SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 29 de setembro de 2020

OLHARES, ENCHENTES E RIOS


*Rangel Alves da Costa


Quem chora sente os olhos encharcados, os transbordamentos descendo na face, aquela gelidez do entristecimento, mas nem sempre sabe de onde vem a lágrima.
Quem pranteia sente a turbidez na visão, o enevoamento na íris, tudo com se uma vidraça encharcada estivesse diante de si, mas nem sempre conhece a nascente do lacrimejar.
Quem lacrimeja, apenas sente um rio se abrindo, um mar querendo transbordar, um oceano além dos limites molhados, mas nem sempre sabe de onde vem a dolorosa enxurrada.
Quem se entrega a dor do pranto, e pranteando se dissolve como geleira que se dispersa, apenas se deixa escoar sem sequer imaginar de lhe veio aquele turbilhão.
A verdade é que as pessoas choram, pranteiam, lacrimejam, deixam-se transbordar em sentimentos molhados. As lágrimas, contudo, nem sempre chegam pelos motivos que costumeiramente conhecemos.
Sim, a perda de alguém faz chorar. O adeus inesperado faz chorar. A saudade de um amor distante faz chorar. O reencontro com o outro através de imagens de relembranças também faz chorar.
Então a lágrima vem. Primeiro a pulsão sentida, depois os olhos sendo despertados ao acolhimento e transbordamento daquela vazão interior. O olhar vai apenas recebendo mensagens, sentindo que logo virá um rio, um oceano, um mar.
Quando as comportas da alma são abertas, quando as ribanceiras interiores são quebradas, quando nada mais pode segurar a angústia, a dor ou a aflição, então os olhos abrem passagem às torrentes.
E como é triste o choro sofrido, de agonia, de entristecimento. A pessoa em si já não se doma, já não comanda seus sentimentos. Tudo parece querer explodir, irromper da alma e buscar um alento qualquer exterior. Não pode, contudo.
Por não poder bater asas e voar, deixar fluir pelos ares os sentimentos agonizantes, então tudo faz junção no olhar. E ao invés de olhos gritarem, ao invés de olhos urrarem a dor, então simplesmente passam a transbordar o que já não pode mais suportar.
E lágrimas existem que são desmedidas, incontroláveis, indo além de qualquer querer. Escorrem, jorram, extravasam. E assim acontece porque ali, ali nos olhos, a saída única para que o motivo da dor encontre sua fuga.
Impossível e insuportável seria que além da dor interior, do íntimo sofrimento, o corpo também tivesse que tudo represar, trancando em si mesmo todos os males do mundo, ou apenas daquele instante que se perdura.
A lágrima serve, assim, como uma vazão necessária, como um modo de que o corpo não fique ainda mais sufocado pelo sofrimento. Há de se chorar sim. Chorar muito, intensamente. E chorando deixar que o mal vá se dissipando.
Mas as lágrimas não se derramam apenas com os dolorosos sofrimentos. Elas chegam também numa simples saudade, numa nostalgia, numa relembrança de algum momento marcante na vida. Até pela intensa alegria ela pode chegar.
A solidão e a tristeza, e ainda que esta não tenha motivo aparente, também chamam lágrimas. De repente, e até sem perceber, a pessoa se vê lacrimejando. O que foi, se pergunta. O que está acontecendo comigo, indaga. A resposta: o sentimento se expressando através da lágrima.
Então vem o lenço. O lenço encharcado, depois é lavado e colocado em varal. Mas que não se imagine que ele já está enxuto e pronto para ser guardado. Eis que o lenço continua molhado de lágrimas.
Somente o lenço sabe o quanto ele já foi estendido em adeus, levado aos olhos como amigo, silenciosamente compartilhado dos noturnos sofrimentos. Por isso que todo lenço é tão triste. E sempre chora pelas lágrimas daquele olhar.
 
 
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Poço Redondo e os caminhos da fé...






Para amar (Poesia)


Para amar

Sim
como um dia amei
ainda amaria
o mesmo amor
de um dia
 
apagaria o passado
e com novo amor
amaria o agora
sem tristeza ou rancor
senhora
 
e confessar novamente
que o amor então sentido
é talvez o mesmo amor
em nós um dia vivido
feito prece de louvor.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - Rosinha, minha canoa...


*Rangel Alves da Costa

 

José Mauro de Vasconcelos, saudoso e extraordinário escritor brasileiro (autor de Meu Pé de Laranja Lima), deixou-nos um doce e maravilhoso romance chamado “Rosinha, minha canoa”. Sem adentrar em detalhes, a história trata da relação do homem com a natureza, e também da natureza do homem com sua intrincada natureza. Faz muito tempo que o li, ainda rapazote e cheio de encorajamento para leituras. Hoje mais tomado de calendários, de folhas soltas dos anos passados, eis que me lembrei do título do livro de Zé Mauro. Saí do romance e passei a romancear minha própria vida no beiral de um rio, onde silenciosa e melancólica adormece uma canoa: Rosinha. E uma vontade danada de soltar suas cordas, segurar nos seus remos, de soprar vento bom pela boca, e sair por aí, vagueando margem a margem, sentindo a brisa e o balançar das águas solenes. Uma viagem sem destino, sem pressa, sem endereço. Como é bom viver assim, sem pressa e sem endereço. Eu e minha Rosinha. Minha Rosinha seguindo e eu recostado na madeira e envolto em pensamentos. E chegando as saudades, as melancolias, os desejos de reencontrar. “Como foi ardoroso aquele abraço, como foi doce aquele beijo, como navegamos pelas águas felizes do amor...”. Não, não quero lançar lágrimas nas águas mansas de agora. Quero apenas seguir. Seguir nos braços dolentes de minha Rosinha. Rosinha, minha canoa...


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


domingo, 27 de setembro de 2020

SERTÃO, DIFERENTE MUNDO


*Rangel Alves da Costa

 

Sertão é mundo diferente. Não é todo mundo que suportaria ser sertanejo não. Precisaria ser de pedra, de grão, de todo de pau, de espinho de xiquexique, de destemor.
Sertanejo como terra seca, dura, petrificada. Sertanejo feito gente e bicho, feito sorriso e tristeza numa só feição. Nem tudo mundo suportaria isso não. De sol e de chuva, de morte e de vida.
Quanto sofre o sertanejo! Muito já ouvi falar. E sofre mesmo, e muito mesmo. Só Deus sabe o que esse povo - que é o meu povo - padece na sobrevivência do seu meio.
O homem da cidade não entende nem o tiquinho do que realmente passa o homem das distâncias matutas. Quando a seca vem braba, faminta, esturricando tudo, então tudo desanda num desalento danado.
E não é sofrimento pela terra seca, mas por toda a sequidão que passa a existir. O corpo em magreza, o menino faminto, o bicho berrando, o entrar dia e sair dia sem que nada chega como alento.
Mas então as esperanças surgem como verdadeiro milagre ou como forma de suportar as dores da vida. Quando o sertanejo se apega à fé, à prece, à promessa, à oração, enfim, à certeza que o amanhã será melhor, então tudo muda.
E tudo muda por que a fé se torna como um remédio contra os males que tanto afligem. E na fé a esperança. Daí que muito se diz que tudo
Pelos campos desalentados sertões adentro, nenhuma demora das chuvas consegue afastar as esperanças.
O olhar do sertanejo é um rosário tomado de esperanças. As mãos do sertanejo é um oratório de esperançoso céu.
A chuva não veio ainda, mas chegará no tempo certo. Assim diz o sertanejo. Tudo no tempo de Deus. Assim confirma outro sertanejo.
Mas antes que as chuvas cheguem, os campos áridos já espelham o quanto brota de esperanças. Tudo seco ao redor, mas a catingueira floresce bela.
A flor da catingueira, como um brinco dourado descendo rente a face magra da plante, demonstra o quanto de esperança viva nasce e renasce a cada instante.
Pelas estradas, enquanto os marrons e acinzentados entristecem ainda mais a murcheza do mato, então surge o alaranjado-avermelhado da flor e do fruto da jurubeba.
Um encanto aos olhos, mas também a certeza de que a seiva da esperança continua viva em cada pedaço de chão, cada tufo de mato, em cada planta que entristece por falta d’água.
Assim também nas flores e nos frutos das cactáceas sertanejas. A palma definhando, secando, morrendo na fornalha do sol, mas de repente avista-se uma vida florando sobre seus espinhos.
O mandacaru, o facheiro, o xiquexique, tudo comprova o quanto de vida vive quando já se acredita que tudo já esteja sem vida.
As flores surgem, as pétalas se abrem, os frutos tomam forma e cor, os bagos se adocicam, as polpas se avolumam, as cores espantam entre os acinzentados ao redor.
A vida sertaneja floresce assim. A vida sertaneja floresce nas esperanças tantas e que nunca murcham completamente nas plantas e no homem.
A planta floresce e frutifica pela invisível gota d’água do tempo. Aquele mesmo tempo de Deus. O homem floresce e frutifica pela fé incontida no seu coração.
A fé santa brotada de Deus. E pela prece, pela promessa, pela oração. Até que o olhar, logo ao abrir a porta ao alvorecer, diga que vai chover.
E os braços, como aqueles braços sempre abertos do mandacaru em direção aos céus, se elevem para os sagrados agradecimentos e para receber chuva boa.
Uma esperança nunca perdida. Nada teve fim, nada morreu perante o sertanejo. A fé sertaneja sempre resguarda a esperança de que amanhã será bem melhor.
E talvez seja por isso mesmo, pela fé incontida que brota em esperança, que a vida sofrida é suportada. E que o sofrimento seja diminuído pelo remédio sagrado da fé.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com



Lá no meu sertão...


"Na ribeira desse rio, ou na ribeira daquele..."






Véu da pele (Poesia)


Véu da pele


O véu da pele
faz o olhar
ir além
para roçar
a pele nua
tão quente
tão crua

e as mãos
tocam
e roçam
com a ânsia
que do desejo
expele
querendo
pele na pele.

Rangel Alves da Costa