SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 29 de setembro de 2020

Palavra Solta - Rosinha, minha canoa...


*Rangel Alves da Costa

 

José Mauro de Vasconcelos, saudoso e extraordinário escritor brasileiro (autor de Meu Pé de Laranja Lima), deixou-nos um doce e maravilhoso romance chamado “Rosinha, minha canoa”. Sem adentrar em detalhes, a história trata da relação do homem com a natureza, e também da natureza do homem com sua intrincada natureza. Faz muito tempo que o li, ainda rapazote e cheio de encorajamento para leituras. Hoje mais tomado de calendários, de folhas soltas dos anos passados, eis que me lembrei do título do livro de Zé Mauro. Saí do romance e passei a romancear minha própria vida no beiral de um rio, onde silenciosa e melancólica adormece uma canoa: Rosinha. E uma vontade danada de soltar suas cordas, segurar nos seus remos, de soprar vento bom pela boca, e sair por aí, vagueando margem a margem, sentindo a brisa e o balançar das águas solenes. Uma viagem sem destino, sem pressa, sem endereço. Como é bom viver assim, sem pressa e sem endereço. Eu e minha Rosinha. Minha Rosinha seguindo e eu recostado na madeira e envolto em pensamentos. E chegando as saudades, as melancolias, os desejos de reencontrar. “Como foi ardoroso aquele abraço, como foi doce aquele beijo, como navegamos pelas águas felizes do amor...”. Não, não quero lançar lágrimas nas águas mansas de agora. Quero apenas seguir. Seguir nos braços dolentes de minha Rosinha. Rosinha, minha canoa...


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


domingo, 27 de setembro de 2020

SERTÃO, DIFERENTE MUNDO


*Rangel Alves da Costa

 

Sertão é mundo diferente. Não é todo mundo que suportaria ser sertanejo não. Precisaria ser de pedra, de grão, de todo de pau, de espinho de xiquexique, de destemor.
Sertanejo como terra seca, dura, petrificada. Sertanejo feito gente e bicho, feito sorriso e tristeza numa só feição. Nem tudo mundo suportaria isso não. De sol e de chuva, de morte e de vida.
Quanto sofre o sertanejo! Muito já ouvi falar. E sofre mesmo, e muito mesmo. Só Deus sabe o que esse povo - que é o meu povo - padece na sobrevivência do seu meio.
O homem da cidade não entende nem o tiquinho do que realmente passa o homem das distâncias matutas. Quando a seca vem braba, faminta, esturricando tudo, então tudo desanda num desalento danado.
E não é sofrimento pela terra seca, mas por toda a sequidão que passa a existir. O corpo em magreza, o menino faminto, o bicho berrando, o entrar dia e sair dia sem que nada chega como alento.
Mas então as esperanças surgem como verdadeiro milagre ou como forma de suportar as dores da vida. Quando o sertanejo se apega à fé, à prece, à promessa, à oração, enfim, à certeza que o amanhã será melhor, então tudo muda.
E tudo muda por que a fé se torna como um remédio contra os males que tanto afligem. E na fé a esperança. Daí que muito se diz que tudo
Pelos campos desalentados sertões adentro, nenhuma demora das chuvas consegue afastar as esperanças.
O olhar do sertanejo é um rosário tomado de esperanças. As mãos do sertanejo é um oratório de esperançoso céu.
A chuva não veio ainda, mas chegará no tempo certo. Assim diz o sertanejo. Tudo no tempo de Deus. Assim confirma outro sertanejo.
Mas antes que as chuvas cheguem, os campos áridos já espelham o quanto brota de esperanças. Tudo seco ao redor, mas a catingueira floresce bela.
A flor da catingueira, como um brinco dourado descendo rente a face magra da plante, demonstra o quanto de esperança viva nasce e renasce a cada instante.
Pelas estradas, enquanto os marrons e acinzentados entristecem ainda mais a murcheza do mato, então surge o alaranjado-avermelhado da flor e do fruto da jurubeba.
Um encanto aos olhos, mas também a certeza de que a seiva da esperança continua viva em cada pedaço de chão, cada tufo de mato, em cada planta que entristece por falta d’água.
Assim também nas flores e nos frutos das cactáceas sertanejas. A palma definhando, secando, morrendo na fornalha do sol, mas de repente avista-se uma vida florando sobre seus espinhos.
O mandacaru, o facheiro, o xiquexique, tudo comprova o quanto de vida vive quando já se acredita que tudo já esteja sem vida.
As flores surgem, as pétalas se abrem, os frutos tomam forma e cor, os bagos se adocicam, as polpas se avolumam, as cores espantam entre os acinzentados ao redor.
A vida sertaneja floresce assim. A vida sertaneja floresce nas esperanças tantas e que nunca murcham completamente nas plantas e no homem.
A planta floresce e frutifica pela invisível gota d’água do tempo. Aquele mesmo tempo de Deus. O homem floresce e frutifica pela fé incontida no seu coração.
A fé santa brotada de Deus. E pela prece, pela promessa, pela oração. Até que o olhar, logo ao abrir a porta ao alvorecer, diga que vai chover.
E os braços, como aqueles braços sempre abertos do mandacaru em direção aos céus, se elevem para os sagrados agradecimentos e para receber chuva boa.
Uma esperança nunca perdida. Nada teve fim, nada morreu perante o sertanejo. A fé sertaneja sempre resguarda a esperança de que amanhã será bem melhor.
E talvez seja por isso mesmo, pela fé incontida que brota em esperança, que a vida sofrida é suportada. E que o sofrimento seja diminuído pelo remédio sagrado da fé.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com



Lá no meu sertão...


"Na ribeira desse rio, ou na ribeira daquele..."






Véu da pele (Poesia)


Véu da pele


O véu da pele
faz o olhar
ir além
para roçar
a pele nua
tão quente
tão crua

e as mãos
tocam
e roçam
com a ânsia
que do desejo
expele
querendo
pele na pele.

Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - a ilusão, o voo, a queda...


*Rangel Alves da Costa


          Vivemos em tempos de ilusões, de voos cegos e certezas de quedas. Vivemos momentos onde a maioria das pessoas se contenta em não serem elas mesmas para, simplesmente, lançarem-se aos falsos alentos das mentiras, das submissões, das humilhações desejadas. Ora, impossível que a sã consciência de um povo possa dizer que o fanatismo político é correto, que a cegueira apaixonada se justifica, que a ideologização do nada serve como bandeira partidária. Um povo do açoite, da chibata, da ferroada, mas que quanto mais sofre mais demonstra contentamento. Um povo que aplaude o escárnio e a bestialidade de um governante. Um povo que vê o fogo engolindo a vida e não ter caráter para dizer que é culpado por tudo fazer - ou não fazer - para deixar “a boiada passar”. Que povo é esse que se ilude e se ajoelha perante uma esmola forçadamente dada e depois santifica seu algoz? Que povo é esse que vai enterrando pelas doenças e pela fome e depois, mesmo sabendo de quem é a culpa, simplesmente aplaude ao invés de bradar? Tudo que custará muito caro. Vive na ilusão, na fantasia, e começa a alçar voo cego bem ao lado do abismo. E quando sentir que não tem mais asas já terá sido tarde demais. Um povo em queda livre rumo a um abismo chamado desesperança, fome, medo, abandono.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

AQUELES CEM ANOS DE SOLIDÃO NO UMBRAL DA JANELA


*Rangel Alves da Costa


Borboletas, borboletas, borboletas. Suas presenças parecem tornar a vida mais alegre, mais ajardinada, mais primaveril. Mas suas presenças também inquietantes sinais, misteriosos, indagadores. Leves, belas, coloridas, mas também provocando muitas e múltiplas indagações. Estar na presença de uma borboleta não é apenas estar na presença de uma borboleta. Nunca.
Acordo e logo corro para abrir a janela. Sei que ela vem. E ela chega. Todos os dias faz assim, cumprindo um mesmo ritual de magia e de cor. Não sei o que pretende fazendo assim, pois no meu quarto não há nenhuma flor, nenhuma planta, nenhuma fonte de água, nenhuma compota de doces. Mas ela chega todas as manhãs, parecendo mesmo que dorme ao umbral da janela esperando somente que eu a abra.
Um mistério que me comove e encanta. Não há qualquer explicação para que uma borboleta, e sempre a mesma borboleta, entre pela janela do meu quarto ao alvorecer. Vem, pousa no umbral, em seguida levanta voo e começa a planar por cima da cama, pelas paredes, pelos cantos, por cima da escrivaninha. Já pensei em espantá-la, em colocar tela protetora na janela, mas depois fui aceitando alegremente aquela inesperada visita.
Levanto a mão, passe rente, mas sempre prefere um pouso ligeiro no meu ombro. Talvez não encontre no meu corpo nenhum perfume que lhe agrade. Nunca fica em mim mais que poucos segundos, pois sempre levanta voo em outras direções. Quanto mais a manhã é ensolarada mais ela parece mais bela e fascinante em seus tons amarelados, de um dourado parecendo pintado à mão.
O fato mais estranho, contudo, é que ela sempre prefere ficar em cima do meu livro de cabeceira: Cem Anos de Solidão. E ali como quisesse folhear o livro, entrar no livro, viver o livro. Certamente não sabe, contudo, que ali está Macondo e seu mundo mágico, fantástico, povoado dos Buendía, de espantos e estranhezas. Gerações e mais gerações de personagens que nos ensinam que o incompreendido é a realidade maior e mais convincente.
E um fato surpreendente depois revelado nas minhas indagações. Dentro daquelas páginas existem borboletas e mais borboletas, muitas borboletas, entrando no quarto de Meme, a Renata Remedios do livro, enquanto o cigano Maurício Babilonia está ao seu redor em amoroso cortejamento. Aliás, borboletas amarelas que sempre acompanham o rapaz e que parecem estar por todos os lugares de Macondo, pois ler o livro de Garcia Márquez é como ouvir o ruflar de asas de borboleta a todo instante.
 Cem Anos de Solidão é um mundo povoado de borboletas amarelas. Garcia Márquez colocou um jardim entre loucos, insanos e sonhadores, e ao invés de flores povoou de borboletas amarelas. Então, será que aquela borboleta não seria uma das tantas existentes em Macondo e querendo às páginas de Garcia Márquez retornar? Mas não a aprisionarei dentro daquelas páginas. Apenas deixo o livro aberto, esvoaçando ao vento, para que a borboleta voeje ao redor do seu mundo.
Em Cem Anos de Solidão, dezenas, centenas, milhares de borboletas amarelas, povoam o quarto de Renata Remedios quando Maurício Babilonia chega para visitá-la. As borboletas sempre acompanham Babilonia a cada passo que dá, sendo todas amarelas, leves, suaves, como surgidas de encantamento, ou mesmo como que afloradas das raízes ciganas do rapaz. Mas também borboletas que povoam os sonhos da bel Remedios e sobre o seu corpo em virgem flor passeiam apaixonadas.
"As borboletas amarelas invadiam a casa desde o entardecer. Todas as noites ao sair do banheiro, Meme encontrava Fernanda desesperada, matando borboletas com a bomba de inseticida. "Isto é uma desgraça", dizia. "Toda a vida me disseram que as borboletas noturnas chamam o azar." Certa noite quando Meme estava no banheiro, Fernando entrou no seu quarto por acaso e havia tantas borboletas que mal podia respirar. Apanhou um pano qualquer para espantá-las." Diz uma passagem do romance.
Eu não tenho nada a ver com Maurício Babilonia nem com Meme, com a bela Remedios ou qualquer dos Buendía, em quaisquer de suas gerações, mas uma coisa tenho certeza que me aproxima daquela história de solidão e borboletas: minha solidão de janela aberta e minha estranha visitante de todo dia. A borboleta povoando meus cem anos de solidão.
As borboletas são alegres, mas seu arco-íris de cores possui outras tonalidades nos meus cem anos de solidão. E voos em céus sombrios e desiludidos.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Fé do povo ribeirinho