SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 23 de janeiro de 2011

SEM TERRA OU SEM RESPEITO? – A MARGINALIDADE ACIMA DA LEI (Artigo)

SEM TERRA OU SEM RESPEITO? – A MARGINALIDADE ACIMA DA LEI

Rangel Alves da Costa*


Não gosto de utilizar o termo “sem terra” para caracterizar as pessoas que utilizam as vias do movimento de reforma agrária para invadir terras alheias, sob duas justificativas mentirosas: tornar produtivo o latifúndio improdutivo e proporcionar meios de produção aos que não possuem terras para trabalhar.
“Sem terra”, efetivamente, é aquele que se vê despojado de sua propriedade através de injustificáveis meios de violência, ameaças e práticas próprias da bandidagem explícita, só que oficialmente consideradas e até aplaudidas pelos organismos estatais.
Ora, quantas tipificações contidas no Código Penal e leis esparsas poderiam ser aplicadas, até mesmo em situações de flagrância, a estas pessoas que violam as leis do Estado e demonstram as feridas abertas desse mesmo Estado que não tem pulso para fazer cumprir suas próprias leis?
Vejamos, só para exemplificar:
Crime de furto, art. 155 do Código Penal: “Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel”. Cada sujeito tem o direito de usar, gozar e dispor de seus bens, e aquele que, por exemplo, entra na propriedade do outro para furtar coisas para fazer a manutenção do acampamento ao lado estará incorrendo em delito.
Crime de roubo, art. 157 do Código Penal: “Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência”. Quantos sem terra não subtraem violentamente cargas de alimentos de veículos, invadem mercadinhos e supermercados e de lá saem com o que bem entenderem?
O Estatuto do Desarmamento não revogou e o art. 19 da Lei das Contravenções Penais diz textualmente que é crime “Trazer consigo arma fora de casa ou de dependência desta, sem licença da autoridade”. Ora, e como esses arruaceiros vivem em desavergonhada procissão levando nas mãos facas, foices, enxadas e tudo aquilo que corta, fere e mata?
E por que as autoridades policiais não prendem esses baderneiros e arruaceiros? Será que é por medo da revolta dos bandidos com as armas em punho? Aos olhos de todos é visível e constrangedor as situações de flagrante; somente aos olhos da polícia é que tudo caminha dentro da normalidade. Contudo, é sabido por todos que essa turma que age em bando não é presa em estado de flagrância porque tal ação somente com ordem superior. E como esta nunca chega...
Há, por parte das autoridades policiais, nítida conivência nas ações perpetradas pelo movimento e omissão dos seus deveres funcionais, quiçá no procedimento previsto para a prisão em flagrante. Com efeito, diz art. 301 do Código de Processo Penal que “Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”. Há de se dizer que nenhum “qualquer do povo” vai se meter a besta para flagrantear indivíduos de alta periculosidade, como são esses sem terra.
A incitação ao crime, promovida pelos dirigentes do movimento, é outro fato indiscutível. Cursos são oferecidos para que lideranças aprendam como praticar todos os tipos de atrocidades e desrespeito ao pacífico convívio social. Aprendem não só como preparar invasões e efetivamente esbulhar agressivamente, mas também roubar, ameaçar, matar animais, destruir tudo que encontrarem pela frente.
Átila, o flagelo de Deus, o maior bandido e saqueador da história, seria considerado fichinha perto desses falsos campesinos. Ora, o rei dos hunos vivia num mundo sem leis, mas o que dizer da vida num Estado Democrático de Direito? Se a lei recaísse sobre eles, toda e qualquer prática de incitação ou induzimento estaria prevista no art. 286 do Código Penal, afirmando que é ilícito penal “Incitar, publicamente, a prática de crime”.
Ora, quando as lideranças convocam os supostos trabalhadores para invadir órgãos públicos, como costumeiramente se faz, estão claramente incitando à prática de crime. E crime em dobro, pois além do induzimento criminoso também estarão ferindo o próprio Estado, através dos seus órgãos de atuação.
Qualquer sindicalizado que, mesmo levantando uma bandeira de luta, faça menção de invadir prédio público será imediatamente preso e rigorosamente punido. Contudo, esses vagabundos podem tudo. Podem invadir, fazer quebra-quebra, esculhambar com tudo e ainda assim não acontecerá nada. O que pode acontecer é que o governante vai atender as imposições desse movimento criminoso.
Nas ações tanto dos dirigentes do movimento como de lideranças localizadas e todos que se juntam no conceito de sem terra, é manifestamente reconhecível a formação de quadrilha ou bando. Neste sentido, dispõe o art. 288 do Código Penal que é crime “Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes”.
Com relação às invasões de propriedade em si, que no Brasil são crimes que só alcançam pessoas comuns, tais práticas criminosas estão previstas em diversos dispositivos legais. Por exemplo, o artigo 161, inciso II, do Código Penal, tipifica a conduta de quem invade, com violência à pessoa ou grave ameaça, ou mediante concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para fim de esbulho possessório. Esbulho é o ato pelo qual o legítimo dono do imóvel se vê privado da sua posse, de forma violenta e clandestina, ou ainda por abuso de confiança. Alguma coincidência com os atos praticados pelos ditos sem terra?
No artigo “Flagrante violação ao Estado Democrático de Direito: insegurança pública e jurídica, omissão e prevaricação” (http://www.faep.com.br/boletim/bi909/bi909pag11.htm), o promotor de justiça Cândido Furtado Maia Neto, sintetiza bem essa junção de práticas criminosas levadas a efeito pelos integrantes desse famigerado movimento.
Afirma o autor: “Os chamados “sem-terra” estão praticando diária e impunemente, aos olhos das autoridades, o delito de invasão de propriedade privada, juntamente com outros crimes, a exemplo dos ilícitos penais de dano à coisa particular, destruindo, inutilizando e deteriorando coisa alheia (art. 163 CP); contra a fauna e a flora, ao meio ambiente em geral (lei nº. 9.605/98), ademais de confiscarem ilegitimamente tratores, caminhões, veículos e implementos agrícolas, ofendem ainda a integridade corporal e a saúde das pessoas (art. 129 CP), ameaçam com gestos e palavras causando mal injusto e grave (art. 147 CP), cerceiam a liberdade restringindo o direito de ir e vir – o ius libertatis da cidadania -, como se autorizados estivessem para o encarceramento privado (art. 148 CP), se associam em bandos e quadrilhas para os fins de cometer crimes (art. 288CP), num movimento que se constitui em verdadeira organização criminosa (lei n.º 9.034/95) de alta preocupação e de alta periculosidade”.
Assim, quando afirmo da falência do Estado frente a uma situação que ele mesmo criou e alimenta, o faço no sentido de reconhecer que num país não pode haver lugar para um Estado protetor de bandidos e outro Estado que pretende a todo custo fazer prevalecer a pacificação social através da manutenção da ordem pública. O Estado só é um, é uno, e não pode ser conivente com o crime. Ou é um Estado de direito ou usurpador de suas próprias atribuições.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Iluminados (Poesia)

Iluminados


O mundo nos cerca
aprisionando-nos pelas imperfeições
esquecendo que a vida
nos liberta pelas nossas perfeições
e somos perfeitamente perfeitos
porque não aceitamos do mundo
viver da dor e do sofrimento
aceitar a derrota depois da luta
e nos fragilizar a cada momento
e somos tão completamente perfeitos
porque nos nossos erros e defeitos
não procuramos senão aprender
que somos à nossa medida
e quanto maior for nossos desejos
mas perfeitamente viveremos
completamente amantes e felizes.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 2 (Conto)

DESCONHECIDOS – 2

Rangel Alves da Costa*


Aristeu, o profeta, foi batizado um dia com o nome de Febrônio Melênio dos Santos. Nunca soube da origem deste nome e nem porque os seus pais o haviam escolhido para colocar no único filho homem nascido.
Não sabia das motivações desse nome, contudo a estranheza e até feiúra dele foi o que motivou a primeira revolta do filho em relação aos pais. O pior é que colocaram o nome num composto de Febrônio e Melênio e depois só chamavam o pequenino de Nonon. Ao ouvir esse Nonon sendo pronunciado, o menino só faltava correr e arrancar as tripas dos pais. Arrancar e comer, lógico.
Foi crescendo sem aceitar de jeito nenhum essa identificação pessoal e se perguntavam qual o seu nome dizia que era Aristeu. Certa vez um indivíduo disse que Aristeu era nome feio demais, então o menino avançou sobre a pessoa e quebrou-lhe três dentes.
Sentia-se completamente perdido no meio em que vivia, achando-se muito acima da mentalidade interiorana daquelas pessoas. Tinha que sair das escolas onde era matriculado porque passou a querer ensinar aos professores, contestar todas as lições conservadoras que eram repassadas e de vez em quando obrigar que a coitada da professora sentasse em seu lugar para ouvi-lo falar sobre a realidade do mundo.
Daí que nem os professores nem os colegas suportavam tal situação e assim Aristeu, como se autodenominava, ia sendo expulso de escola em escola. E de todas elas saiu sendo conhecido como o rapazinho maluco, o doido varrido, o profeta do impossível. Disso tudo só gostou do profeta, pois quanto ao restante fez muito menino comer terra, sofrer grandes hematomas e as meninas ficarem sem boa parte dos cabelos.
Como consequencia de tais proezas, reclamações de toda sorte e acrescentando-se o fato de que ele cismou expulsar o padre e os políticos do lugar com uma velha garruncha, alegando que todos eles faziam parte de uma corja que só pensava em enganar o povo através do desvirtuamento das palavras divinas e das promessas políticas nunca cumpridas, verdade é que o pai decidiu interná-lo num centro psiquiátrico.
No momento que o pai, na companhia de mais cinco amigos que pareciam gigantes, tentou agarrá-lo às escondidas para amarrá-lo e encaminhar para tratamento, astutamente ele se desvencilhou e propôs um acordo amigável. E disse que só estava propondo aquilo porque queria, senão duvidava que a cidade inteira, que só tinha frouxos, conseguisse lhe botar as mãos. Ao menos uns vinte eu mato, prometeu, mostrando uma gilete que carregava atrás da orelha.
O acordo amigável consistia em cortar de uma vez por todas as relações familiares. A partir daquele momento era como se Febrônio Melênio jamais tivesse nascido naquela família, pois um novo homem, chamado Aristeu, o profeta, ia seguir seu destino.
E qual o destino dos grandes profetas? Manejar multidões e tê-las a seus pés, convertidas que estarão pela força da palavra, segundo ele mesmo dizia com olhos brilhando mais que tudo e mãos alvoroçadas cortando os ares.
Mas disse que ninguém pensasse que ao sair de casa fosse viver perambulando pelas ruas, como errante ou vagabundo. De jeito nenhum, pois se desejava ser o profeta que atrai multidões deveria primeiro se preparar para tal. Desse modo, ofereceria a si mesmo um longo período de preparação em algum mosteiro que o quisesse receber como oficiante leigo, onde adentraria no mundo do conhecimento das mais altas questões religiosas, filosóficas e do interesse geral da humanidade.
Foi aceito por um velho religioso que gostou do seu discurso à primeira vista. Talvez seja uma ovelha que o bom Deus enviou para se juntar ao nosso rebanho, pensou. E assim Aristeu conviveu com os velhos livros, dogmas e preceitos durante três anos, até que começou a querer ensinar ao superior do mosteiro, pregar sobre pecados velados que havia dentro daquelas paredes, querer revirar o mosteiro de pernas pro ar.
“Mas esse homem está completamente louco, doido de pedra, vergonhosamente insano. Quero-o fora daqui imediatamente. Joguem-no das alturas até que caia para sempre nas funduras!”. Foi a ordem dada pelo superior.
Como o mosteiro ficava em cima de uma montanha bem alta e num dos lados havia um penhasco que descia como verdadeiramente abismo em direção às águas de um rio, o pobre do Aristeu foi jogado lá de cima.
Conseguiu sobreviver e após querer fazer mil revoluções pelo mundo recolheu-se solitariamente numa caverna encravada numa montanha num lugar bem distante. Ali não queria ser visto nem receber ninguém. Mas logo passaria a ter a mente atormentada por outros desconhecidos.


continua...




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 22 de janeiro de 2011

ENQUANTO BALANÇAVA O BERÇO (Crônica)

ENQUANTO BALANÇAVA O BERÇO

Rangel Alves da Costa*


Hoje ninguém lembra disso não. Muitas pessoas até esquecem que um dia nasceram, que foram crianças, que receberam os cuidados atentos e tantos mimos de mãos generosas, das inesquecíveis mãos de mães. Se derem sorte e chegarem à velhice, talvez sejam acolhidas pelas mãos retributivas dos filhos.
E nem poderia lembrar, pois a época do berço, da chupeta e do brinquedinho tilintando por cima é a da mais pura inocência, quando ainda não se está nem aí para a vida e os seus problemas. Não diz nada, não pede nada, mas se expressa coerentemente através do choro ou do sorriso.
A mãe é que nunca esquece daqueles passos e compassos, sem dormir durante o dia e passando a noite em claro para cuidar do seu filho, numa rotina que nunca parecia cansativa. Assim, após dar um banho, encher de talco e perfume, trocar a fralda e amamentar, ela seguia em direção ao berço e colocava a criancinha lá dentro, ajeitando aqui e ali, de modo a garantir o conforto do seu pequenino.
Então ela senta numa cadeira que fica sempre ao lado, olha-o mais uma vez com renovada ternura e amor e tem vontade de conversar com ele enquanto balança levemente o berço e canta conhecidas cantigas de ninar:
“Boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta. Boi, boi, boi, boi do mandaqui, pega essa criança que não gosta de dormir...”.
“Dorme neném que a cuca vai pegar, mamãe foi na feira e papai foi trabalhar. Dorme neném que a mamãe tem o que fazer, vai lavar e passar as fraldinhas pra você...”.
“Nesta rua, nesta rua, tem um bosque, que se chama, que se chama solidão, dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou meu coração. Se roubei, se roubei seu coração, tu roubaste, tu roubaste o meu também. Se roubei, se roubei seu coração, é porque, é porque te quero bem...”.
E o pequenino, de olhos voltados para o brinquedinho que se sacode por cima do berço, vive apenas o seu mundo, mexe as perninhas e parece nem querer saber das suaves palavras que sua mãe começa a falar:
Que bom filhinho, que bom se você crescesse e nunca perdesse essa doce feição de pureza e sua inocência não fosse corrompida pelas circunstâncias da vida nem pela maldade dos homens.
Olhando agora nos seus olhos lembro dos olhinhos dos seus irmãos, dos olhos que um dia eu e seu pai tivemos e me vem a certeza do quanto o tempo faz a gente perder o nosso brilho no olhar. Chega um tempo, meu filhinho, que nossos olhos nem parecem espelhos para a vida, mas sim depósitos de lágrimas que começam a jorrar por motivos que você não queira nem saber.
Esses pezinhos aqui, tão fofinhos e pequeninos, que a gente acaricia e beija, mais tarde terão que caminhar por caminhos que a gente nem imagina meu filho. Por tantas estradas boas haverão de passar, por tantos lugares macios poderão se assentar, mas também por outras veredas sortidas de pedras e espinhos. Então, meu filho, somente Deus para colocar a melhor proteção nos seus pés quando for andar por aí.
Mais tarde você vai estar com fome chorar e sua mãe está aqui para ouvir o seu choro e correr para alimentar. Quando crescer tudo começa a mudar. Muita gente não tem nem quem venha em seu socorro, pois não haverá mais mãe e poderá até faltar comida. Por isso é preciso ter sorte para que os motivos do choro da criança fiquem apenas nos motivos da idade da criança. E do mesmo modo ocorre com o sorriso.
Agora durma meu filho. Sua mãe agora vai fazer comida para os seus outros irmãozinhos, lavar suas roupas, coser umas calças do seu pai e depois passar ferro. Um dia ela descansa um pouquinho...



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Introdução geral ao amor (Poesia)

Introdução geral ao amor


Na prece
que o amor seja sempre abençoado
na fé
que seja iluminado e que nos ilumine
na poesia
“que seja eterno enquanto dure”
na macumba
que as sete águas lavem as imperfeições
no budismo
que a sublime perfeição se faça luz
no curandeirismo
que as ervas maceradas curem as feridas
no pensamento
que sua chama nunca possa se apagar
na vida
que possamos vivê-lo em plenitude
em nós
que aprendamos com os nossos erros.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 1 (Conto)

DESCONHECIDOS – 1

Rangel Alves da Costa*


As pessoas envolvidas nessa história não possuem nenhum parentesco entre si, não são amigas, não se conhecem, nunca se viram.
Os locais onde essas pessoas moram, com raras exceções, são totalmente diferentes geográfica, histórica e economicamente.
Quando muito, algumas moram nas proximidades ou em regiões próximas umas das outras, porém sem nunca manter qualquer tipo de relacionamento.
Como se observa, são indivíduos que se desconhecem, e por isso mesmo desconhecidos.
Aristeu, também conhecido como profeta, morava há mais de vinte anos numa caverna encravada numa montanha num lugar tão distante, mas tão distante mesmo, que se poderia dizer que era no fim do mundo.
Vivia na reclusão dos eremitas por escolha própria, em obediência à sua própria vontade e desejo, vez que, ao menos pelo que se sabe, não tinha nenhuma motivação filosófica ou religiosa tal aptidão para a solidão reflexiva.
Soniele – o nome dela era outro, porém guardado a sete chaves -, também conhecida como Jasmim de Fogo, se dividia entre um pequeno quarto de vila alugado num conjunto de bairro interiorano e o já não tão requisitado bordel da Madame Sofie, o segundo mais famoso do lugar. O primeiro era em qualquer lugar que as pessoas se prostituam. Tais ambientes localizados no município de Mormaço.
Muitas vezes merecidamente reconhecida pelos visitantes como a moça mais bonita do lugar, começou a se prostituir ainda adolescente, fato que não fazia muito tempo, e até hoje mantinha esse antigo hábito como única profissão.
Doranice, uma viúva milionária e solitária, pessoa de bom coração e com hábitos de fazer muitas caridades a instituições que cuidam dos mais necessitados. Dona de um patrimônio invejável, incluindo muitas fazendas, empresas e imóveis, contudo morava na menor de suas propriedades imobiliárias na grande metrópole chamada Nova Paulo.
João, pescador e apaixonado, pelo peixe e pelas mocinhas ribeirinhas. Morava às margens do Rio São Pedrito. Já havia sido casado, porém enviuvou logo cedo, assim que a sua amada deu à luz o primeiro filho, que também não resistiu.
Contam que João pescador é avistado todos os dias ao entardecer, esteja de tempo bom ou ruim, caindo chuva ou trovoada, em cima de uma imensa pedra às margens do rio. Fica ali por muito tempo, às vezes silencioso a mirar as águas, outras vezes cantando uma cantiga tristonha e que só ele mesmo sabe a letra e cantar. Dizem que sempre chora nesses momentos, ainda que esteja cantando.
Carlinhos, menino bonito, assanhado, esperto, correndo de um lado pro outro e sem parar num só canto. Menino de rua. De rua mesmo, sem casa, sem barraco, sem teto firme para dormir. O pai foi morto pela polícia num episódio envolvendo drogas. A mãe desabou no mundo deixando ele sozinho dentro do barraco.
Foi criado por um e por outro, mas quando olhou para a vida e viu adiante um caminho nem pensou duas vezes. Saiu por aí somente de calção e até hoje mora pelas ruas e dorme embaixo de marquises. Se fosse de família rica e vivesse arrumadinho todo mundo dizia: mas que menino bonito!
Cristina, uma jornalista destemida e desempregada. Quase tudo que escrevia e conseguia publicar continha denúncias graves, por isso mesmo que não ficava muito tempo em jornal algum, pois os poderosos que se sentiam atingidos logo exigiam a sua despedida.
Carol, uma verdadeira patricinha rica e se fingindo de estudante. Não queria outra vida senão estar curtindo loucamente a vida, fazendo compras e frequentando baladas.
O pai, mesmo estando mais preocupado com os negócios do que com a filha, vivia alertando a esposa sobre ela, exigindo que agisse para mudar rapidamente aquele comportamento de quem não quer nada com a vida. Mas emperra sempre na mãe que dizia: É a idade, são coisas da idade, depois tudo isso muda!
Mas o que estas pessoas podem ter umas com as outras? Aparentemente nada, pois são todos desconhecidos entre si. Mas...




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

UM TEMPO DE CARTAS E DE SAUDADES (Crônica)

UM TEMPO DE CARTAS E DE SAUDADES

Rangel Alves da Costa*


Ninguém mais escreve carta, bilhete, deixa um recadinho no papel. Aliás, ninguém envia mais cartões de natal, manda calendários de bolso para os amigos e nem remete telegrama de felicitações. Posso até dizer que parece que ninguém sente mais saudades, não tem mais amigos, não possui amores distantes a serem lembrados.
Não sou de um tempo de ontem não, sou de um tempo de hoje mesmo, do agora, mas não posso deixar de entristecer com esse distanciamento cada vez maior que as pessoas andam se impondo. A doçura do encontro através da palavra escrita ou rabiscada se perdeu na voragem do tempo.
Podem até dizer que os contatos estão muito mais rápidos e as comunicações são instantâneas, porém ainda não conseguiram colocar na tecnologia o sublime prazer de se tocar naquilo que vai ser enviado, escrito com letra bonita possível e extremo esmero, versificando para o coração do outro e depois colocando o selinho na carta. Pra não esquecer, a boca que quer beijar dentro da cartinha é a mesma que passa a língua para fechar o pequeno envelope.
As noites de velas e candeeiros, lamparinas e luz fraquejante foram testemunhas desses imensos amores derramados em lágrimas e pulsar de corações sobre as folha já molhadas e amassadas do papel. As mãos estremecidas procuravam entre tantas a melhor palavra para dizer tudo, e dizia sempre “eu te amo”.
Se as pessoas ainda lembrassem do significado de se escrever uma carta, seja familiar, de amor ou de amizade, talvez soubessem também o significado de sentimentos verdadeiros. Ora, as cartas eram escritas de tal modo que a própria pessoa parecia querer entrar no papel e falar em cada linha. Fazer trampolim das vírgulas e dos pontos e pular para abraçar e beijar incontidamente.
Do outro lado dessa vida que verdadeiramente tinha sentimentos, a outra pessoa ficava aguardando aflita que a carta chegasse. No interior, às terças e quintas a salinha dos correios se enchia de gente com o coração que só faltava sair pela boca. Ai meu Deus, será que chegou no malote de hoje? Basta que a mocinha despeje as cartas na mesinha que eu logo conheço a carta dele. É que o danado do meu José desenha um coração bem no cantinho de cima!
Quando é o próprio carteiro que entrega os envelopes de casa em casa, ai deste que passar mais de um mês sem levar a cartinha que Joaninha tanto espera. Na sua ingenuidade, até ofereceu um bolo de leite se o rapaz trouxesse a sua missiva na próxima vez que passasse ali. Coitado, pediu pelo amor de Deus que o colocassem noutros logradouros, para fazer a entrega em outro lugar.
Não porque tivesse medo da mocinha se tornar violenta a qualquer instante, mas pela angústia e sofrimento que também sentia por não poder ajudá-la. Só mesmo Deus para saber o contentamento que ele sentia ao ver sorrisos e lágrimas nos olhos de pessoas tão simples, humildes e sempre cheias de esperanças. Certa vez virou a cabeça e saiu rapidamente para não chorar quando entregou uma carta e uma meninha disse à mãe: “Papai só manda carta. Eu queria tanto que ele viesse também!”.
Todas essas cartas de antigamente eram marcadas por palavras singelas e tão verdadeiras quanto os sentimentos de quem as escrevia. Conversa muita é bom, enfeite também engana, mas nada que se compare ao “Como vai, tudo bem?”, “Estou com saudade de você, então resolvi escrever essa cartinha”, “Antes de tudo, meu amor, aceite um beijo de quem não suporta mais viver longe de você”, “Não arrepare não, mas essas mal traçadas linhas são só pra dizer que te amor, que gosto de você mais do que tudo na vida”. E assim se escrevia, e assim se lia tanto amor e tanto amar.
Escrevo tudo isso na maior solidão. Se tivesse uma namorada certamente escreveria: “Tanta saudade Maria, mas juro que volto um dia...”.




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com