SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TEMPESTADE - 94 (Conto)

TEMPESTADE – 94

                          Rangel Alves da Costa*


Teté possuía o juízo fraco, de vez em quando era afetado pela mudança da lua, mas fora isso sabia agir e se comportar normalmente, ainda que a maioria das pessoas o tratasse como doido varrido, com achincalhes e brincadeiras maldosas.
Tinha raiva, ódio, ficava amargurado com esses ataques desnecessários, mas a coisa que mais lhe deixava raivoso e preocupado era não ter aprendido a ler nem escrever. Nem o nome escrevia, muito menos ler qualquer palavra. Por isso mesmo, agora todo afoito e animado por ter o caderninho nas mãos, teve que se contentar em abrir rapidamente numa página e encontrar apenas letras e mais letras. Sobre o significado em si não sabia de nada.
Gritou bem alto e avisou que já havia encontrado o que procuravam e que todas chegassem pra perto para ouvir a leitura e a grande revelação. Como resposta ouviu-se outro grito assustador, verdadeiramente medonho e aterrorizante, vindo de um canto escuro. Era a alucinada Antonieta, agora mais afetada do que nunca ao ouvir a menção do caderninho.
“Não, não, não! Tudo, tudo menos isso. Nãããooo! Me matem primeiro, me destrocem, me destruam, mas não me façam ouvir nada disso. Não, não, nãããooo! Pelo amor de Deus, não!”. E a voz da mulher ecoava como se quisesse ultrapassar as portas e os telhados e se misturar ao negrume tempestuoso lá fora.
Mas apressado como estava, Teté nem se importou com o lamento gritado da mulher e o significado de seu pavor. Todos ali, presentes, estando apenas o seminarista e Antonieta um pouco mais afastados, quando perguntou quem tinha verdadeiramente coragem de fazer a leitura, Dandinha, Rosinha, Filó, Custódia, Socorro, Tibúrcia, Minervina e Clementina, todas se aproximaram.
Contudo, bastou que o seminarista falasse afirmando que aquele escrito poderia até mesmo queimar as mãos e os olhos de uma inveterada e reincidente pecadora, que quase todas elas recuaram nervosas, cabisbaixas, apressadas, tementes ao que só mesmo elas sabiam. Mas Minervina decidiu seguir adiante, enfrentar o que pudesse acontecer, mas fazer conhecer o tão misterioso escrito.
“Eu vou ler Teté, não se preocupe não que eu vou ler, e que atire a primeira pedra, até uma rocha ou uma montanha, aquele ou aquela que não pecou. Me dê aqui esse caderninho e traga a vela, faça ela alumiar bem diante do escrito”. Assim que disse que já ia começar, ouviu-se um barulho na porta, ela se abrir e Antonieta correr mundo afora, gritando sempre e cada vez mais alto.
Mas aquele não era o momento para outras preocupações, para correr atrás da mulher. Então Teté apressou: “Anda, leia logo”. E Minervina, com as mãos tremendo de se notar, começou:
“É na sua face, na sua boca, em todo o seu corpo, que está a morte. A morte de dor, de agonia, de angústia, de tristeza, de envergonhamento, a mais triste marte está em você. E se é pecador já conhece esse semblante horrendo porque vive no seu caminho. E quem há de se salvar do grito, do tormento, do fogo, da impiedade? Ninguém, ninguém que seja pecador. E falo da morte pelo pecado cometido como falo da mentira, da aleivosia, da traição, do embuste, da falsidade, do corpo que se dá a qualquer um, do ser humano que não se respeita e nem respeita o seu próximo, principalmente aqueles que lhe devotam confiança sem saber o que faz às escondidas. Alguém de vocês possui tais características, algum dentre vocês pecam com estes pecados, dentre todos que um dia lerão este escrito poderá ser chamado de pecador segundo o que está aqui? Se assim for então a morte, a mais terrível das mortes é a que lhe aguarda. Além desses pecados aqui nomeados e tantos outros que haverão de estar no pensamento de cada um, ninguém pode esquecer do mesmo caminho que tomará aquele que deixou de observar os dez mandamentos. Difícil que ninguém se lembre quais são, pois se for perguntado todo mundo terá guardado na ponta da língua: amar a deus sobre todas as coisas; não tomar seu santo nome em vão; guardar domingos e festas de guarda; honrar pai e mãe; não matar; não pecar contra a castidade; não roubar; não levantar falso testemunho; não desejar a mulher do próximo; e não cobiçar as coisas alheias. Será que sabem que é necessário guardar todos os mandamentos? A Bíblia diz em Tiago 2:10-11 “Pois qualquer que guardar toda a lei, mas tropeçar em um só ponto, tem-se tornado culpado de todos”. Mas quem são vocês para guardar a Lei de Deus se a única coisa que se importam é em cometer os sete pecados. Certamente ninguém lembrará dos sete pecados, ainda que todos os dias experimentem o cometimento de todos. Alguém lembrará o que seja gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria e preguiça? Vejo que vocês, pois, além de renegarem os mandamentos divinos vivem abraçados com os pecados capitais. E há um pecado maior ainda que reina entre vocês, que somente sentirá na pele aquele a quem se destina estas palavras específicas, que é o pecado da dúvida entre a semeadura da palavra divina e a vida mundana. Não há pecado maior do que este, mas como a abdicação da igreja será em nome do amor, que esteja perdoado aquele que agora possa dar um sorriso. E quanto aos demais, quanto aos outros que ouvem, lêem e ouvem estas palavras, só haverá um meio de não queimarem neste mesmo instante na fogueira dos pecados, que é sentir na pele o poder divino e na chuva o corpo não se molhar, e ao invés disso ter suas vestes tomadas pelo calor. Experimente tomar banho na tempestade e depois corra até sua casa para vestir a roupa de uma outra pessoa, mais justa e mais honesta, temente a Deus e a todos os mistérios divinos que há sobre a terra. Experimente a chuva que após a ordem de uma pessoa especialmente escolhida cessará sua força, cessará completamente depois e o sol quem sabe... Quem sabe um dia ou na próxima manhã o sol voltará a brilhar!”.
Todas as mulheres estavam boquiabertas, e Minervina suando frio que não se sustentava em pé. Mas nem tiveram nem tempo de pensar noutra coisa, pois o seminarista logo gritou:
“Deste momento em diante abdico do meu caminho rumo à vida sacerdotal e tomarei outra estrada em busca de outro destino, se é que assim se possa dizer de um destino que já está traçado. E quanto a vocês, se desejarem ser perdoadas que façam segundo o escrito e vão lá pra fora, no meio da tempestade, para terem seus corpos infames salvos da perdição. Corram, pois se a chuva passar não haverá mais tempo para fugir do abismo dos pecadores”.
E todas saíram correndo, se atropelando em direção à porta.

                                                      continua...





Poeta e cronista
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