SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 25 de outubro de 2020

Canção de um amanhecer (Poesia)


Canção de um amanhecer


Ao amanhecer
já estava refeito
já era outra pessoa
 
pulou a janela
abraçou o sol
e cantou bem alto
 
o jardim verdejava
as flores perfumavam
uma dança de pássaros
                                                                                                           
subiu ao varal
e se estendeu inteiro
e deixou-se ressecar
 
veio a brisa boa
e soprou-lhe o ânimo
quis até voar
 
e voou tão alto
que olhou pra baixo
e deu adeus ao ontem
 
e se abraçou inteiro
e se beijou inteiro
enfim o amor
 
por si mesmo...
 
 
Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - da varanda...


*Rangel Alves da Costa


E da varanda eu via a vida passando. Da soleira, eu ia juntando quereres num alforje de caçador. Um aió desgastado de mato, um cantil cangaceiro antigo. As folhagens secas esvoaçavam as recordações. No quintal, o varal balançava minhas vidas descosidas pelo uso. Meu sonho era ser passarinho, mas nunca consegui. Eu sequer tinha uma copa de árvore para fazer um ninho. Mas achava boa assim mesmo aquela vida. Até que o vento foi soprando e me levou pela estrada...

 
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

terça-feira, 20 de outubro de 2020

PIA DAS PANELAS, O COITO DAS MORTES

*Rangel Alves da Costa

Fincado no sertão sergipano de Poço Redondo, na região das Areias, o Coito da Pia das Panelas foi casa de maribondo, covil de crime hediondo, sem haver luta contra volante, era a própria cangaceirama se opondo. Coito formado de pedras, com funduras e alturas, seus arredores se tornaram paisagens de sepulturas, cangaceiros e inocentes sofreram cruéis agruras. Panelas formadas nas pedras por força da natureza, dentro junção de água num cenário de beleza, mas onde o sangue escorreu sem pressa nem estranheza, pois cangaceiro em vingança é estopim de malvadeza. Nada menos que cinco mortes no coito e ao redor, desde Lídia de Zé Baiano a Rosinha já tão só, mulheres tão destemidas, mas que sangraram sem dó. Foi o cangaceiro Coqueiro que contou da traição, então Zé Baiano afoito não deu a Lídia o perdão, com sua sanha feroz tingiu de vermelho o chão. Rosinha a cangaceira, viúva de Mariano, não teve melhor destino, pois descumpriu uma ordem que laçou seu desatino. Relutando em retornar de temporada familiar, foi preciso Lampião dar a ordem pra voltar, mas já com os dias contados pra vida não mais vingar. No Riacho do Quatarvo, bem ao lado dessas Pias, Rosinha marcada de morte sofreu dores e agonias. Ser morta por companheiros em sertões de covardias. Coqueiro o delator, também no coito foi morto, e o mundo desacertado ficou ainda mais torto, pois dois inocentes jazeram pela maldade em aborto. Zé Vaqueiro e Preta de Virgem, sertanejos da região, entre mentiras e aleives, também desceram ao chão, tornando a Pia das Panelas um coito de aberração. Porém um retrato fiel daquele agonizante Sertão.

Outras observações pertinentes sobre o Coito:

Localizado na região da Comunidade Areias, zona rural do município de Poço Redondo, no sertão sergipano, este era um dois coitos preferidos pelos cangaceiros em suas passagens sertões adentro.

O nome Pia das Panelas, contudo, tende a enganar o visitante, vez que o mais acertado seria que o local fosse denominado Alto das Pias das Panelas ou Coito das Pedras. E por uma razão simples. O que se tem na realidade são formações rochosas, algumas mais elevadas, e algumas pias (cavidades surgidas nas próprias pedras) e panelas (o formato das pias, de forma ovalado, de modo a receber e armazenar água de chuva) abertas, por força da natureza, adentrando as formações rochosas. Tudo como se tivessem sido cavadas por potentes ferramentas, vez que alguns destes fossos se mostrando bastantes profundos.

Tem-se, assim, a localização perfeita para um coito cangaceiro: a existência de pedras grandes para a proteção e defesa, a elevação do local permitindo ampla visão de tudo que se aproximasse ou se passasse ao redor, além da existência de água nas pias e de mata fechada, entremeada de catingueiras, mandacarus e facheiros, tufos de mato e labirintos. Não obstante tal configuração propícia ao cangaço, o coito da Pia das Panelas também era estratégico aos cangaceiros, pois em meio a um grande número de propriedades que os cabras de Lampião podiam ter rápido acesso.


Escritor
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Lá no meu sertão...


Craibeira em flor em Poço Redondo, sertão sergipano




Canção da terra (Poesia)


Canção da terra

Cidade não
o chão
o grão
o pão
do sertão
 
asfalto não
a cancela
a donzela
flor mais bela
do sertão
 
retrato não
o amanhecer
o madrigal
por do sol
e lua em clarão
do sertão.
 
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - os bichos e suas vozes

*Rangel Alves da Costa

O gato mia. O boi muge. O lobo uiva. A galinha cacareja... E o homem? O bicho homem grita, urra, brame, atordoa. A cabra berra. O leão ruge. A hiena ulula. A cobra sibila. E o bicho homem? O homem chama de filho da puta, grita dizendo que vai matar, solta palavrão e esculhamba com o mundo e com todos. O porco grunhe. O grilo trina. O pombo arrulha. O pássaro gorjeia. O pato grasna. E o bicho homem? Buzina, buzina, buzina. Faz ronco com a moto, troveja em cada palavra dita, sente prazer em gritar impropérios. Contudo, o pior é a ação. Ao ouvir o cantar do pássaro ou o mugido da vaca, o instinto humano se sente tão ameaçado pela pureza e pela beleza e logo silencia a voz da natureza. Uma natureza que não é a humana, que não é a dele.


Escritor
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terça-feira, 13 de outubro de 2020

OU A LEI É A LEI OU FAÇAM FOGUEIRA COM OS CÓDIGOS


*Rangel Alves da Costa


Parece-nos verdadeiro absurdo pretender transformar as leis, os códigos e a própria justiça, em jeitinho brasileiro.

Ora, se a letra da lei é induvidosa, não há como querer inventar interpretação diferente. No Brasil, contudo, é o próprio aplicador do direito que faz tudo revirado pelo avesso.

Ora, dar interpretação diferente a uma lei ou mesmo restringir seu âmbito de aplicabilidade, é o mesmo que dizer que a lei pode ser moldada segundo a conveniência do julgador.

Então não se precisaria sequer de lei. Pra que uma lei se o juiz, desembargador ou ministro julga como quer?

Vamos ao exemplo. O excesso de processo nos procedimentos judiciais é motivo suficiente para a concessão de Habeas Corpus ao preso, pois assim diz a lei, considerando que no processo criminal há prazos que devem ser necessariamente observados.

Mas vai um cidadão preso, esquecido pela justiça, jogado às baratas da injustiça, e pede a liberdade exatamente por excesso de prazo.

Então vai o julgador e nega, sempre afirmando que o prazo na condução do prazo está razoável. Então, por que a lei existe? Existe para não ser cumprida?

Por - e por exceção - ter cumprido a lei é que o ministro Marco Aurélio vem sendo tão duramente criticado, e por aqueles que fazem da lei barganha política, ativismo judicial ou julgam por mera conveniência ou interesse.

Corretíssima a atitude de Marco Aurélio ao julgar segundo o comando da lei, na sua literal interpretação, como sempre deve ser.

Se a legislação penal diz que a cada noventa dias a prisão preventiva deve ser revisada pela instância condenatória, e assim não foi feito, logicamente que houve transgressão ao preceito legal.

E o remédio para sanar tal erro do próprio judiciário é a concessão de Habeas Corpus ao réu preso. Se houve erro, este foi do judiciário e não do julgador que concedeu o remédio libertatis.

Neste ponto, também não vale dizer que o réu não poderia ser solto pela sua periculosidade ou pelo clamor social, por se tratar de um poderoso traficante.

O próprio judiciário deveria estar atento ao preso, à sua periculosidade, ao seu interim criminoso, e assim tomar todas as medidas legais previstas em lei para mantê-lo encarcerado.

Mas assim não fez, cochilou, dormiu, passou do ponto. Como consequência, a sua liberdade. Mesmo que a muitos fosse um ato absurdo, mas apenas um ato legal.

Legalista como é, sempre julgando segundo a letra da lei, o ministro parece não ter tempo de divagar por possibilidades outras senão a ser fiel intérprete das leis e dos códigos.

Uma atitude correta do ministro. Se todos os julgadores fossem mais fiéis aos ditames da lei, certamente não haveria tantas liminares, tantos julgamentos divergentes, tantos recursos e tantas justiças praticadas pela justiça.

Um perigoso traficante, mas que saiu da prisão de mãos dadas com a lei, pois esta previu que assim poderia acontecer. E aconteceu.


Escritor
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