SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 4 de junho de 2017

Sem restos (Poesia)


Sem restos


Pensei que era corrente o que nos unia
e que nenhuma força desapartaria
mas o amor tão frágil não suportaria
o sopro repentino de voraz ventania

e tudo se partiu e tudo se quebrou
como espelho lançado que espatifou
nem caco quebrado de nós mais restou
para cortar o pulso de quem mais errou.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – viver no mato


*Rangel Alves da Costa


Nada melhor do que viver no mato. Mas no mato mesmo, não em lugarejo com casas próximas, não em sítio de muita vizinhança, não em beira de estrada. Distante de tudo, distante de estrada, distante de povoação, distante de som de carro passando ou de forasteiro na caminhada. Em casebre ou tapera, em casa rústica, mas na paz e no silêncio de meu Deus. Apenas os sons passarinheiros, os cantos das águas correntes, o farfalhar das folhagens e a tirania insuportável dos grilos. Ouvir a canção da ventania, ouvir o silêncio do amanhecer e o entardecer. Fazer comida em fogão de lenha, tomar café batido em pilão, saborear fruta do mato, caçar broto e raiz macia. Uma melancia, um melão, uma mandioca, um milho embonecado, uma abóbora, um quiabo, um maxixe. E sem pressa de nada, sem pressa nem de chegar nem de partir. Deitar na rede, conversar com o mato, matutar com a natureza e dormir até de porta aberta. E viver. Imensamente viver essa paz que em algum lugar ainda deva existir. E como eu queria estar lá.


Escritor
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sábado, 3 de junho de 2017

NORDESTE E SERTÃO, TUDO SÃO JOÃO!


*Rangel Alves da Costa


Junho é o mês dos três santos festeiros: Santo Antônio, comemorado no dia 13; São João, festejado no dia 24; e São Pedro, celebrado no dia 29. Juntos, os três santos juninos acendem fogueiras, esquentam namoros, soltam balões e rojões, oferecem pamonha e quentão, puxam o fole do forró, tornam o mês numa festa só.
Dentre os três santos, inegavelmente que São João é o mais famoso, sendo mesmo todo o período mais conhecido como o mês das festas joaninas. Pelo Nordeste e sertões, falar em festa junina sempre remete a São João, com tal designação servindo até para os demais festejos. Daí que o junino é joanino e todo o mês de junho é São João.
Na alma nordestina e também no espírito sertanejo, não há alento maior que a aproximação e chegada do mês junino. Há uma expectativa tamanha que antes mesmo da chegada do mês, muitos já se programam para os festejos de mais adiante. Então logo a proclamação de ser o melhor mês do ano, pois o mais festeiro, o mais animado, o mais romanticamente esperançoso, o mais devotado às danças, às comidas e bebidas.
A noção que sempre se tem é de um mês como um imenso arraial, com fogueiras acesas, com forrós por todos os lugares, com fogos riscando os céus, com chinelados pelos salões festeiros, com animações de não acabar mais. Também como um mês de muita comida de coco, muita bebida típica, muito de tudo e tudo muito. Uma noção de um mês pertencente de modo exclusivo ao povo nordestino e mais precisamente ao sertanejo.
Noutros tempos, a idealização junina que se tem hoje era traduzida em realidade, e de modo muito diferente do que atualmente se tem como festejos juninos. A começar pelos autênticos forrós. Nada de banda de forró ou de cantor de forró, mas de sanfoneiro mesmo, sempre acompanhado do triângulo, zabumba e pandeiro. Nada de forró romantizado ou eletrônico, mas ao som do fole, do chinelado pela sala de reboco e do suor respingando pelas roupas de chita e camisas listradas.
Noites antigas de fogueiras acesas por todo lugar, de roda de amigos ao redor das labaredas e das mãos ajeitando espetos sobre as brasas vivas. Cheiro de milho, cheiro de coco, de cravo e canela. Um cheiro de pinga da boa e de fumaça dos fogos subindo aos ares. Balões enfeitando as noites, chuvinhas alegrando a meninada, traques jogados debaixo das saias, bombas, bombinhas e foguetes, ecoando nas noites matutas. E quanta pamonha, canjica, arroz-doce, pé-de-moleque, queijo cru e queijo assado, bolo de milho, licor, quentão, cachaça e vinho de jurubeba. E as pessoas dando as mãos para o batismo da fogueira e para de cima das chamas saírem como compadres e comadres.
Se não havia salão forrozeiro por perto, então da vitrola se ouvia o Trio Nordestino: “Já é madrugada, até agora nada meu bem não aparece. Aqui tudo mudou, cadê meu amor ai se eu pudesse. Eu saía chorando, pela rua gritando, cadê São João? Pra que tanta fogueira, se pra mim a noite inteira vai ser grande a solidão. Pra que tanta fogueira, se pra mim a noite inteira. Vai ser grande a solidão. É noite de São João, quase amanhecendo o dia. É madrugada e não vem, quem tanto eu queria...”.
Contudo, a autenticidade junina foi sendo transmudada no passar dos anos. Rarearam as fogueiras, os casamentos caipiras, as quadrilhas matutas, as reuniões familiares e amigueiras ao redor das chamas abrasadas, e principalmente os forrós pé-de-serra ou qualquer forró de raiz. Agora se tem o festejo junino quase como uma festa qualquer, sem o tradicionalismo de antes nem com a preservação dos folguedos e brincadeiras próprios da época.
O que se percebe, infelizmente, é que a devoção junina da moçada de hoje é muito mais pela festança em si do que mesmo pelas belezas sublimes tão presentes na época. A prova disso é que se colocar um forró autenticamente sertanejo numa praça de eventos, poucos serão os presentes. Mas se disser que é um Xande ou um Esticado da vida, certamente que o espaço não caberá de tanta gente. Igualmente, entre um Trio Nordestino e um paredão, será ao redor deste que os jovens estarão.
Mas de qualquer modo é São João. Mesmo ao avesso, é São João. E de vez em quando surge uma espiga de milho, um copo de arroz-doce, um prato de canjica. E uma saudade danada com cravo, canela e gosto de coco.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


                  Poesia no sertão...







Um afeto, um abraço, um beijo... (Poesia)


Um afeto, um abraço, um beijo...


Indescritível o amor sentido
que pulsa e que extasia
que vibra e que irradia
mas nem todo desejo é tudo
quando se quer apenas
um afeto
um abraço
um beijo

e do afeto
e do abraço
e do beijo
o amor maior e seu grão
que semeado no coração
faz pulsar e extasiar
faz vibrar e irradiar
e aflorar os desejos
e tudo.



Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – férias num paraíso


*Rangel Alves da Costa


Preciso urgentemente de umas férias, de um bom e justo repouso que me faça retomar uns vinte anos de descanso, estresse e aborrecimentos. Logicamente que não num lugar qualquer, em qualquer destino de praia, de serras ou de cidades. Talvez uma longa estadia num castelo francês rodeado de vinhedos e adega de garrafas envelhecidas. Talvez num distante região alpina de um país europeu, em local tão aconchegante por dentro como gelado por fora. Talvez num hotel dez ou vinte estrelas e situado bem no meio de águas distantes. Talvez numa cabana bem no ponto mais alto de uma montanha. Talvez num mosteiro tibetano ou numa aldeia mongol distante de tudo. Talvez eu merecesse mesmo alcançar uma confortável nuvem e lá armar uma rede. Mas sei da impossibilidade de ao menos um dia num lugar assim. Mas não reclamo não. De nada posso reclamar. Talvez eu esteja querendo demais quando tenho uma rede no alpendre, um sombreado de árvore grande e um riacho que passa logo após o quintal. E também um jardim de única flor a cada estação. Por enquanto, apenas descanso sob o umbral da janela. E daí avistando o mundo, os horizontes, os azuis e as miragens. E sonhando, sonhando, sonhando...


Escritor
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sexta-feira, 2 de junho de 2017

UM FIM DE TARDE ASSIM


*Rangel Alves da Costa


Iniciei este texto já passado das cinco horas da tarde desta quinta-feira, primeiro de junho. 17h12min precisamente. E veio-me a inspiração exatamente pelo que acabei de avistar do outro lado do portão, em direção aos horizontes.
O dia inteiro foi de mais nuvens do que réstia de sol, num tempo nublado de chover a qualquer momento. Mas agora, na junção das nebulosas cores do entardecer, sem as chamas do sol nem a vermelhidão entre as nuvens, o tempo ficou mais entristecido e pesaroso.
Daí estar um fim de tarde assim, assim sombrio, tristonho, nublado, escurecido, melancólico e até angustiante. Paisagem de chuva de uma chuva que não vem, horizontes de cores outonais apenas a espera de mais escuridão da noite que logo vai chegar.
Tudo fica mais triste num fim de tarde assim. Não há nem por de sol nem nuvem carregada, não há nem as cores avermelhadas e tão próprias do instante nem a escuridão fechada dos instantes que antecedem os temporais. Apenas um fim de tarde assim, assim diferente.
Na solidão em que estou agora, onde qualquer coisa já desperta saudade, tristeza, melancolia, uma nostalgia de perfeita feição, avistar paisagens assim é o mesmo que ser chamado ao sofrimento sem dor, às saudades sem retratos avistáveis ao pensamento.
Sim, motivos de saudades eu teria muitos, pois distante de pessoa que guarnece de amor o meu coração, mas as saudades perante este fim de tarde são muito diferentes, pois apenas surgidas como se abrindo velhos baús e buscando reencontrar os caminhos distantes.
Mas creio que não somente eu estou mais entristecido num fim de tarde assim. As pessoas passam mais cabisbaixas, mais pensativas, mais silenciosas, mais reflexivas. Não avistei sorrisos nem palavras, apenas pessoas que passam como se caminhassem distantes de tudo e alheias a tudo.
Os carros com suas buzinas sequer são ouvidos. Não há pressa, não há correria. Talvez muitos se esqueçam de passar na padaria para comprar pão e leite. Talvez outros sequer saibam por que caminham, para onde vão, e o que vão fazer logo mais.
Os chuviscos não caem. Apenas o tempo fechado, nublado. O sol escondido nas nuvens, apenas vai sumindo sem deixar rastros. Os prenúncios de chuva talvez não se confirmem. É mais fácil chover quando o dia inteiro não se mantem assim carregado.
Será certamente uma noite sem lua, sem estrelas. Talvez os meninos sequer apareçam para jogar bola por cima do asfalto. As mulheres sempre temem sentar nas suas portas em noites nubladas e indefinidas. Será uma noite chegada mais cedo e muito mais alongada.
Levantei por um instante e novamente lancei o olhar pelos arredores. Ainda são 17h39min, mas é como se a noite já tivesse chegado inteira, completa e escurecida antes do tempo. As sombras avançam e o noturno atormenta ainda mais a minha solidão. Até gosto da solidão, mas não quando ela chega em noite antecipadamente assim.
Já se foi o que era do fim de tarde. Não houve boca da noite nem partida do sol para a chegada da lua. Os espaços estão sem lua e as ruas parecem sonolentas e cada vez mais tristes e também solitárias. Um gato passou sem mio, também cabisbaixo, lento, vagarosamente remansoso.
Talvez chova a qualquer momento. Ou talvez a noite avance sem um chuvisco sequer. Seria bom que chovesse e os telhados molhados acalantassem os sonos difíceis de adormecer. Muita gente gosta de adormecer ouvindo o barulho da chuva, sentindo o mundo molhado ao redor.
Voltarei novamente ao portão. E perante a noite fechada sentirei tudo que a mim vier como saudade, tristeza ou aflição. Não vou mais fugir da memória nem do que desejo reencontrar. Que tudo venha na noite. Já não tenho medo da escuridão.


Escritor
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