SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 31 de março de 2015

Fé (Poesia)



Fé
 
Apenas uma vela
uma chama acesa
uma flama singela
e a imensa certeza

olhos brilham à luz
o silêncio na prece
o ser diante da cruz
a fé que enternece

o que seria do ser
sem essa oração
e não apenas crer
ter a fé no coração.


Rangel Alves da Costa
 

PALAVRAS SILENCIOSAS – 929


Rangel Alves da Costa*

 
“Plantou uma semente...”.
“E possui a sombra de uma árvore...”.
“Plantou um grão...”.
“E abre a janela para um jardim...”.
“Doou um pão...”.
“E nunca lhe faltou uma oferta...”.
“Deu um sorriso...”.
“E vive encontrando a felicidade...”.
“Deu um aceno...”.
“E jamais foi esquecido...”.
“Abriu uma porta...”.
“E jamais lhe foi negada acolhida...”.
“Abriu a janela da manhã...”.
“E sempre chegam borboletas ao amanhecer...”.
“Respondeu uma pergunta...”.
“E jamais ficou sem respostas...”.
“Compreendeu a noite...”.
“E jamais ficou sem a lua...”.
“Compreendeu o sol...”.
“E jamais ficou sem claridade...”.
“Compreendeu o mistério...”.
“E sempre descobre o que quer conhecer...”.
“Compreendeu o espelho...”.
“E jamais desacreditou na aparência...”.
“Compreendeu a paz...”.
“E jamais aceitou a guerra...”.
“Compreendeu o nada humano...”.
“E jamais desacreditou em Deus...”.
“Compreendeu a fé...”.
“E jamais deixou de ter esperança...”.
“Será sempre preciso...”.
“Conhecer as faces e as feições...”.
“Os lados e seus opostos...”.
“Para conhecer uma parte de tudo...”.
“E assim caminhar...”.
“Com a certeza que nada é acaso...”.
“Nada existe ao acaso...”.
“Com tudo se entrelaçando em destino...”.
“Como uma escrita antiga...”.
“E exposta diante de todos...”.
“Mas que somente poucos...”.
“Conseguem enxergar e compreender...”.
“Que o viver nada mais é...”.
“Que sujeitar-se à realidade...”.
“E dela se precaver todas as vezes...”.
“Que pretenda outra realidade...”.
“Num mundo bem melhor...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 30 de março de 2015

O VELHO E A MONTANHA


Rangel Alves da Costa*

 
Sim, eu era mais velho, bem mais velho do sou agora. Já tive oitenta, já cheguei perto dos cem anos. E creio até que muito mais que isso. Acreditem, conheci da velhice muito além do que a geriatria e a psicologia poderiam imaginar. Diferentemente do que diz a voz popular, pois supõe a idade provecta como uma fase de enfermidades, tristezas e desilusões, sentia-me verdadeiramente senhor do tempo. Eu era sábio, eu era mestre em meio a discípulos, eu era a flor da razão e do conhecimento.
Como se estivesse no cume de uma montanha bem alta, lá de cima avistava a vida sem disfarces. Nada mais me surpreendia, nada mais me enganava, eis que tudo eu já conhecia como a palma de minha mão. As guerras, os dolorosos acontecimentos do mundo, a violência, o espanto e o medo do povo, a arrogância da vida e o sofrimento de muitos, tudo isso me chegava como um espelho: Assim teria de acontecer. Tudo uma questão de tempo. Nada de novo debaixo do sol!
E que belo Eclesiastes colocando o homem no seu devido lugar, colocando o sujeito como reflexo de qualquer um, sem mais poder ou riqueza, sem mais luxo ou bonança, pois ouro hoje e amanhã um cobre enferrujado. E que belo livro esse que ensina a esperança, a perseverança a força para a continuidade dos sonhos. Nada será eterno sofrimento, nenhuma mão deixará de ter o seu pão, nenhuma luta será vã. Ora, o livro ensina, ensina, mas o que faz o homem? Eis que sobre a terra poucos conhecem as lições, e por isso mesmo que nada de novo parece surgir debaixo do sol.
Muitos dos meus instantes de velhice eu passei folheando o livro sagrado. Lia e relia, voltava aos evangelhos, aos salmos, às sabedorias, ao percurso de um Cristo sofredor na construção de seu templo. O templo de um mundo sonhado, e que certamente não possui a feição de agora. Coisas de velho, sempre diziam ao me avistar subindo a montanha levando a certeza à mão. Não sabiam, porém, que nas páginas daquele livro também estava escrito o mundo tormentoso lá embaixo e arredores. Um mundo de homens esquecidos de Deus e que transformaram a permissão de existir na destruição de si mesmos.
Não eram poucos os que desacreditavam no meu conhecimento, principalmente por ser um velho, e envelhecido demais. Mas quando eu era mais velho gostava de ser assim, bem velhinho, corcunda, calejado, andando lentamente, quase uma folha de outono ao vento. Não pensava em ser diferente porque a pessoa vive segundo as circunstâncias da idade, não procurava mostrar qualquer vigor físico além daquele que me mantinha em pé e com a mente suficientemente boa para pensar. E que idade boa é a da velhice. E que tristeza quando fui deixando de ser velho.
Deixar de ser velho foi uma das maiores decepções de minha vida, e até hoje fico entristecido só em pensar que tive de deixar o ponto mais alto do cume mais alto da montanha. Um dia, avistando a vida lá de cima, eis que olho ao redor, pelas redondezas do mundo lá embaixo, quando percebi um caminho novo descendo montanha abaixo. E uma voz sem face, porém suave como cristal, dizendo para seguir por aquela estrada. E lá reencontre um tempo que de agora em diante será o seu.
Em obediência à voz, pois já a tinha ouvido nos momentos de oração no alto da montanha, lentamente fui descendo até colocar os pés naquele novo caminho. E fato interessante começou a acontecer, pois quanto mais eu caminhava mais sentia força e disposição. Não sentia sede ou cansaço, apenas caminhava, e caminhando me vi de repente correndo. Ora, mas um velho não faz assim. Mas eu já era outro na mesma feição. Tão jovem por dentro que mais parecia um pássaro pronto para alçar voo.
Tudo tão diferente a partir desse instante. O mundo, que pelas mazelas rapidamente se destruía, e por isso mesmo eu o avistava com piedade, era o mundo que me chamava a vivenciá-lo. A vida, que pela perda de zelo na existência eu a sentia com compaixão, era a vida que me chamava à sua realidade. Ora, aquele velho havia ficado lá na montanha, e o que se via diante do mundo novo era um ser bem diferente.
O que fazer agora, foi a última coisa que pensei antes de perder também a feição envelhecida. O velho não existia mais, apenas a pessoa convivendo com uma realidade pela qual sofria tanto. Quer dizer, o doloroso mundo que tanto atormentava o velho agora era a tormentosa realidade que ele tinha de vivenciar. Porém sem ter mais ideia do erro ou do acerto, da boa ou má ação, pois apenas mais um dentre tantos que só pensavam em viver o momento, em curtir, em tirar proveito de tudo.
Não sei por que, mas sofri, chorei, padeci a cada instante da nova vida. Não experimentei os vícios mundanos, não me entreguei a orgias, não me despi das grandes virtudes. Ora, então eu não servia para este mundo. E talvez não servisse mesmo, tanto assim que fui forçado a tomar o caminho de volta. E voltei pela mesma estrada para ser ainda mais velho. E sofrer muito mais com o mundo avistado lá do alto da montanha.
 
 
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

O trem (Poesia)


O trem

 
Espero o trem
lá vem o trem
o trem que vem
vem o trem
que vem
o trem
o trem
que vem
o trem
 
assim a vida
uma estação
uma chegada
uma partida
uma flor ao chão
aceno de adeus
tanta solidão
olhos molhados
dor no coração
o trem apitando
maior aflição
a vida que vai
viagem de trem
o trem que vai
ao além
 
e lá vai o trem
levando alguém
sumindo além
vai o trem
o trem
o trem
...
 
Rangel Alves da Costa
 

PALAVRAS SILENCIOSAS – 928


Rangel Alves da Costa*

 
“Longe, longe...”.
“Muito longe daqui...”.
“Não quero asfalto...”.
“Quero chão...”.
“Não quero pedra...”.
“Quero terra...”.
“Não quero cimento...”.
“Quero pedra nua...”.
“Não quero edifício...”.
“Quero moradia...”.
“Não quero relógio...”.
“Quero manhã...”.
“Não quero buzina...”.
“Quero canto passarinheiro...”.
“Não quero carro...”.
“Quero andar a pé...”.
“Não quero plástico...”.
“Quero a flor do campo...”.
“Não quero jardim murado...”.
“Quero o descampado...”.
“Não quero barulho...”.
“Quero o som da natureza...”.
“Não quero a rua...”.
“Quero a vereda...”.
“Não quero a torneira...”.
“Quero a chuva caindo...”.
“Não quero a fila...”.
“Quero a liberdade...”.
“Não quero a burocracia...”.
“Quero a rebeldia do nada...”.
“Não quero a receita...”.
“Quero a planta medicinal...”.
“Não quero a luz...”.
“Quero o luar...”.
“Não quero a fumaça...”.
“Quero a cor da aurora...”.
“Não quero a embalagem...”.
“Quero a fruta do mato...”.
“Não quero a discussão...”.
“Quero a solidão...”.
“Não quero prato feito...”.
“Quero cuscuz com ovos...”.
“Não quero talher...”.
“Quero comer com a mão...”.
“Não quero seu lugar...”.
“Só quero o meu sertão...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

domingo, 29 de março de 2015

NO ALTO DA COLINA (MAGIA, TERROR E SUPERSTIÇÃO)


Rangel Alves da Costa*


Não faz muito tempo que assisti num canal fechado de televisão um episódio acerca das assombrações que ainda assolam Salem (cidade norte-americana em Massachusetts), mesmo mais de quatro séculos após aquelas famosas perseguições e mortes dos acusados de envolvimento com bruxarias.
Com efeito, pelos idos de 1692, a vida da pacata cidade começou a mudar totalmente quando uma escrava relatou casos de magia africana e algumas pessoas passaram a ter pesadelos. Ao ser examinadas, o médico afirmou que só poderiam estar tomadas por bruxarias. Como outras pessoas começaram a ter estranhos sintomas, as autoridades logo supuseram que haviam sido enfeitiçadas pelas mulheres, ou as Bruxas de Salem.
Mais de cem pessoas foram levadas a julgamento e mais de vinte sentenciadas à morte por enforcamento, que era executado nas árvores localizadas no alto de uma colina nos arredores. Segundo relatos, os julgamentos se afeiçoaram a tragicomédias. Sempre prevalecendo as acusações, com ênfase nos desmaios, gritos e histerias no tribunal, procurava-se provar que aqueles acusados ainda estavam agindo no corpo e na alma daquelas pobres pessoas. Uma grande farsa, na maioria dos casos.
E não somente farsa, mas principalmente a demonstração de como o medo e a ignorância agem para transformar superstições em realidades. Desde o seu surgimento, nenhum relato de bruxaria havia recaído sobre Salem. Bastou, contudo, que um diagnóstico temerário tenha sido feito, fugindo dos padrões médicos e levianamente proclamado - vez que a possessão espiritual não diz respeito à ciência médica -, para que as pessoas começassem a traduzir suas enfermidades em ações de bruxaria.
A fragilidade da mente humana, aliada à ignorância, ao medo e à superstição, pode realmente fazer surgir não apenas bruxas como quaisquer outras entidades de maus espíritos. Já se disse que o medo infundado acaba provocando o medo real, e com monstros inexistentes. Pessoas ignorantes, convivendo num mundo distante de outras realidades, acabam acreditando em tudo que se espalha como realidade, mesmo não passando de mera imaginação. E assim ocorre por uma imposição coletiva.
Certamente que lá naqueles idos de Salem, porém antes da disseminação dos episódios de bruxaria, as doenças, os achaques, as indisposições, os desmaios e as histerias, eram vistos como problemas orgânicos e tratados segundo os meios e procedimentos da época. Mas crer que os mesmos problemas passaram a ser causados por bruxarias e enfeitiçamentos só porque algumas pessoas estavam sendo acusadas de tais práticas, não parece aceitável. A não ser, como afirmado, que a ilusão histérica coletiva tenha realmente afetado a todos. Então as doenças passam a ser provocadas pelo medo e não por causa de supostas magias.
Mas era um mundo dividido entre incautos e espertalhões. Enquanto os ignorantes acusavam as bruxas pelos seus males, alguns finórios procuravam tirar proveito da situação. Como ao sentenciar o tribunal retirava todas as posses do acusado, muitos se acharam no direito de chamar para si muitos bens e propriedades. Num situação tal, logicamente que muitos outros seriam acusados e condenados. Então foi preciso o mundo exterior agir sobre aquele mundo irreal e primitivo para que a situação fosse resolvida.
E só foi resolvida porque um sacerdote fez circular uma carta relatando os absurdos até então cometidos. Uma nova corte de julgamento foi formada e todos os acusados foram absolvidos e soltos. O juiz anterior acabou reconhecendo os erros cometidos nos julgamentos, mas já tarde demais, pois muitos inocentes haviam sido levados amarrados ao alto da colina, lá pendurados em árvores para penderem mortos.
São tais mortos que até hoje assombram os arredores de Salem. E assustam também a todos aqueles que, mesmo nos dias de hoje, tomam conhecimento da existência de uma realidade tão brutal e apavorante. E mais assustador ainda quando se tem conhecimento que pessoas, em pleno século da razão e do conhecimento, ainda são conduzidas por tais crenças obscuras e degradantes.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Manhãs (Poesia)


Manhãs

As manhãs acordam
e adornam o futuro
com ramos floridos
pétalas perfumadas
cantos de passarinhos
cores de borboletas
com frutas de pomar
e depois caminham
pelas suas paisagens
até o sol se firmar
e após beber o orvalho
e banhar-se na fonte
novamente adormece
no leito dos corações
que a cada alvorecer
abrem suas janelas
para que a vida renasça. 


Rangel Alves da Costa