SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 873


Rangel Alves da Costa*


“Deitou sem viver...”.
“Adormeceu sem sonhar...”.
“Nem beijou nem amou...”.
“Nem banho tomou...”.
“E já estava em pé...”.
“Quando o galo cantou...”.
“E depois disso bate pilão...”.
“Na vida senzala...”.
“Ainda a escravidão...”.
“E depois disso o grilhão...”.
“O lanho na alma...”.
“Pois lá vem o patrão...”.
“Sai para o trabalho...”.
“Sem tempo de nada...”.
“Um gole de café...”.
“Um pedaço de pão...”.
“Pois o trem já vem...”.
“A vida é um trem...”.
“De fumaça e fogo...”.
“De tormentosa estação...”.
“E depois disso bate pilão...”.
“Na vida senzala...”.
“Ainda a escravidão...”.
“E depois disso o grilhão...”.
“O lanho na alma...”.
“Pois lá vem o patrão...”.
“Chega ao trabalho...”.
“Marca logo o ponto...”.
“Olha ao redor...”.
“E tanto a fazer...”.
“Remexer daqui...”.
“Remover dali...”.
“Refazer ainda...”.
“Exigem perfeição...”.
“Para um salário...”.
“De cortar coração...”.
“E depois disso bate pilão...”.
“Na vida senzala...”.
“Ainda a escravidão...”.
“E depois disso o grilhão...”.
“O lanho na alma...”.
“Pois lá vem o patrão...”.
“Que vida, que sina...”.
“Viver em aflição...”.
“A sobrevivência...”.
“No bater pilão da escravidão...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

COMIDA É FOME, SABOR É VONTADE


Rangel Alves da Costa*


Nunca tive frescura com relação a qualquer comida, pois saboreio com gosto aquilo que consigo encontrar na hora da fome. Mas também não passo nem perto de restaurante metido a besta, com cardápio de nomes estrambólicos e preços verdadeiramente aviltantes.
Eu queria entender por que existem pessoas que se sujeitam aos preços de tais restaurantes. Ter dinheiro demais não justifica deixar de usufrui-lo de maneira inteligente. Mostrar luxo, importância e poder, também não justificam padecer diante de um prato de nada e pagar até por ter pisado naquele chão.
Verdade que nos centros urbanos não há mais locais que ofereçam bons pratos a preços justos. Por isso mesmo que as pessoas se empanturram de massas oleosas nas lanchonetes e ambulantes. Como o tempo é curto para seguir até suas casas na hora do almoço e não há como pagar sequer prato feito todos os dias, então acabam se enchendo de óleo nas pastelarias.
Melhor sorte àqueles que procuram as feiras livres e os restaurantes populares para o almoço. Em tais locais ainda é possível comer fartamente, sem regras ou etiquetas, sair satisfeito e não comprometer muito o salário do mês. Mas nada igual a saborear uma comida caseira de mercado ou feira livre, cozida ou assada na hora, e sair com o apetite e o bolso contentes.
Mas na hora da fome é mesmo difícil fazer escolhas, pois a pessoa vai logo desejando tudo que encontrar pela frente. E por isso mesmo incorre no erro de fazer más escolhas. Tendo dinheiro, geralmente deixa de optar pelo trivial, pelo já conhecido, e se arrisca em pratos diferentes. E já aconteceu de ter em sua frente uma sopa rala quando desejava uma carne apetitosa.
Seja como for, a verdade é que evito qualquer comida de rua, seja lanche ou almoço, principalmente em restaurante de luxo. Prefiro passar fome a sentar numa mesa e torcer para que tenha boa aparência o que for servido. Ademais, gosto de cozinhar, de inventar perante o fogão, mas tudo à base de coisas simples.
Aliás, nunca tive exigências a respeito dos pratos mais costumeiros. Tem gente que não come fígado de jeito nenhum, outros evitam ao máximo carne de porco cozida ou assada. Alguns até viram o rosto diante de uma panelada de sarapatel, enquanto outros sentem nojo por mocotó. Tudo questão de gosto, que bem poderia ser posta à prova com a barriga vazia e sem outra opção.
Sendo comida já conhecida, para mim tanto faz que seja frita ou assada, ao forno, ao fogão de lenha ou no vapor. Gosto de bife, lombo, carne assada, refogado, moído, de qualquer jeito. Aprecio a carne de porco, de boi, de carneiro e ovelha. Gosto também dos miúdos do frango, da buchada, do fígado, daquelas partes que antigamente apenas os escravos se serviam como precioso alimento.
Saboreio com gostosura salsicha com ovos, formando uma farinha. O ovo é bom de qualquer jeito, diga-se de passagem. Sardinha em lata, mortadela, linguiça, tudo é gostosamente apreciado. Não há nada melhor que um cuscuzinho com tripa de porco por cima ou mesmo com ovos e manteiga espalhada. Resto de comida de ontem também ser como reinvenção, surgindo porções deliciosas.
A comida não deve ser vista como uma questão de escolha, mas de necessidade. E comer bem é escolher aquilo que realmente sacie a fome, sem que necessariamente seja de prato caro. As comidas caseiras, aquelas de cozinha, superam quaisquer outras que possam existir. No seu preparo, a certeza do que vai ingerir e o sabor de fome que a pessoa vai acrescentar.
Depois é só escolher suco de cajá ou de mangaba. E ao final um pedaço de goiabada para confirmar a doçura da boca.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Menino de ontem e hoje (Poesia)


Menino de ontem e hoje


Meus sonhos de menino
ainda temem o bicho-papão
e o boi feio da cara preta
porque ainda sou menino
e muito ainda tenho a temer

minhas ilusões de menino
ainda acreditam em fantasias
e por isso vejo castelos no ar
e cavaleiros de lança em punho
vencendo terríveis gigantes

meu passado de menino
ainda não passou com o tempo
e me faz tomar banho na chuva
e correr descalço pela vida afora
sendo apenas o menino que sou.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 872


Rangel Alves da Costa*


“Quero a noite...”.
“Muito além da noite...”.
“Muito além do negrume...”.
“Além da escuridão...”.
“Quero a noite de segredos...”.
“De mistérios e descobertas...”.
“Do desconhecido e do temeroso...”.
“Do escondido e do encontrado...”.
“Quero a noite suada...”.
“A noite amada...”.
“Noite lavada e deslavada...”.
“Noite beijada e sugada...”.
“Noite amante e apaixonada...”.
“Quero a noite silêncio...”.
“A noite noctívaga e andante...”.
“A noite nostálgica...”.
“A noite enluarada...”.
“A noite de poesia e serenata...”.
“A noite janela entreaberta...”.
“E de traições adulterinas...”.
“Quero a noite solta...”.
“A noite livre e libertina...”.
“A noite bêbada e chorosa...”.
“A noite lacrimejante de saudade...”.
“Noite de perfume barato...”.
“De cabarés cheirando a sexo...”.
“E sexo a todo preço...”.
“Quero a noite pecado...”.
“A noite pagã e mundana...”.
“Noite de cachaça e vinho...”.
“De mesa e pé de balcão...”.
“De amores roubados...”.
“E corações traídos...”.
“De roupas ao chão...”.
“E corpos enlaçados...”.
“De alcovas e qualquer lugar...”.
“Noite de insônia e de fumaça...”.
“Quero a noite assim...”.
“Assim perdida a inocência...”.
“Assim desvirginada e impura...”.
“Assim solta na vida...”.
“E sem arrependimentos...”.
“Uma noite sem hora para acordar...”.
“E quando acordada...”.
“Ser apenas noite esquecida...”.
“Até que a escuridão caia novamente...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MÚSICA E MOMENTO


Rangel Alves da Costa*


Quando se fala em música há de se dizer, em primeiro lugar, que nem toda barulheira saída de uma mala de carro pode ser considerada como expressão musical. Nada além de ritmos desconexos, com melodias atabalhoadas e letras aviltantes. Quer dizer, não passa de uma barulheira insuportavelmente repetitiva.
Além dessa bagunça barulhenta de mala de carro, a música também é aviltada pelos duvidosos gostos de grande parte, senão maioria, da população. É a utilização de rótulo sertanejo para o que não passa de brega romântico, é a designação de música romântica para o que nada mais é que cornice sonora. Tudo parte de pessoas que certamente não conhecem nada de MPB nem de autêntico violado caipira. Expressões como ária, ópera, concerto, noturno e prelúdio, talvez sejam vistas como coisa do outro mundo.
Também não justifica dizer que gosto musical não se discute. Discute-se sim, e sempre tentando mostrar que inconcebível é que um jovem, na idade que pressupõe instante das escolhas da vida, se deixe seduzir e conduzir somente pelo que de pior chega às ruas com nome de música. A verdade é que é difícil compreender o que motiva alguém colocar sons potentes nos veículos e depois abrir a mala para impor seus desajustes sonoros perante os demais indivíduos.
Mas não é tarefa fácil delimitar o contexto próprio da música. Contudo, não é difícil compreender o que não seja música. A autêntica música não está em todo lugar nem sendo ouvida a qualquer altura. A boa música não está numa mala aberta de carro nem animando a rebeldia nas festas psicodélicas de fim de semana. A verdadeira música exige como uma preparação, um ritual de iniciação que vai desde a escolha ao local de fruição.
A verdadeira música deve, em primeiro lugar, provocar sensações prazerosas. A música deve proporcionar leveza à alma, perfumar o espírito, possibilitar viagens mentais, fazer bem aos ouvidos e coração de quem ouve. Através da música é possível reencontrar-se com situações vivenciadas, dar trilha sonora às saudades, encher-se de contentamento e prazer, ainda que a nostalgia também pontue como um laivo de terno entristecimento.
Tão importante é a boa música para a vida de um ser humano que deveria estar inserida dentre as necessidades orgânicas. Ora, se o sono repousa, fortalece e predispõe o indivíduo aos seus afazeres, se o alimento proporciona energia e força para os embates diários, então a música também deveria fazer parte desse elenco de urgências humanas. E simplesmente porque relaxa, emotiva, motiva, humaniza, sentimentaliza e torna o sujeito mais afeto à felicidade.
Uma imagem serve para exemplificar. Alguém retorna após a correria do dia, coloca de lado bolsas e roupas, abre a janela para a entrada da brisa do entardecer, vai até a estante e escolhe uma música para ouvir. Depois de colocada na vitrola, se joga entre almofadas para usufruir cada acorde, e de olhos fechados, sentindo a canção invadindo a alma, parece flutuar e sair de si. E levemente voa e mansamente vai ultrapassando os espaços até que a mente pouse numa doce recordação.
Ou lentamente caminha em direção à janela e lança o olhar na paisagem ao redor e mais adiante. Mesmo que nada disso exista à sua frente, certamente avistará um mar imenso, as ondas chegando e voltando, barcos ao longe, gaivotas fazendo suas trajetórias, coqueirais sendo balançados pelo vento suave. É como estar noutro mundo, noutra existência, onde o sublime se junta ao prazer de sentir o momento. E tudo possível somente pela trilha musical que lhe possibilita fazer tal viagem.
E tal viagem é acessível a todos. Ao menos àqueles que se distanciam das gritarias e barulhos do mundo lá fora e se recolhem para o instante do encontro consigo mesmo, no silêncio da sala ou dentro do quarto, perante uma música que valha a pena ser ouvida. Algo assim como um Noturno de Chopin, uma Valsa de Strauss ou um Balé de Tchaikovsky, ou apenas uma Sonata ao cair da noite.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Dentro do quarto (Poesia)


Dentro do quarto


Folhas secas entram pela minha janela
e não tenho nenhum canto alegre para cantar

há um silêncio profundo e uma tristeza sem fim
e eu não tenho nem sorriso para alegrar o instante

meus versos e meus segredos sumiram no vento
e eu não sei mais escrever o que seja felicidade

não quero me olhar no espelho nem no retrato
a face disfarçada de vida só faz aumentar o sofrer

fecho a janela e entre lençóis choro novamente
até que um rio leve o barco vazio aonde quiser.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 871


Rangel Alves da Costa*


“Somos sempre antigos...”.
“Somos o passado...”.
“Somos a história...”.
“Não há nada de novo...”.
“Disse o Eclesiastes...”.
“E com razão...”.
“Não há mesmo nada de novo...”.
“Debaixo do sol e da lua...”.
“Eis que somos raízes...”.
“Somos gerações...”.
“Somos descendências...”.
“Somos ancestrais...”.
“Viemos do pai do pai...”.
“Da mãe da mãe...”.
“E numa linhagem sem fim...”.
“Somos o ontem...”.
“Na idade e na ação...”.
“Dependemos do que somos...”.
“E somos pelo que foi construído...”.
“Somos o que passou...”.
“Nas memórias e nas lembranças...”.
“Pois tudo fruto de realizações...”.
“Temos sobrenomes antigos...”.
“Pois das primeiras raízes...”.
“Temos feições antigas...”.
“Pois numa genética perdida no tempo...”.
“Temos estradas familiares...”.
“E todas nas curvas do passado...”.
“Vivemos do que foi feito...”.
“Temos o que já existiu...”.
“Pensamos pela memória apreendida...”.
“Sentimos pelo que refletimos do dado...”.
“Sofremos pelas perdas...”.
“Choramos pelas saudades...”.
“Amargamos entristecimento de relembranças...”.
“E tudo na porta de trás...”.
“Do quintal adiante...”.
“Pois o presente é incerto...”.
“E o futuro sempre desconhecido...”.
“Até o instante de agora...”.
“Já passou neste momento...”.
“O segundo é tudo...”.
“E a vida nada mais é...”.
“Que um baú guardado...”.
“Na realidade de nossa existência...”.
“E aberto a cada passo...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com