SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 5 de fevereiro de 2011

Chance (Poesia)

Chance


O amor que não quis enxergar
os espinhos pelos caminhos
agora com o coração a sangrar
e os dois caminhando sozinhos
deverá saber perdoar

o perdão que se espera do amor
é o olhar para trás e sentir
os erros e onde mais errou
e das lições poder extrair
a força no nada que restou

se o que ainda vagamente existe
é o reconhecimento verdadeiro
de que o amor persiste
então grite para o mundo inteiro
que amar é belo e a paixão existe.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 15 (Conto)

DESCONHECIDOS – 15

Rangel Alves da Costa*


Se bem distante Soniele seguia pela estrada sem rumo e desafiando o destino, parece que a jornalista Cristina estava prestes a fazer o mesmo. Não que desconhecesse aonde queria, mas os caminhos desconhecidos que teria de percorrer.
Cansada e entristecida que estava com tanto trabalho e falta de reconhecimento, bastando ver quantas despedidas sem justa causa já havia recebido nos últimos anos, a lutadora que fazia do jornalismo uma bandeira de luta contra as injustiças sociais, agora precisava descansar. Ao menos por alguns dias, mas precisava descansar. Sentia.
Com as economias que havia guardado sabia que poderia ficar uns dois meses viajando pelo país afora, conhecendo povos e lugares desconhecidos, costumes, usos e tradições diferentes, se reconfortando do cotidiano estafante que estava acostumada na cidade grande.
Para viver tais experiências escolheu seguir sertão adentro, pelas bandas do interior nordestino, lugar que os dos grandes centros urbanos sempre conhecem como moradia da miséria, da fome, da precisão de tudo, da falta de tudo. Sabia que era assim mesmo, mas também sabia que era muito diferente.
E sabia que era diferente porque via a região nordestina no contexto de sua realidade e não das fantasias que costumeiramente se criam em torno do lugar. E sabia também que o povo nordestino não vivia muito diferente daqueles que estão na cidade grande.
Considerando-se a falta de comida na mesa, as doenças, a falta de saneamento, os índices de desenvolvimento humano, muitos lugares nas metrópoles estariam nordestinizados. Do mesmo modo a riqueza, o poder e o dinheiro que também são característicos em muitas famílias espalhadas pelas regiões agrestes.
Enquanto jornalista conhecia muito bem essa realidade. Daí que não esperava ter muitas surpresas ao pisar na terra rica, mas esturricada, da maior parte dessa região. Queria, isto sim, conviver de perto com famílias carentes, com pessoas que ainda nem conheciam a cidade grande e os seus costumes, com sertanejos na sua máxima pureza do canto, do aboio, da vaquejada, do cordel, da buchada, da carne de preá assada, do prato sem comida, do sorriso sem dentes, da alegria contagiante de um povo sofrido, porém infinitamente lutador e esperançoso.
Assim, tendo na cabeça tais pensamentos, Cristina arrumou as malas e tomou o avião rumo a uma dessas capitais nordestinas. Na sua bagagem muito mais material de trabalho do que propriamente roupas, pois sua intenção era também aproveitar o passeio e fazer anotações sobre os lugares por onde passasse, descrevendo as características e os modos de vida do seu povo, como num longo diário sem título nem objetivos predeterminados.
Enfim, colheria o material que fosse possível, através de fotografias, gravações e filmagens, para dar validade ao que fosse sendo escrito. Jornalista tem dessas coisas, vai escrevendo e escrevendo e depois junta tudo num contexto que muitas vezes se torna em verdadeira obra-prima, não só do jornalismo, mas também do romance histórico. Beberia, quem sabe, desse vinho sagrado de Euclides da Cunha e tantos outros.
Assim que desceu no aeroporto foi logo pedindo informações sobre como poderia chegar na região tida como a mais carente e empobrecida daquele estado, pois tinha interesse em se dirigir até lá. E recebeu todas as informações que tanto necessitava, sendo-lhe indicado onde ficava a rodoviária e quais os ônibus que poderia tomar para chegar até lá.
Não demorou muito e já estava com suas bagagens no guichê comprando uma passagem rumo a Mormaço. Esta cidade, segundo lhe informaram, era tida como a capital da região mais pobre do estado.
E para quem já estava esquecido, era lá que ficava o cabaré da Madame Sofie. Aquele mesmo onde a bela Soniele fazia vida antes de partir.


continua...




Poeta e cronista
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A SOLIDÃO DO LADO DE LÁ (Crônica)

A SOLIDÃO DO LADO DE LÁ

Rangel Alves da Costa*


Imaginar a solidão é um ato mais solitário do que vivê-la, disso tenho plena certeza. E minha convicção é fruto da própria ideia que temos da solidão, como sendo uma predisposição comportamental que envolve o agente num estado de angústia, dor, aflição, sofrimento e um profundo silêncio querendo gritar.
Tudo isso já demonstra um quadro muito dolorido. Assim, se a gente imagina que o outro vive na solidão logo vem à mente um sentimento de piedade e compaixão. E a imagem que chega do outro sempre vem acompanhada de um quarto fechado, de janela que bate sem que ninguém vá até o portal ver o horizonte, de cabeça baixa e lágrima derramada, de pessoa sozinha num ambiente sombrio e triste.
Às vezes é assim mesmo, num quadro até pior do que isso, pois os ambientes domésticos poderiam ser transformados em precipícios, abismos, profundezas escurecidas de Dante. Outras vezes não, é a solidão em si mesma, teimando em tornar ilha pessoas com realidades para serem vividas por todos os lados.
Escrever é apenas um dos muitos atos solitários que me acompanham desde o acordar ao não dormir. Contudo, neste momento que escrevo solitariamente e só não consigo absorver as consequencias e as feições da solidão, como o entristecimento e a desilusão, vez que é este sentimento nos outros que me toma. Estou vivendo a sua feição, o seu ambiente e o seu mundo de solidão. Sei como ela é porque imagino como ela está sendo em você.
Você até que pode estar fazendo tudo para mostrar alegria, ter gestos de felicidade, sorrir. Os gestos não apagam os sentimentos, contudo. Se é na alma que mora e de onde se expande a solidão, a cortina pode estar aberta para a comédia, mas o ator de si mesmo vive sua tragédia interna.
Gostaria que não fosse assim, que ao menos as expressões corporais pudessem esconder o que vive na alma, mas o olhar infelizmente não permite negar a existência de um solitário. Se neste momento você seguir até o espelho mais próximo e quiser se enxergar certamente não irá se encontrar do outro lado.
É que no solitário o olhar é ao mesmo tempo distante e vazio, parecendo querer encontrar algo em tudo e em lugar algum. E se você olhar nos olhos de um solitário perceberá que eles não miram, apenas se lançam e se estendem sem direção.
Aí do outro lado estou vendo você sorrindo do que digo. Ora, não há do que se sorrir, não encontra motivação alguma para o sorriso, então entreabre os lábios para fingir contentamento. No mesmo instante que o lábio se fecha o olho está pronto para chorar. Nada disso corresponde a um estado espiritual que muda. Pelo contrário. O solitário vive forçando aparências para colocar um véu transparente sobre o seu vulcão. E não há como fingir por muito tempo.
E ali adiante novamente o canto da sala ou do quarto; novamente a fronha molhada; novamente a janela aberta e uma paisagem inexistente; novamente esse mal-estar, essa lembrança, essa saudade, essa vontade de gritar, essa fotografia, esse copo, esse veneno, essa dor, essa vontade de despedida sem adeus.
O pior é que “Chove lá fora e aqui tá tanto frio. Me dá vontade de saber... Aonde está você? Me telefona. Me chama, me chama, me chama... Nem sempre se vê lágrimas no escuro, lágrimas no escuro... Tá tudo cinza sem você, tá tão vazio. E a noite fica assim porque... Aonde está você? Me telefona. Me chama, me chama, me chama... Nem sempre se vê mágica no absurdo, mágica no absurdo, mágica... Nem sempre se vê lágrimas no escuro, lágrimas no escuro, lágrimas... Nem sempre se vê mágicas no absurdo, mágica no absurdo, mágica... Nem sempre se vê lágrimas no escuro, lágrimas no escuro, lágrimas...”.
Cadê você?



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Tu és Salmo

Tu és Salmo


Se por essa vida caminho
sob o manto divino da proteção
e me fortaleço a cada manhã
com o meu Salmo e minha oração
e peço a Deus paz e amor
guiando sempre o meu coração
é porque preciso da felicidade
de ter ao lado a doce paixão
em teu nome como única verdade
de amar feito uma religião
e fazer desse desejo uma liberdade
de subir até os céus pela tua mão
pois te amar sem ter brevidade
é fazer da vida uma devoção.


Rangel Alves da Costa

DESCONHECIDOS - 14 (Conto)

DESCONHECIDOS – 14

Rangel Alves da Costa*


Não se sabe quem chamou, mas diante do barulho pela baderna e agressões, não demorou nem três minutos e uma viatura da polícia riscou na porta do cabaré.
Recostada pelos cantos cheia de hematomas e sangrando, Soniele era ajudada apenas por Caveirão, um afeminado que fazia às vezes de cozinheiro de Madame Sofie. As outras raparigas se meteram não se sabe onde e nenhuma, até mesmo aquelas que diziam ser tão amigas, estavam ali para ajudar, para conduzi-la até um posto de saúde ou hospital.
Gegeu não, pois os únicos machucões que ele tinha eram no coração apaixonado e no fígado tomado pelo álcool. Ao seu lado, perguntando se precisava de alguma coisa, ajeitando cuidadosamente sua roupa, havia uns cinco puxa-sacos.
Assim que os dois policiais entraram foram logo pra cima do ricaço malfeitor perguntando se ele estava ferido, se precisava de alguma coisa, se queria que prendesse aquela vagabunda arruaceira naquele mesmo instante. Praticamente alisavam e quase beijam o rapaz cambaleante.
Um dos policiais, sem ao menos se dirigir até Soniele para perguntar se estava precisando de alguma coisa, se virou de onde estava, logicamente do lado de Gegeu, e falou bem alto:
“A gente já tá sabendo de tudo. Nosso amigo aqui estava bebendo sossegado o seu uisquinho e você chegou querendo tirar o sossego dele. Até dinheiro dele quis roubar que a gente já tá sabendo. Mas o pior é o boa noite cinderela que você quis botar na bebida dele. Ele fez por bem ter dado uns tapas nas suas fuças. E se ele quiser a gente leva você agora mesmo pro xilindró, basta que ele acene com a cabeça. Quer patrãozinho, quer? Deixe que a gente prenda ela, deixe!”.
Nunca se viu absurdo igual, mas a verdade é que realmente aconteceu. Gegeu e os policiais continuaram na farra enquanto Caveirão, todo tremendo com medo da polícia, acompanhava Soniele até o posto médico. Andaram uns cem metros e ela desmaiou, após ter reclamado do aumento das dores e do sangramento pelo ferimento que tinha tomado num dos braços.
Populares ajudaram a conduzi-la imediatamente até o hospital. E dois dias depois estava recebendo alta. Agora não tinha jeito, não tinha mais demorar nem nada. Se já estava de mala arrumada para seguir mundo afora, agora era o momento. Partiria naquele mesmo dia, no ônibus que ia sair às cinco da tarde.
Não quis se despedir de ninguém. Contudo, procurou Caveirão, segredou-lhe alguma coisa que o fez chorar copiosamente, e depois deu-lhe um forte abraço de despedida. O rapazinho acabou desmaiando quando ela partiu.
A cidade em peso parecia que estava olhando Soniele, a mocinha prostituta, a Jasmim de Fogo, caminhar puxando uma mala em direção à rodoviária. Rapazes se aproximavam e imploravam por tudo na vida que ela não fizesse isso, que não os deixasse órfãos daqueles suspiros incontidos na cama sempre suada e desfeita do cabaré.
Uma beata, com xale na cabeça, bíblia na mão e todo o aparato, que conhecia tão bem a mocinha por prestar sempre atenção à sua vida e pelo que as outras diziam, foi se aproximando e disse cordialmente que naquela idade ainda haveria tempo de salvação, pois tinha certeza que a pureza do seu coração tinha o poder de dissipar a impureza do corpo. Ela gostou do que ouviu e agradeceu.
Já na rodoviária, quase que adiantando o relógio para o tempo passar mais depressa, não via a hora de embarcar rumo ao desconhecido. Sinceramente não tinha um destino certo. Talvez ficasse em alguma das próximas rodoviárias, talvez seguisse muito mais adiante.
Faltando dez minutos viu um garotinho se aproximar e lhe entregar um bilhete junto com outro envelope. E estava escrito: “Me perdoe por tudo, meu amor. Tenho feito tanta besteira com você porque te amo demais. Não posso impedir que você vá embora. Apenas peço que aceite essa quantia em dinheiro e o cheque em branco que estão envelope e mande me dizer qual o seu destino. Com um beijo apaixonado do seu Gegeu”.
Sentiu que ele estava por perto. E estava, mais adiante, meio escondido, triste de se acabar. Mas ela simplesmente devolveu tudo e disse que não poderia aceitar. E caminhou em direção ao ônibus que já estava de porta aberta. Sentou na poltrona e fechou os olhos. O coração quase arrebentava por dentro. Também amava o safado do Gegeu.


continua...




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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E HAVIA UMA JANELA E UM HORIZONTE (Crônica)

E HAVIA UMA JANELA E UM HORIZONTE

Rangel Alves da Costa*


Não há desculpa para fazer da solidão o fim do mundo. O fim do mundo existe, mas somente para quem pensa que é muito feliz, para quem se ilude com a felicidade. Quem vive de aparência não suporta um pingo de chuva que caia e então o mundo acaba de vez.
A realidade está diante de todos é para ser, senão vivida, ao menos assumida. Não adianta fugir da angústia do tempo, do calendário que vai passando e do relógio que parece inimigo. Se o trem está nos trilhos é mais proveitoso estar sentado numa de suas janelas apreciando as paisagens do que ficar em frente ao primeiro vagão de braços abertos.
Procurar o pior para viver se alimentando de pessimismos também não adianta. As coisas nunca são como as pessoas desejam, daí que muitas vezes a arma sangra e quebra o espelho sem acabar com a vida daquele que não quer se vê. E do mesmo não adianta se jogar do penhasco porque lá embaixo há um rio.
Contudo, se a pessoa decidiu se fechar para a vida, buscou por conta própria a reclusão nos labirintos medonhos do seu inconsciente e tanto faz como tanto fez para tudo que ocorre ao redor, porque pensa que não há mais amor, família, amizade nem nada, é melhor realmente seguir o caminho apropriado. Talvez fazer como fez a outra um dia.
Essa outra, que aqui vou chamar de alguém, tinha mais que motivos para viver fechada na sua solidão, pois rejeitada por todos porque não queria acompanhar os modismos mais banais existentes; para se enclausurar com sua tristeza infinita, vez que jamais conheceu um rapazinho que não tivesse falado em sexo antes de saber o seu nome; para viver desesperançada e cheia de angústia, pois sentia que para conseguir qualquer coisa da vida tinha que ferir seus princípios morais e sua consciência.
Sem fazer disso um espetáculo, uma encenação teatral para que os outros sentissem pena de sua situação e de vez em quando a procurassem para magicamente ensinar os caminhos da alegria, do sorriso e da felicidade, ela simplesmente procurava se comportar como o relógio solitário: se consumindo a cada batida silenciosa do coração.
Assim, se trancava no quarto, abria a janela, ficava vivenciando o seu torturante mundo e de vez quando dialogava com o seu eu ainda não padecente, não afetado por tanta dor e sofrimento. Esse outro eu persistente jamais deixava que as luzes fossem totalmente apagadas na escuridão, não aceitava que a janela ficava trancada em qualquer instante, não deixava que ela abaixasse a cabeça para fazer desaguar rios de lágrimas.
Esse outro eu que ainda procurava vencer as barreiras e dificuldades existentes, diferentemente do que se possa imaginar, não confrontava de vez com a outra parte dilacerada. Pelo contrário, muitas vezes adentrava no seu cerne e tudo se transformava em verdadeira aflição, mas apenas como forma de conhecer os limites daquela angústia e sofrimento e assim procurar reverter a situação.
E depois esse eu persistente, essa alma e espírito de força e luz que nunca desampara os desalentados, não só abria ainda mais a janela, fazendo as forças positivas da natureza adentrarem com todo o brilho e encanto, como chamava as forças mágicas existentes nos seres das florestas, no canto dos pássaros e na força do vento, para a festa do renascimento.
E segurava na mão do eu solitário e triste e o conduzia bem diante da janela aberta, enorme, iluminada, cheia de bons fluídos e forças positivas, e mandava que abrisse bem os olhos e mirasse o horizonte, perguntando depois se conseguia enxergar alguma coisa que justificasse a tristeza e essa vida angustiante de solidão.
O outro nada respondia, apenas sorria. E o vento passava para levar pra bem longe as angústias que não faziam mais moradia ali.



Poeta e cronista
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Cantiga para o meu amor (Poesia)

Cantiga para o meu amor


Minha menina de trança
quando a lua cheia sair
ciranda vai fazer festa
para alegrar seu coração
cantar uma cantiga
versejar em prosa
dizer que o amor é tanto
que o cravo não brigou
com a rosa

e como você está bonita
vestido rodado e florido
passando pelo jardim
e os meus olhos a duvidar
se a rosa é a que estava
ou a flor que vai passar
perfume suave que vem
no meu lindo buquê em você
tanto amor tanto amar

mas quanta felicidade
nesse meu coração infantil
pois basta chegar a tarde
e ele faz que sumiu
e vai voando pra pracinha
amar a mulher que é minha
jogar um poema na face
amar a vida inteirinha

doce amor que existe
nessa infância que persiste
pois amar para o tempo
e o cirandar ainda insiste
vamos meu amor rodar
deixe a vida também dançar
e se tudo é alegria
então vamos namorar.


Rangel Alves da Costa