SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 2 de dezembro de 2017

Lá no meu sertão...


Na desolação de um sertão



Num céu de uma boca (Poesia)


Num céu de uma boca


Quando a noite chega
avisto um lindo céu
um céu de uma boca
com brilho de lua
e lábio estrelado

então sigo aos espaços
em rasantes noturnos
em busca de um céu
o céu de uma boca
de lua de mel.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta – leia o seu livro


*Rangel Alves da Costa


Você tem um livro, então leia o seu livro. O livro está perto e dentro de você, então cuide de ler o seu livro. Não se assuste, não tenha medo pelo que você escreveu, pois apenas um livro pelo que viveu. Nas páginas tantas que você escreveu, nele a sua história e o seu destino, então leia o seu livro. Mesmo que já saiba do que foi escrito, não deixe de reler o que escreveu. E lendo se indagar: Tudo poderia ser escrito de outra forma? O que eu tinha de fazer e não fiz? Posso agora reparar isso aqui? O que faço para a minha história ser mais bonita e bem mais grandiosa? Minhas páginas possuem mais erros ou mais acertos? O que eu deveria ter escrito aqui e não o fiz por que não houve tempo de concretizar minha ação? Como eu poderia chamar o livro de minha vida? Muitas perguntas, muitas indagações, e sempre com respostas que poderão ser acrescidas ao próprio livro, eis que o seu livro nunca estará totalmente escrito antes que uma força superior imponha, então, um fim. Mas antes deste fim, que tudo faça para que o seu livro não esvoace e desapareça nas ventanias do mundo. Escreva sempre com tal força e tal forma, com tamanha perseverança e destemor, que para o sempre, mesmo que você não esteja mais aqui, o seu livro continue como referência na memória da vida e de todos.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

CANÇÃO DE MÃO-DE-PILÃO


*Rangel Alves da Costa


No pilão antigo, ainda hoje fincado no quintal como relíquia imorredoura de gerações que se foram, toda a representação e memória de um tempo de lutas e sacrifícios, onde a sobrevivência tantas vezes dependia da batida da mão do pilão sobre a fundura na madeira.
Pilão. Um nome qualquer e até mesmo desconhecido por muitos. A maioria dos jovens não sabe o que é um pilão, não conhece o seu significado, nada sabe sobre a história que se esconde além da velha madeira. Também nem todo adulto o conhece bem. Para muitos, apenas um pedaço de velharia escondido ou esquecido num canto qualquer. E pronto.
Hoje em dia, o pilão está apenas no museu ou guardado por aquele que o tem como verdadeira relíquia. Qual a serventia disso, pergunta o aluno ao professor. Isso aqui, diria o professor, é um livro aberto. E suas páginas contêm relatos de luta, de dor, de sobrevivência. Por isso mesmo o pilão nunca silencia. Sua batida, ou o peso de sua mão na madeira, ainda ecoa por todo lugar.
Aquele talvez o último dos muitos pilões que sofreram nas entranhas a batida forte do roliço tronco de madeira de lei. Quando as mãos levantam a madeira e em seguida descem com força bruta, sem tempo para gemer, então se ouve um grito rouco, seco, saindo das entranhas do tronco. E gritos que se repetem compassadamente, segundo o tempo da batida, até a mão-de-pilão ser deitada após o trabalho feito.
O pilão, nos tempos idos, estava em tudo e por todo lugar. Não havia tribo sem pilão, não havia senzala sem pilão, não havia casa-grande sem pilão, não havia cortiço sem pilão, não havia quintal sem pilão. Para esmagar caroço de milho, tirar a casca do arroz, tornar em pó o grão do café, esfarelar a folha seca, para moer raízes e frutos. Mas ele sumiu.
O pilão sumiu, ou quase sumiu. E só não sumiu de vez por que os mais antigos possuem verdadeiro amor familiar àquele tronco agora adormecido num canto do quintal. Quando abrem as portas dos fundos e caminham pelos arredores, basta avistar o velho pilão e logo começam a recordar o passado e a canção da mão-de-pilão. Canção esta jamais escrita, jamais cantada com voz melodiosa, apenas ouvida e guardada na memória pelo som da mão descendo sobre o pilão.
“Tum-tum-tum. Levanta do chão a mão do pilão, limpa as pontas da mão do pilão. Coloca o grão dentro do pilão. A mão levanta a mão do pilão. Tum-tum-tum. Dentro da fundura a maior aflição, com o grão gemendo sob a mão-de-pilão...”.
As velhas mãos, já tão cansadas de tempo e idade, não têm mais forças sequer para levantar a mão do pilão. Mas noutros idos, ao amanhecer e entardecer sempre ecoava a canção do pilão. Precisava transformar o milho em xerém, bater o café em caroço, tirar a casca do arroz de várzea. Ou assim se fazia ou pouco se tinha como alimento do dia a dia, para o homem e para o bicho.
“Tum-tum-tum. Bate que bate o pilão na boca da noite, e bate mais forte senão logo chega o açoite. Negra mão na mão-de-pilão, pilão escravo de toda aflição. Tum-tum-tum. Bate que bate o pilão sem mostrar o cansaço, pois o algoz se aproxima tendo a mão o ferro e o laço...”.
A tecnologia do pilão é das mais antigas existentes. A necessidade fez com que o homem primitivo buscasse meios para esfarelar, triturar ou amassar, aquilo que encontrava como grão, raiz ou folha. Como perdia muito ao simplesmente bater sobre o grão numa pedra, então achou por bem abrir uma fundura num tronco, de modo que ao bater e triturar nada se perdesse. Depois separava com peneira o farelo ou o pó e o problema estava resolvido.
“Tum-tum-tum. Enquanto sobre e desce a mão-de-pilão, da voz se ouve uma canção. Mas é canto triste e de lamentação, falando de saudade e de solidão, mareando os olhos e o coração. Tum-tum-tum, assim bate o pilão, assim também a vida em recordação...”.
Não há melhor café que aquele nascido com o grão batido em pilão. Quando o pó desce pela peneira sobre o pano limpo e depois é levado para a chaleira já com água fervente, em cima de fogão de lenha, então logo tem início uma verdadeira magia. Tudo se perfuma, tudo se encanta, pois não há nada mais aromatizado e saboroso que o café de pilão borbulhando seu negrume precioso.
“Tum-tum-tum. A memória ainda guarda a batida do pilão, a nostalgia ainda relembra a mão sobre a mão do pilão, num misto de sofrimento e emoção. Tum-tum-tum, pois assim batia o pilão. E de saudade somente bate o coração...”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


Uma gente amiga do meu sertão



Amor com amor (Poesia)


Amor com amor


Ainda mando flores
para o meu amor
ainda escrevo versos
para o meu amor
poemas em flor
para o meu amor
por que amar assim
é verdadeiro amor

e quando vou além
dessa forma de amar
dou minha palavra
de sincero expressar
e me dou de corpo
com tudo meu que há
e em silêncio confesso
como é bom te namorar.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - o homem é pedra dura


*Rangel Alves da Costa


O homem é pedra dura e como moldá-lo a viver sem a insensível dureza? O homem é petrificado e como torná-lo homem sem a insensível rispidez? O homem é pedra dura e como enternecê-lo sem tirar sua humana feição? O homem é pedra dura e como mostrar que não vai além de pó sobre pó e que o pó tornará? O homem é pedra dura e como transformar sua insensibilidade em racionalidade e compreensão? O homem é pedra dura e como quebrar a dureza da pedra e plantar flores sobre os seus restos de arrogância? O homem é pedra dura e como encontrar um sorriso por cima do musgo enegrecido do orgulho e da vaidade? O homem é pedra dura e como torná-lo em outra coisa que não apenas pedra e tão dura? O homem é pedra dura e como mostrar que a simples e silenciosa brisa vai transformar seu insensível ser num ser de sentimentos e cordialidades? O homem é pedra dura e como não querer ser igual a pedra? E como não ser pedra? E como não deixar que as durezas tomem o lugar da sensível pele da ternura e do afeto? Mas não existe pedra tão dura assim. O ferro enferruja e se retorce e some. O diamante perde sua beleza quando mal lapidado. A pedra esvai-se no pó e vai sumindo na ventania da desimportância. E com o ser humano, um ser tão frágil como o segundo, não é diferente.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com