grãos da bondade divina sobre a terra. Como eu já havia dito, não significa com isto que você se torne padre, se entregue à vida religiosa, se enclausure para aprender sempre mais as lições divinas. Nada disso. Você continuará sendo o Lucas que é neste momento, sem mudança alguma. O que vai mudar em sua vida, isto sim, é a consciência de que tem um compromisso divino aqui na terra. Quando você assina esse contrato com Deus no seu coração irá se confirmar ainda mais o que já vem ocorrendo, que são os anjos para proteger e guiar ainda mais e as boas armas divinas para continuar cortando as raízes do inimigo. Apenas diga sim ao seu coração e será ouvido, e será reconhecido como um dos que carregam a cruz, e será ainda mais grato aos olhos desse nosso bom Deus que já te olha com tanta gratidão.
Após o verdadeiro sermão do Padre Josefo, Lucas olhou nos olhos do amigo e disse:
- Ora, não vou dizer nada ao coração, pois já falo com o espírito e o corpo inteiro, reconheço na mente e nas minhas ações. Por isso o coração já ouviu e já sabe como sou...
E o sacerdote imediatamente interrompeu:
- Sei disso também. Contudo, por mais que aja na maior justeza e benignidade do homem, o coração sempre sorri quando você abre os braços para ele e diz: Há em ti coração, o pulsar de um homem que não se pertence senão a Deus!
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sábado, 24 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
SILÊNCIO COVARDE E PERIGOSO (Crônica)
SILÊNCIO COVARDE E PERIGOSO
Rangel Alves da Costa*
Mesmo estando próximo ou até ao lado, nem sempre o outro ouve os sons emitidos por alguém que sofre. As manifestações sensoriais que vão se transformando em sons até o alcançar o ápice no grito desesperado, sempre nasce do silêncio. É no silêncio, pois, que está a raiz de todo sofrimento.
O silêncio nunca foi tão inocente como sempre pretendeu demonstrar. Muito menos ele é a mudez absoluta, é a total ou relativa ausência de sons, é a palavra muda, a expressão labial que não deixa falar, a boca fechada ou a voz que preferiu se esconder para não dizer verdades. Que imparcialidade que nada, pois o silêncio é muito mais perigoso do que se imagina!
O silêncio é estrategista,vai calma e pausadamente planejando ações que mais tarde nem mesmo o silencioso, o que por enquanto não diz nada, poderá conter, vez que não sinaliza o que tenciona fazer nem diz quais as armas que utilizará para conseguir seus sinistros e abomináveis intentos.
Não é à toa que quem cala consente; que o silêncio é vulcão prestes a explodir; depõe ao seu modo covarde e frio contra todos aqueles que precisam que negue uma acusação. E por que o marginal tem o direito constitucional de ficar em silêncio? Porque nele estão adormecidas e bem guardadas as bestialidades e as desumanidades da vida. E por que a pessoa diz que vai falar senão vai explodir? Ora, porque o silêncio está enlouquecido para agir e dizer todos os absurdos a um só tempo.
É, pois, do silêncio que nasce o sofrimento. Ele escolhe o terreno, revira a terra, afofa o chão, espalha a semente e o adubo, revolve novamente a terra e rega, irriga ou faz chover, traz o sol no tempo e na quantidade certa, espanta os bichos e os insetos, arranca com os dentes as ervas daninhas, faz o vento soprar mais leve e faz surgir nas noites as temperaturas adequadas, e tudo para que o sofrimento vá tendo o seu ciclo de nascimento e crescimento na maior perfeição.
Assim, o silêncio planta e colhe o sofrimento para depois se manifestar na palavra, no gemido, nas dores expressadas e finalmente no grito. O grito é o êxtase, o orgasmo, a realização do silêncio. O grito é o contentamento maior e toda a finalidade do silêncio. Como a água que silenciosamente vai destruindo o rochedo, assim são as asas do silêncio até que alce o voo e o mundo inteiro e os céus ouçam que um lancinante grito de dor está presente em alguém.
O grito, essa coisa medonha, terrível e assustadora que todos temem, não é quase nada em comparação com o silêncio. Este sim, é perigoso e verdadeiramente cruel. Frases existem que dizem muito bem sobre isso: "Silencioso e quieto daquele jeito deve estar aprontado alguma"; "Está muito silêncio para estar tudo bem"; "Não confie no silêncio da noite"; "O furação permaneceu em silêncio por vinte anos, e de repente..."; "Chegou ao tribunal inocente, mas assim que saiu do silêncio se condenou"; "Todo mundo ouve quando o silêncio está gritando". E muitas outras situações serviriam para ilustrar essa coisa falsa e friamente abjeta que é o silêncio.
Como já foi dito, perto do silêncio o grito é criança, um pobre coitado, um penalizado sem culpa nenhuma, uma coisa que não faz mal a ninguém a não ser pelo barulho que faz. Para se ter uma ideia, basta um grito e tudo se cala e morre. Mas quando tempo dura o silêncio até se transformar em palavra e chegar ao grito propriamente dito? Isso pode levar uma eternidade, mas sempre com a expectativa de sofrimento e dor.
Numa síntese, o grito sempre foi e continua sendo vítima do silêncio, que arma todas as armadilhas e arapucas na vida para depois posar de bom moço nos gestos labiais de alguém que nem sabe com quem está lidando. O pior é que o grito é vítima que morre sem poder se defender, pois nem tem tempo para pensar naquele que vem tramando contra ele durante a vida inteira.
E então, o silêncio covarde vem, silenciosamente ataca e de repente só se ouve um grito. E tudo acabou. Morreu o grito e da morte renasce o silêncio para matar novamente.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Mesmo estando próximo ou até ao lado, nem sempre o outro ouve os sons emitidos por alguém que sofre. As manifestações sensoriais que vão se transformando em sons até o alcançar o ápice no grito desesperado, sempre nasce do silêncio. É no silêncio, pois, que está a raiz de todo sofrimento.
O silêncio nunca foi tão inocente como sempre pretendeu demonstrar. Muito menos ele é a mudez absoluta, é a total ou relativa ausência de sons, é a palavra muda, a expressão labial que não deixa falar, a boca fechada ou a voz que preferiu se esconder para não dizer verdades. Que imparcialidade que nada, pois o silêncio é muito mais perigoso do que se imagina!
O silêncio é estrategista,vai calma e pausadamente planejando ações que mais tarde nem mesmo o silencioso, o que por enquanto não diz nada, poderá conter, vez que não sinaliza o que tenciona fazer nem diz quais as armas que utilizará para conseguir seus sinistros e abomináveis intentos.
Não é à toa que quem cala consente; que o silêncio é vulcão prestes a explodir; depõe ao seu modo covarde e frio contra todos aqueles que precisam que negue uma acusação. E por que o marginal tem o direito constitucional de ficar em silêncio? Porque nele estão adormecidas e bem guardadas as bestialidades e as desumanidades da vida. E por que a pessoa diz que vai falar senão vai explodir? Ora, porque o silêncio está enlouquecido para agir e dizer todos os absurdos a um só tempo.
É, pois, do silêncio que nasce o sofrimento. Ele escolhe o terreno, revira a terra, afofa o chão, espalha a semente e o adubo, revolve novamente a terra e rega, irriga ou faz chover, traz o sol no tempo e na quantidade certa, espanta os bichos e os insetos, arranca com os dentes as ervas daninhas, faz o vento soprar mais leve e faz surgir nas noites as temperaturas adequadas, e tudo para que o sofrimento vá tendo o seu ciclo de nascimento e crescimento na maior perfeição.
Assim, o silêncio planta e colhe o sofrimento para depois se manifestar na palavra, no gemido, nas dores expressadas e finalmente no grito. O grito é o êxtase, o orgasmo, a realização do silêncio. O grito é o contentamento maior e toda a finalidade do silêncio. Como a água que silenciosamente vai destruindo o rochedo, assim são as asas do silêncio até que alce o voo e o mundo inteiro e os céus ouçam que um lancinante grito de dor está presente em alguém.
O grito, essa coisa medonha, terrível e assustadora que todos temem, não é quase nada em comparação com o silêncio. Este sim, é perigoso e verdadeiramente cruel. Frases existem que dizem muito bem sobre isso: "Silencioso e quieto daquele jeito deve estar aprontado alguma"; "Está muito silêncio para estar tudo bem"; "Não confie no silêncio da noite"; "O furação permaneceu em silêncio por vinte anos, e de repente..."; "Chegou ao tribunal inocente, mas assim que saiu do silêncio se condenou"; "Todo mundo ouve quando o silêncio está gritando". E muitas outras situações serviriam para ilustrar essa coisa falsa e friamente abjeta que é o silêncio.
Como já foi dito, perto do silêncio o grito é criança, um pobre coitado, um penalizado sem culpa nenhuma, uma coisa que não faz mal a ninguém a não ser pelo barulho que faz. Para se ter uma ideia, basta um grito e tudo se cala e morre. Mas quando tempo dura o silêncio até se transformar em palavra e chegar ao grito propriamente dito? Isso pode levar uma eternidade, mas sempre com a expectativa de sofrimento e dor.
Numa síntese, o grito sempre foi e continua sendo vítima do silêncio, que arma todas as armadilhas e arapucas na vida para depois posar de bom moço nos gestos labiais de alguém que nem sabe com quem está lidando. O pior é que o grito é vítima que morre sem poder se defender, pois nem tem tempo para pensar naquele que vem tramando contra ele durante a vida inteira.
E então, o silêncio covarde vem, silenciosamente ataca e de repente só se ouve um grito. E tudo acabou. Morreu o grito e da morte renasce o silêncio para matar novamente.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Chore não lua minha... (Poesia)
Chore não lua minha...
Mentira do tempo
essas horas inventam
que beijei a manhã
que abracei a tarde
que amei a nuvem
chore não lua minha...
É intriga do sol
manda a mentira dizer
que me escondi na sombra
que deitei ao lado da relva
que dei uma flor ao jardim
que faço você chorar
chore não lua minha...
Você é minha mulher
minha namorada e amante
e mesmo que fosse lágrima
diria chore não lua minha
pois não é só lua bonita
clareando o meu viver
mas é lua que é lua minha...
Rangel Alves da Costa
Mentira do tempo
essas horas inventam
que beijei a manhã
que abracei a tarde
que amei a nuvem
chore não lua minha...
É intriga do sol
manda a mentira dizer
que me escondi na sombra
que deitei ao lado da relva
que dei uma flor ao jardim
que faço você chorar
chore não lua minha...
Você é minha mulher
minha namorada e amante
e mesmo que fosse lágrima
diria chore não lua minha
pois não é só lua bonita
clareando o meu viver
mas é lua que é lua minha...
Rangel Alves da Costa
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 54
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 54
Rangel Alves da Costa*
Todas as vezes que os mistérios surgem diante do meu olhar, não mais indago sobre a verdade de suas existências, apenas acredito no bem que trazem consigo. Tal era o pensamento de Lucas.
Mas a verdade é que um anjo surgiu em plena luz do dia, e até perguntaria ao Padre Josefo se isto é normal ou se por trás da aparição está algo sendo dito. Não restava nenhuma dúvida que eles estão por todos os lugares a todo instante, ao lado das pessoas protegidas e pairando no ar, em festas ou zelando cuidadosamente quando as coisas que têm de proteger estão ameaçadas. Contudo, a manifestação de um anjo embaixo do sol era coisa estranha.
Mas um anjo apareceu em plena luz do dia e Lucas viu e logo recordou das palavras bíblicas: "O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia";“Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei"; "Meu Deus enviou seu anjo e fechou a boca dos leões; eles não me fizeram mal algum, porque a seus olhos eu era inocente e porque contra ti também, ó rei, não cometi falta alguma"; "O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem, e os salva."; "o anjo que me guardou de todo o mal, abençoe estes meninos! Seja perpetuado neles o meu nome"; "O anjo do Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: O Senhor está contigo, valente guerreiro!"; "Veio o anjo do Senhor uma segunda vez, tocou-o e disse: Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer"; "em todas as suas aflições. Não era um mensageiro nem um anjo, mas sua própria Face que os salvava. No seu amor e na sua ternura ele mesmo os livrava do perigo"; "Mas o anjo disse-lhes: A paz seja convosco: não temais"; "Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los".
Protegido estava, mas até quando? Depois sentiu quanto desnecessária foi fazer tal indagação para si mesmo, pois tinha plena consciência que os anjos sempre estão ao lado e protegendo o homem, restando somente que este seja o anjo maior de si mesmo e saiba que não há armadura ou fortaleza que possa guardar aquele que se desnorteia dos seus caminhos porque assim deseja e deixa de cumprir o seu pacto com Deus sobre a terra, com base nos seus ensinamentos.
Estava ainda fazendo festa no pensamento quando um carro da prefeitura parou bem ao seu lado.
- Bom dia, o senhor chama-se Lucas não é mesmo? Somos da prefeitura e foram até lá dizer que aqui está havendo abate e comércio ilegal de carne de gado, é verdade? O senhor tem autorização da prefeitura? O local onde faz o abate é adequado, possui higiene, está livre de moscas e outros insetos? Está pagando as taxas de comercialização à prefeitura? Onde está o alvará ou a licença para abater e comercializar animais? Vamos até o abatedouro, onde fica?" – Lia o rapaz num questionário.
Perguntas e mais perguntas sem pé nem cabeça, pensava Lucas, com vontade de gargalhar daquela cena toda. O pior é que conhecia o dito fiscal desde criança, agora parecendo totalmente esquecido do passado por causa do cargo na prefeitura. Lembrava até o nome dele, e assim o tratou, para seu espanto e olhar envergonhado.
- Que bom revê-lo amigo Daniel, seja bem vindo ao nosso lugar. Mas não sei se poderei ajudar muito no que veio fazer aqui não, pois nada disso do que acabou de falar pode ser encontrado aqui. Em primeiro lugar porque aqui não há abatedouro clandestino nenhum e nem venda de carne de qualquer espécie. As duas reses que foram mortas aqui, ontem e hoje, não foram para o comércio, mas para o medo, pois alguém que está querendo me amedrontar simplesmente procurou atingir aquilo que era de mais inocente e sagrado, que eram os animais. Como os dois animais foram mortos de arma branca como vocês mesmo chamam, achei por bem perguntar se os moradores aqui da região queriam aproveitar a carne. E foi só isso – Relatou rapidamente.
Ainda de cabeça baixa, o fiscal tocou no ombro de Lucas e o arrastou para um local mais afastado, onde o motorista do carro não pudesse ouvir.
- Meu amigo, ganho uma miséria e sou forçado a fazer isso, tudo a mando daquele infame do prefeito, que sei muito bem que vem lhe perseguindo mas ninguém sabe bem os motivos. Tenho de me submeter a destratar até quem conheço há anos. Sei bem de quem se trata, mas tenho de fazer assim só porque ele manda o motorista vigiar se faço tudo certinho. Sei que não existe nada disso aqui, mas vou lhe pedir um favor e se puder pelo amor de Deus me ajude...
- Pode dizer rapaz, o que está precisando? – Lucas perguntou com viva curiosidade.
E de cabeça baixa, olhos lacrimejantes e com a voz já tremulando, o rapaz disse:
- Se sobrou algum pedacinho de carne, pelo amor do Senhor me ajude, guarde aí que depois venho buscar pra levar pra casa. Há dois dias prometi à mulher e o menino que levaria um pedacinho de carne pra casa e até hoje não pude...
continua...
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com.
Rangel Alves da Costa*
Todas as vezes que os mistérios surgem diante do meu olhar, não mais indago sobre a verdade de suas existências, apenas acredito no bem que trazem consigo. Tal era o pensamento de Lucas.
Mas a verdade é que um anjo surgiu em plena luz do dia, e até perguntaria ao Padre Josefo se isto é normal ou se por trás da aparição está algo sendo dito. Não restava nenhuma dúvida que eles estão por todos os lugares a todo instante, ao lado das pessoas protegidas e pairando no ar, em festas ou zelando cuidadosamente quando as coisas que têm de proteger estão ameaçadas. Contudo, a manifestação de um anjo embaixo do sol era coisa estranha.
Mas um anjo apareceu em plena luz do dia e Lucas viu e logo recordou das palavras bíblicas: "O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia";“Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei"; "Meu Deus enviou seu anjo e fechou a boca dos leões; eles não me fizeram mal algum, porque a seus olhos eu era inocente e porque contra ti também, ó rei, não cometi falta alguma"; "O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem, e os salva."; "o anjo que me guardou de todo o mal, abençoe estes meninos! Seja perpetuado neles o meu nome"; "O anjo do Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: O Senhor está contigo, valente guerreiro!"; "Veio o anjo do Senhor uma segunda vez, tocou-o e disse: Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer"; "em todas as suas aflições. Não era um mensageiro nem um anjo, mas sua própria Face que os salvava. No seu amor e na sua ternura ele mesmo os livrava do perigo"; "Mas o anjo disse-lhes: A paz seja convosco: não temais"; "Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los".
Protegido estava, mas até quando? Depois sentiu quanto desnecessária foi fazer tal indagação para si mesmo, pois tinha plena consciência que os anjos sempre estão ao lado e protegendo o homem, restando somente que este seja o anjo maior de si mesmo e saiba que não há armadura ou fortaleza que possa guardar aquele que se desnorteia dos seus caminhos porque assim deseja e deixa de cumprir o seu pacto com Deus sobre a terra, com base nos seus ensinamentos.
Estava ainda fazendo festa no pensamento quando um carro da prefeitura parou bem ao seu lado.
- Bom dia, o senhor chama-se Lucas não é mesmo? Somos da prefeitura e foram até lá dizer que aqui está havendo abate e comércio ilegal de carne de gado, é verdade? O senhor tem autorização da prefeitura? O local onde faz o abate é adequado, possui higiene, está livre de moscas e outros insetos? Está pagando as taxas de comercialização à prefeitura? Onde está o alvará ou a licença para abater e comercializar animais? Vamos até o abatedouro, onde fica?" – Lia o rapaz num questionário.
Perguntas e mais perguntas sem pé nem cabeça, pensava Lucas, com vontade de gargalhar daquela cena toda. O pior é que conhecia o dito fiscal desde criança, agora parecendo totalmente esquecido do passado por causa do cargo na prefeitura. Lembrava até o nome dele, e assim o tratou, para seu espanto e olhar envergonhado.
- Que bom revê-lo amigo Daniel, seja bem vindo ao nosso lugar. Mas não sei se poderei ajudar muito no que veio fazer aqui não, pois nada disso do que acabou de falar pode ser encontrado aqui. Em primeiro lugar porque aqui não há abatedouro clandestino nenhum e nem venda de carne de qualquer espécie. As duas reses que foram mortas aqui, ontem e hoje, não foram para o comércio, mas para o medo, pois alguém que está querendo me amedrontar simplesmente procurou atingir aquilo que era de mais inocente e sagrado, que eram os animais. Como os dois animais foram mortos de arma branca como vocês mesmo chamam, achei por bem perguntar se os moradores aqui da região queriam aproveitar a carne. E foi só isso – Relatou rapidamente.
Ainda de cabeça baixa, o fiscal tocou no ombro de Lucas e o arrastou para um local mais afastado, onde o motorista do carro não pudesse ouvir.
- Meu amigo, ganho uma miséria e sou forçado a fazer isso, tudo a mando daquele infame do prefeito, que sei muito bem que vem lhe perseguindo mas ninguém sabe bem os motivos. Tenho de me submeter a destratar até quem conheço há anos. Sei bem de quem se trata, mas tenho de fazer assim só porque ele manda o motorista vigiar se faço tudo certinho. Sei que não existe nada disso aqui, mas vou lhe pedir um favor e se puder pelo amor de Deus me ajude...
- Pode dizer rapaz, o que está precisando? – Lucas perguntou com viva curiosidade.
E de cabeça baixa, olhos lacrimejantes e com a voz já tremulando, o rapaz disse:
- Se sobrou algum pedacinho de carne, pelo amor do Senhor me ajude, guarde aí que depois venho buscar pra levar pra casa. Há dois dias prometi à mulher e o menino que levaria um pedacinho de carne pra casa e até hoje não pude...
continua...
Poeta e cronista
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
SONHOS QUE VIVEM E QUE MORREM (Crônica)
SONHOS QUE VIVEM E QUE MORREM
Rangel Alves da Costa*
Buscando sempre viver melhor, o ser humano alicerça sua vida em imaginários que se existissem na realidade visível seriam como seguranças, redomas, braços que abraçam e enlaçam para livrar as pessoas das situações de perigo e conduzi-las para lugares seguros. E não somente isto, pois existem ainda planos e as possibilidades existentes somente na mente de cada um, mas se tornadas também visíveis não faltaria o melhor a ninguém e todo mundo alcançarei o desejado em segundos.
Falo de coisas inexistentes para alguns, mas que para muitos são como a própria extensão da pessoa, possuem infinito significado, são os próprios indivíduos em outras dimensões. Falo da fé, da crença, dos anjos da guarda, dos seres de luz, da devoção ao santo, da certeza protetora da existência de Deus e do seu filho, da luta motivada por forças superiores, das fantasias que se arraigam feito verdades e dos sonhos. Sonhos sim, pois o homem que vive sem sonhos não poderá jamais acordar para o melhor.
Nesse contexto da necessidade do ser humano em buscar sempre algo superior e até desconhecido para se proteger e realizar seus planos, os sonhos não surgem como entes que auxiliam o homem, mas o próprio homem procurando realizar-se naquilo que por vias terrenas se torna difícil, quase irrealizável. E daí surgirem as possibilidades de se ter tudo, fazer de tudo, mesmo que somente em pensamentos que se apiedam da luta vã e seguem por aí construindo perspectivas e criando realidades passageiras
Geralmente definem o sonho, enquanto ato pós adormecer, como a representação mental de coisas ou fatos enquanto a pessoa dorme; é uma visão ou imaginação surgida durante o sono; é a sequência de ideias vãs e incoerentes às quais o espírito se entrega; é o efeito da emancipação da alma durante o sono. Para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono; é o conjunto de imagens, lembranças ou impulsos inconscientes, geralmente distorcidos, que se experimenta durante o sono e que pode ser parcialmente memorizada.
Por outro lado, enquanto ato de sonhar de olhos abertos, o sonho é comumente visto como a utopia, imaginação sem fundamento; ideia ou ideal defendidos com paixão; visão do irrealizável; desejo que acompanha a pessoa precisamente naquilo que tem dificuldade de alcançar; ficção comparável a um sonho e a que muitas pessoas se entrega mesmo acordadas; coisa vã, fútil, transitória, sem consistência, sem alcance, sem duração; coisa vaporosa e inconsistente; visão de desejos reprimidos; recordação de coisa efêmera e que pouca impressão deixou na alma; ideia com a qual nos orgulhamos; idéia que alimentamos; pensamento dominante que seguimos com interesse ou paixão.
Os sonhos sonhados após o adormecer são sonhos eternos, pois se realizam dentro daqueles objetivos do momento, do enredo mentalizado e do seu alcance, mesmo que distorcidos e incompreendidos ou recortados pelo acordar repentino. Estes sonhos não morrem, pois podem voltar sempre com novas nuances, novas roupagens. Diferentemente dos sonhos sonhados acordados, que são desacreditados todas as vezes que as pessoas veem cada vez mais distante aquilo que queria ao seu lado. Estes são os sonhos que morrem, e são velados pela descrença, pelo desencorajamento, pela sensação de impotência e pela perda de vontade de lutar.
Assim, os sonhos acordados são imaginários que morrem porque o homem, não podendo contradizer e confrontar os sonhos surgidos no adormecer, simplesmente não se contenta com a realidade nem quer transformá-la em algo próximo de um sonho. E porque esse desejo infinito e que não se contenta com nada é um desejo inalcançável por querer demais, é que o sonho morre, se desfaz. E depois, quando ali o sonho jaz, vem a necessidade de querer viver renascendo sonhos que não voltam mais.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Buscando sempre viver melhor, o ser humano alicerça sua vida em imaginários que se existissem na realidade visível seriam como seguranças, redomas, braços que abraçam e enlaçam para livrar as pessoas das situações de perigo e conduzi-las para lugares seguros. E não somente isto, pois existem ainda planos e as possibilidades existentes somente na mente de cada um, mas se tornadas também visíveis não faltaria o melhor a ninguém e todo mundo alcançarei o desejado em segundos.
Falo de coisas inexistentes para alguns, mas que para muitos são como a própria extensão da pessoa, possuem infinito significado, são os próprios indivíduos em outras dimensões. Falo da fé, da crença, dos anjos da guarda, dos seres de luz, da devoção ao santo, da certeza protetora da existência de Deus e do seu filho, da luta motivada por forças superiores, das fantasias que se arraigam feito verdades e dos sonhos. Sonhos sim, pois o homem que vive sem sonhos não poderá jamais acordar para o melhor.
Nesse contexto da necessidade do ser humano em buscar sempre algo superior e até desconhecido para se proteger e realizar seus planos, os sonhos não surgem como entes que auxiliam o homem, mas o próprio homem procurando realizar-se naquilo que por vias terrenas se torna difícil, quase irrealizável. E daí surgirem as possibilidades de se ter tudo, fazer de tudo, mesmo que somente em pensamentos que se apiedam da luta vã e seguem por aí construindo perspectivas e criando realidades passageiras
Geralmente definem o sonho, enquanto ato pós adormecer, como a representação mental de coisas ou fatos enquanto a pessoa dorme; é uma visão ou imaginação surgida durante o sono; é a sequência de ideias vãs e incoerentes às quais o espírito se entrega; é o efeito da emancipação da alma durante o sono. Para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono; é o conjunto de imagens, lembranças ou impulsos inconscientes, geralmente distorcidos, que se experimenta durante o sono e que pode ser parcialmente memorizada.
Por outro lado, enquanto ato de sonhar de olhos abertos, o sonho é comumente visto como a utopia, imaginação sem fundamento; ideia ou ideal defendidos com paixão; visão do irrealizável; desejo que acompanha a pessoa precisamente naquilo que tem dificuldade de alcançar; ficção comparável a um sonho e a que muitas pessoas se entrega mesmo acordadas; coisa vã, fútil, transitória, sem consistência, sem alcance, sem duração; coisa vaporosa e inconsistente; visão de desejos reprimidos; recordação de coisa efêmera e que pouca impressão deixou na alma; ideia com a qual nos orgulhamos; idéia que alimentamos; pensamento dominante que seguimos com interesse ou paixão.
Os sonhos sonhados após o adormecer são sonhos eternos, pois se realizam dentro daqueles objetivos do momento, do enredo mentalizado e do seu alcance, mesmo que distorcidos e incompreendidos ou recortados pelo acordar repentino. Estes sonhos não morrem, pois podem voltar sempre com novas nuances, novas roupagens. Diferentemente dos sonhos sonhados acordados, que são desacreditados todas as vezes que as pessoas veem cada vez mais distante aquilo que queria ao seu lado. Estes são os sonhos que morrem, e são velados pela descrença, pelo desencorajamento, pela sensação de impotência e pela perda de vontade de lutar.
Assim, os sonhos acordados são imaginários que morrem porque o homem, não podendo contradizer e confrontar os sonhos surgidos no adormecer, simplesmente não se contenta com a realidade nem quer transformá-la em algo próximo de um sonho. E porque esse desejo infinito e que não se contenta com nada é um desejo inalcançável por querer demais, é que o sonho morre, se desfaz. E depois, quando ali o sonho jaz, vem a necessidade de querer viver renascendo sonhos que não voltam mais.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Amor e flor (Poesia)
Amor e flor
Ao entardecer
a flor era flor
ao anoitecer
a flor ainda era flor
noite fechada
ninguém via a flor
Assim é o amor
que nasce flor
e com o tempo
é quase flor
para ao anoitecer
chegar a dor
e nunca mais a flor
nunca mais amor
e nunca mais
a flor do amor.
Rangel Alves da Costa
Ao entardecer
a flor era flor
ao anoitecer
a flor ainda era flor
noite fechada
ninguém via a flor
Assim é o amor
que nasce flor
e com o tempo
é quase flor
para ao anoitecer
chegar a dor
e nunca mais a flor
nunca mais amor
e nunca mais
a flor do amor.
Rangel Alves da Costa
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 53
EVANGELHO SEGUNDO A SOLIDÃO – 53
Rangel Alves da Costa*
Quando se mata um animal de quem tem pouco bicho no criatório, e ainda apaga no ato uma lembrança familiar, não se diminui a riqueza já inexistente de quem não tem, mas afeta profundamente os seus valores íntimos e tende a neutralizar suas forças de reação.
O inimigo esperto e astucioso começa agindo assim, buscando diminuir as forças do outro a partir da desvalorização ou destruição do que este mais preza. Como se diz, vai chegando e se apossando e depois quer ser dono da vida e de tudo, vez que o indivíduo afetado pela perda daquilo que gosta é pessoa de corpo aberto e desarmado, fragilizado e agora refém do uso das armas que o outro queira usar. O inimigo sempre começa agindo assim, porém Lucas já sabia disso e conhecia nome e sobrenome dos inimigos. Ao menos isto, por enquanto, eles não conseguiriam, dizia firmemente a si mesmo.
Na tristeza de um a alegria de outros, pois foi como objeto de salvação que algumas famílias das mais empobrecidas dos arredores receberam seus dois quilinhos de carne do animal morto por arma branca pelo invasor. Lucas primeiro explicou a situação e as circunstâncias da morte do animal para ter a certeza se aceitariam ou não tirar o couro, fazê-lo em cortes e reparti-lo. Nenhuma objeção, nada; pelo contrário, não deu pra quem queria. E ao menos durante dois dias, quem sabe, o feijão com farinha, se houvesse, seria saboreado com um tiquinho de carne. Tiquinho de carne é luxo, é festa no olhar e na barriga desacostumada.
Estas mesmas pessoas voltariam no dia seguinte ao terreno de Lucas para tentar conseguir mais um pedaço de carne, pois quem derrubou violentamente as portas e matou o animal, resolveu voltar na madrugada e matar o segundo bicho, desta vez dentro do pequeno cercado que chamava de curral. Não se dirigiram até a casa nem a ao barracão para destruir qualquer coisa, mas foram diretamente esfaquear uma vaquinha.
Ao amanhecer bem cedinho, ouvindo incessantemente o mugir da vaquinha que ainda restava com vida, ele foi ver o que era e avistou o sangue misturado ao estrumo e o outro animal morto mais num canto. Haviam estado ali novamente, haviam destruído novamente, já estavam testando demais, já estavam dizendo o que verdadeiramente queriam, era o que podia concluir no embaralhar das ideias raivosas. Em tudo há um limite; ah! isso há, pois a frase que se quer dizer não acaba com o ponto final, mas antes disso quando a tinta acaba primeiro.
Assim que as pessoas iam saindo do local onde a vaca havia sido cuidada para ser repartida, Sr. Genésio, um velho que morava próximo e era muito amigo de seus pais, se aproximou, perguntou se podia falar um proseado de minuto e começou a dizer:
- Conhecia muito seus pais e conheço também você, menino Luca, poi vi se mijando pela casa, acumpanhei seu crescer e vejo agora um homi feito, desse que a gente pobre tem o prazer de ver, poi vingou do nosso lado e hoje é menino de estudo, sério e honrado. Purisso memo, menino Luca é qui num consigo atiná pruque tão fezeno isso, distruino o que já tem pouco. Ontem foi uma e agora outra e desse jeito num tem quem aguente. E quando os bicho acabá, menino Luca, o que quererão de fazer? Num sei quem faz isso não, mai já tem dia que venho vendo umas coisa estranha aconteceno por aqui. É gente que finge que passa e fica oiando demai pa sua casa e po barracão, é gente que vai ver se as porta tá trancada e fica forçando cuma se pá ver se tá faci de entrá. E tem outos que se escondem pelas moita e ficam zanzando de um lado a outro isperano num sei o que. E eu só veno de lá longe, poi o que num me fartou foi as vista, poi vejo tudim e bem longe. Só num sei dizê cuma é a cara de cada um, já qui num é nem doi nem treis, mai muito mai. É tudo um povo estranho, novo, rapazote, mai muito isquisito, dá pá se notar. Mai num sei pruque, mai na maioria das veiz que aparece e quere fazê argum marfeito aparece uma coisa bonita em frente da casa e do barracão e eles deixam de fazer e vão indo imbora...
- Como é essa coisa bonita que aparece seu Genésio? Por favor, me explique – Perguntou um Lucas bastante interessado na narrativa do velho amigo.
- Num sei dizer direito não, mai é mai ou meno assim: memo durante o dia, com o sol clariando e doeno nas vista, memo assim aparece uma luz e sai de dentro dela uma coisa qui a gente num sabe nem dizer o que é, poi nem é gente nem é luz, mai cuma um facho um bonito qui cumeça a soltar uns raios e adespoi vai sumino enquanto sobe pra riba. Dá inté medo, mai é a coisa mai bonita de se ver. E depoi que essa coisa vai imbora vem um vento bom e chega os bicho e as pranta parece que tão brincano. Poi é assim menino Luca...
E o Sr. Genésio seguiu com seus dois quilinhos de carne enquanto Lucas olhava para o local indicado pelo amigo e via a mesma luz há pouco descrita.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Quando se mata um animal de quem tem pouco bicho no criatório, e ainda apaga no ato uma lembrança familiar, não se diminui a riqueza já inexistente de quem não tem, mas afeta profundamente os seus valores íntimos e tende a neutralizar suas forças de reação.
O inimigo esperto e astucioso começa agindo assim, buscando diminuir as forças do outro a partir da desvalorização ou destruição do que este mais preza. Como se diz, vai chegando e se apossando e depois quer ser dono da vida e de tudo, vez que o indivíduo afetado pela perda daquilo que gosta é pessoa de corpo aberto e desarmado, fragilizado e agora refém do uso das armas que o outro queira usar. O inimigo sempre começa agindo assim, porém Lucas já sabia disso e conhecia nome e sobrenome dos inimigos. Ao menos isto, por enquanto, eles não conseguiriam, dizia firmemente a si mesmo.
Na tristeza de um a alegria de outros, pois foi como objeto de salvação que algumas famílias das mais empobrecidas dos arredores receberam seus dois quilinhos de carne do animal morto por arma branca pelo invasor. Lucas primeiro explicou a situação e as circunstâncias da morte do animal para ter a certeza se aceitariam ou não tirar o couro, fazê-lo em cortes e reparti-lo. Nenhuma objeção, nada; pelo contrário, não deu pra quem queria. E ao menos durante dois dias, quem sabe, o feijão com farinha, se houvesse, seria saboreado com um tiquinho de carne. Tiquinho de carne é luxo, é festa no olhar e na barriga desacostumada.
Estas mesmas pessoas voltariam no dia seguinte ao terreno de Lucas para tentar conseguir mais um pedaço de carne, pois quem derrubou violentamente as portas e matou o animal, resolveu voltar na madrugada e matar o segundo bicho, desta vez dentro do pequeno cercado que chamava de curral. Não se dirigiram até a casa nem a ao barracão para destruir qualquer coisa, mas foram diretamente esfaquear uma vaquinha.
Ao amanhecer bem cedinho, ouvindo incessantemente o mugir da vaquinha que ainda restava com vida, ele foi ver o que era e avistou o sangue misturado ao estrumo e o outro animal morto mais num canto. Haviam estado ali novamente, haviam destruído novamente, já estavam testando demais, já estavam dizendo o que verdadeiramente queriam, era o que podia concluir no embaralhar das ideias raivosas. Em tudo há um limite; ah! isso há, pois a frase que se quer dizer não acaba com o ponto final, mas antes disso quando a tinta acaba primeiro.
Assim que as pessoas iam saindo do local onde a vaca havia sido cuidada para ser repartida, Sr. Genésio, um velho que morava próximo e era muito amigo de seus pais, se aproximou, perguntou se podia falar um proseado de minuto e começou a dizer:
- Conhecia muito seus pais e conheço também você, menino Luca, poi vi se mijando pela casa, acumpanhei seu crescer e vejo agora um homi feito, desse que a gente pobre tem o prazer de ver, poi vingou do nosso lado e hoje é menino de estudo, sério e honrado. Purisso memo, menino Luca é qui num consigo atiná pruque tão fezeno isso, distruino o que já tem pouco. Ontem foi uma e agora outra e desse jeito num tem quem aguente. E quando os bicho acabá, menino Luca, o que quererão de fazer? Num sei quem faz isso não, mai já tem dia que venho vendo umas coisa estranha aconteceno por aqui. É gente que finge que passa e fica oiando demai pa sua casa e po barracão, é gente que vai ver se as porta tá trancada e fica forçando cuma se pá ver se tá faci de entrá. E tem outos que se escondem pelas moita e ficam zanzando de um lado a outro isperano num sei o que. E eu só veno de lá longe, poi o que num me fartou foi as vista, poi vejo tudim e bem longe. Só num sei dizê cuma é a cara de cada um, já qui num é nem doi nem treis, mai muito mai. É tudo um povo estranho, novo, rapazote, mai muito isquisito, dá pá se notar. Mai num sei pruque, mai na maioria das veiz que aparece e quere fazê argum marfeito aparece uma coisa bonita em frente da casa e do barracão e eles deixam de fazer e vão indo imbora...
- Como é essa coisa bonita que aparece seu Genésio? Por favor, me explique – Perguntou um Lucas bastante interessado na narrativa do velho amigo.
- Num sei dizer direito não, mai é mai ou meno assim: memo durante o dia, com o sol clariando e doeno nas vista, memo assim aparece uma luz e sai de dentro dela uma coisa qui a gente num sabe nem dizer o que é, poi nem é gente nem é luz, mai cuma um facho um bonito qui cumeça a soltar uns raios e adespoi vai sumino enquanto sobe pra riba. Dá inté medo, mai é a coisa mai bonita de se ver. E depoi que essa coisa vai imbora vem um vento bom e chega os bicho e as pranta parece que tão brincano. Poi é assim menino Luca...
E o Sr. Genésio seguiu com seus dois quilinhos de carne enquanto Lucas olhava para o local indicado pelo amigo e via a mesma luz há pouco descrita.
continua...
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e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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