Desde sempre
Lembra?
mas já te dei uma maçã do amor
roubei uma flor e te entreguei
pirulitos e balas tudo eu te dei
até desenhar coração desenhei
só para te ver mais linda e feliz
alimentando paixão de criança
como eu sempre quis
joguei bilhetinho na janela
quis ser o melhor em tudo
usava brilhantina e perfume
tinha espelho no bolso
e escrevia uns versinhos
todinhos com o seu nome
verdade é que fiz tudo isso
na esperança de uma esperança
chorei e você sabe porque
e desde aquele dia jurei
que nem olharia mais em você
não passaria na sua rua
nem olharia na sua janela
mas ainda assim não esqueci
que o amor não tem culpa
se a gente cresce
e continua amando.
Rangel Alves da Costa
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
CANÇÃO DA MINHA TERRA (Crônica)
CANÇÃO DA MINHA TERRA
Rangel Alves da Costa*
O que será do homem se não conviver lado a lado com o presente e o seu passado? Daí que este canto surgiu do suor das minhas recordações da vivência nos sertões, desde que deixei por lá tantos sonhos e ilusões.
Quando arrumei mala e cuia, tomei a última fubuia e vim viver na capital. Mas Aracaju não fez mal, só me fez compreender que ao sertão não há igual.
Formado, doutor e tudo, aprendi que o estudo não se cansa de chamar para a gente pesquisar outros temas sem cessar. Assim, ao lado do meu direito e outras áreas de respeito, devoto imenso pleito a grande investigação sobre a vida e os causos do meu querido sertão.
Mesmo sendo filho de lá, muito tenho que estudar para ir nascendo a certeza de que não basta assuntar para entender o lugar e tudo que nele há. Na distância há outra realidade, e mesmo com a saudade, o cabra começa a perceber que tudo viu sem nada vê.
O cabra lê sobre a estiagem e então começa a entender que nela já fez viagem. Lê sobre Padim Ciço, Conselheiro e Lampião e acha tudo espantoso, maior admiração e só aí vai lembrar que já viveu no altar, que já fez lá do Angico verdadeiro passear.
No mundo de cá é coisa de espantar, só pra quem quer pesquisar o outro mundo de lá, bem pertinho, bem ali, mas é como o fim do mundo lá estivesse a dormir. E de repente, quando a realidade grita, então se corre atrás da vida aflita e no sertão vai de visita.
Aqui não tem disso não, meu irmão, mas se prestar atenção lá ainda se respeita santa missão e procissão, toada e vaquejada, aboio e rapadura, moça cheia de candura, rezador e tocador, violeiro e arteiro, lavrador e pescador, rendeira e cozinheira, parteira e varredeira, doceira e até fateira, mais velho que conta história e menino que quer guardar na memória.
Se fico longe muito tempo de saudade arrebento e pego logo a estrada, e nessa doce caminhada me ponho logo a imaginar como será bom alguns amigos encontrar. Todos de pés fincados na terra vivendo a sua guerra para sobreviver, para ganhar o tiquinho pra meninada comer.
E esses amigos vou reencontrando por todo lugar, embaixo do pé de pau, no bar, saindo para o trabalho, da lavoura a retornar. Outros avisto mais distante, em situação circundante que parece nunca mudar: no carro de boi a carrear, no cavalo magro a passarar, nos quintais a matutar sobre a vida e o que virá.
Em meio a esse mundo, de prazer tão infecundo, aprendo a lição do dia, que é fazer da alegria enxada e enxadeco pra enterrar a agonia. Não há como não sofrer, mas deste sentir nascer uma certeza maior, que é a sina do sertão e assim é o seu sol.
Nisso tudo me ajunto e me misturo, que é pra ver se seguro o jeito do jeito de lá, que é pra quando estiver cá e estiver a estudar aquela vida e vagar, jamais me surpreender se leio tanto sofrer de um povo sem merecer.
Essa vida no sertão é paisagem por tradição do poeta popular, que busca inspiração naquela imensa vastidão para criar seu cordel, o aboio do menestrel, traçando retrato fiel do homem e seu plantel.
Eu nunca fui cordelista, nem de um longe um artista, mas por conhecer fui contar rimando nessa poesia popular só com base na saudade, coisa boa que invade, saudade do meu lugar.
Benção, Poço Redondo, benção o meu sertão! Pra lá voltarei um dia, aqui fico mais não!
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
O que será do homem se não conviver lado a lado com o presente e o seu passado? Daí que este canto surgiu do suor das minhas recordações da vivência nos sertões, desde que deixei por lá tantos sonhos e ilusões.
Quando arrumei mala e cuia, tomei a última fubuia e vim viver na capital. Mas Aracaju não fez mal, só me fez compreender que ao sertão não há igual.
Formado, doutor e tudo, aprendi que o estudo não se cansa de chamar para a gente pesquisar outros temas sem cessar. Assim, ao lado do meu direito e outras áreas de respeito, devoto imenso pleito a grande investigação sobre a vida e os causos do meu querido sertão.
Mesmo sendo filho de lá, muito tenho que estudar para ir nascendo a certeza de que não basta assuntar para entender o lugar e tudo que nele há. Na distância há outra realidade, e mesmo com a saudade, o cabra começa a perceber que tudo viu sem nada vê.
O cabra lê sobre a estiagem e então começa a entender que nela já fez viagem. Lê sobre Padim Ciço, Conselheiro e Lampião e acha tudo espantoso, maior admiração e só aí vai lembrar que já viveu no altar, que já fez lá do Angico verdadeiro passear.
No mundo de cá é coisa de espantar, só pra quem quer pesquisar o outro mundo de lá, bem pertinho, bem ali, mas é como o fim do mundo lá estivesse a dormir. E de repente, quando a realidade grita, então se corre atrás da vida aflita e no sertão vai de visita.
Aqui não tem disso não, meu irmão, mas se prestar atenção lá ainda se respeita santa missão e procissão, toada e vaquejada, aboio e rapadura, moça cheia de candura, rezador e tocador, violeiro e arteiro, lavrador e pescador, rendeira e cozinheira, parteira e varredeira, doceira e até fateira, mais velho que conta história e menino que quer guardar na memória.
Se fico longe muito tempo de saudade arrebento e pego logo a estrada, e nessa doce caminhada me ponho logo a imaginar como será bom alguns amigos encontrar. Todos de pés fincados na terra vivendo a sua guerra para sobreviver, para ganhar o tiquinho pra meninada comer.
E esses amigos vou reencontrando por todo lugar, embaixo do pé de pau, no bar, saindo para o trabalho, da lavoura a retornar. Outros avisto mais distante, em situação circundante que parece nunca mudar: no carro de boi a carrear, no cavalo magro a passarar, nos quintais a matutar sobre a vida e o que virá.
Em meio a esse mundo, de prazer tão infecundo, aprendo a lição do dia, que é fazer da alegria enxada e enxadeco pra enterrar a agonia. Não há como não sofrer, mas deste sentir nascer uma certeza maior, que é a sina do sertão e assim é o seu sol.
Nisso tudo me ajunto e me misturo, que é pra ver se seguro o jeito do jeito de lá, que é pra quando estiver cá e estiver a estudar aquela vida e vagar, jamais me surpreender se leio tanto sofrer de um povo sem merecer.
Essa vida no sertão é paisagem por tradição do poeta popular, que busca inspiração naquela imensa vastidão para criar seu cordel, o aboio do menestrel, traçando retrato fiel do homem e seu plantel.
Eu nunca fui cordelista, nem de um longe um artista, mas por conhecer fui contar rimando nessa poesia popular só com base na saudade, coisa boa que invade, saudade do meu lugar.
Benção, Poço Redondo, benção o meu sertão! Pra lá voltarei um dia, aqui fico mais não!
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
UM POVO QUE CHEGA E VAI DESTRUINDO (Crônica)
UM POVO QUE CHEGA E VAI DESTRUINDO
Rangel Alves da Costa*
Dizem que onde goleiro pisa não nasce mais grama, onde a cabeceira do riacho é destruída não corre mais água, aonde chega a televisão acabou a inocência, aonde não há mais chão não nasce mais planta. Com os sem-terra é a mesma coisa, aonde eles chegam não presta mais nada.
Digo sem medo de errar, que aonde chega um líder desse movimento, vai olhando e observando, depois começa a reunir pessoas, trazendo-as não se sabe de onde, e logo começa a invadir latifúndios, pastagens e até quintais, não restará mais nada naquela região que se aproveite.
Perece coisa ruim, amaldiçoada, mas aonde eles chegam vai embora o sossego, a paz, as amizades, a comunhão entre pessoas da terra e que historicamente se conhecem. Aonde eles chegam e armam uma tenda não haverá mais segurança, não mais existirá vizinhança, vão sumindo os relacionamentos de compadres e comadres, amigos e conhecidos.
Parece coisa feita, trabalhada com as sete ervas da destruição, mas aonde eles erguem um barraco e colocam a bandeira vermelha é sinal que toda a região vai passar a viver continuamente ameaçada. Ameaça de olhos de quem bem sabe saquear e destruir, andar armados sem que nenhuma providência seja tomada, invadir cidades, prédios e o que quiserem como se estivessem sempre acima da lei.
O primeiro fator que se assoma negativamente a esse povo destruidor que chega em nome da luta pela reforma agrária, da transformação dos latifúndios improdutivos em lotes produtivos, é a mentira que caracteriza os propósitos do movimento. É preciso, antes de tudo, que haja resposta para algumas questões básicas, como as aduzidas a seguir:
Quanto trabalhadores sem-terra realmente existem em cada nova invasão? Quantos realmente estão sem terra para trabalhar, plantar e colher? Qual a origem desse povo, seus antecedentes, suas reais carências e necessidades, suas verdades e suas tantas mentiras? Quantos destes não estão fazendo apenas uma nova invasão, vez que já desfizeram daqueles lotes anteriormente conseguidos?
E indago ainda: Quais os reais objetivos da maioria desses ditos sem-terra assim que conseguem o que desejam? Será que mais uma vez será vender o lote na próxima estação, trocar por um carro velho ou uma motocicleta? Qual o valor que tem a terra para esse povo forasteiro e desonesto que comprovadamente não gosta de trabalhar?
E pergunto mais: Com quantas cestas de alimentos, outros produtos vindos dos organismos governamentais, além de linhas de crédito para produzir, se faz um assentado? A produtividade observada nos assentamentos é coerente e está nos limites das expectativas com as tantas verbas concedidas para manter um povo que não quer nada com a vida?
Por fim, ainda questiono: Quais são as leis que terão o poder de normatizar as condutas desse povo violento, que só anda armado, fazendo assaltos e saques, ameaçando as pessoas da terra, invadindo o que bem quiserem? Existirá lei para os sem-terra?
Enquanto não houver respostas para tais questionamentos, continuo afirmando e reafirmando que os sem-terra, invasores e assentados, na sua grande maioria, são as maiores mentiras já oficialmente implantadas nesse país irresponsável e de irresponsáveis.
Defender tais movimentos e, romântica e mentirosamente, querer fazer pulsar um coração socialista é querer fundar na consciência um partido da vagabundagem.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Dizem que onde goleiro pisa não nasce mais grama, onde a cabeceira do riacho é destruída não corre mais água, aonde chega a televisão acabou a inocência, aonde não há mais chão não nasce mais planta. Com os sem-terra é a mesma coisa, aonde eles chegam não presta mais nada.
Digo sem medo de errar, que aonde chega um líder desse movimento, vai olhando e observando, depois começa a reunir pessoas, trazendo-as não se sabe de onde, e logo começa a invadir latifúndios, pastagens e até quintais, não restará mais nada naquela região que se aproveite.
Perece coisa ruim, amaldiçoada, mas aonde eles chegam vai embora o sossego, a paz, as amizades, a comunhão entre pessoas da terra e que historicamente se conhecem. Aonde eles chegam e armam uma tenda não haverá mais segurança, não mais existirá vizinhança, vão sumindo os relacionamentos de compadres e comadres, amigos e conhecidos.
Parece coisa feita, trabalhada com as sete ervas da destruição, mas aonde eles erguem um barraco e colocam a bandeira vermelha é sinal que toda a região vai passar a viver continuamente ameaçada. Ameaça de olhos de quem bem sabe saquear e destruir, andar armados sem que nenhuma providência seja tomada, invadir cidades, prédios e o que quiserem como se estivessem sempre acima da lei.
O primeiro fator que se assoma negativamente a esse povo destruidor que chega em nome da luta pela reforma agrária, da transformação dos latifúndios improdutivos em lotes produtivos, é a mentira que caracteriza os propósitos do movimento. É preciso, antes de tudo, que haja resposta para algumas questões básicas, como as aduzidas a seguir:
Quanto trabalhadores sem-terra realmente existem em cada nova invasão? Quantos realmente estão sem terra para trabalhar, plantar e colher? Qual a origem desse povo, seus antecedentes, suas reais carências e necessidades, suas verdades e suas tantas mentiras? Quantos destes não estão fazendo apenas uma nova invasão, vez que já desfizeram daqueles lotes anteriormente conseguidos?
E indago ainda: Quais os reais objetivos da maioria desses ditos sem-terra assim que conseguem o que desejam? Será que mais uma vez será vender o lote na próxima estação, trocar por um carro velho ou uma motocicleta? Qual o valor que tem a terra para esse povo forasteiro e desonesto que comprovadamente não gosta de trabalhar?
E pergunto mais: Com quantas cestas de alimentos, outros produtos vindos dos organismos governamentais, além de linhas de crédito para produzir, se faz um assentado? A produtividade observada nos assentamentos é coerente e está nos limites das expectativas com as tantas verbas concedidas para manter um povo que não quer nada com a vida?
Por fim, ainda questiono: Quais são as leis que terão o poder de normatizar as condutas desse povo violento, que só anda armado, fazendo assaltos e saques, ameaçando as pessoas da terra, invadindo o que bem quiserem? Existirá lei para os sem-terra?
Enquanto não houver respostas para tais questionamentos, continuo afirmando e reafirmando que os sem-terra, invasores e assentados, na sua grande maioria, são as maiores mentiras já oficialmente implantadas nesse país irresponsável e de irresponsáveis.
Defender tais movimentos e, romântica e mentirosamente, querer fazer pulsar um coração socialista é querer fundar na consciência um partido da vagabundagem.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Sonho planejado (Poesia)
Sonho planejado
Nessa noite sonhei
e sonhei o que queria sonhar
desde o fechar os olhos
e prazerosamente adormecer
até esperar você chegar
e quando chegaste tão bela
vestida de lua e estrela
sai de mim para te abraçar
me tornando em dois
para muito mais te amar
porque sabia que ao acordar
teria que viver do sonho
ao ver você passar.
Rangel Alves da Costa
Nessa noite sonhei
e sonhei o que queria sonhar
desde o fechar os olhos
e prazerosamente adormecer
até esperar você chegar
e quando chegaste tão bela
vestida de lua e estrela
sai de mim para te abraçar
me tornando em dois
para muito mais te amar
porque sabia que ao acordar
teria que viver do sonho
ao ver você passar.
Rangel Alves da Costa
ESTUDO PARA CORDEL: O QUE É ESSE FOLHETO PENDURADO NO BARBANTE? (Crônica)
ESTUDO PARA CORDEL: O QUE É ESSE FOLHETO PENDURADO NO BARBANTE?
Rangel Alves da Costa*
Pra falar sobre o cordel, tem que se montar veloz corcel e galopar na história, buscando em cada memória cada toco de raiz que floresceu e fez a glória.
Trazido de Portugal, que um dia se fez oral, se espalhou solenemente em território nacional, já na escrita assentado o versejar sem igual. Sendo folheto ou cordel, no chamar de déu em déu, verdade é que passou a ser arte de verdadeiro menestrel.
No Nordeste fez moradia e daí motivaria um crescer noite e dia, vez que a base do cordel é recolher todo o escarcéu e transformar em causo escrito aquilo que é bonito ou tido como esquisito. Nasce também do imaginar, do poeta a sonhar com uma situação, tornado através da rima, que na poesia é acima, obra-prima da criação.
Mas eu lhe pergunto agora e me responda sem demora qual a definição de cordel, e diga sem treleléu, pois no erro há castigo e no acerto ganha o céu. Vou lhe ensinar responder, sem isso desmerecer, mas digo de antemão que não há definição que junte numa junção o alcance do cordel com toda compreensão.
Cordel é um folheto ou livreto escrito com muito acerto pelo poeta popular, e este é o cordelista, um verdadeiro artista da estrofe a versejar. O tema que é trabalhado, com esmero e cuidado, vai desde o falar da vizinha a um assunto arretado. Pode ser filosofia, mas também Dona Maria; pode ser céu e inferno, mas também a noite e o dia; pode ser da covardia e também da valentia; sobre qualquer personagem, fazendo uma viagem onde o fato foi passagem.
O cordel, como outra arte, tem um jeito de fazer, cada um sabe escrever a seu modo e mercê. Tem cordel inteligente, com assunto diferente, mostrando que o autor da poesia é doutor, cuidando com seu louvor daquilo que imaginou. Tem cordel mais acanhado, um pouco mais despreocupado com o que vai ser mostrado, mesmo assim grande conquista para o saber do cordelista.
Como é literatura, chamada de popular, o cordel é pra mostrar tudo que é do povo e no povo há, seu imaginário, seu falar, suas crenças, seu pensar, naquilo que acredita e que possa acreditar. Por isso que o cordel tá em todo lugar, em todo falar e cantar de uma gente faceira, que passeia pela feira e deita na sua esteira para a vindita apreciar.
O que se chama literatura de cordel é, pois, o próprio cordel, quando escrito no papel e vai buscar seu laurel no local onde é vendido. Geralmente num barbante é estendido, na feira ou no mercado, e logo é rodeado pelo povo que quer saber do homem que morreu sem viver, do que já era velho ao nascer.
Mas para escrever o cordel é preciso escolher como vai ser a estrofe, como a rima emparelhar e não deixar desandar. É a chamada métrica, que do poema é a estética. Daí o cordelista fazer a escrita com versos em quadra, sextilha ou septilha, oitava, quadrão em décima, dez versos de galope à beira-mar, martelo ou carretilha, parecendo uma quadrilha com o poema a dançar.
Quando o poeta escreve sua história bonita imaginando ele fica como dá laço e fita, como botar no papel aquele estrelado céu. Procura logo quem crie uma capa interessante e que o povo aprecie, mas tem outro artista nato que faz isso em fino trato que é o xilografista.
Este pega a madeira, vai cortando beira a beira, fazendo furo e fileira, e tudo com cinzel, dando vida à imagem que retrata o cordel. Depois de pronta a gravura ao se deitar no papel é verdadeira pintura, e pronta tal estrutura, vai ser juntada ao papel e ser capa da brochura. Coisa mais linda de ver, criar uma história matuta e ver a cria aparecer, a arte por merecer para os outros entreter.
A capa também é feita com outro material, figura criada em borracha ou um desenho normal, mas tendo que retratar a proeza principal: a saga de Lampião, Antônio Conselheiro no Sertão, Padim Ciço do Juazeiro e a devoção do romeiro, as lendas pelo nordeste, os feitos dos cabras da peste, a seca que tanto mata e o coronel que desacata, não importa o personagem, mas tem que ser firme na viagem.
Desde antanho é o passo e até hoje é o compasso pra que o cordel tenha espaço. Da luta de muita gente, de matuto inteligente, cada um na sua vertente, para dar vida ao poema, ainda forte sobrevivente. E tudo nascido um dia de mentes que com galhardia outra arte antevia para o povo entender, desde o ruim de leitura até o que sabe ler.
E foram esses professores, no cordel mais que doutores, que versos imaginaram para o prazer dos senhores: Leandro Gomes de Barros, Apolônio Alves dos Santos, Germano da Lagoa, Romano de Mãe D´Água , Silvino Piruá, Manoel Caetano, Manoel Cabeleira, Firmino Teixeira do Amaral, José Martins de Ataíde, Manuel D’Almeida, Francisco das Chagas Batista, Antônio Batista Guedes, Antônio da Cruz, Joaquim Sem Fim, Cordeiro Manso, Zé da Luz, Manuel Vieira do Paraíso, Otacílio Batista, Joaquim Silveira, João Melquíades, Romano Elias da Paz, José Camelo, Manoel Tomás de Assis, José Adão Filho, Lindolfo Mesquita, Moisés Matias de Moura, Arinos de Belém, Antônio Apolinário de Souza, Laurindo Gomes Maciel, Moreira de Acopiara e Bob Motta, Raimundo Santa Helena, José Ferreira da Silva e Minelvino Francisco, entre outros, não esquecendo dos sergipanos, o imortal João Firmino Cabral, João Sapateiro, Zé Antônio e Gilmar Santana.
E dos cordéis mais conhecidos, nem por isso mais vendidos, procurem que estão escondidos: Pavão Misterioso, A Chegada de Lampião no Inferno, Labareda - O Capador de Covardes, História da Rainha Esther, A Guerra de Canudos, A Mãe que Xingou o Filho no Ventre e Ele Nasceu com Chifre e com Rabo, Peleja de Pinto com Milanês, O Estudante Que Se Vendeu ao Diabo, A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, Peleja de Riachão Com o Diabo, O Homem Que Casou Com a Jumenta, A Filha de um Pirata, A Mulher Que Engoliu um Par de Tamancos com Ciúme do Marido, O Rapaz Que Casou com uma Porca, História da Razão dos Cachorros Cheirarem o Fiofó Uns dos Outros e Coco-Verde e Melancia, dentre outros, muitos outros.
Eis o que pude retratar sobre essa arte popular e se souber de algo mais venha logo me contar, pois faço belo cordel pro coração alegrar.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Pra falar sobre o cordel, tem que se montar veloz corcel e galopar na história, buscando em cada memória cada toco de raiz que floresceu e fez a glória.
Trazido de Portugal, que um dia se fez oral, se espalhou solenemente em território nacional, já na escrita assentado o versejar sem igual. Sendo folheto ou cordel, no chamar de déu em déu, verdade é que passou a ser arte de verdadeiro menestrel.
No Nordeste fez moradia e daí motivaria um crescer noite e dia, vez que a base do cordel é recolher todo o escarcéu e transformar em causo escrito aquilo que é bonito ou tido como esquisito. Nasce também do imaginar, do poeta a sonhar com uma situação, tornado através da rima, que na poesia é acima, obra-prima da criação.
Mas eu lhe pergunto agora e me responda sem demora qual a definição de cordel, e diga sem treleléu, pois no erro há castigo e no acerto ganha o céu. Vou lhe ensinar responder, sem isso desmerecer, mas digo de antemão que não há definição que junte numa junção o alcance do cordel com toda compreensão.
Cordel é um folheto ou livreto escrito com muito acerto pelo poeta popular, e este é o cordelista, um verdadeiro artista da estrofe a versejar. O tema que é trabalhado, com esmero e cuidado, vai desde o falar da vizinha a um assunto arretado. Pode ser filosofia, mas também Dona Maria; pode ser céu e inferno, mas também a noite e o dia; pode ser da covardia e também da valentia; sobre qualquer personagem, fazendo uma viagem onde o fato foi passagem.
O cordel, como outra arte, tem um jeito de fazer, cada um sabe escrever a seu modo e mercê. Tem cordel inteligente, com assunto diferente, mostrando que o autor da poesia é doutor, cuidando com seu louvor daquilo que imaginou. Tem cordel mais acanhado, um pouco mais despreocupado com o que vai ser mostrado, mesmo assim grande conquista para o saber do cordelista.
Como é literatura, chamada de popular, o cordel é pra mostrar tudo que é do povo e no povo há, seu imaginário, seu falar, suas crenças, seu pensar, naquilo que acredita e que possa acreditar. Por isso que o cordel tá em todo lugar, em todo falar e cantar de uma gente faceira, que passeia pela feira e deita na sua esteira para a vindita apreciar.
O que se chama literatura de cordel é, pois, o próprio cordel, quando escrito no papel e vai buscar seu laurel no local onde é vendido. Geralmente num barbante é estendido, na feira ou no mercado, e logo é rodeado pelo povo que quer saber do homem que morreu sem viver, do que já era velho ao nascer.
Mas para escrever o cordel é preciso escolher como vai ser a estrofe, como a rima emparelhar e não deixar desandar. É a chamada métrica, que do poema é a estética. Daí o cordelista fazer a escrita com versos em quadra, sextilha ou septilha, oitava, quadrão em décima, dez versos de galope à beira-mar, martelo ou carretilha, parecendo uma quadrilha com o poema a dançar.
Quando o poeta escreve sua história bonita imaginando ele fica como dá laço e fita, como botar no papel aquele estrelado céu. Procura logo quem crie uma capa interessante e que o povo aprecie, mas tem outro artista nato que faz isso em fino trato que é o xilografista.
Este pega a madeira, vai cortando beira a beira, fazendo furo e fileira, e tudo com cinzel, dando vida à imagem que retrata o cordel. Depois de pronta a gravura ao se deitar no papel é verdadeira pintura, e pronta tal estrutura, vai ser juntada ao papel e ser capa da brochura. Coisa mais linda de ver, criar uma história matuta e ver a cria aparecer, a arte por merecer para os outros entreter.
A capa também é feita com outro material, figura criada em borracha ou um desenho normal, mas tendo que retratar a proeza principal: a saga de Lampião, Antônio Conselheiro no Sertão, Padim Ciço do Juazeiro e a devoção do romeiro, as lendas pelo nordeste, os feitos dos cabras da peste, a seca que tanto mata e o coronel que desacata, não importa o personagem, mas tem que ser firme na viagem.
Desde antanho é o passo e até hoje é o compasso pra que o cordel tenha espaço. Da luta de muita gente, de matuto inteligente, cada um na sua vertente, para dar vida ao poema, ainda forte sobrevivente. E tudo nascido um dia de mentes que com galhardia outra arte antevia para o povo entender, desde o ruim de leitura até o que sabe ler.
E foram esses professores, no cordel mais que doutores, que versos imaginaram para o prazer dos senhores: Leandro Gomes de Barros, Apolônio Alves dos Santos, Germano da Lagoa, Romano de Mãe D´Água , Silvino Piruá, Manoel Caetano, Manoel Cabeleira, Firmino Teixeira do Amaral, José Martins de Ataíde, Manuel D’Almeida, Francisco das Chagas Batista, Antônio Batista Guedes, Antônio da Cruz, Joaquim Sem Fim, Cordeiro Manso, Zé da Luz, Manuel Vieira do Paraíso, Otacílio Batista, Joaquim Silveira, João Melquíades, Romano Elias da Paz, José Camelo, Manoel Tomás de Assis, José Adão Filho, Lindolfo Mesquita, Moisés Matias de Moura, Arinos de Belém, Antônio Apolinário de Souza, Laurindo Gomes Maciel, Moreira de Acopiara e Bob Motta, Raimundo Santa Helena, José Ferreira da Silva e Minelvino Francisco, entre outros, não esquecendo dos sergipanos, o imortal João Firmino Cabral, João Sapateiro, Zé Antônio e Gilmar Santana.
E dos cordéis mais conhecidos, nem por isso mais vendidos, procurem que estão escondidos: Pavão Misterioso, A Chegada de Lampião no Inferno, Labareda - O Capador de Covardes, História da Rainha Esther, A Guerra de Canudos, A Mãe que Xingou o Filho no Ventre e Ele Nasceu com Chifre e com Rabo, Peleja de Pinto com Milanês, O Estudante Que Se Vendeu ao Diabo, A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, Peleja de Riachão Com o Diabo, O Homem Que Casou Com a Jumenta, A Filha de um Pirata, A Mulher Que Engoliu um Par de Tamancos com Ciúme do Marido, O Rapaz Que Casou com uma Porca, História da Razão dos Cachorros Cheirarem o Fiofó Uns dos Outros e Coco-Verde e Melancia, dentre outros, muitos outros.
Eis o que pude retratar sobre essa arte popular e se souber de algo mais venha logo me contar, pois faço belo cordel pro coração alegrar.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A MOCINHA DO LUPANAR (Crônica)
A MOCINHA DO LUPANAR
Rangel Alves da Costa*
Imitando um Guimarães Rosa curioso, sempre que posso corro os sertões do meu sertão a ouvir causos e histórias assombradas e desassombradas, objetivando sempre encher o meu embornal de motivações para o que escrevo e fico a imaginar.
Numa dessas andanças ouvi o relato de uma história singela, porém bastante comovente no meu julgamento. Essa história se passa numa cidadezinha do interior, aonde o progresso ainda não se mostrou raivoso e assim o povo ainda se reconhece, se fala e tem uma vida cotidiana amigueira.
É o modo de todo mundo ficar sabendo de tudo imediatamente, numa corrente de fofoquice que quando chega ao último ouvido já houve deturpação em tudo, vez que a fofoca tem o dom de dar mil vertentes a um só fato e até mesmo ao nada acontecido.
Pois bem. Dizem que nesse lugar havia uma mocinha que era a coisa mais linda do mundo, já em idade de casar, mas que nuca havia nem namorado. Era filha única de uma família muito pobre, morando nas cercanias do centro da cidade, numa verdadeira tapera.
Sem nunca ter freqüentado a escola com regularidade, verdade é que já mocinha sabia somente ler e escrever aquilo que se esforçava. Sempre de roupinha de chita, havaiana no pé, quando passava alegrava o vento que soprava mais fortemente para esvoaçar seus cabelos lisos.
Diante da pobreza da família, o pai deu logo para impor a ela escolher fazer uma dessas duas coisas na vida: ou casar ou arrumar um emprego, fosse onde fosse. Mas arrumar emprego aonde, se ela já tinha descido e subido todas as ruas do lugar e ninguém estava precisando de empregada doméstica, de babá ou lavadeira. No comércio aí nem pensar, pior ainda na prefeitura.
Verdade é que estava tudo muito difícil, e mais complicado ainda porque ela não queria casar. Ao menos por enquanto. E se não arrumasse emprego logo o pai lhe arrumaria um marido de qualquer jeito. E chorava só em pensar se entregando a quem não gostava só porque era pobre.
Sabendo dessa história, uma moça feia e invejosa que se dizia sua amiga – e gostava de andar ao seu lado só para os rapazes ficarem paquerando –, e logicamente tencionando fazer alguma maldade, foi logo dizendo que sabia onde ela poderia arrumar emprego no mesmo instante.
E foi ensinando tudo direitinho como ela deveria chegar até lá. Uma vez encontrado o lugar, era só pedir pra falar com a dona da casa que ela providenciaria uma ocupação no mesmo instante.
Assim seguiu a mocinha em busca do endereço indicado. Perguntando a um e a outro, as pessoas respondiam, porém ficavam olhando de um jeito desconfiando, ora admirados, ora sorridentes e exaltados. Mais adiante, como última informação, um senhor foi logo dizendo que o lupanar ficava numa casa grande logo adiante, e apontou. E a mocinha seguiu pensando e se perguntando: Lupanar, mas o que é lupanar?
Para quem não sabe, lupanar é uma das muitas variantes do nome de cabaré. Seria o cabaré dos tempos históricos. Assim, lupanar, brega, cabaré, bordel, prostíbulo e casa de prostituição são tudo a mesma coisa, possui o mesmo objetivo já conhecido por todos.
Ainda com a dúvida martelando sua cabeça, bateu palmas assim que chegou e foi logo atendida por uma das mulheres que surgiu lá de dentro, de um local onde parecia haver música e muitas vozes. Disse que queria falar com a dona da casa e então, sorridente, a mulher informou que para falar com a madame tinha que entrar por uma porta ao lado. E assim ela fez. E num instante a tal madame já estava medindo a mocinha dos pés à cabeça, elogiando tanta beleza e certamente fazendo alguns cálculos mentais.
Contudo, ao ouvir a história da mocinha e perceber tanta verdade e inocência, sentiu partir o coração, relembrou instantes do seu passado e, meio chorosa, afirmou que ela não se preocupasse não que o seu emprego já estava garantido. A partir do dia seguinte ela ficaria ali ao se lado, ajudando no que fosse preciso, como uma boa companhia.
Todos os dias ela passava em direção ao lupanar e todos ficavam admirados pelo fato de uma mocinha tão bonita igual aquela já estar fazendo vida. O problema é que os homens ficavam se perguntando por que estavam frequentando o lugar só por causa daquela belezura mas nunca a encontravam por lá.
De qualquer modo, onde era avistada passando logo diziam que aquela era o doce do lupanar, a lindeza do lupanar, a gostosa do lupanar. Porém sem ninguém jamais ter tido o prazer de provar.
Na verdade, a mocinha nem sabia que ali funcionava um cabaré e o que faziam por lá. A madame nunca falava sobre o assunto e nem deixava que ela passasse adiante de uma determinada porta. Desse modo, quando seu pai lhe perguntou onde estava trabalhando disse que era numa casa de família, fazendo companhia para uma senhora muito boa.
Só que não demorou muito e chegou aos ouvidos do velho que na verdade sua filha estava mesmo era fazendo vida, batendo ponto no cabaré de madame Sofie. Então o velho nem pensou duas vezes e foi até lá pegá-la no flagrante e dar a lição que merecesse a desavergonhada. Tudo na vida, menos uma filha puta.
Nem deu tempo de chegar até lá e encontrou-a vindo daquela direção. E no meio da rua fez a festa, com socos e pontapés, dando de chibatada, chamando-a de todo nome da espécie que pensava que ela fosse. Deu ainda uns puxões nos cabelos e mandou que ela fosse pra casa agora mesmo arrumar suas coisas e voltar de vez pro cabaré.
E assim ela fez. Arrumou sua mala, abraçou a mãe e disse que voltava um dia. E sumiu no mundo para ser feliz, sem jamais ter feito vida no lupanar e nem deitar com homem só porque era pobre.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Imitando um Guimarães Rosa curioso, sempre que posso corro os sertões do meu sertão a ouvir causos e histórias assombradas e desassombradas, objetivando sempre encher o meu embornal de motivações para o que escrevo e fico a imaginar.
Numa dessas andanças ouvi o relato de uma história singela, porém bastante comovente no meu julgamento. Essa história se passa numa cidadezinha do interior, aonde o progresso ainda não se mostrou raivoso e assim o povo ainda se reconhece, se fala e tem uma vida cotidiana amigueira.
É o modo de todo mundo ficar sabendo de tudo imediatamente, numa corrente de fofoquice que quando chega ao último ouvido já houve deturpação em tudo, vez que a fofoca tem o dom de dar mil vertentes a um só fato e até mesmo ao nada acontecido.
Pois bem. Dizem que nesse lugar havia uma mocinha que era a coisa mais linda do mundo, já em idade de casar, mas que nuca havia nem namorado. Era filha única de uma família muito pobre, morando nas cercanias do centro da cidade, numa verdadeira tapera.
Sem nunca ter freqüentado a escola com regularidade, verdade é que já mocinha sabia somente ler e escrever aquilo que se esforçava. Sempre de roupinha de chita, havaiana no pé, quando passava alegrava o vento que soprava mais fortemente para esvoaçar seus cabelos lisos.
Diante da pobreza da família, o pai deu logo para impor a ela escolher fazer uma dessas duas coisas na vida: ou casar ou arrumar um emprego, fosse onde fosse. Mas arrumar emprego aonde, se ela já tinha descido e subido todas as ruas do lugar e ninguém estava precisando de empregada doméstica, de babá ou lavadeira. No comércio aí nem pensar, pior ainda na prefeitura.
Verdade é que estava tudo muito difícil, e mais complicado ainda porque ela não queria casar. Ao menos por enquanto. E se não arrumasse emprego logo o pai lhe arrumaria um marido de qualquer jeito. E chorava só em pensar se entregando a quem não gostava só porque era pobre.
Sabendo dessa história, uma moça feia e invejosa que se dizia sua amiga – e gostava de andar ao seu lado só para os rapazes ficarem paquerando –, e logicamente tencionando fazer alguma maldade, foi logo dizendo que sabia onde ela poderia arrumar emprego no mesmo instante.
E foi ensinando tudo direitinho como ela deveria chegar até lá. Uma vez encontrado o lugar, era só pedir pra falar com a dona da casa que ela providenciaria uma ocupação no mesmo instante.
Assim seguiu a mocinha em busca do endereço indicado. Perguntando a um e a outro, as pessoas respondiam, porém ficavam olhando de um jeito desconfiando, ora admirados, ora sorridentes e exaltados. Mais adiante, como última informação, um senhor foi logo dizendo que o lupanar ficava numa casa grande logo adiante, e apontou. E a mocinha seguiu pensando e se perguntando: Lupanar, mas o que é lupanar?
Para quem não sabe, lupanar é uma das muitas variantes do nome de cabaré. Seria o cabaré dos tempos históricos. Assim, lupanar, brega, cabaré, bordel, prostíbulo e casa de prostituição são tudo a mesma coisa, possui o mesmo objetivo já conhecido por todos.
Ainda com a dúvida martelando sua cabeça, bateu palmas assim que chegou e foi logo atendida por uma das mulheres que surgiu lá de dentro, de um local onde parecia haver música e muitas vozes. Disse que queria falar com a dona da casa e então, sorridente, a mulher informou que para falar com a madame tinha que entrar por uma porta ao lado. E assim ela fez. E num instante a tal madame já estava medindo a mocinha dos pés à cabeça, elogiando tanta beleza e certamente fazendo alguns cálculos mentais.
Contudo, ao ouvir a história da mocinha e perceber tanta verdade e inocência, sentiu partir o coração, relembrou instantes do seu passado e, meio chorosa, afirmou que ela não se preocupasse não que o seu emprego já estava garantido. A partir do dia seguinte ela ficaria ali ao se lado, ajudando no que fosse preciso, como uma boa companhia.
Todos os dias ela passava em direção ao lupanar e todos ficavam admirados pelo fato de uma mocinha tão bonita igual aquela já estar fazendo vida. O problema é que os homens ficavam se perguntando por que estavam frequentando o lugar só por causa daquela belezura mas nunca a encontravam por lá.
De qualquer modo, onde era avistada passando logo diziam que aquela era o doce do lupanar, a lindeza do lupanar, a gostosa do lupanar. Porém sem ninguém jamais ter tido o prazer de provar.
Na verdade, a mocinha nem sabia que ali funcionava um cabaré e o que faziam por lá. A madame nunca falava sobre o assunto e nem deixava que ela passasse adiante de uma determinada porta. Desse modo, quando seu pai lhe perguntou onde estava trabalhando disse que era numa casa de família, fazendo companhia para uma senhora muito boa.
Só que não demorou muito e chegou aos ouvidos do velho que na verdade sua filha estava mesmo era fazendo vida, batendo ponto no cabaré de madame Sofie. Então o velho nem pensou duas vezes e foi até lá pegá-la no flagrante e dar a lição que merecesse a desavergonhada. Tudo na vida, menos uma filha puta.
Nem deu tempo de chegar até lá e encontrou-a vindo daquela direção. E no meio da rua fez a festa, com socos e pontapés, dando de chibatada, chamando-a de todo nome da espécie que pensava que ela fosse. Deu ainda uns puxões nos cabelos e mandou que ela fosse pra casa agora mesmo arrumar suas coisas e voltar de vez pro cabaré.
E assim ela fez. Arrumou sua mala, abraçou a mãe e disse que voltava um dia. E sumiu no mundo para ser feliz, sem jamais ter feito vida no lupanar e nem deitar com homem só porque era pobre.
Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Mantra do jardim você (Poesia)
Mantra do jardim você
Ah! Esse lindo jardim em ti
que os olhos que querem ver
não se cansam em perceber
que as flores são sem espinhos
manto de cores nos caminhos
paisagem do pincel de Monet
não fostes tão serenamente bela
tão rosa, orquídea e gardênia
não fostes esta bela paisagem
de girassóis que o sol acalanta
diria que vejo você em tudo
na paz que reina em mantra
quem dera a sina do jardineiro
não ter que implorar o olhar
não ter que procurar perfume
apenas sentir onde o aroma está
e seguir para colher a flor
e não mais sofrer
e ter o seu amor...
Rangel Alves da Costa
Ah! Esse lindo jardim em ti
que os olhos que querem ver
não se cansam em perceber
que as flores são sem espinhos
manto de cores nos caminhos
paisagem do pincel de Monet
não fostes tão serenamente bela
tão rosa, orquídea e gardênia
não fostes esta bela paisagem
de girassóis que o sol acalanta
diria que vejo você em tudo
na paz que reina em mantra
quem dera a sina do jardineiro
não ter que implorar o olhar
não ter que procurar perfume
apenas sentir onde o aroma está
e seguir para colher a flor
e não mais sofrer
e ter o seu amor...
Rangel Alves da Costa
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