Noturno no Memorial
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Eu amo (Poesia)
Eu amo
Eu amo
um amor
que abre a janela
eu amo
um amor
que tem manhã
eu amo
um amor
que se encanta
eu amo
um amor
que é pétala e
colibri
eu amo
um amor
que faz amar
assim
por ser amor
que nasce em flor
que exala mim.
Rangel Alves da Costa
Palavra Solta – noite fria (e sem ela)
*Rangel Alves da Costa
A noite está fria, e de frio intenso,
profundo. E estou sem ela. E nada invento para aumentar a temperatura do corpo.
Não quero café. Não quero uísque. Não quero vinho. Não quero lareira acesa. Não
quer portas e janelas trancadas. Não quero casaco de frio nem cobertor que
esquente. Nada disso eu quero. Na memória, na recordação, na vontade de ter,
apenas a saudade dela. Seu abraço, sua presença, seu afago, o fogo, o fogo. Sua
pele sobre a minha, o seu corpo sobre o meu, seus braços entrelaçados nos meus,
seu abraço me tomando, o fogo, o fogo. Bastaria sua presença e a fogueira
estaria acesa. Bastaria que estivesse ao meu lado e as chamas fulgurariam em nós.
Bastaria estar pertinho e toda a frieza se dissiparia de vez. E agora trêmulo,
como se na neve lançado, estendo o meu corpo gélido como em águas de icebergs.
E gemo, e sofro, e padeço pelo frio cortante da ausência e da distância. E eu
que queria apenas o fogo, o fogo, o fogo: ela.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
MARCILEIDE, CONFESSO AO MUNDO...
*Rangel Alves da Costa
Marcileide Sarmento, a amiga Marcileide, a
Tia Marcileide, a educadora Marcileide, a festiva Marcileide, a sorridente,
bondosa e encantadora Marcileide, a incansável lutadora e vitoriosa guerreira
Marcileide, partiu na última terça-feira 30 de agosto, em inesperado e triste
adeus.
Repeti muito o nome Marcileide? Jamais, pois
este nome se repetirá a todo instante na vida de Poço Redondo. Pessoalmente, eu
me sentia orgulhoso demais por poder sempre contar com a sua singeleza amizade.
E ainda mais pelo fato de que ela cultivava muitos de meus planos e aspirações:
através de seu centro educacional, tornou0se uma permanente batalhadora pela
preservação de nossas raízes e tradições culturais.
Juro que muitas vezes eu chegava a dizer a
mim mesmo: “Marcileide só pode estar gastando do próprio bolso pra fazer
acontecer coisas tão belas e grandiosas em Poço Redondo. Não é fácil nem barato
fazer o que ela faz. E qual a intenção desta mulher em formar grupo de xaxado
com seus alunos, o que vem à mente desta mulher ao organizar passeios e
práticas esportivas pelas ruas e avenidas, qual força que move esta mulher que
sempre procura oferecer o melhor no seu centro educacional, através de
comemorações histórico-festivas, de feiras de ciências e outras atividades
educacionais?”.
E ainda eu me dizia, indagando: “O que
realmente quer esta guerreira Marcileide ao tornar um desfile cívico numa
verdadeira aula sobre a história de Poço Redondo? Quem imaginou que, através de
uma iniciativa privada, pelas vias públicas da cidade pudesse passar a galeria
de ex-prefeitos, as atrações turísticas, o histórico da formação, seu percurso
de vida, até os dias atuais destas bandas sertanejas?”. E eu me perguntava
encantado, orgulhoso, admirado demais com tamanho engajamento e determinação
desta agora saudosa mulher.
Mas minha amizade com Marcileide já remonta
outros tempos e diversas outras situações. Todas as vezes que necessitei de qualquer
tipo de colaboração, e para o objetivo que fosse, a primeira a chegar era
sempre Marcileide. Via Messenger, logo ela enviava uma mensagem: “Não se
preocupe, Rangel. Pode contar comigo!”. Ela sempre fazia assim, ela fez muito
assim. Quando precisei de Hidrobrilho para colocar sobre os murais do Memorial,
quem se prontificou? Quando precisei fazer reparos em alguns móveis antigos,
quem primeiro veio em ajuda? Quando precisei de muito mais, foi também
Marcileide que estendeu sua mão.
Não faz muito tempo, e logo após um desfile
cívico que se tornou histórico nos anais de Poço Redondo, um belo dia eu estava
no Memorial Alcino Alves Costa quando Marcileide, acompanhada da Professora
Dineide, adentrou os portões acompanhada de uma turma de crianças, alunos de
seu centro educacional. Mais uma visita, foi o que logo pensei. Ao dar alguns
passos para recebê-los, percebi que as crianças carregavam nas mãos os mesmos
banners com atrativos histórico-turísticos utilizados no desfile. E ali estavam
para doar ao Memorial. E desde então os banners doados por Marcileide estão
expostos numa das salas principais do Memorial.
Não havia um só evento organizado pelo seu
centro educacional que Marcileide não me fizesse um convite pessoal. Bem
recentemente, eis que ela mais uma vez me surpreende via mensagem. Desta feita
para dizer que havia adquirido uma casa vizinha a de Raí, em Curralinho, e que
quando eu quisesse ela colocaria as chaves em minhas mãos. Como não se encantar
com uma pessoa assim, de atitudes tão dignas e tão bondosas? Como não chorar
agora pela sua partida assim tão desacertada com o tempo. Marcileide ainda era
jovem, muito jovem...
E cerca de quinze dias atrás eu fui até sua
residência na Praça Frei Damião. Pediu-me para passar por lá para fazer sua
doação ao Projeto Rua Colorida. Levei alguns livros para a biblioteca de sua
escola, e ficamos conversando. Acertamos que brevemente eu iria dar algumas
palestras para os seus alunos. Despedi-me e voltei.
Despedi-me e agora ela partiu! E tudo parece
ontem, tudo parece agora. E assim se eternizará na minha memória. Abraço-te
ainda, amiga Marcileide. Fostes chamada. Vá. Leve a flor da bela fotografia.
Deus dirá que é tua!
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Lá no meu sertão...
MESTRE TONHO, a humildade humana na nobreza da arte. Na madeira bruta, no cinzel afiado, a mão que molda o majestoso a dizer: é possível fazer!
Solidão tão só (Poesia)
Solidão tão só
Ai esta
solidão...
solidão tão só
solidão tão
solitária
que minha solidão
deseja a si mesma
e nunca encontra
solidão de
silêncio
na mudez dos dias
e nas sombras do
sol
e ainda assim
afasta de si a
multidão
para vive sua
solidão.
Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - o velho, bem velho
*Rangel Alves da Costa
Já estou muito velho. Já estou envelhecido
demais. Não sei mais sequer a idade que tenho, eis que chega um tempo no qual
as pessoas nos olham somente como idosos e não como seres humanos comuns. Olho
ao passado e ainda me encontro lá. Há uma janela que ainda não se fechou. Há
uma porta pela qual avisto as dependências da casa, a mesa no meio da sala, a
cozinha, o candeeiro na parede, o oratório numa mesinha de canto e um quadro
grande de Nosso Senhor Jesus Cristo. Olho e ainda avisto tudo isso. Mas dizem
que estou velho, que sou apenas um velho, e envelhecido demais. Tudo bem, que
assim seja. Eles não sabem, contudo, que, sendo assim, eu já me aproximo de ser
novamente criança. Então vou aceitar essa imposição na idade, no estágio de
vida, e corro para envelhecer ainda mais. E como será bom voltar a ser criança,
a ser menino traquina, a soltar pipa, a brincar de cavalo de pau, a correr pelo
mundo sem medo de espinhos no pé. Ora, dizem que os velhos chegam numa fase de
criancice. E esta fase que eu desejo encontrar, que eu quero acalantando ainda
os meus sonhos.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
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