
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
quarta-feira, 26 de maio de 2021
Flores de maio (Poesia)
Flores de maio
As flores de maioestão indo embora as flores e suas coressuas borboletas e colibrissuas canções da manhãas folhas pelos canteirosdoces versos na ventaniaimaginar ser assimem qualquer jardim mas as flores de maioem jardim tão tristeem paisagem aflitivarefletindo as dorese os espinhos do viverchoram em suas pétalasas lágrimas de todos nós e assim se vão as floresas flores de maio e da vidaem estações tão sombriascomo nossas agonias. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - coração sertanejo
*Rangel Alves da Costa
Eu bem poderia ser um velho calendário numa
parede de barro, uma fita desbotada do Juazeiro do Padim Ciço, um candeeiro
enferrujado em cima da banquinha. Eu bem poderia ser um oratório de canto de
quarto, um carcomido jarro de flores velhas de plástico, uma imagem santa
desbotada pelo tempo. Eu bem poderia ser aquela plaquinha antiga e alquebrada
dizendo que aqui mora uma família feliz, um tamborete de pé de porta ou uma
trempe sem pote lá no fundo da cozinha. Eu poderia ser a moringa na janela, a
panela de barro ou mesmo o velho carro-de-bois esquecido debaixo do umbuzeiro.
Eu bem poderia ser tudo isso. E sou tudo isso. Sou o vaga-lume, sou o grilo,
sou carcará-gavião. Sou a cruz da desvalia, sou o pedaço de pão. Sou o rosário
de contas, sou o silêncio da oração. Sou Sertão.
Escritor
domingo, 9 de maio de 2021
A MENINA FLOR E OS ESPINHOS DA VIDA
*Rangel Alves da Costa
Uma bela flor. Uma jovem linda, uma
adolescente, uma forma de vida tão cheia de graça e de formosura.
A menina flor ainda não vive os perigos após
as portas abertas da adolescência. A tão bela mocinha ainda não conhece as
estradas tão atraentes adiante, porém cheias de labirintos e de feras humanas.
A menina ainda é flor. Muito diferente de
grande parte das adolescentes, que mesmo ainda não tendo saído completamente da
infância e já se procuram se mostrar além do que são e fazer além do que podem.
A menina ainda brinca com sua casinha de
boneca, ainda conversa com seus brinquedos, ainda dorme choupando o dedo. Bem
poderia pensar somente em se arrumar, usar shortinho ou roupa justa, e abrir a
porta pra se danar pelas ruas.
Bem que poderia, mas ela sequer pensa nisso. As
coleguinhas da escola a chamam para fugir da aula, para andar por aí, para
encontrar amiguinhos, mas ela sempre diz não. Recebe bilhetinhos enamorados,
mas sequer responde.
De sua janela, seu olhar inocente vai
afastando o mundo, mas sempre prefere enxergar alguma borboleta, algum
passarinho, alguma coisa interessante que vá passando. Tem vontade de sair
correndo pelos campos para conversar com as flores.
Certo dia, até ficou sem compreender quando
avistou uma ex-colega de escola já de barriga grande, em estado de gravidez.
Sequer imaginava o que poderia ter acontecido para que a amiga pudesse estar
assim.
Ao ser avistada à janela, aqueles conhecidos
da escola sempre se aproximavam para um convite. Ouvia suas gírias, suas falas
quase incompreensíveis, seus chamados sem pé nem cabeça, mas não se interessava
muito em saber em saber o porquê de aquilo tudo estar acontecendo.

Mas não era mais criança. Seu corpo já era de
mocinha, sua forma física como a de uma bela e demasiadamente atraente adolescente.
Com sua idade e beleza, certamente que outras mocinhas se encheriam de batons,
perfumes, enfeites e passariam longos tempos perante o espelho.
Depois do espelho, a rua. O abrir a porta e
sair por aí. Mas aquela mocinha era diferente. Não gostava nem de ouvir muito
sobre sua beleza. Não dizia nada, mas ficava raivosa toda vez que ouvia que
logo estaria com namorado.
Numa feita, perguntou à boneca de pano se ra
bom beijar e qual o gosto que teria um beijo. Perguntou se era bom namorar e se
não havia perigo algum de ter deixar de ser o que ela era e como gostava de
ser. Silenciosa, a boneca parecia entristecida.
Um dia, resolveu se vestir como as outras
meninas, pentear os cabelos de uma forma mais solta, encher os lábios de batom
e as orelhas de brincos. Depois se mirou no espelho e não se reconheceu. Estava
feia, aquela não era ela, nada daquilo queria. Disse a si mesmo.
Ofereceram-lhe um cigarro, um copo de bebida,
um pó pra cheirar. Não, não quero, obrigado. Era o que sempre dizia. Mas
resolveu não dizer mais. Compreendeu que só estavam oferecendo aquilo porque
estava perto de pessoas que não deveria estar. E se afastou de uma vez.
Mas não era fácil viver assim, sempre se
afastando das pessoas que não lhe pareciam úteis. Mas tinha de ser assim,
sempre repetia. Também sofria por não deixar ser moldada segundo os outros
desejavam. E dizia a si mesma que se fosse pelos outros, então deixaria de ser como
tanto gostava de viver.
Então pendurou um calendário na parede, mas
não que tivesse interessada em datas, meses, anos ou dias passando, mas tão
somente para que o calendário simbolizasse a si mesma. Simplesmente deixaria o
tempo passar, passar, passar.
E o tempo seria sua lição. Se houvesse que mudar, então mudaria. Se fosse pra namorar, um dia namoraria. Tudo no seu tempo.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
Da janela (Poesia)
Da janela
A janela está fechadana manhã despertada o sol entra pela frestano dia que já é festa então abro a janelae a vida vem tão bela um pássaro cantandouma borboleta voejando uma flor que não vejoum velho som de realejo a moça bela sorridenteem tudo o fogo tão ardente menino correndo aléma meninada vai também o clarão do dia em mimdoce aroma de um jardim na cozinha a panelaleite despejado em gamela viver na luz o seu lumeé da existência o perfume se em tudo uma aquarelanão fecho mais a janela. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - no banco da praça
*Rangel Alves da Costa
Mesmo enevoado e triste, o entardecer na solidão do banco da praça é muito melhor. As folhas da amendoeira são balançadas pelo vento e se lançam em voo para repousar a meus pés. Os pombos já comeram seu grão e já retornaram às suas distâncias. As avoantes já cortaram os céus afogueados pelo lume do último sol, e por isso mesmo o meu olhar já não divisa a passarada do entardecer. Folhas mortas, folhas entristecidas, canteiros ao relento e desalento. E eu sozinho. O vento sopra, vem murmurando segredos, mas nem tenho o cuidado de ouvi-lo. Estou triste. Diviso uma pessoa do outro lado da praça e imagino que esteja com maior satisfação do que eu. Depois percebo que a moça se assentou num banco ao canto, rente à fonte luminosa que não acende mais. Ela permanece lá, sozinha, talvez esperando alguém ou deixando simplesmente o tempo passar. O tempo avança e não vai demorar em a boca da noite chegar. Continuo melancólico e triste, e certamente nada me fará diferente, ao menos por enquanto. E também certamente eu serei o único em tamanha tristeza na praça. Chega a hora de ir embora. Levando já pisando no tapete frio de folhas mortas e vou seguindo. Ao passar pela moça, então percebo o seu rosto encharcado de lágrimas. Não sofro sozinho. Talvez o mundo esteja sofrendo.
Escritor
