SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 5 de maio de 2020

Lá no meu sertão...


Chico Velho... Velho Chico...





Cálice de amor (Poesia)


Cálice de amor


Prefiro beber água
a tragar veneno

prefiro guaraná
a provar o fel

prefiro o suor
ao gole de sangue

prefiro esperar
a dar por acabado

que amor é este
que não pode esperar

que desejo é este
que faz desesperar

na taça do amor
derramo teu perfume

e hei de beber
um cálice de amor.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – o melhor prato do mundo



*Rangel Alves da Costa


Tem gente que não coloca na boca uma comida que não seja bem escolhida pelo seu paladar. Tem gente que só come em restaurante grã-fino e comida cujo nome é até difícil de escrever. Tem gente que não gosta de fígado, não gosta de carne de porco, não gosta de bife nem de macarrão. Macarrão sim, mas só se for em prato de forno e todo visguento. Mas qual seria o melhor prato do mundo para aquela criança africana já desvalida e sem forças de nada, a não ser de rastejar em busca de qualquer grão? Eu, por exemplo, não tenho frescura nenhuma com comida. Não sou de comida exótica, de prato cru ou sangrando, mas o resto eu dou um jeito. E jeito mesmo quando a fome bate e qualquer coisa vem como serventia. Em momentos assim, não há prato melhor que farofa de ovo, ovos com salsicha. Não há escolha. Sei de casos onde a grã-finagem sai dos restaurantes e correm para as cozinhas para comer qualquer coisa. E comem tanto que as gorduras escorrem nos beiços e as mãos se encharcam de óleo e de farinha.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 2 de maio de 2020

PATRIMÔNIOS CULTURAIS DE POÇO REDONDO



*Rangel Alves da Costa


Poço Redondo, município sergipano e sertanejo, talvez não compreenda bem o quanto possui de riqueza histórica, cultural, geográfica e turística. Para uma odeia da grandiosidade, a Gruta do Angico, onde foram mortos Lampião e parte de seu bando em 28 de julho de 38, está fincada em seu território.
E ainda a Estrada Histórica Antônio Conselheiro, onde em 1874 o missionário andante cruzou os sertões sergipanos em direção a Bahia, mas não sem antes reformar a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, na povoação ribeirinha de Curralinho.
Também a Serra da Guia, a Comunidade Quilombola Serra da Guia, a Maranduba (onde ocorreu a segunda maior batalha do bando de Lampião contra as volantes no ano de 32), o Morro da Letra, a Pedrata. E muito mais. Sem falar nos vinte e seis quilômetros de exuberante beira de rio. O São Francisco ladeia o município.
Desse modo, imenso é o patrimônio de Poço Redondo, e que não é devidamente explorado como fonte de emprego e renda para a população, por falta de políticas que priorizem a sua potencialidade. Os órgãos municipais que cuidam do turismo e da cultura talvez não se atenham ao próprio conceito de patrimônio, principalmente cultural.
Ser patrimônio cultural significa ser um bem preservado e passado de geração a geração. Significa uma riqueza gestada no saber ou no fazer de um povo e que vai tendo continuidade ao longo dos anos. Mais forte ainda é o patrimônio cultural que surge sem a intencionalidade de assim, mais tarde, ser reconhecido.
E assim acontece com a festança cangaceira do xaxado e a lida vaqueira de antigamente que se transformou em esporte apaixonante. O xaxado foi assimilado dos passos dançantes dos cangaceiros e se tornou em verdadeira arte sertaneja. Principalmente a beleza e a perfeição do Grupo de Xaxado na Pisada de Lampião, mas também diversos grupos preservam as pisadas, as marcações, os cantos e os adornos daquele repouso cangaceiro depois da luta. Grupos adultos e grupos mirins, e todos tornando Poço Redondo em verdadeiro celeiro dos festejos xaxadeanos.
Se o xaxado de hoje veio de imitação cangaceira, a vaqueirama remonta aos tempos bem mais distantes, desde que o sertanejo montou em cavalo para desbravar os sertões. O vaqueiro sempre existiu no mundo-sertão, desde os primeiros currais à necessidade de juntada de gado.
O que se tem hoje pelo nome de vaquejada é a consequência festiva, e muitas vezes como disputa, daquele amor antigo do vaqueiro pelo seu cavalo e pelo boi valente. E Poço Redondo possui profundo amor tanto pelo xaxado como pela vaquejada. São festejos e manifestações que correm nas veias, que fazem suar de paixão, que fazem mais contentes e alegres os dias de luta.
E que tornaram Poço Redondo como fraterno berço e palco maior destas duas paixões de um povo.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Na escrita...



A poesia (Poesia)



A poesia


Escrevi poema
sem escrever os versos
sem qualquer estrofe
ou rima qualquer
deixando a poesia
ser escrita no tempo
por um possível amor
e o seu versejar

um beijo um verso
um abraço uma estrofe
a métrica no toque
e a rima em acalanto
sozinho não escrevo
preciso de alguém
que seja o poema
e me queira amar.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta – Fazenda Coruripe, 1938



*Rangel Alves da Costa


Fazenda Coruripe, em Poço Redondo, Sertão Sergipano, 1938. Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, já haviam sido mortos na Chacina de Angico em 28 de Julho. Os cangaceiros sobreviventes se dispersavam, eram caçados, presos ou resolviam se entregar. Em setembro, Canário e Penedinho haviam se bandeado para os lados de Poço Redondo, em refúgio na mata densa da Fazenda Coruripe (cerca de três quilômetros após a sede municipal). Catingueiras, bonomes, aroeiras, mandacarus e xiquexiques, tufos de matos por todo lugar, tornavam o local com feição de segurança. Mas não para a traição. E aí ela se consumaria de modo frio e calculado. Adília, companheira de Canário, estava em Propriá. E não sabia que seu primo Penedinho daria cabo, por cima de uns lajedos existentes no local, ao seu companheiro de cangaço. Enquanto Canário estava distraído, pelas costas foi alvejado. Depois teve sua cabeça cortada (pelo próprio Penedinho e levada como macabro troféu) e o restante do corpo enterrado nas proximidades (quando da chegada de Zé Rufino em busca dos espólios do cangaço). Aquele 6 de setembro de 1938 ainda está moldurado, em tristes lembranças dos tempos idos, na paisagem do Coruripe. Bem ali.



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