SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Carcará carniça (Poesia)


Carcará carniça

Bicho morto é vida
resto apodrecido no tempo
animal que fraquejou de morte
mas para o carcará faminto
é prato na seca e na sorte

carcará avoeja agourando
lá embaixo o tempo é ruim
um cabrito magro é sua cobiça
e afia o bico em voo rasante
e logo o prazer da carniça.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 952


Rangel Alves da Costa*


“Estou com muita saudade...”.
“Saudade de muita coisa...”.
“E é tanta saudade...”.
“De tanta coisa...”.
“Que não sei onde caber...”.
“Tanta saudade tanta...”.
“Saudade de meu pai...”.
“Saudade de minha mãe...”.
“Saudade de suas presenças...”.
“Saudade de suas palavras...”.
“Uma saudade que faz sofrer...”.
“Que vai entristecer e chorar...”.
“Mas uma saudade assim...”.
“Quero sofrer com constância...”.
“Pois uma saudade diferente...”.
“De todas as outras saudades...”.
“Assim como a saudade da infância...”.
“Da meninice traquina...”.
“Dos banhos no riachinho...”.
“Dos pés descalços brincando...”.
“Correndo no cavalo de pau...”.
“Arremessando bola de gude...”.
“E saudade do primeiro beijo...”.
“Da linda namoradinha...”.
“Uma flor sertaneja...”.
“Que ainda hoje vive em jardim...”.
“Não há como não ter saudade...”.
“Do coração apaixonado...”.
“E do medo de revelar o segredo...”.
“Àquela que deveria ouvir...”.
“Um medo danado de um não...”.
“Mas depois do sim...”.
“O arrepio no corpo ao tocar a mão...”.
“E namorar escondido...”.
“Doces e saudosos anos...”.
“E que saudade tenho...”.
“Das noites de lua cheia...”.
“Das caminhadas pelas veredas...”.
“Dos encontros mandacarus e xiquexiques...”.
“E também com as flores do campo...”.
“Que saudade dos velhos amigos...”,
“Dos proseados ao pé do balcão...”,
“Da cachacinha com raiz de pau...”.
“Que saudade do cheiro do café torrado...”.
“E da coalhada ao amanhecer...”.
“Que saudade do que fui um dia...”.
“Quanta saudade de mim!...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O ENDEREÇO DE DEUS


Rangel Alves da Costa*


Fato estranho, coisa sem pé nem cabeça alguém querer saber o endereço de Deus. Até mesmo porque qualquer um logo informaria, porém sem antes duvidar da sanidade da pessoa, que somente no céu aquele que procura pode ser encontrado. E mesmo assim, dependendo dos atos terrenos, talvez nem consiga chegar ao local e muito menos se aproximar de sua morada.
Mas a verdade é que alguém procurava desesperadamente o endereço de Deus. Sentia-se angustiado demais, cheio de aflições e sofrimentos, tomado de problemas impossíveis de resolução por meios terrenos, pois tudo já tentara. Igualmente já havia implorado a Deus, a todos os santos e anjos, já havia se ajoelhado noites inteiras aos pés do oratório, já havia frequentado missa após missa e lançado aos céus todas as preces, promessas e pedidos.
Já não suportava mais tanto sofrimento. Ninguém mais acreditava nos seus relatos, na sua saga desiludida, no seu livro sempre aberto em páginas agonizantes. Além de não ser ouvido nem acreditado, também já não era mais visto como pessoa normal, possuidora das boas faculdades mentais. Aos olhos dos outros apenas um insano, um louco, um desajuizado que andava de canto a outro querendo saber se poderia informar o endereço de Deus.
No seu caso, certamente o encontrará no hospício, para onde deverá ir sem demora. Dizia um. Vire a esquina e depois a outra, chegando numa ladeira vá subindo e subindo, talvez lá em cima encontre quem tanto procura. Dizia outro. Ora, mas é muito fácil encontrar o endereço e quem procura, é só ir batendo de porta em porta e ir perguntando se Deus está ou saiu. Certamente que ele será encontrado em algum lugar. Mas nos tempos de hoje é muito difícil avistar alguém que possa informar sobre Deus. Afirmou outro, cujas palavras soaram totalmente ininteligíveis.
Sim, sou eu, Deus sou eu. Disse um louco ao ser indagado. E continuou: Sim, sou Deus e o que deseja de mim? Mas não peça muito, pois certamente não será atendido. Como vê, aqui o meu céu e de onde comando a vida sobre o universo. Olhe ao redor e veja o meu paraíso e sinta quanta coisa maravilhosa existe ao redor. Não, isso aqui não é lixo não, nem minha roupa é rasgada e nem meus pés estão descalços. Tudo aqui faz parte do paraíso, do verdadeiro céu. Ao menos do meu, que sou Deus. E se quiser pode ficar aqui e será salvo de todo pecado. Basta viver no meu mundo que será perdoado de tudo. Mas se está procurando outro Deus, aquele que dizem morar noutro céu, o seu endereço só é conhecido pelo vigário que de vez em quando passa por aqui.
Ao ouvir a palavra vigário, o homem deixou o louco pregando em cima de uma pedra e se danou a correr em direção a igreja. Mas por que não pensei nisso antes, dizia a si mesmo. Todo padre sabe o endereço de Deus e tenho certeza que agora vou no caminho certo, acrescentava esbaforido da correria. Na igreja, de tão aflito que estava quase nem espera a missa acabar para fazer a insistente pergunta. O vigário quase não acredita no que ouviu. Pensou em não dar atenção a um maluco, mas voltou-se calmamente para dizer:
“Que pergunta mais instigante. Então vem à minha presença querendo saber o endereço de Deus. Quem dera eu saber e já teria deixado esse mundo de loucos e para lá seguido sem fechar os olhos ao desígnio da morte. Não sei, porém leio cartas vindas de lá e através delas talvez possa dizer onde mora Deus. Tais cartas foram juntadas no que chamaram de Bíblia. Então na Bíblia está o endereço de Deus. Mas será muito fácil encontrá-lo de outro modo. Já ouviste falar que Deus é onisciente, onipotente e onipresente? Pois bem, o endereço de Deus está na sua onipresença. Como a onipresença significa estar presente em todo lugar, então ele está aqui entre nós, está em regiões bem distantes, se faz presente neste momento em todos os lugares do mundo. Assim, em qualquer destes lugares ele poderá ser encontrado. Eu disse encontrado, mas não avistado como uma presença humana qualquer. Ainda assim há um meio de avistá-lo e senti-lo. Só sente a sua presença aquele que o guarda no coração, que faz de sua fé e da pureza de sua alma uma aproximação e um diálogo permanentes com Deus. Agora eu dou-te a resposta que precisa ouvir: Deus mora no seu coração. Procure-o e encontrará. A sua fé e o seu amor divinal farão com que perceba que Deus mora no seu coração. É em você mesmo que está o endereço de Deus”.
Agradecido, porém sem ter compreendido a dimensão daquelas palavras, o homem em seguida se ajoelhou perante o altar e disse baixinho: Já que está aqui, então me ouça...


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Da saudade (Poesia)


Da saudade

Minha mãe deixou um retrato
e um sorriso que não envelhece
meu pai deixou um escrito
e uma verdade que permanece
relíquias guardadas em mim
como chamas que a vida aquece

o adeus ainda presença no olhar
e no peito uma parede antiga
e nela o escrito e a fotografia
o passado que em mim se abriga
quero cantar e esquecer que sofro
mas a saudade se faz triste cantiga.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 951


Rangel Alves da Costa*


“Sou frágil...”.
“Sou folha...”.
“Sou grão...”.
“Sou pó...”.
“Sou poeira...”.
“Sem eira...”.
“Nem beira...”.
“Sou xepa...”.
“De feira...”.
“Sobra pouca...”.
“Dessa bagaceira...”.
“Sou assim...”.
“O vintém...”.
“O ninguém...”.
“Mas também...”.
“Sou o avesso...”.
“O inverso...”.
“E o reverso...”.
“De nada que sou...”.
“Pois ao reconhecer...”.
“O ser como nada...”.
“Mostro a força...”.
“De um ser que é tudo...”.
“Por compreender...”,
“A realidade do mundo...”.
“Não viver de ilusão...”.
“Não viver na nuvem...”,
“E pisando no chão...”.
“Reconhecer-se frágil...”.
“Para fugir dos espinhos...”.
“Das pedras pontudas...”.
“E ir seguindo...”.
“Em busca do sonho...”,
“Mas um sonho real...”.
“Que é viver para a vida...”.
“E da vida fazer...”.
“A razão da existência...”.
“Com a consciência...”.
“De que os meus grãos...”.
“Também servirão...”.
“Para erguer a fortaleza...”.
“Cimentada na honra...”,
“E na sinceridade...”.
“De um ser tão pouco...”.
“E tão imenso...”.
“Na sua verdade...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 21 de abril de 2015

HORAS TRISTES


Rangel Alves da Costa*


Hora do adeus, hora da despedida, hora da partida, em tudo hora triste. O aceno indesejado, o sinal sempre evitado, o tempo marcando a tristeza da hora. O sino que dobra na igrejinha, o grito perdido no ar, a certeza que a hora chegou. Horas tristes, sofridas, melancólicas, desoladoras desde o primeiro segundo. E as tristezas se avolumando a cada minuto, a cada passar do tempo.
As horas tristes não se resumem ao que é marcado pelo relógio ou que chega no instante exato, mas são sentidas em uma infinidade de situações e momentos. As horas da solidão são tristes e dolorosas, as relembranças e as saudades sempre entristecem os instantes. Naquele afazer do dia, quando o simples ato de abrir um armário ou passar o espanador no porta-retrato, ou mesmo colocar água na planta do caqueiro, não deixa de ser um gesto aflitivo.
Tristes são as horas dos quartos fechados e janelas entreabertas. No silêncio escurecido, na penumbra das quatro paredes, tudo parece chamar o sofrimento. A solidão pelo abandono, a solidão pelo desamor, a solidão pela carência, o mundo que parece caído com a lágrima que molha a face. E os pensamentos, as saudades e a sensação de não poder ter por não possuir ou pela distância, vão se mostrando como horas que desafiam a própria existência.
Para muitos, as horas chuvosas são verdadeiros dilúvios de padecimentos. Com as nuvens se derramando, também todo o ser escorrendo em leito de angústias. Basta sentir os primeiros chuviscos e o espírito começa a nublar, e quando o tempo se fecha escurecendo as paisagens, então sombras tempestuosas tomam conta de todo o ser. E tudo faz doer, desde os pingos escorrendo pela vidraça às flores mortas que vão sendo levadas na enxurrada.
Nos instantes assim, de chuva lá fora e tempestade por dentro, não há lenço que consiga enxugar os sentimentos que afloram. Assim porque os momentos de chuva são pesarosos, carregados de muitas significações aflitivas. O tempo escurecido acende a luz da saudade, da recordação, da vontade de estar ao lado de outra pessoa. Por isso mesmo que tudo parece mais frio, mais temeroso, mais solitário e carente.
Não menos tristes são as horas que chegam com o entardecer e se prolongam nas noites e madrugadas. As cores do por do sol, as revoadas que passam, os matizes avermelhados do horizonte e a cantiga da brisa que chega soprando sem voz, acabam refletindo dolorosamente em muitos seres. São também instantes de reflexões e de recordações, de silêncios que gritam de muitas formas na alma. E quando as cores somem e as sombras da noite avançam, então as nostalgias noturnas começam a atormentar.
As noites chegam com mistérios e encantamentos, mas também com sombras que envolvem os pensamentos. Na noite tudo desperta com mais intensidade, mais profundamente. Na noite o sintoma se torna doença, o temor se transforma em medo, a saudade se transmuda em lágrima, a lágrima em terrível aflição. Não há lua bonita, não há céu estrelado, não silêncio e ventania que amenizem as tristezas que chegam com a noite. Talvez seja pela solidão maior que a pessoa tanto agoniza nos noturnos que sempre chegam.
Os poemas da noite são os mais tristes, até o ato da oração é um instante de solene tristeza. A vela flameja adiante e as mãos em oração invocam luzes para o viver. Os olhos molhados, a boca trêmula, a prece acaba se tornando uma confissão de sofrimento. Mas tão triste também é essa fé que aflige desde o sino que ecoa na igreja. Não há coração que não se inquiete quando o sino dobra. Às vezes anuncia apenas a hora da Ave Maria, mas também um instante triste de despedida.
E como doem as horas de despedida. O adeus a quem tanto ama é momento que se eterniza na saudade e no sofrimento. E enquanto os sinos dobram os lenços se encharcam e a vida se vai um pouco também. E o que resta vai se desfazendo ainda mais a cada hora triste.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Dos mistérios da vida (Poesia)


Dos mistérios da vida

O mistério da vida
e basta um instante
e tudo transformado
como se o destino
marcasse o encontro
entre dois olhares
como se a escrita
colocasse ao alcance
vidas desconhecidas
e de repente unidas
para outros mistérios
do amor prometido
para ser eternidade
até que venha o adeus
de tristeza e saudade.


Rangel Alves da Costa