SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 24 de março de 2015

A pedra e o sonho (Poesia)


A pedra e o sonho


Um dia ao entardecer
deitei a cabeça numa pedra
e o cansaço me fez adormecer
e dormi tão profundamente
que me veio o sonho mais belo
que alguém poderia sonhar

no sonho eu estava deitado
dormindo em cima da pedra
mas tão feliz e tão contente
que parecia sorrir de felicidade
e é assim mesmo que acontece
com quem se humaniza na vida
e se entrega ao sono na pedra
como se deitado no berço de Deus.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 922


Rangel Alves da Costa*


“Não, não sei mais o que faço...”.
“Tudo já fiz...”.
“Tudo já tentei...”.
“Em vão procurei...”.
“E agora não sei...”.
“Não sei o que faço...”.
“Fiz promessas...”.
“Mandei jogar cartas...”.
“Apeguei-me aos santos...”.
“Pactuei com os anjos...”.
“Invoquei à divindade...”.
“E fiz muito mais...”.
“Procurei o terreiro...”.
“Fiz jogar os búzios...”.
“Lancei a mão à cigana...”.
“Procurei a velha sabedoria...”.
“Enchi o alguidar...”.
“Coloquei bacia debaixo da lua...”.
“Risquei nomes no tronco...”.
“Misturei ao sol...”.
“Fiz benzimento na arruda...”.
“Enterrei a prenda como mandaram...”.
“Mas até agora nada...”.
“Apenas sofrimento e solidão...”.
“Apenas dor e desolação...”.
“Tristeza e lacrimejar...”.
“No templo me ajoelhei...”.
“Coloquei arruda no bolso...”.
“Só ando com patuá...”.
“Tudo fiz e tudo faço...”.
“Em nome do amor...”.
“Querendo amar...”.
“Não acredito em feitiço...”.
“Mas mandei enfeitiça-la...”.
“O santo dela é forte demais...”.
“E talvez a mandiga...”.
“Tenha feito o caminho de volta...”.
“E feito o efeito contrário...”.
“Ao invés de atrair seu desejo...”.
“Sou eu que agora...”.
“Pareço ter enlouquecido de vez...”.
“E sem mais razão no que faço...”.
“Vou construindo uma escada...”.
“Alta, bem alta...”.
“Para subir aos céus...”.
“E reclamar diretamente com Deus...”.
“Que ela nem olha pra mim...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 23 de março de 2015

DE VEZ EM QUANDO


Rangel Alves da Costa*


A mesmice entedia. Fazer sempre o mesmo enferruja o poder de mudança e a vontade de transformar, de fazer diferente. Urge sair da rotina, abrir outras portas, caminhar outras estradas, sonhar diferente.
Ora, toda pedra grande é avistada sempre tristonha porque não sai do lugar. O ferro pesado corrói e vai sumindo porque sempre permaneceu naquele lugar. A bela flor vai murchando e morre sem encantar corações porque não saiu do lugar. É preciso, pois, mudar para se renovar.
Por isso de vez em quando há que se fazer diferente, arriscar, modificar atitudes, buscar outras possibilidades. A roupa precisa ser trocada, a casa varrida e arrumada, os móveis desempoeirados, o jardim aparado, e por que não fazer o mesmo com você?
O sol se esconde para a lua aparecer. Um dia é de céu aberto e outro com nuvens carregadas. O sol queima tudo, mas depois a chuva vem. A primavera se transforma em outono, as flores nascem e morrem, e as folhagens também.
Então por que também não faz diferente, deixa de ser noite e experimenta o dia, deixa de ser lágrima e tenta um sorriso, sai do quarto fechado para abrir a porta? Talvez você não conheça a cor da manhã, as ondas chegando à areia, a última revoada do entardecer, o perfume da brisa debaixo da lua.
Então tente mudar, tente fazer diferente, ser outro sem sair de si mesmo, voar sem sair do chão, sonhar acordado. E não há tempo nem idade para ser passarinho, para fazer o que o desejo pede, para perfumar o corpo tomado das durezas da solidão. Porta foi feita para ser aberta, estrada para ser caminhada. E os pés, as mãos e os desejos para serem guias.
Por isso, de vez em quando tome banho de chuva, no meio da rua de braços abertos, deixando as águas se fartarem em você. Cante, pule, corra, chame alguém para valsar na chuva, celebre o momento como uma infância que nunca é tardia. Quando estiver sozinho no quintal agora murado da casa, corra pra debaixo de uma biqueira com a nudez mais sem roupa que existir.
De vez em quando leia um livro. Muita gente sequer passa da primeira página, mas tente ir dialogando com a história página a página. Também leia e escreva poesia. Todo mundo é poeta e tem versos guardados no caderno da mente. Então escreva tudo no papel, mostre seu amor ou sua desilusão, sua esperança ou sua solidão.
De vez em quando suba à montanha e lá encontre o templo de sua fé. Experimente meditar lá no alto, tenha olhos para o que acontece ao redor, converse com o silêncio, reflita sobre sua condição humana. Certamente encontrará uma feição que chega na luz e uma voz que fala pelo sopro da brisa.
De vez em quando vá conhecer enfermos, visitá-los no seu leito de solidão. Não há remédio mais eficaz para um doente do que um gesto atencioso, uma palavra amiga, um instante de compartilhamento. Mesmo que a saúde seja sonho sem volta, mais ainda ele necessitará de uma presença que valorize cada instante que lhe resta da vida.
De vez em quando vá caçar borboletas, correr pelos campos, caminhar pela mata, colher flores de beira da estrada, conversar com bichos e passarinhos. Sente no alto de uma pedra e com ela converse como bons amigos. A pedra escuta, tem sentimentos, e logo chegará o sono para você repousar ali mesmo. Então virá o sonho com a voz da pedra e ela dizendo: Desejos são asas e asas foram feitas para o voo.
De vez em quando ouça as lições dos mais velhos, preste-lhes atenção nos seus modos de vida. A sabedoria passada é livro eterno e em cada um encontrará o que tanto precisa saber. E retribua com a promessa de que chegará àquela idade com a mesma flor cheia de vida que avista naquele jardim de muitas primaveras e outonos. Sublime é o encontro entre os primeiros passos da estrada e aqueles que já conhecem o caminho.
De vez em quando faça diferente e ouça quem lhe deseja falar, fale o que deseja que ouçam. Diga sim e diga não, aceite, conteste, reconheça o erro ou lute pela prevalência de sua verdade. Mas não esqueça que todo ponto de vista é apenas um ponto de visão e que há um horizonte bem maior que pode estar com a razão.
De vez em quando faça assim, faça diferente. Acenda a luz do quarto e a que está em você. Abra a janela e aviste o mundo. E siga a nuvem que tem o seu nome.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Sorte (Poesia)


Sorte

Sorte a sua
que tem o sol
que tem a lua

não como a sua
só tenho a noite
só tenho a rua

o destino possua
melhor sorte
que a vida nua.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 921


Rangel Alves da Costa*


“Eis o país do tabuleiro...”.
“Da mesa sortida de tudo...”.
“E ninguém pode reclamar de nada...”.
“Pois responsável pela feitura das iguarias...”.
“Quem quiser pode escolher...”.
“Tem governo irresponsável...”.
“Tem governo corrupto...”.
“Tem governo ladrão...”.
“Tem governo negligente...”.
“Tem governo imprudente...”.
“Assim como governo bem passado...”.
“Ou ao molho pardo...”.
“Com o sangue do povo...”.
“Eis a mesa Brasil...”.
“Para um self-service sem fim...”.
“Escolher entre os políticos...”.
“Os mais larápios ou mais desonestos...”.
“Mais mentirosos ou mais espertos...”.
“Mais indignos ou mais safados...”.
“Com sobremesa de desonestidade...”.
“Regada ao vinho da improbidade...”.
“A grande mesa da comilança...”.
“Com vampiros que sugam ávidos...”.
“Com ladrões que batem carteiras...”.
“Com acertos debaixo dos panos...”.
“Com conchavos pelos escondidos...”.
“Com maracutaias servidas em taças...”.
“Cardápios de nomes pomposos...”.
“Operação Lava Jato...”.
“Operação Mensalão...”.
“Operação Planalto...”.
“Operação Companheiro...”.
“Operação Ninguém Sabe Nada...”.
“Operação Brasileiros e Brasileiras...”.
“Operação O Meu Primeiro...”.
“Uma verdadeira festa...”.
“A festa Brasil...”.
“Com partidos que roubam...”.
“Com companheiros que afanam...”.
“E com um povo contente...”.
“Com um povo feliz...”.
“Sempre aplaudindo o caos...”.
“E dizendo que tanto faz a pilantragem...”.
“Tanto faz a quadrilhagem...”.
“Que na próxima rodada de eleições...”.
“Os chefs serão novamente os companheiros...”.
“Os ladrões petistas...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 22 de março de 2015

NO BILHAR DE ANGELINO


Rangel Alves da Costa*


Angelino foi uma das figuras mais tradicionais de Poço Redondo e ainda pujantemente viva na memória de muitos. Pertencente à família Francelino, uma das maiores e mais respeitadas de toda a região sertaneja, abdicou de seu ofício de mestre de obras, como exímio pedreiro, para se tornar dono de salão de jogos. A fachada era de bilhar, mas funcionava também como cafua para diversos jogos de azar. Ali se jogava desde cartela de marcar ao dominó.
Quem tem mais de vinte anos e é do alto sertão sergipano, certamente já ouviu falar no bilhar de Angelino. E aqueles de mais idade tiveram a oportunidade de conhecer aquele insuspeitável ambiente. No seu auge, o salão do bilhar ficava localizado na Rua Prefeito João Rodrigues, ao lado da casa do Cabo Antônio e Dona Adalgisa, quase vizinho aonde funcionava o bar de Delino, e bem defronte ao mercadinho de Eraldo e da antiga casa de Dona Bilinha.
Angelino era uma figura franzina, pacata, calmo demais para suportar todo tipo de gente e de bêbado que chagava ao seu ambiente. E também com maestria suficiente para acalmar aqueles mais exaltados com as perdas no baralho. Não só no baralho como no bilhar e nas demais jogatinas. E vez por outra tinha que correr perigo entrando no meio de valentões para evitar o pior. Mas o efeito surtido se dava apenas pelo grande respeito que todos tinham por ele.
Chegado a um chapéu, antigo boêmio e fumador inveterado, já havia deixado seus vícios quando decidiu pela vida de crupiê sertanejo. E faleceu ainda na força da idade, deixado em Poço Redondo e no sertão inteiro um imenso vazio, não só pelo seu salão sempre cheio de jogadores e fofoqueiros, mas também pela singela figura humana que representava. Era casado com Joelina e de sua cria vieram ao mundo Barrinhos, Bibi, Deúta, os nomes que recordo agora.
Mas o bilhar de Angelino não era ambiente somente de jogos, pois funcionava também como local de propagação de tudo o que houvesse na cidade e na região. Ali se falava em política, na vida alheia, em seca, nas tragédias humanas, nas alegrias e desditas da vida. Qualquer fato novo surgido acabava chegando ali e depois, logicamente, era disseminado com muitos acrescimentos. Entre uma tacada e outra, uma cartada e outra, havia sempre uma conversa paralela que satisfazia em cheio os ouvidos ávidos de fofocas. E muita gente havia, de velho a novo, que ficava ali quase o dia inteiro só para ouvir as novidades que chegavam a cada segundo.
O salão de Angelino – que não era dele – era dividido numa parte da frente, onde funcionava o bilhar e eram colocadas mesas para outros jogos, e numa dependência ao fundo, aonde corria solto o carteado. E as apostas eram altas no buraco, no relancinho, vinte e um, três sete, dentre outros. Quando as apostas eram altas e as mesas eram formadas por jogadores como Cabo Antônio, Bonfim de Canindé, Gilvan de Sítios Novos e outros, então a peruada rodeava o ambiente com tal interesse que só faltava cantar a jogada. Mais atrás ficava o malcheiroso banheiro de chão e pé de muro.
Mas dependendo da qualidade dos jogadores, era no bilhar onde se dava a assistência maior. Quando, diante da imensa mesa de pano verde, se enfrentavam os grandes mestres das três bolas, então se formavam verdadeiras torcidas organizadas. Os maiores jogadores de bilhar sempre foram Messias de Lídia, Alcino, Gerino, Vadinho de Mané Joaquim, Telê, Zé de Valter e alguns outros nomes agora esquecidos. De vez em quando, na disputa ferrenha entre Messias e Alcino, o salão se enchia para ver tacadas de trinta, cinquenta, setenta pontos ou mais. Era mesmo de tirar o fôlego.
Jogadores de menor habilidade também marcavam presença constante. Eram disputas para passar o tempo, com um dando dez ou vinte pontos ao outro, e só para pelo prazer do momento. E assim eram avistados Odon, Mariano, Zé Leno, o próprio Angelino, Seu Ermerindo, Né Cirilo, Barbante, Praxedes, Zezé de Zé Carreiro, Seu Wilson, Manezinho França, Pedrinho de Ermerindo, além de uma leva de sertanejos que ali fazia parada para um instante de descontração.
Quando o saudoso Cabo Antônio chegava era uma festa à parte. Conversador inveterado, logo vinha com alguma mentira descarada ou piada deslavada. E certa feita disse que quando morava em Canindé pescou um peixe tão grande que ao puxá-lo deixou o rio completamente vazio. Talvez seja por causa dele que o Velho Chico continua assim.
Era apenas um salão de bilhar, uma casa de jogos, mas por ali passou grande parte da história de Poço Redondo. E que saudade que dá.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

Retratos (Poesia)


Retratos

Guardo um retrato
menino de pé no chão
tomando banho em regato
criança do meu sertão

guardo outro retrato
nu debaixo da chuvarada
catando araçá pelo mato
menino em outra estrada

guardo ainda um retrato
chutando bola em varal
brincando de cão e gato
voando em cavalo de pau

mas o retrato de agora
com paisagem entristecida
em nada recorda outrora
e toda a felicidade da vida.


Rangel Alves da Costa