SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 30 de março de 2015

O VELHO E A MONTANHA


Rangel Alves da Costa*

 
Sim, eu era mais velho, bem mais velho do sou agora. Já tive oitenta, já cheguei perto dos cem anos. E creio até que muito mais que isso. Acreditem, conheci da velhice muito além do que a geriatria e a psicologia poderiam imaginar. Diferentemente do que diz a voz popular, pois supõe a idade provecta como uma fase de enfermidades, tristezas e desilusões, sentia-me verdadeiramente senhor do tempo. Eu era sábio, eu era mestre em meio a discípulos, eu era a flor da razão e do conhecimento.
Como se estivesse no cume de uma montanha bem alta, lá de cima avistava a vida sem disfarces. Nada mais me surpreendia, nada mais me enganava, eis que tudo eu já conhecia como a palma de minha mão. As guerras, os dolorosos acontecimentos do mundo, a violência, o espanto e o medo do povo, a arrogância da vida e o sofrimento de muitos, tudo isso me chegava como um espelho: Assim teria de acontecer. Tudo uma questão de tempo. Nada de novo debaixo do sol!
E que belo Eclesiastes colocando o homem no seu devido lugar, colocando o sujeito como reflexo de qualquer um, sem mais poder ou riqueza, sem mais luxo ou bonança, pois ouro hoje e amanhã um cobre enferrujado. E que belo livro esse que ensina a esperança, a perseverança a força para a continuidade dos sonhos. Nada será eterno sofrimento, nenhuma mão deixará de ter o seu pão, nenhuma luta será vã. Ora, o livro ensina, ensina, mas o que faz o homem? Eis que sobre a terra poucos conhecem as lições, e por isso mesmo que nada de novo parece surgir debaixo do sol.
Muitos dos meus instantes de velhice eu passei folheando o livro sagrado. Lia e relia, voltava aos evangelhos, aos salmos, às sabedorias, ao percurso de um Cristo sofredor na construção de seu templo. O templo de um mundo sonhado, e que certamente não possui a feição de agora. Coisas de velho, sempre diziam ao me avistar subindo a montanha levando a certeza à mão. Não sabiam, porém, que nas páginas daquele livro também estava escrito o mundo tormentoso lá embaixo e arredores. Um mundo de homens esquecidos de Deus e que transformaram a permissão de existir na destruição de si mesmos.
Não eram poucos os que desacreditavam no meu conhecimento, principalmente por ser um velho, e envelhecido demais. Mas quando eu era mais velho gostava de ser assim, bem velhinho, corcunda, calejado, andando lentamente, quase uma folha de outono ao vento. Não pensava em ser diferente porque a pessoa vive segundo as circunstâncias da idade, não procurava mostrar qualquer vigor físico além daquele que me mantinha em pé e com a mente suficientemente boa para pensar. E que idade boa é a da velhice. E que tristeza quando fui deixando de ser velho.
Deixar de ser velho foi uma das maiores decepções de minha vida, e até hoje fico entristecido só em pensar que tive de deixar o ponto mais alto do cume mais alto da montanha. Um dia, avistando a vida lá de cima, eis que olho ao redor, pelas redondezas do mundo lá embaixo, quando percebi um caminho novo descendo montanha abaixo. E uma voz sem face, porém suave como cristal, dizendo para seguir por aquela estrada. E lá reencontre um tempo que de agora em diante será o seu.
Em obediência à voz, pois já a tinha ouvido nos momentos de oração no alto da montanha, lentamente fui descendo até colocar os pés naquele novo caminho. E fato interessante começou a acontecer, pois quanto mais eu caminhava mais sentia força e disposição. Não sentia sede ou cansaço, apenas caminhava, e caminhando me vi de repente correndo. Ora, mas um velho não faz assim. Mas eu já era outro na mesma feição. Tão jovem por dentro que mais parecia um pássaro pronto para alçar voo.
Tudo tão diferente a partir desse instante. O mundo, que pelas mazelas rapidamente se destruía, e por isso mesmo eu o avistava com piedade, era o mundo que me chamava a vivenciá-lo. A vida, que pela perda de zelo na existência eu a sentia com compaixão, era a vida que me chamava à sua realidade. Ora, aquele velho havia ficado lá na montanha, e o que se via diante do mundo novo era um ser bem diferente.
O que fazer agora, foi a última coisa que pensei antes de perder também a feição envelhecida. O velho não existia mais, apenas a pessoa convivendo com uma realidade pela qual sofria tanto. Quer dizer, o doloroso mundo que tanto atormentava o velho agora era a tormentosa realidade que ele tinha de vivenciar. Porém sem ter mais ideia do erro ou do acerto, da boa ou má ação, pois apenas mais um dentre tantos que só pensavam em viver o momento, em curtir, em tirar proveito de tudo.
Não sei por que, mas sofri, chorei, padeci a cada instante da nova vida. Não experimentei os vícios mundanos, não me entreguei a orgias, não me despi das grandes virtudes. Ora, então eu não servia para este mundo. E talvez não servisse mesmo, tanto assim que fui forçado a tomar o caminho de volta. E voltei pela mesma estrada para ser ainda mais velho. E sofrer muito mais com o mundo avistado lá do alto da montanha.
 
 
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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