SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

DESCONHECIDOS - 13 (Conto)

DESCONHECIDOS – 13

Rangel Alves da Costa*


Pelo interior do país, vivendo numa dessas cidades pequenas metidas a medianas, e logo com o nome de Mormaço, Soniele, a mocinha prostituta, a Jasmim de Fogo para os apaixonados, acabava de sair do hospital onde havia ficado internada por dois dias.
Ainda estava cheia de hematomas e com um braço enfaixado da violência sofrida pelas mãos do filho do coronel Demundo Apogeu, o fazendeiro mais rico da região e por isso mesmo alcunhado com tal patente.
Dono de muitas fazendas nas redondezas, com cabeças de gado de fazer inveja ao rei do gado, ainda assim parecia não saber criar sua cria mais importante, que era seu filho único, o gabola, metido a besta e nojento do Mundinho, também conhecido como Gegeu.
Esse rapaz há muito tempo que merecia ser preso, tomar uma surra ou encontrar alguém de sangue no olho para lhe dar umas boas lições, pois o cabra não tomava jeito mesmo. Com vinte e poucos anos, sem pensar em tomar vergonha na cara, estudar ou trabalhar para ter vida honesta, andava fazendo meio mundo de desgraceira se agarrando no dinheiro, na fama e na mão acolhedora que o pai sempre lhe estendia.
O infame do Gegeu até que era bem apessoado, até mesmo porque nessas cidadezinhas onde quem manda é o poder político, o dinheiro e a influência, basta ser jovem e ter qualquer dessas características que já é tido como bonitão. Assim, aproveitando-se de todo um contexto favorável, onde a polícia bebia do seu uísque e o juiz o acompanhava nos bordéis nas capitais, esse rapazinho pintava e bordava impunemente.
Coisa de quem não tem o que fazer, mas a última que ele aprontou foi precisamente pra cima da pobre da prostituta gostosinha, a Soniele de tantos encantos espalhados em cada olhar. Eis que há muito tempo ele chegava ao cabaré de Madame Sofie e queria quebrar tudo se soubesse que a Jasmim de Fogo estava na função com outro homem ou se ela não quisesse sentar ao seu lado a noite inteira para atender aos seus caprichos.
Certa feita ela disse na cara do riquinho que para ela o dinheiro dele tinha o mesmo valor do dinheiro dos outros machos. E o mundo quase acaba nessa hora, pois o bom moço tascou uma garrafa de uísque na parede que fez a Madame Sofie se abanar implorando seus sais no mesmo instante.
Outra vez queria que ela ficasse se rebolando sentada no seu colo, quando ela jogou-lhe na cara que era quenga sim, mas de deitar e abrir as pernas ou levantar o rabo, mas para ser dançarina de colo era outros quinhentos. O injuriado do rapaz saiu do cabaré jogando a mesa bem longe e prometendo que ia mandar fechar aquele brega chinfrim. Sofie mandou a conta pro velho Demundo, com quem já deitara muitas vezes, e este mandou pagar tudo no maior contentamento.
As más línguas falavam, mas ninguém podia acreditar em trançado de fofoca e disse-me-disse, que na verdade Gegeu era mesmo perdidamente apaixonado pela prostituta. Não tinha namorada nem dava certo com mocinha nenhuma porque seu grande e único amor era mesmo a danada da Soniele. E quanto mais ela o desprezava mais o ricaço rastejava aos seus pés sem ninguém perceber.
Parte dos homens dava toda a razão a ele, pois o que se comentava na cidade e região é que não havia mulher mais bonita sem roupa, toda peladinha parecendo um veludo e seios que enfeitiçavam de tão formosos. E estes não mentiam não, pois desde a primeira vez que Gegeu deitou com ela pensou em pedir logo sua mão em casamento ou oferecer casa arrumada com tudo que ela quisesse ter.
O problema todo ocorreu quando uma prostituta alcoviteira, fazendo vida no mesmo cabaré, mandou um recado pra Gegeu dizendo que precisava lhe falar urgentemente. Não demorou muito e ele parou o carro na porta e mandou chamar a fofoqueira. E no mesmo instante ficou sabendo que seu grande amor Soniele já estava de mala arrumada para ir embora. Pelo que ela sabia seu destino era totalmente desconhecido.
Emocionalmente descontrolado, o rapaz desceu do carro e entrou no cabaré pedindo de uma só vez uma dose de cachaça, uma cerveja gelada e uma garrafa do melhor uísque que tivesse. Mandou chamar Madame Sofie e esta infelizmente teve que confirmar a notícia da outra. Perguntou onde Soniele estava e ficou sabendo que a mesma tinha ido até a rodoviária.
Completamente apaixonado, bebia dose após dose, olhando sempre para a entrada e mostrando uma impaciência sem fim. Assim que ela entrou toda linda e perfumada, ele não suportou mais e se atirou em prantos aos pés do Jasmim de Fogo. Então ela pulou para um lado e disse que nem de bêbado gostava.
Foi o estopim para que Gegeu avançasse e tentasse abraçá-la e beijá-la à força. Ela se movimentou rapidamente e o rapaz se espatifou pelo chão. Quando levantou já foi com outra feição, e dizendo que já que ela não queria assim então seria assado. E começou a agredi-la com socos e pontapés.


continua...




Poeta e cronista
e-mail: Rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ZÉ CONFUSÃO (Crônica)

ZÉ CONFUSÃO

Rangel Alves da Costa*


Se esse indivíduo fosse somente de arrumar pequenas encrencas, arruaças passageiras e chiliques ocasionais, ainda iam, todo mundo aceitava de bom tom e até compreendia o temperamento um pouco diferente do cabra, mas o problema é que ele era dado uma confusão que só faltava o mundo se acabar.
Contudo, fato mesmo de se estranhar é que Zé Confusão, por esperteza ou por qualquer outro mistério dos sabidos e treiteiros, se especializou em fazer o mundo virar de pernas pro ar sem que ele necessariamente estivesse envolvido. A preocupação dele era arrumar a encrenca, dar início ao bafafá e depois tirar o corpo fora.
E para que uma confusão começasse ele utilizava de muitas artimanhas, próprias dos cabras safados de sua laia. Sabia que a fofoca é a bicha mais capacitada para atrair desavenças no mundo, para tornar amigos em inimigos e transformar em guerra aquilo que está em completa paz.
Assim, Zé Confusão tinha na fofoca a sua melhor tática para ver criado um atrito, um destempero, um rala-faca. Fama de valente ele tinha por demais e toda a região conhecia e cantava os feitos do valentão, mas tudo isso surgindo e se espalhando também através do conversê mentiroso, da lorota pura, da fofoca vergonhenta.
De vez em quando sumia por uns tempos, dizendo que estava distante resolvendo problemas sérios de honra, coisa que só homem na qualidade dele para enfrentar. Muitos afirmavam, e com razão, que ele não ia pra lugar nenhum, ficando escondido nos arredores por uns tempos, só assuntando como fazer os outros se intrigarem, brigarem, chegarem às vias de fato.
Verdade é que quando dava às caras na cidade, todo de roupa nova de cabra macho, posudo que mais parecia uma égua parida e arrotando asneiras, logo começava a espalhar mentiras de não acabar mais. O pior é que tinha gente que acreditava.
Assim, chegava nos ouvidos de um e de outro, pedindo por tudo na vida que não espalhassem o segredo, e dizia com a cara mais cínica do mundo que havia matado um em tal lugar e outro noutro lugar, que enfrentou de uma vez só uma família inteira, que acabou um forró de pé de serra na faca só porque uma mulata lhe fez uma desfeita de não querer dançar um baião.
Certa feita chegou para o prefeito e mansamente foi dizendo que não podia acreditar de jeito nenhum no que tinha ouvido falar. Não, não podia ser de jeito nenhum. E o prefeito aperreado, querendo logo saber do que se tratava, começou a soltar fogo pelas ventas quando Zé Confusão segredou-lhe que o padre não fazia outra coisa senão falar mal dele e de sua administração, chegando a chamá-lo de “o coisa ruim” e carrasco do povo.
Então o prefeito puxou o fofoqueiro valentão pelo braço e exigiu que ele o acompanhasse até a igreja, que era pra ele repetir essa história lá e vê como era que um homem de verdade fazia com um padreco safado e que não tinha coisa mais importante pra fazer.
Quanto mais o prefeito puxava mais Zé Confusão arrumava uma desculpa para não acompanhá-lo. Disse que ia viajar naquele mesmo instante, mas não teve jeito; disse que ia comprar remédio pra sua mãe que estava doente, mas não teve jeito; disse que estava com uma dor no coração e foi pior; e por fim disse que precisava ir ao banheiro porque estava todo sujo. Então o prefeito empurrou-lhe calçada abaixo que o homem caiu estatelado.
Quando o povo viu Zé Confusão ser empurrado pelo prefeito e cair no chão, logo começou a se benzer temendo na hora a orfandade do município, pois era dada como certa a morte do mandatário naquele mesmo instante. E o padre, saindo à porta da igreja, observou o acontecido e correu para evitar a tragédia.
E assim que chegou diante dos dois o sacerdote se ajoelhou implorando por tudo na vida que aquela tragédia fosse evitada. Então Zé Confusão aproveitou a situação e disse no ouvido do prefeito que não matasse o padre não porque ele já havia pedido perdão pelo que tinha dito.
Mas a história que começou a reinar na cidade foi que Zé Confusão só não deu fim à vida do prefeito porque o padre chegou ali para interceder, chegando até a ficar ajoelhado. E por isso mesmo a fama do homem foi aumentando cada vez mais.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Enquanto você não chega (Poesia)

Enquanto você não chega


Trancei cabelo de milho
enfeitei espiga com fita
colhi araçá no mato
coloquei roupa de chita
amassei morango
e guardei o sumo
para pintar
a boca da noite
a face do sol
a cor do arrebol
tudo vermelhar
e achei bonito
tanta festança
com a lembrança
do rosto teu
e se tivesse aqui
pegava o arco-íris
a bolha de sabão
e mais esse orvalho
com folha e tudo
para alegrar coração
como nova estação
de brinquedos
e de balão
para você chegar
para você ficar
para você me amar
e por isso sou feliz
e tudo que eu quis
foi cantar assim
essa cantiga doce
essa manga rosa
e esse sapoti
doce bem docinho
e tudo aqui
a esperar por ti.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 12 (Conto)

DESCONHECIDOS – 12

Rangel Alves da Costa*


Carlinhos, mostrando um dos planos da inocência adolescente, diante da pergunta embaraçada da velha senhora simplesmente foi logo dizendo: “A senhora parece muito nervosa. Está com medo dele. Ouvi bem o que ele falou, mas acho melhor que a senhora mesmo pergunte a ele. Onde ele tá? Chame ele e pergunte...”.
E a viúva Doranice ergueu os olhos para o céu e falou quase chorando: “Ele está lá em cima meu filho, pois ele já morreu há mais de dois anos!”. Então foi a vez de Zezinho ficar assustado, totalmente arrepiado, e dizer com a voz que quase não lhe sai da boca: “Já vou...”.
“Não, pelo amor de Deus não, espere um pouco que vou abrir o portão para você entrar”. Procurou a chave pelos bolsos e foi abrir o portão, quase não conseguindo pelo nervosismo que tomava contava do corpo inteiro.
Não podia ser por outro motivo, mas certamente o menino não queria entrar na mansão de jeito nenhum por causa da história do morto. O pior não era o fato do homem já ter morrido, mas sim porque ele o havia visto ali sentado mais adiante no banco do jardim, tinha ouvido sua voz e suas palavras ainda estavam presentes em sua mente. Lembrava de cada palavra que ele havia dito.
Contudo, o menino acabou cedendo e resolveu entrar quando a viúva falou que talvez ele estivesse com fome e precisasse fazer uma merenda. Realmente a barriga estava roncando, pois já naquela hora da noite e tudo que ele havia comido durante todo o dia não havia passado de um pão com mortadela, acompanhado com um copo de água que era para descer melhor.
Depois que o menino experimentou sabores totalmente desconhecidos, porções que abriam cada vez mais o apetite, foi chamado pela viúva até o solar onde, sem poder esconder a aflição e o nervosismo, perguntou se ele já estava pronto para lhe falar o que tinha ouvido do seu falecido esposo.
Contudo, antes que ele começasse a falar pediu para contar sobre um sonho que havia tido e envolvendo um menino igualzinho a ele. E começou a relatar:
“Essa noite tive um sonho ao mesmo tempo estranho e bonito. Nesse sonho me apareceu um menino, e tenho certeza que era você, vindo de um lugar bem distante, bem longe, caminhando com os pés descalços por uma estrada cheia de pedras e espinhos. Ao lado dessa estrada medonha também tinha muita mata fechada e labirintos e de lá dentro podia se ouvir os sons de feras terríveis que poderiam a qualquer momento para atacar. Mas você não olhava amedrontado para os lados e nem reclamava de dor nos pés descalços. Pelo contrário, pois você vinha se aproximando cada vez mais sorridente e feliz, com a paz dos bons e que andam com proteção. E vinha em minha direção. Ao chegar perto de mim, com uma roupinha igualzinha a essa que você está vestindo agora, muito humilde, disse-me que precisava dar um recado, e um recado que alguém muito importante havia me enviado. E ao chegar mais próximo, como se estivesse querendo falar ao meu ouvido, assim que foi abrindo a boca o sonho se dissipou e então acordei assustada. Levantei da cama e fui até meu oratório fazer orações e pedir ao meu bom Deus que se o recado fosse bom que fizesse com que chegasse aos meus ouvidos, como quase acontece no sonho. E o resto você sabe o que aconteceu, pois somente a força divina para encaminhá-lo até aqui. E veio porque tem um recado a me dar. Pode falar meu filho, o que você tem a me dizer? Tem alguma coisa a ver com o que você ouviu daquele homem que estava sentado no banco do jardim? Diga meu filho, conte-me, por favor”.
Carlinhos até achou a história do sonho bonita e parecia ter viajado por ele e sido realmente aquele menino que a senhora relatou. Então, olhou profundamente nos olhos dela e disse:
“O menino do sonho deve ter sido meu irmão que nunca tive. Não sei se o que ouvi o homem dizendo tem alguma coisa a ver com isso não, mas lembro bem que ele disse para a senhora fazer logo a viagem porque tem um povo desconhecido esperando a senhora lá. E disse que vá seguindo um rio de muitas águas no leito, mas com um povo pobre adiante. Mas que não tenha medo do povo e sim dos desconhecidos. Foi isso o que ouvi ele dizendo”.
“Mas meu Deus, então é isso. Partirei então logo amanhã. Se sua família permitisse você iria comigo...”. Disse a viúva, agora mais aliviada. E diante da insinuação Carlinhos falou: “Minha família sou eu e minha casa é em qualquer lugar. E até que gostaria de conhecer um lugar diferente”.
E o menino dormiu pela primeira vez numa mansão, sonhando em viajar, em conhecer outro lugar e outras pessoas.


continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O AMOR NOS TEMPOS DO DESAMOR (Crônica)

O AMOR NOS TEMPOS DO DESAMOR

Rangel Alves da Costa*


O amor enquanto conceito de buscar no outro a satisfação de desejos, parece não ter mudado ao longo dos anos. O que não mais se reconhece no amor são as formas sadias e românticas de expressá-lo e de partilhar o contentamento junto da pessoa amada.
Atualmente a palavra amor serve indistintamente para tudo que envolva uma relação, demonstrando assim sua fragilidade. Desse modo, amar passou a significar a relação sexual ocasional, o sair, o ficar, o prazer pelo prazer, como bem certas pessoas preferem. Quando se diz que fez amor é porque praticou relação sexual. E quando sexo foi amor?
Enquanto depuração do amor, consequencia normal e lógica de pessoas que se desejam mutuamente, o sexo se limita à identificação física com o outro, bem como a afirmação de uma identidade nas pessoas que se gostam. Indo além disso o sexo não passa de vulgarização dos sentimentos, menosprezo ao próprio corpo e declínio do resguardo moral que deveria existir em cada um.
Hoje em dia, que o amor está mais banalizado do que arroz com feijão, as pessoas mais conscientes não sabem mais nem se ainda existe amor, se ainda vale a pena amar e, principalmente, qual o conceito do outro sobre a questão. Ora, se o outro já encontra uma porta aberta logo saberá da facilidade existente para entrar, abusar e sair.
Nessa incerteza, por não querer fugir aos padrões que lhes orientam nas relações, tendem a preferir a solidão a se entregar ao jogo do finja que ama lá que finjo que amo cá, tendo de se entregar porque essa é a pedra principal do jogo. Uma vez vencida, torna-se dama comum, vulgar, banalizada.
Coitado desse amor que nunca aprende com os tantos erros praticados em seu nome. Pelo contrário, torna-se cada vez mais banalizado e tendente a ser reconhecido apenas nas relações familiares e de amizade. Mas por que essa coisa tão bonita conhecida como amor, de um passado romanticamente brilhante e encantador, aos poucos foi se esfacelando até chegar às raias da banalização total?
Muitas respostas poderiam ser dadas, principalmente no sentido de afirmar que os tempos modificaram os costumes, prevalecem as incertezas nas relações e ser romântico se transformou sinônimo de cafonice. Além disso, pessoas que ainda continuam sendo sentimentais, amam com sinceridade e sentem falta das pequenas coisas que encantam e esquentam uma relação, se sentem sem espaço para expressar esse jeito doce de amar em meio aos apelos e erotismos desenfreados.
Contudo, por mais que a televisão e os modismos que estão presentes em tudo e em todo lugar insistam para que o amor seja uma coisa e não mais uma sensação, verdade é que basta olhar um pouco para trás e encontrar exemplos de como os gestos de amor comandavam a vida dos apaixonados.
Uma bela serenata em noite de lua cheia rompia as trancas do coração mais inacessível; um ramalhete de flores do campo, cheirosas igual à desejada, acompanhado de uns versos de amor rabiscados com letra trêmula, fazia a mocinha tremer de cima a baixo no instante que recebia; uma caixinha de bombons, uma maçã do amor, uma única flor colhida no jardim, um olhar sincero, um gesto corporal e um sorriso nos lábios, tudo isso deixava o outro sem reação para dizer não.
No velho alto-falante da cidadezinha ou mesmo na emissora de rádio tão ouvida no lugarejo, ao entardecer o locutor anunciava: “Esta próxima página musical, perfumada com os melhores aromas dos que amam, é um oferecimento de Zezinho para alguém muito especial e que ele ama muito, esta hora ouvindo seu radinho de pilha lá no Sítio da Ribeira”.
E começava a música. E a melodia romântica e apaixonada corria pelas terras e atravessava montes: “Ah! Meu amado, por que brigamos, a nossa vida pode ser só de alegria. Porque te amo tanto...”.



Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Nessas mal-traçadas linhas (Poesia)

Nessas mal-traçadas linhas


Mana maninha
seu irmão está chorando agora
saudade que dá aí de casa
aperreado pra ir logo embora
vejo calendário em todo lugar
pensando logo em chegar a hora
e arrumar todo que tenho
que se arruma sem demora
e pegar a estrada de novo
e quem dera Deus ser agora

guardei tudo o que podia
é coisa pouca mas vai ajudar
e sei que mais eu merecia
mas a vida daqui é de maltratar
trabalho muito e sem serventia
pra muito cansar e nada ganhar
e ainda por cima me dá agonia
em estar aqui e noutro lugar
que é aí ao lado da minha Maria
pra ser feliz e jamais viajar

mana maninha
leia a carta e esconda o papel
não quero fazer ninguém triste
não quero essa lágrima ao léu
quero encontrar a alegria que existe
mesmo que não esqueça essa sina de fel
que é chegar e não poder abraçar
nossa mãe que foi morar no céu
mas é assim mesmo maninha
é a cortina da vida e o seu véu.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 11 (Conto)

DESCONHECIDOS – 11

Rangel Alves da Costa*


“Mas que sonho senhora?”, perguntou um Carlinhos um tanto que assustado.
“Foi um sonho muito importante que dizia... Mas aonde você vai? Volte aqui...”. E a velha senhora quase saiu correndo em direção ao portão ao ver que o menino repentinamente desapareceu correndo.
E Carlinhos procurou sair imediatamente dali porque avistou um guarda, com mais de dois metros de altura na sua visão, que caminhava em direção à velha para saber o que estava acontecendo, pois havia ouvido vozes. Acostumado a apanhar desse tipo de gente, mesmo que não estivesse fazendo nada, o menino achou melhor não esperar por tempo ruim.
Quando a velha percebeu que o menino havia saído dali com medo do guarda, chamou imediatamente o homem à sua atenção, deu-lhe umas boas reprimendas e exigiu que fosse imediatamente à procura do menino. E que ao encontrá-lo tratasse com carinho e respeito e tudo fizesse para que ele retornasse.
“Mas senhora, já está tudo muito escuro lá fora. Dificilmente a gente pode colocar as mãos em meninos desse tipo, que vivem pelas ruas e conhecem cada buraco existente...”. Disse o rapaz, de cabeça sempre baixa.
Então a velha não deixou nem ele prosseguir e foi logo dizendo: “Mas eu não quero que você coloque as mãos nele com violência ou lhe faça qualquer mal. Afinal de contas é apenas um menino que estava ali diante do portão apreciando o jardim. Não vejo nenhum mal nisso. Ademais preciso falar com ele, sinto que preciso falar com ele, pois o mesmo, ainda que não saiba, tem alguma coisa importante para me dizer...”.
“Mas não vou precisar nem fazer esse esforço, pois olhe ali no portão. Não é aquele mesmo menino que há instantes saiu em disparada?”. Disse o guarda aliviado, perguntando em seguida o que desejava que ele fizesse agora.
A viúva Doranice quase desmaiou quando o rapaz anunciou que Carlinhos havia retornado. Voltou o olhar para o portão e sentiu uma coisa boa tomar-lhe o espírito, suavizar sua mente e proporcionar um novo brilho aos seus olhos, ainda que marejados pela boa nova.
“Vá, vá, pode ir. Não se preocupe comigo não. Meus anjos estão ao meu redor, em cima de mim e em todo lugar, sinto-me encorajada para ir até ali para falar com aquele garoto. Lá dentro mande providenciar alguma comida quentinha e um bom copo de suco. Talvez aquele rapazinho esteja com muita fome e não negarei alimento a quem tem fome. Antes de sair me dê as chaves daquele portão, que saberei abrir e fechar com segurança. Agora vá”.
“Mas senhora, é apenas um menino de rua, um desses meninos de rua que vive por aí praticando pequenos roubos, amedrontando as pessoas, cheirando cola e usando outras drogas. É muito perigoso que a senhora se aproxime sozinha de uma pessoa como essa Dona Doranice...”, insistia o guarda.
Já impaciente, a velha olhou-o nos olhos e disse: “Vou lhe perguntar uma coisa, meu rapaz: E se um dia a lua tomasse o lugar do sol o que você faria?”. Como o rapaz ficou sem saber responder, apenas ela gesticulou e ele retornou em direção à mansão.
Assim que o rapaz deu as costas ela seguiu em direção ao portão. Carlinhos ainda estava lá em pé, e talvez estivesse observando o diálogo entre patroa e empregado, mas sem entender nada do que havia se passado. E já próximo de onde ele estava a velha senhora perguntou: “O que fizeste voltar aqui meu jovem, já que saiu em correria? Estava com medo daquele brutamontes?”.
“Confiar em quem minha senhora, se todo mundo acha que a gente só quer fazer o mal e por isso mesmo quer agredir? Mas eu só voltei para perguntar a senhora porque não deu nenhuma atenção àquele senhor que estava sentado ali naquele banquinho. Ele já saiu, mas estava ali, olhe...”.
E a velha Doranice estremeceu da cabeça aos pés. “Mas o que você está dizendo meu filho, que tinha gente sentada naquele banco?”. “Isso mesmo, era um senhor de cabelo liso e todo branquinho, com um bigode também, e estava fumando um charuto..”.
“Mas, mas, só conheci uma pessoa assim, e era... Meu Deus do céu, mas o que você está dizendo...”. E mesmo percebendo que a velha Doranice estava a ponto de desmaiar, o menino continuou: “E ele falava alto com a senhora e a senhora não dava nem atenção, mas eu ouvi tudo, ouvi tudinho. E pelas palavras dele achei que eram coisas importantes, por isso voltei para dizer a senhora que ouvisse ele, que não esquecesse de ouvir ele de jeito nenhum. Mas pelo jeito ele já saiu dali...”.
“Mas então era, o... o..., mas o que ele dizia?”


continua...





Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com