SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 3 de junho de 2015

PALAVRAS SILENCIOSAS – 993


Rangel Alves da Costa*


“Não sou conduzido pelo mundo...”.
“Não sou conduzido por nada...”.
“Não sou conduzido por ninguém...”.
“Não admito escravidão...”.
“Não admito submissão...”.
“Não admito ordem...”.
“Não admitido imposição...”.
“Defendo a liberdade...”.
“Luto e lutarei pela liberdade...”.
“De ir e vir...”.
“De expressão e informação...”.
“De manifestação do que desejar...”.
“Foi-se o tempo dos algozes...”.
“Foi o tempo da senzala...”.
“Foi-se o tempo dos grilhões...”.
“Do capataz e da chibata...”.
“Agora recebe o troco...”.
“Quem vier com valentia...”.
“Arrogância ou imposição...”.
“Por isso mesmo...”.
“Que penso o que desejo pensar...”.
“Escrevo o que desejo escrever...”.
“Vou para quero ir...”.
“Faço o que bem entender...”.
“Na verdade...”.
“A liberdade humana...”.
“Foi subtraída pelo próprio homem...”.
“Com suas leis absurdas...”.
“Suas regras descabidas...”.
“Seus aprisionamentos...”.
“Ao homem cabe viver no estado natural...”.
“Perante o direito natural...”.
“E é natural que se sinta liberto...”.
“Não tema a autoridade...”.
“Eis que ninguém está autorizado...”.
“A se intrometer na vida de ninguém...”.
“Não se sinta forçado...”.
“Eis que ninguém tem o poder...”.
“De exigir nada de ninguém...”.
“Daí que acaricio a pedra ou a flor...”.
“Gosto do açúcar ou de sal...”.
“Silencio eternamente ou grito sempre...”.
“Somente a mim cabe a decisão...”.
“Do que seja bom ou ruim...”.
“Até mesmo desobedecer a mim mesmo...”.
“Quando penso em obedecer ao mundo...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 2 de junho de 2015

AS PEQUENAS COISAS


Rangel Alves da Costa*


Várias são as razões – e todas deploráveis – para que as pessoas não valorizem as pequenas e significantes coisas da vida, do mundo, da existência.
Por orgulho, soberba ou indiferença, determinadas pessoas simplesmente ignoram o que não se apresenta como poder, riqueza ou meio de tirar proveito de toda ordem.
Ou possui o brilho do ouro ou não possui qualquer importância, ou não tem o valor do diamante ou de nada lhe interessa, ou é vil metal ou vale menos que ferrugem envelhecida.
A verdade é que muitos se acostumaram com o fulgor, com o brilho, com a importância. Ou lhe surge resplandecente ou será tido como algo qualquer desprezível.
Pessoas assim são entremeadas de arrogância, imbecilidade, empáfia, ignorância, insensibilidade e desumanidade, só para citar alguns aspectos desse menosprezo repugnante.
Gente há que carrega o preconceito como virtude e a discriminação como divisor de relacionamento. Corta caminho ou vira esquina para evitar dar um bom dia ou boa tarde.
Gente há que tem olhar diferenciado segundo a pessoa que avista. Prefere cegar diante de um pobre, de uma pessoa do povo, mas os olhos brilham perante o nome, o sobrenome, a função.
Gente há que não estende a mão se a outra mão não possuir dedos cheios de anéis. Não sorri se o outro sorriso não for de boca de ouro e não fala a não ser para chamar o outro de doutor, excelência, nobre cavalheiro.
Gente há que só sabe o que é pobreza por que a imprensa fala na sua existência, só sabe o que é sofrimento por que os jornais e a televisão falam num povo faminto e sedento.
Gente há que é assim. E há gente ainda pior. Gente que gostaria de viver numa redoma e o seu mundo sintético bem distante de tudo, principalmente do povo. Como o povo de repente faz um mal danado a certo tipo de gente!
Gente há que se desumanizou de tal forma que nem parece ter nascido de um ventre, chorado ao encontrar a luz, sido criança de pés no chão e tantas vezes caída ao chão.
Pessoas que desde muito não abrem a janela, não reconhecem mais a poesia da natureza, nunca mais ouviram um canto de pássaro, não sabem mais o que é viver.
E o que é viver senão abraçar o mundo, a vida, a existência? O que é viver senão aproveitar o máximo das pequenas coisas e buscar a felicidade em tudo e a todo instante?
Viver é aproveitar as pequenas coisas, se deliciar com os encontros, deixar-se cativar pelo sublime, pelo singelo, pelo que nem pensava existir. Viver é assim: viver!
Viver é ser a medida da própria natureza. Há coisa mais bela que o grão brotando, que o orvalho molhando a folha, que o pólen fertilizando a flor? E tudo tão pequenino...
Pequenino é o beija-flor, o colibri, o tiziu. Pequenino é o araçá e o açaí. Pequenina é a semente que frutifica e a gota d’água que alimenta a terra e a vida.
Os olhos humanos deveriam aprender a amar muito mais as coisas pequeninas. Não apenas de tamanho, mas que geralmente nem são avistadas. Olhai os lírios dos campos!
Os corações humanos deveriam ser mais sensíveis ao que se espalha pelos quadrantes da vida e nem sempre é avistado pela pressa de encontrar motivos de grande significação.
Alguém já disse que nos pequenos frascos estão as maiores essências. Nos jardins esquecidos também estão as mais belas flores. Ora, a beleza duma flor não está na sua cor ou raridade, mas no encanto que provoca quando avistada e sentida.
As flores do campo jazem esquecidas nos beirais das estradas e entre ervas daninhas. Somente um coração sensível para fazer um buquê daquelas pequenas flores geralmente desprezadas pelos caminhantes.
Assim como a lua é apenas uma lua para que assim desejar, igualmente será o sino de uma igrejinha distante. É preciso ter sentimento para viver a lua, é preciso ter fé para compreender o significado daquele simples badalar.
Tudo uma questão de sentimento. Também de ser humano ou apenas parecer.


Poeta e cronista
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O grão e a colheita (Poesia)


O grão e a colheita


Li num velho pergaminho
que quando se deseja amar
faz-se do coração terra fértil
e o grão deve ser encontrado
assim que a natureza quiser
e fizer cair no solo do coração
a semente que enfim brotará

e que ninguém forje o grão
ou imponha qualquer semente
pois tudo na hora de acontecer
seja trazida no bico do passarinho
seja tangida pela força do vento
porque silenciosamente chegará
para ser do amor a maior colheita.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 992


Rangel Alves da Costa*


“Tudo diferente na minha terra...”.
“Tudo diferente no meu sertão...”.
“A lua mais bela...”.
“O sol maior...”.
“A simplicidade da vida...”.
“A humildade nos arredores...”.
“Amigos conversam debaixo do tamarineiro...”.
“A mulher debulha feijão de corda...”.
“A velha senhora faz renda de bilro...”.
“O menino brinca com boi de barro...”.
“Há uma casinha de boneca...”.
“E uma menina que é uma boneca...”.
“Vizinhas fofocando pelas calçadas...”.
“O carro de bois gemendo no estradão...”.
“Um vaqueiro em cima de seu alazão...”.
“Um cavalo de pau...”.
“Uma pipa e uma bola de gude...”.
“Lavandeiras no riachinho...”.
“Fumaça subindo aos céus...”.
“Um cheiro bom de café torrado...”.
“Um cheiro de bolo de macaxeira...”.
“O inconfundível aroma do milho...”.
“Um velho galo ciscando no quintal...”.
“Um poleiro de pouca cria...”.
“Um cantinho de plantas medicinais...”.
“Mastruço batido com leite...”.
“Chá de boldo e de tanta coisa...”.
“O menino que passa correndo...”.
“A cocada branca na janela...”.
“O mungunzá e o arroz doce...”.
“O descanso na esteira na calçada...”.
“A rede estendida na varanda...”.
“A mocinha de vestido de chita...”.
“O doido em cima de sua pedra...”.
“Uma história de Lampião...”.
“Toda a história do sertão...”.
“Caminhos de veredas e espinhos...”.
“A bela flor do mandacaru...”,
“A terra ressequida...”.
“A fonte de fundo barrento...”.
“Uma promessa e uma procissão...”.
“Um povo de fé sem igual...”.
“O pote e a moringa...”.
“A preciosa gota d’água...”.
“Ou simplesmente a esperança...”.
“De a esperança nunca acabar...”.


Poeta e cronista
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segunda-feira, 1 de junho de 2015

OS REBUSCAMENTOS NA ESCRITA (O ACADEMICISMO DEPLORANDO O TEXTO)


Rangel Alves da Costa*


Logo após o falecimento do ator Antônio Abujamra, fato acontecido em 28 de abril, li na Folha de São Paulo um texto do colunista Nélson de Sá (Excessos de Abujamra não esconderam diretor singular – 29/04/2015), que me deixou intrigado pela desnecessidade na utilização das expressões “derrisória” e “derrisório”.
Afirma o colunista que o teatro de Abujamra carregava uma abordagem “derrisória. E mais adiante diz que mais tarde o diretor se descobriu, mas era um Abujamra “derrisório”. Não é fácil encontrar nos livros o conceito de derrisório. E não vejo necessidade alguma de um colunista de um jornal popular cunhar tal termo no texto de leitura geral.
O termo derrisório se amolda muito bem à intencionalidade do jornalista, pois significa exatamente na associação entre humor e agressão. Derrisão significa ridicularização, escárnio, expressão do ridículo. Mas se a intenção era dizer que Abujamra utilizava o humor agressivo para ridicularizar, bem poderia ter utilizado outra expressão, pois a utilizada foi inadequada ao meio.
Tal ânsia de expressar-se de forma demasiadamente culta ou com exageros acadêmicos e rebuscamentos linguísticos, ao invés de enriquecer o texto pode provocar efeito contrário e torná-lo pedante, incompreensível, desprezado pelo leitor, ainda que de cultura igual ao escritor. Ninguém suporta um texto enfadonho ou construído de forma ininteligível.
Desde muito que venho escrevendo alguns textos criticando o “inteligentês” na literatura e na escrita em geral, o forjamento das expressões com base em formalismos acadêmicos e o esquecimento de que o leitor é um ser que apenas deseja compreender o que está escrito. E também criticando o desprezo de muitos pela linguagem coloquial, pelos regionalismos e o linguajar comum do povo. Sempre preguei a palavra escrita ou falada de qualquer forma, mesmo tomada de erros gramaticas, mas que alcança sua função comunicativa. O que importa é o entendimento do outro, do interlocutor ou do leitor, e não a forma como foi expressa.
Estudiosos e filólogos como Celso Pedro Luft já pregavam a insubmissão da palavra, sintetizada no termo língua é liberdade. A verdade é que não há erro em qualquer fala ou escrita, mas tão somente uma inadequação às normas impositivas da gramática normativa. E como ninguém está obrigado a ser mais obediente às regras linguísticas do que à sua força de expressão, então não deverá calar somente porque a linguagem formal exige de outro modo.
A crítica se volta também aos livros cujos termos parecem propositalmente escolhidos pelo autor para não serem entendidos. Ou simplesmente porque desejam passar uma imagem de rebuscado e superior conhecimento. Carl Sagan e Stephen Hawking, por exemplo, poderiam ter escrito livros sobre o cosmos e a formação do universo com expressões somente compreensíveis aos cosmólogos, astrofísicos ou outros cientistas, mas não, pois conseguiram tornar seus escritos compreensíveis e de fácil leitura. Outros, contudo, se tornam intragáveis até mesmo nas academias.
Minha alma foi lavada a partir da leitura de uma entrevista publicada pela Folha de São Paulo neste sábado, 30 de maio, com o linguista norte-americano Steven Pinker atacando o estilo pomposo de escrever dos acadêmicos. Falando sobre o seu best-seller “O Senso de Estilo”, o autor sintetiza sua visão sobre a linguagem padronizada, as regras de escrever bem e o conservadorismo na escrita.
Segundo Pinker, a escrita, ao invés de tencionar o rebuscamento, deve ser simples, clara, concisa. E diz que o grande problema na escrita de hoje é “a maldição do conhecimento”, ou seja, o autor pensa que sabe demais e escreve pensando que todos sabem igualmente a ele. Não há o cuidado de transmitir um conhecimento de forma menos culta e mais acessível. O resultado é uma escrita horrenda partindo de pessoas que se aprofundaram no “academiquês” e esqueceram o leitor como aquele que precisa compreendê-lo.
Comungo do pensamento do linguista. Não somente contra os exageros formais da escrita e sua linguagem empolada, bem como contra a utilização de termos generalizantes que significam tudo e nada ao mesmo tempo. Não suporto ler qualquer coisa que contenha “obras estruturantes”, “ideias estruturantes”. Os termos são bonitos, soam pomposos, mas quer enganar a quem com tais imbróglios linguísticos?


Poeta e cronista
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Nos campos floridos (Poesia)


Nos campos floridos


Em busca de brisa e entardecer
procurando o silêncio e a paz
caminhei pelos campos além
em meio ao perfume de flores
fazendo renascer na minh’alma
a certeza da beleza da  vida
e quanto ela se torna paraíso
ao lado de um amor tão amado

então venha amor meu
dê-me a mão em caminhada
os campos floridos esperam
que sigamos pela estrada.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 991


Rangel Alves da Costa*


“Não quero epitáfio...”.
“Nenhuma frase dizendo...”.
“Aquilo que não fui reconhecido em vida...”.
“Não quero lágrimas de tristeza...”.
“Nem que sintam saudades...”.
“Tenho todo o tempo do mundo...”.
“Para ser reconhecido...”.
“Avistado e encontrado...”.
“E não quero ser buscado...”.
“Depois que o meu tempo chegar...”.
“Que me sintam agora...”.
“Ou muito ou pouco...”.
“Ou tudo ou nada...”.
“Sou o que sou agora...”.
“Sou como sou agora...”.
“Não quero que espalhem...”.
“Entre lamentos e queixumes...”.
“Que se foi uma pessoa boa...”.
“Uma pessoa honesta...”.
“Alguém que viveu para servir...”.
“Aquele que era amigos de todos...”.
“Tais palavras serão tardias...”.
“E também mentirosas...”.
“Eis que a verdade se comprova...”.
“Na vivência e não na ausência...”.
“Sei que é muito fácil adornar...”.
“De virtudes e qualidades...”.
“Aquele que já se foi...”.
“Mas não é justo que se faça assim...”.
“O respeito que se deve ter...”.
“A consideração que se deve manter...”.
“É relegar ao esquecimento...”.
“Não adianta querer endeusar depois...”.
“Quando na vida foi negado...”.
“Talvez um bom dia ou boa tarde...”.
“Demagogia sentimental...”.
“A justiça feita está no silêncio...”.
“E no retrato apagado da memória...”.
“Ou viva-me agora...”.
“Ou esqueça-me depois...”.
“Ou chegue-me agora...”.
“Ou nem recorde depois...”.
“E o epitáfio oculto no tempo...”.
“Certamente firmará na pedra...”.
“Que aqui jaz...”.
“Aquele que deseja ser esquecido...”.
“Apenas isso...”.


Poeta e cronista
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