SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Lá no meu sertão...


Relíquias do Sertão!



Antes de partir (Poesia)



Antes de partir


Meu amor
era assim que eu chamava

amor
foi assim que chamei

você
como eu passei a chamar

e já percebendo
que já não havia o amar

desculpe-me
foi assim que eu pedi

quando tudo acabou
e um dia eu parti.

Rangel Alves da Costa



Palavra Solta - pelos campos de meu Deus...



*Rangel Alves da Costa


Ali - pelos campos de meu Deus - e ao redor, apenas um silêncio envelhecido. Não tanta mudez assim. A ventania sopra, a folhagem farfalha, um bicho de mato faz barulho entre os tufos catingueiros. Já não há mais cheiro de café torrado, batido em pilão e coado na velha arupemba. Não há cheiro do caldo grosso do café se derramando sobre o braseiro no fogo de chão. Também não há cheiro de cuscuz no fogo nem de tripa de porco chiando na estaladeira. Mas tudo bem. É um silêncio de paz, de sabedoria, de memória e reencontro. Não há carro parado com mala aberta e barulho insuportável de tudo o que não presta. Não há garrafa sendo quebrada nem ameaças de um ao outro. Não há olhares despertando estranhezas nem os inimigos invisíveis de cada esquina. Não passa o vergonhoso modismo nem as perdições da cidade. O carro da polícia não precisa ser chamado nem se ouve a arrogância do motor da moto. Ao contrário, pois por ali corre um preá, mais adiante o cachorro faz carreira atrás de qualquer coisa. E, por todo lado, uma natureza solene e majestosa. Um silêncio cuja voz interior é ouvida em palavras de agradecimentos.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

SER SOLIDÃO



*Rangel Alves da Costa


Quem não ama a solidão, também não ama a liberdade. A frase é de Arthur Schopenhauer (1788-1860). Com isto quis proclamar o filósofo que a solidão não pode ser vista apenas como um mal que atormenta o ser, eis que somente através dela o homem é livre para expressar todo o seu sentimento, para proclamar-se sem disfarces e demonstrar toda a sua força ou fragilidade. Eis o contexto em que está inserida aquela frase:  
“Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.”
As palavras acima são de clareza singular. Afirma o filósofo que o homem completo, na sua inteireza do ser, exsurge somente quando está sozinho. Eis que na solidão o indivíduo revela-se completo, liberto, sem qualquer disfarce. Sozinho não há imposição alguma da sociedade, não há força social que manipule o ser, e por isso mesmo o homem se mostra apenas o que verdadeiramente é. Ademais, a liberdade trazida pela solidão, colocando o homem sem amarras, proporciona a este mostrar sua fraqueza, se fraco for; impor sua força, se forte for. Quer dizer, somente a solidão para proporcionar ao homem a sua verdadeira liberdade, pois momento único para se mostrar sem disfarces.
Daí a grande lição da solidão: Sozinho, o homem não é mais nem menos do que verdadeiramente é. Até mesmo fingir ser aquilo que não é, acaba comprovando o ser dissimulado que o homem é. Daí que a solidão é instante único para espelhar sem retoques, para mostrar a face sem qualquer máscara, para dizer que o homem sozinho assim se comporta porque desse modo ele realmente é. Daí que chora porque não finge sentimentos; enfurece porque propício ao enraivecimento; sofre porque propenso à angústia, à dor, ao entristecimento.
Quando Schopenhauer afirma que solidão é liberdade, certamente o faz para mostrar a nudez que com ela é revelada. E nudez no sentido de verdade, de não fingimento de sua realidade. Assim, a solidão se apresenta como momento único de liberdade do ser. Como afirmado, dessa liberdade o agir sem a vigilância de outrem, o pensar sem se sentir observado, o fazer o que quiser sem temer repressão de quem quer que seja. Ora, está sozinho, liberto, encontrando apenas consigo mesmo. E o indescritível instante para fazer o que seria impensável diante de outros.
Daí que não é tão ruim assim fechar a porta atrás de si e aproveitar ao máximo a solidão que silenciosamente se apresenta. Talvez os outros, aqueles que apenas avistaram a pessoa se recolhendo, fiquem falando ou imaginando a tristeza que deva estar sendo suportado naquele quarto fechado, naquela insuportável solidão. Não imaginam, contudo, que aquele recolhimento representa um caminho de liberdade. Jamais supõem que a pessoa ali trancada, ao invés de estar inventando coisas para dar cabo à vida, está feliz e reencontrando consigo mesma.
E não é à toa que a solidão serve como fundamento ao conhecimento do ser pelo ser. A meditação exige solidão, a reflexão filosófica implica em solidão, o percurso mental em busca de conhecimento pressupõe uma boa dose de solidão. E assim porque somente na solidão o homem é capaz de elevar o pensamento e encontrar respostas para suas mais inquietantes indagações. Do mesmo modo no homem comum, cuja solidão o faz tão verdadeiro como nem ele mesmo se imagina. O fato de estar sozinho o faz liberto para ser outro, mas acaba sendo apenas sua própria feição.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com  

Lá no meu sertão...


Em Curralinho... Chico Velho. Velho Chico...




Assim é o amor (Poesia)



Assim é o amor


Do mesmo céu azulado
de horizonte ensolarado

assim é o amor...

um belo noturno enluarado
como firmamento estrelado

assim é o amor...

de entardecer revoado
na planura de asas alado

assim é o amor...

assim é o nosso amor
em nós mais que amor amado.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - branconceito



*Rangel Alves da Costa


Branconceito. Ora, branconceito pode ser considerado um neologismo para indicar o preconceito contra a pessoa de pele branca. Considerando que preconceito também pode ser visto como o conceito previamente firmado acerca da pessoa de pele preta ou negra, o branconceito seria sua inversão. Neste caso, seria o preconceito que pessoa negra tem com relação à pessoa de pele clara ou branca. Logicamente que o termo preconceito serve para indicar o prévio e negativo conceito que se tem contra pessoa de qualquer raça, cor, sexo, religião, etc. Mas em sentido estrito, assim como se dissemina a existência de aversão às pessoas negras, a verdade é que muita gente de pele escura simplesmente não gosta de pessoas de pele clara. Aos olhos de muitos negros, simplesmente os brancos são vistos com antipatia e até ódio, como se quisessem culpá-los pela cor de sua pele, de sua raiz familiar ou de sua nacionalidade. Ou até pelo fato de que, no passado distante, o europeu (tido como branco) foi o responsável pela escravidão de uma raça ou a desumana submissão de um povo. Tais fatos ainda são tidos por muitos como elementos de rejeição e de rancor. E não deixam de ter razão, pois muito branco ainda continua tendo a mesma visão de submissão e de menosprezo à classe negra. Infelizmente é assim. E o branconceito acaba mesmo sendo justificado.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com