SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

PRATELEIRA, JABÁ E PÉ DE BALCÃO


Rangel Alves da Costa*


As prateleiras dos botequins atuais nem parecem com as de antigamente. Os sortimentos não possuem a variedade de outrora. Desde a entrada ao pé do balcão, nada mais faz lembrar o que se encontrava noutros tempos em cada canto interiorano. Também quase não há mais botequim, ou autêntico boteco de gole e mordida na fruta verdosa. Quando muito um barzinho qualquer repetindo música de apaixonar traído ou abandonado. Te amo meu bebê, e por aí vai.
Os botecos interioranos de hoje não possuem qualquer atratividade. Sequer um bom papo oferecem, muito menos uma visita que se alonga pelo prazer do gole e do proseado, sem pressa de olhar o relógio. Daí ter se tornado um gesto muito menos prazeroso a aproximação do pé do balcão. Pedi o que, se praticamente não há mais um aperitivo confiável, uma cachacinha da boa, autêntica, do engenho mesmo ou de fabricação garantida?
Aliás, nem os botequins nem as mercearias atuais guardam sequer as sombras passadas. Não que tivessem de envelhecer com a mesma feição, mas que não se transformassem tanto, e para pior. Com o crescimento e desenvolvimento das cidades, também sua vida própria e seus costumes vão sendo modificados. A própria cidade passa a desconhecer os seus, os aspectos bucólicos vão dando lugar a novidades que tornam tudo comum. E a modernidade vai impondo um ritmo que vai consumindo a própria história, as tradições e a memória de quase tudo que um dia existiu.
As mercearias foram as que mais se transformaram, e para perder toda aquela suntuosidade tão própria desse comércio de feição interiorana. Bastava entrar por qualquer das duas ou três portas e logo se avistava, quase sempre pelos cantos do balcão ou em cima de uma mesinha, uma variedade de produtos hoje praticamente inacessíveis àquela clientela cativa. Antigamente, pelos balcões ou descendo do telhado em cordames, as pessoas logo avistavam o que fazia parte de qualquer mesa. Ali as carnes salgadas, os queijos, os embutidos, e tudo a preço acessível. Sem falar no caderninho que facilitava muito a vida de todo mundo.
Hoje a jabá tornou-se caro demais ao povo pobre. E o mesmo se diga com relação ao peixe, principalmente o bacalhau. Mas noutros tempos era muito diferente. Tais produtos, diferentemente de agora, não eram exclusividade de supermercados, mercadinhos ou similares, mas à disposição de todos nas pequenas vendas e mercearias interioranas. Até mesmo em pequenas povoações, naquelas vendas ao redor dos sítios e arruados, era possível encontrar a carne-seca e o bacalhau, bem como a legítima mortadela e outros embutidos.
Os fardos de bacalhau eram logo avistados desde a entrada. A maior quantidade empilhada nos cantos do balcão de madeira de lei, coberta com pano de saco de estopa, e uma pequena parte, servindo como amostra, pendurada em cordames descendo do telhado. Era só chegar, mandar cortar uma lasca e experimentar a salgação e o gosto, e depois pedir para cortar a quantidade desejada e a preço barato. E por preço baixo mesmo, pois por muito tempo o bacalhau foi acessível às panelas mais empobrecidas da população.
As peças de carnes-secas igualmente se avolumavam nos cantos dos balcões. Uma parte também era pendurada e experimentada aos pedacinhos. Sempre foi costume interiorano experimentar um pedacinho antes da escolha final. Nem todo vendedor gostava de se dar ao trabalho de cortar lascas de bacalhau e de jabá, principalmente àqueles que pediam não para sentir o gosto, mas como tira-gosto. Assim porque acabava em prejuízo oferecer uma lasquinha disso ou daquilo a todos que desejassem molhar o bico na aguardente.
Aliás, aperitivo que nem precisava de tira-gosto para afastar a ripunação. Não precisava porque, ao contrário das cachaças atuais, naqueles idos as aguardentes eram de qualidade e procedência. Acaso o cabra, ao invés de uma pinga engarrafada, preferisse uma cachaça de engenho, derramada do barril, podia tomar sem medo de ser batizada. Era a branquinha legítima, pura, e por isso mesmo ainda mais malcriada e perigosa. Desce até saborosa, sem faiscar pelos cantos, mas depois pode se tornar num deus nos acuda. A branquinha de engenho tem disso: o fogo-morto se transforma em labareda. E acima da medida é queda na certa.
Mas um tempo de aguardentes de renome e respeito, ao menos na história etílica interiorana. Daqueles idos, hoje só restam, e com qualidade muito inferior, a Pitu e a Caranguejo. Já não se ouve falar em Capim Santo, Serra Grande, Pau de Arara, Teimosinha, Tatuzinho, Gato e Praianinha, dentre muitas outras. Também difícil encontrar aqueles vinhos artesanais de jurubeba. Até mesmo as famosas cajuínas e tubaínas sumiram das prateleiras interioranas. Na verdade, nem o autêntico ki-suco é facilmente encontrado.
Outra bebida com feição interiorana e que vai se tornando raridade, ao menos na legitimidade de preparação, é a cachaça misturada com raiz de pau. Angico, umburana, bonome, aroeira e uma vegetação inteira, dão um sabor especial à aguardente. A lasca da árvore ou o pó da raspagem, misturado à cachaça e deixado adormecer por uma ou duas noites, desperta como maravilha sertaneja. E tão gostosa é que o santo exige o seu gole primeiro.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

Meu olhar (Poesia)


Meu olhar


O orvalho
passa o dia
no meu olhar

a chuva da noite
passa o dia
no meu olhar

o gelo da dor
descongela
no meu olhar

toda solidez
dissolvendo
no meu olhar

assim a lágrima
avistada
no meu olhar.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 869


Rangel Alves da Costa*


“Sim, há um Deus...”.
“Há um Deus de bondade em tudo...”.
“Não se pode negar sua prevalência...”.
“Sua existência, sua presença...”.
“Que tenha fé ou não...”.
“Que professe ou não a religião...”.
“Mas Deus não pode ser negado...”.
“Não foi a máquina...”.
“Que iluminou o mundo...”.
“Não foi a engenhosidade humana...”.
“Que povoou a terra e águas de seres...”.
“Não foi trabalho humano...”.
“Essa grandeza da vida...”.
“Nenhuma máquina faz o sol...”.
“A máquina não faz a lua...”.
“As nuvens, as águas...”.
“Os rios, os mares...”.
“Os campos, os horizontes...”.
“As aragens, a natureza...”.
“As sementes e os grãos...”.
“O homem em si...”.
“Tudo foi obra da criação...”.
“E no seu ofício...”.
“A perfeição do trabalho...”.
“Pois tudo feito para funcionar com perfeição...”.
“Desde o homem ao tempo...”.
“Desde a noite ao dia...”.
“Desde o silêncio à voz...”.
“E fez tudo como um calendário...”.
“Como um relógio...”.
“Como um espelho...”.
“Nada fugiu ao seu intento...”.
“E tudo fez a contento...”.
“E se o homem tomou suas próprias rédeas...”.
“Quis ser dono de seu próprio destino...”.
“Nada de divino existe nesta arrogância...”.
“Deus deu ao homem a existência...”.
“Confiou-lhe o mundo...”.
“Tudo colocou ao seu alcance...”.
“E o livre arbítrio para agir...”.
“E se age contra si próprio...”.
“Contra o seu destino existencial...”.
“Não age em nome de Deus...”.
“Mas num endeusamento...”.
“Que é a sua própria destruição...”.
“Pelo pecado e descumprimento da lei...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

PRESERVAÇÃO


Rangel Alves da Costa*


O lixo da humanidade se acumula por todo lugar. Não são apenas os resíduos sólidos e líquidos, os restos e as sobras que se acumulam pelos esgotos, lixões, leitos de rios e onde a sede poluente do homem possa alcançar. Há também o lixo da consciência, da falta de conscientização, do descaso e da negligência, da degradação e da permissividade destruidora. Tudo isso causa enorme prejuízo ao ambiente planetário e humano.
O ser humano é agressivo demais consigo mesmo e com o seu meio natural. Não obstante suas disfunções comportamentais, ainda acumula em si o próprio lixo do descuido, do tanto faz, da irresponsabilidade nos atos e ações. E acaba consumindo aquilo que envenena a alma e o organismo. O fisicamente imprestável lhe serve como alimento, como gula e insaciedade, e o resto desse consumo é descartado no próprio ambiente da vida. E então tudo acaba se transformando numa poluição só, afetando o ser e o seu meio.
O mais doloroso é que ninguém parece se dar conta da lei da causa e efeito, ou da lei das consequências pelos maus atos, ou ainda de todas as leis que prevejam o pagamento de alto preço pelas incoerências cometidas. Somente quando o rio que passa pela aldeia morre é que começa a perceber o que motivou aquela destruição, somente quando o calor diário chega perto dos quarenta graus é que começa a se perguntar o porquê de estar acontecendo assim. Quer dizer, tem de sentir o efeito para conhecer as causas.
Tudo parece ser uma questão de responsabilidade do homem, desde a sua fase infância. Desde cedo deveria aprender que o consumo desenfreado pode lhe causar prejuízos, engordar e provocar danos à saúde. Desde criança deve aprender que jogar lixo na rua não só é falta de educação como entope bueiros e prejudica a vazão das águas das chuvas. Desde muito cedo que deveria saber que devastar as florestas, poluir o ar, desmatar as matas ciliares e abusar dos recursos naturais poderão trazer graves consequências futuras.
Talvez somente no mesmo passo dos modismos que a preocupação ambiental vingaria de vez nas mentes jovens. Ora, se tanta coisa que não presta, não tem serventia humana alguma, de repente aparece e se enraíza na sociedade e passa a ditar comportamentos, pensamentos e atitudes, então bem que a questão ambiental poderia ser experimentada e consumida pela juventude. E somente assim teríamos algo realmente sério sendo fruído sem imposições.
Atualmente, após o aumento da preocupação com as questões ambientais e do progressivo desenvolvimento do meio ambiente como objeto de estudo, não mais se admite uma educação escolar dissociada da educação ambiental. Permeando diversas disciplinas ou sendo objeto de currículo específico, a verdade é que a questão ambiental tornou-se de fundamental importância no processo de ensino-aprendizagem.
Muito justifica que seja assim, que a educação ambiental tenha alcançado o reconhecimento como objeto de estudo, seja enquanto disciplina específica, com currículo próprio, ou permeando, de forma transversal, diversas outras disciplinas. Ademais, enquanto as disciplinas geralmente se voltam para temas específicos, a educação escolar possui abrangência quase que globalizante, pois seus temas já eram objeto de abordagem das ciências em geral.
Por muito tempo, a questão ambiental pontuou em temas relacionados, por exemplo, à biologia, à geografia e outras disciplinas relacionadas às ciências do homem e da natureza, mas sem a profundidade exigida para a ampliação e o aprofundamento de seus conceitos, parâmetros e diretrizes. Contudo, a partir do instante em que a sociedade passou a ser alertada para os graves problemas ambientais planetários e, consequentemente, o surgimento de novos conceitos voltados à questão ambiental, então a educação teve de chamar para si a incumbência de ser o nascedouro de uma nova forma de se pensar e se proteger a natureza e os recursos naturais. O que, no todo, serve de base à educação ambiental.
E que o ensino escolar sirva também para o aprendizado acerca do ambiente pessoal e interior do ser humano. A natureza intrínseca de cada ser necessita também ser preservada contra a devastação da própria pessoa.


Poeta e cronista
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Opções (Poesia)


Opções


Se eu não quisesse mais viver
saberia muito bem o que fazer

subiria em cima da lua
e me jogaria no meio da rua

esperaria o fogo do entardecer
e nas cinzas do sol iria desaparecer

como é difícil de acontecer assim
deixo que a morte decida por mim.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 868


Rangel Alves da Costa*


“Assusta-me a cidade feia...”.
“Dói-me a selvageria...”.
“Afronta-me tanta arrogância...”.
“Feri-me tanta iniquidade...”.
“O cimento que sangra...”.
“O ferro que corta...”.
“O barulho que atormenta...”.
“A multidão que alucina...”.
“Fechem os portões...”.
“Coloquem os cadeados...”.
“Elevem os muros...”.
“Construam guaritas...”.
“Ainda assim...”.
“Infelizmente ainda assim...”.
“Ao desvão tudo estará...”.
“Então adeus...”.
“Uma estrada me espera...”.
“Um caminho me conduzirá...”.
“Para bem distante disso tudo...”.
“O campo...”.
“Apenas o campo...”.
“Num lugarejo distante...”.
“Num chão escondido...”.
“Lá fincarei moradia...”.
“Uma casinha...”.
“Uma rede de dormir...”.
“Uma esteira de chão...”.
“Um fogão de lenha...”.
“Uma moringa...”.
“Um pote...”.
“Um radinho de pilha...”.
“Um caderno...”.
“Um lápis...”.
“Um embornal...”.
“Um chinelo de dedo...”.
“E um sol imenso...”.
“Uma lua bonita...”.
“Uma manhã passarinheira...”.
“Um anoitecer enluarado...”.
“E a certeza...”.
“Que a felicidade existe...”.
“E comigo estará...”.
“Lá perto do vento...”.
“Lá longe de tudo...”.
“Na vida que preciso ter...”.
“Porque ainda preciso viver...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

TANTO MAR, TODO MAR


Rangel Alves da Costa*


Quem dera ser poeta e em versos azuis/esverdeados cantar toda a beleza do mar. Quem dera ser literato e inventar uma história bonita desde o porto às distâncias sem fim. Quem dera ser navegante e singrar entre calmarias e procelas rumo ao desconhecido destino. Quem dera ser terra, areia de cais, beira d’água, caminho molhado, estrada d’além.
Jorge Amado descreveu o mar como o misterioso que chama à vida e à morte. Os negros do cais recolhendo os cestos de frutas olorosas trazidas do recôncavo em faustosas embarcações. Relatou acerca dos meninos vivendo ao redor do porto e daquelas águas com canto de sereia. As mulheres chorosas tentando avistar o barco de retorno. Os corpos ardentemente suados se entregando aos prazeres do cais. E as velas acesas para os santos e orixás, oferendas de graça e rogos de dor. Tudo ali na beira do mar.
Os versos camonianos glorificaram as bravuras dos intrépidos navegantes em meio à fúria do mar tenebroso. E disse o poeta que “Por mares nunca de antes navegados/ Passaram ainda além da Taprobana/ Em perigos e guerras esforçados/ Mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota edificaram/ Novo Reino, que tanto sublimaram”. Um canto das conquistas lusitanas vencendo as fúrias de mares desconhecidos, cheios de mistérios e fazendo chegar a portos impensados aos homens de então.
E mar também presente em Hemingway. Ora, o seu “O Velho e o Mar” nada mais que uma ode à persistência perante as dificuldades. O velho pescador lança todas suas forças naquela que talvez seja sua última conquista. Experiente, vivente do mar e para o mar, jamais imaginaria que aquele peixe lhe fosse tão custoso de ser alcançado. E também a demonstração que o mar e os seus seres possuem tamanhas forças que desafiam o entendimento do mais experimentado dos pescadores.
Mas o mar está em tudo, em todo lugar, até mesmo naqueles inesquecíveis versos da Portela de 1981, com seu enredo “Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite”, numa genial composição de Davi Correa e Jorge Macedo: Deixa-me encantar com tudo teu e revelar lá, la, iá/ O que vai acontecer nessa noite de esplendor/ O mar subiu na linha do horizonte desaguando como fonte/ Ao vento a ilusão teceu/ O mar, oi o mar, por onde andei mareou, mareou/ Rolou na dança das ondas no verso do cantador/ Dança quem tá na roda/ Roda de brincar/ Prosa na boca do vento e vem marear/ Eis o cortejo irreal com as maravilhas do mar/ Fazendo o meu carnaval, é a vida a brincar/ A luz raiou pra clarear a poesia/ Num sentimento que desperta na folia/ Amor, amor/ Amor sorria, ôôô/ Um novo dia despertou/ E lá vou eu, e lá vou eu, pela imensidão do mar/ Esta onda que borda a avenida de espuma me arrasta a sambar”.
No cenário musical, talvez o mais marinheiro tenha sido Dorival Caymmi. Cantou o mar baiano de forma poeticamente triste, como as águas que chegavam ao cais num misto de dor e sofrimento. E tal poética é revelada em canções dolentes como “O mar”: “O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito/ O mar.../ Pescador quando sai nunca sabe se volta, nem sabe se fica/ Quanta gente perdeu seus maridos, seus filhos nas ondas do mar/ O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito...”.
E assim o mar vai sendo avistado, sonhado, escrito, cantado, navegado. De olhos tristonhos e pés descalços alguém caminha na beira do cais. Adiante, em ondas que chegam e recuam, o mar cantando sua misteriosa canção. Para muitos é um chamado, para outros apenas soluços molhados que se espalham na areia.
Há um velho farol que deixou de iluminar por causa dos olhos constantemente encharcados. Olha adiante a avista aquela mansamente falsa imensidão, tudo tão solitário e triste. Apenas um barquinho que vai sumindo na linha do horizonte. E ao redor, por cima das areias úmidas e próximas às pedras lavadas de açoite, flores mortas se deixando levar. E mais adiante alguém que caminha ao abraço das águas profundas. Do mar...


Poeta e cronista
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