SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Mãos de barro (Poesia)


Mãos de barro

As mãos magras
os dedos finos
movem o barro
ajeitam o visgo
e vão moldando
uma vida
na argila
da terra
 
o pote
a moringa
a panela
a tampa
a tigela
no barro
 
moldado e alisado
deixar secar
levar ao fogo
avermelhar
e depois vender
no meio da feira
por um tostão
vintém besteira.
 
Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - sertão e fé


*Rangel Alves da Costa


Os caminhos da igreja são pelas estradas de chão. O andor em carro-de-bois, um povo sertanejo em procissão. O que explicaria, debaixo do sol o clarão, tão belo cortejo, tão abnegada veneração? O povo tem oratório no coração, tem vela acesa no olhar, leva rosário na mão. O sertanejo espalha os céus pelo chão, torna florida a espinhenta vegetação, caminha feliz pelas veredas da devoção. As vozes se elevam em oração, os mistérios da fé se expandem, no peito o pulsar de emoção. Vai menino com tua imagem, com este Deus que é teu pai e irmão. Vai senhora da fé com tua promessa adornada de benção. Seguem os passos, são poucos, mas são de imensa multidão. E o cortejo segue o destino da louvação, e vai seguindo e seguindo, como a fé em coroação. Na humildade sertaneja, o sagrado e a religião. E pelos campos ecoando as rezas de Santa Missão: Dai-nos a benção Senhor, protege o nosso Sertão!


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A ESCOLHA DO JAGUNÇO


*Rangel Alves da Costa


Coisas que só aconteciam naqueles sertões de antigamente. De se acreditar ou não, mas a verdade é que aconteceram. Jagunço que tanto matava também morria. Matador com remorso de ter matado tanto. Leiam essa história e saibam como tudo acontecia.
Quando o vigário recebeu o recado quase dá um troço. Tremeu, avermelhou, chegando mesmo a arroxear. Foi preciso tomar meio copo de pinga para se equilibrar novamente. Eis que não podia acreditar no que tinha ouvido.
Mas não podia negar. Pedido vindo do coronel, dono de terra e bicho, e também das armas e dos que apertavam os gatilhos, era pra ser obedecido. E sem demora. Contudo, verdade é que era um pedido difícil demais de ser atendido. Isso não podia deixar de reconhecer.
Ora, oferecer a extrema-unção a jagunço, pistoleiro de mando, matador de mais de vinte, era coisa que nunca tinha feito e que desafiava seu juramento religioso. Cometeria imperdoável pecado. Por outro lado, devia favor demais ao coronel, sem falar que corria o risco de lhe acontecer o pior acaso deixasse de prestar o último sacramento ao pistoleiro.
Já tinha ouvido falar pela própria boca do coronel - e isso como exemplo de menor monta - que o tal jagunço tinha um carcará como bicho de estimação. E costumava levá-lo no ombro quando ia fazer tocaia pelas redondezas. Depois de fazer fumaçar o cano mortal e perceber que o cabra estrebuchava no chão, era só soltar o bicho que ele ia certeiro na direção dos olhos. Arrancava tudo.
Mas pelo que ouviu do emissário, o jagunço mais confiado pelo coronel estava no leito de morte. Não que houvesse recebido uma resposta de fogo, um tiro igual a tantos que disparou em tocaias e emboscadas. Não. Sabe-se apenas que de uma hora pra outra o homem começou a ter remorsos e disse que ia morrer. Foi com essa intenção que se retirou pro seu barraco e ali se jogou numa cama de varas.
Dizia que queria morrer, que queria morrer, e nem uma rápida visita do seu patrão fez o homem repensar sua decisão e levantar. Até que o coronel propôs dar logo cabo na sua vida com um tiro certeiro na testa dado por outro da mesma laia, mas o cabra rejeitou. Disse que morrer de morte matada seria ligeiro demais e menos doloroso do que a dor verdadeira que queria sentir.
O patrão perguntou por que falava daquele jeito, porque desejava morrer aos poucos, com sofrimento penoso e demorado, e o jagunço simplesmente olhou na direção da arma e fez derramar uma lágrima pelo canto do olho. Perguntado se estava com remorso por já ter matado tanta gente, ele nada respondeu. Soltou outra lágrima. Mas antes que o coronel saísse pediu que lhe arranjasse um vigário para uma última confissão.
Quando o velho sacerdote despontou na malhada da tapera já passava de uma semana do recado recebido. A desculpa enviada ao poderoso amigo era de que estava em jejum fechado. Mas não pôde adiar mais e subiu num lombo de burro. Assim que empurrou a porta para entrar tomou-se de indescritível espanto. O jagunço estava jogado por cima de uma esteira mais parecendo um fantasma.
No mesmo instante o vigário viu que não era nem mais caso de confissão, mas de extrema-unção mesmo, pois o cabra parecia nem estar mais respirando. De uma magreza de bicho na seca, barba de muito tempo sem fazer, um verdadeiro frangalho humano. Lentamente foi abrindo os olhos e ajeitando a cabeça assim que ouviu o vigário anunciando que havia chegado. Sente, o sacerdote ouviu espantado.
Depois o jagunço silenciou novamente e assim ficou por uns cinco minutos. Sentado num banquinho adiante, o da igreja já preparava os óleos para o sacramento quando ouviu, numa voz quase inaudível: Estou morrendo, estou morrendo... Então o vigário apressou-se em derramar os preparos sobre sua testa, a fazer sinais, a pronunciar as palavras apropriadas.
Dez minutos depois, quando a respiração parecia já ter se esvaído e os olhos estavam sendo fechados de vez, o lábio lanhoso se moveu e ele disse: Ainda tenho tempo de confessar uma coisa padre. Chegue mais perto que quero dizer. Mas primeiro me dê aquela arma que tá ali.
Em obediência ao último pedido do moribundo, o vigário não viu nenhum pecado em atendê-lo. Trouxe a arma e colocou-a perto da mão do jagunço. E depois ouviu de sua boca: É que não posso morrer sem cumprir um pedido que me foi feito há muito tempo pelo coronel. Uma vez ele mandou lhe matar. E tenho que cumprir agora...
E um estampido ecoou pelas brenhas sertanejas. Mais uma bala certeira, mais uma morte. E em seguida o vigário fugiu pelo mato com o seu jumento. Havia sido mais rápido que o jagunço. Puxou a arma debaixo da batina e deu um tiro na testa do homem.
Mas não correu da tapera sem antes derramar todos os frascos que tinha por cima do morto. Era pra livrá-lo dos pecados no outro mundo.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...



EM JACARÉ, JÁ SEGUINDO PRA CAJUEIRO. Só quem vai catar grão a grão do sertão, sabe valorizar sua terra, chão a chão...




Outro amor (Poesia)



Outro amor


Por amor
já me devocionei na fé
já me prostrei em oração
já vi a face de Deus à luz de vela

por amar
já confessei todo o amor sentido
já levei flores e jardins
já disse no olhar muito além da palavra

por amor e por amar
fui justo e sincero em cada gesto
fui fiel e verdadeiro em cada passo
fui aquele que ela não pudesse duvidar

mas depois de tudo
depois de tanto amor e tanto amar
a solidão me restou como retribuição
ao que nunca faltou e até transbordou

mas o que restou em mim
foi maior que todo aquele amor
pois a incomparável certeza
de ter amado na grandeza do coração.

Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - depois da vidraça...



*Rangel Alves da Costa


Ontem, aí sentado em meio ao quase silêncio da tarde, eu olhava o mundo sertanejo passando lá fora e ficava imaginando e imaginando... Vaqueiros e cavalos passando, pessoas caminhando nos seus afazeres do dia a dia, carros e motos com sua pressa de chegar. A ventania soprava trazendo poeira e pó. A radiola do Rancho desligada, melhor assim. Uma vidraça à minha frente, como se seu estivesse separado daquele mundo por um escudo. Mas eu tudo sentia e pulsava como se do outro lado estivesse, sentindo o meu povo passar, sentindo a minha gente falar, sentindo o que cada levava em seu pensamento. Mesmo sem caderno e lápis, eu tudo rabiscava nos rascunhos de minha mente. E descrevia aquela paisagem, pessoas e objetos, como a síntese de um mundo em sua transformação. Aquele asfalto era chão, aquela moto era lombo de um animal, aquele carro era um carro-de-bois, aquela menina bonita era uma mocinha carregando um pote d’água à cabeça. E amanhã, como será? Tudo passa, tudo passará...



Escritor
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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O NEGO D’ÁGUA



*Rangel Alves da Costa


Era noite de escuridão retinta em Curralinho. Abeirando o rio, as águas pareciam recobertas de papel laminado. Um silêncio medonho, pois naquela mudez havia o temor de os mistérios e as lendas tantas se tornarem reais. E eu estava sozinho.
Contavam histórias mirabolantes de dentro do rio e de sues arredores. Diziam dos barcos defuntos que passavam ao som de sentinelas e com velas acesas. Contavam da mulher triste que do nada aparecia chorosa e com buquê de flores à mão. Lançava rosas nas águas e depois novamente desaparecia. Seu pescador havia sumido numa noite de solitária pescaria. Afirmavam de peixes monstros que emergiam das águas e se transformavam em estranha gente. Sem falar em histórias de carrancas, das pedras gemendo, do vapor fantasma que aportava naqueles beirais. Mas nada disso eu tinha medo.
Medo mesmo eu só tinha do Nego D’água. Não de alguma maldade que ele pudesse fazer, mas tão somente das peripécias de arrepiar que eram passadas de boca em boca. Naquela noite, porém, encontrei um. Imagino que encontrei, pois não o vi, dele não me aproximei por querer nem sei se é neguinho mesmo ou qual feição ele tem.
Dizem que é como um meninote, baixinho, troncudo, de pele escurecida, com dentes de peixe. Mas que é virado na gota serena. Aparece do nada. De repente chega pra assustar, faz o mundo revirar, e depois começa a dar gargalhadas de as águas estremecerem. Mas como eu encontrei o Nego D’água?
Eu estava descontraidamente sentado na beira do rio quando ouvi um batim, ou seja, como se alguém tivesse se jogado do alto de uma pedra em direção às águas. No instante que ouvi, rapidamente olhei para uma pedra grande mais adiante e lá não avistei ninguém. Contudo, as águas se agitavam em ondas ao redor. A pessoa deve ter mergulhado, pensei. Um segundo após, e para meu espanto, no alto da pedra, em meio à escuridão enluarada, avistei uma figura estranha. Era o neguinho.
No mesmo instante ele se lançou nas águas e, quase no mesmo instante, já apareceu soltando gargalhada em minhas costas. Quando me virei, nada mais encontrei, pois o neguinho já dava outro batim de cima da pedra. Então achei melhor não mais temer, aceitar toda aquela estranheza como algo normal. Assim que ele percebeu que eu não mais me importava com suas medonhices, logo sentou na pedra, baixou a cabeça, e entristecido começou a chorar.
“Chore não, neguinho!”. Eu gritei. Mas suas lágrimas aumentaram e, se misturando às águas do rio, avançaram até os meus pés. Olhei para baixo e avistei, no espelho encharcado de lágrimas, a sua feição. E também ouvi sua voz, dizendo:
“Não diga a ninguém que sou frágil e também choro. Na mente dos outros, eu só existo porque sou filho das entranhas do rio e posso amedrontar. Mas, como o rio e a própria natureza, vou definhando, enfraquecendo, perdendo minha força de existência. E por isso eu entristeço e choro!”.


Escritor
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