SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Palavra Solta - a lição
Escritor
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
ESTRADA
*Rangel Alves da Costa
Há que
seguir. Ou mesmo retornar. Não há voo nem rio ou mar por cima da terra firma. O
único caminho é a estrada. Tão necessário o seu percurso, que impensável viver
sem sair do lugar, sem conhecer outros horizontes.
De terra
nua, empoeirada, estrada. Chão batido, espinhento, com ponta de pedra por todo
lugar, mas estrada. Reta, de poucas curvas ou curveada, sempre uma estrada. Um
ponto de partida, um destino ou não, e o fim na estrada.
Quando a
porta se abre o passo quer logo seguir. Tantas vezes, sequer sabe aonde vai,
mas sempre quer seguir. Nada melhor na vida que seguir pelos beirais, passar
por lugares, ir adiante, até que se chegue a algum lugar. Sempre pela estrada.
Sim, eu
sei o que é uma estrada. Eu vejo estradas e caminho por estradas. Mas será
somente o traçado do percurso ou diz muito mais?
Apenas uma
estrada. Talvez assim se imagine. Uma estrada asfaltada, uma estrada na
piçarra, uma estrada de chão espinhento, uma estrada nua, uma estrada torta,
uma estrada morta.
A estrada
se alonga no olhar, vai se distanciando até se perder entre curvas e
horizontes. Quem pisa o pé na estrada sequer imagina sua importância, até onde
ela pode levar, o que ela pode modificar em sua vida.

Bastaria
saber que tudo é estrada, ainda que não esteja caminhando ou seguindo por uma
estrada. Ora, o que é a vida senão uma estrada?
Da porta
pra dentro e da porta pra fora tudo é estrada. O rio é estrada, a nuvem é
estrada, ao céu se chega por uma estrada. Todo percurso na vida é estrada. O
caminho da infância, as veredas da adolescência, as curvas da existência.
Quanto
caminho até chegar ao lábio da menina bela e dar o primeiro beijo. E no beijo
um voo por uma estrada até a nuvem. Quanto tempo até o amor de infância se
tornar companhia de mão e de lar.
Uma
estrada que vai desde o primeiro choro do nascimento às lágrimas de adeus de um
dia. Uma estrada que distancia os que ficam e os que partem, as chegadas e
partidas, os reencontros e as tristezas.
Como é
longe a estrada que leva às verdadeiras amizades, aos amados corações, às
ternuras e aos afetos. Estradas distantes demais em direção à felicidade, mas
que podem levar ao abismo em questão de segundos.
Estrada da
memória, da nostalgia, das relembranças. Quando o pensamento aflora em busca do
passado e vai abrindo janelas e portas das vidas vividas, então a estrada se
enche de flores para perfumar aqueles momentos.
E quanta
estrada é avistada e percorrida pelo olhar. Olhar que se encanta ao encontrar a
cor da primeira manhã. Olhar que entristece perante o candeeiro do sol que vai
se apagando. Um olhar que avista onde não pode chegar e que lacrimeja pelo
encontro do que não se faz presença.
Dar as
mãos, segurar mão na mão, e seguir pela estrada. Deixar o vento soprar e
assanhar os cabelos, espanar os panos da roupa, dar vontade de correr. Dar vontade de chegar, sobre a relva se
lançar e dizer: ainda não chegamos, apenas estamos aqui.
Nunca,
nunca será possível chegar ao fim dessa estrada. Nem a morte será fim da
estrada. A pessoa se vai, porém outras continuam com sua presença enquanto
durar. E assim a vida vai, por estrada, por veredas, caminhos, por espinhos,
pontas de pedras e flores.
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O querer (Poesia)
O querer
O desejo nascee vai brotando em
florde amor tanta esperançaque assim
aconteçaque se deseja
mais se deseja o outroo outro que
queiraser jardim e do jardim a
florum perfume suavede amor. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - morreu em meus braços...
Escritor
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domingo, 25 de outubro de 2020
JOÃO DA BICHA, O FEITICEIRO
Não me recordo bem o período, mas creio que
aconteceu pelos idos dos anos 80 em Poço Redondo, no sertão sergipano. De
repente, apareceu pelos rincões sertanejos sergipanos um estranho, misterioso e
instigante forasteiro, mais conhecido como João da Bicha.
Há algumas versões, contudo, dando conta que
desde os anos 60 o misterioso homem já andejava pelos sertões sergipanos.
Situei os anos 80 como marco pelo fato de que foi a partir desse período que o
mesmo se fixou na cidade de Poço Redondo e na casinha a seguir mencionada.
Como dito, conhecido como João da Bicha. E
talvez esse nome por uma ferida que tinha numa das pernas e que nunca sarava,
ainda que o mesmo se prontificasse, pelo uso de ervas medicinais e outros
meios, a curar feridas nos outros.
Moreno de pele escurecida, de altura mediana,
magro, caminhando compassadamente pelo problema na perna, de vez em quando
levando um chapéu panamá e vestindo de preferência o branco.
Alagoano ou pernambucano, não lembro bem, mas
a verdade é que foi se arranchando na cidade de Poço Redondo. Trazia consigo
somente uma velha mala e outros pertences de seus afazeres no dia a dia.
Encontrou uma velha casa desocupada e sem portas na antiga Praça Arnaldo Rollemberg Garcez (Praça Eudócia) e a tornou como moradia. Seu viver na casinha se resumia a uma saleta onde deixava seus apetrechos num canto e dormia geralmente numa esteira de chão.
Não demorou muito e o forasteiro começou a
mostrar seus dotes, de mandingueiro e de bebedor de cachaça. Logo se espalhou
pela cidade que João da Bicha era rezador de mão cheia, passando o ramo pra
qualquer coisa e aporrinhação espiritual, como feiticeiro dos bons.

E foi assim que os interessados na resolução
de problemas do corpo, da alma e do coração, começaram a formar grande
clientela para o benzedor e mandingueiro. Gente que desejava acorrentar o
coração alheio, mulher querendo desfazer o casamento de homem, gente querendo
apenas fazer maldade com o próximo, todo tipo de safadeza.
Essas pessoas geralmente entravam pelos
fundos da casa para não despertar atenção do que ali iam fazer. O homem fez
fama e enlaçou e desenlaçou muito nó, ao menos para aqueles que acreditavam em
feitiçarias e coisas tais.
Mas outras pessoas iam ali apenas para serem
rezadas e afastar pesos ruins do corpo. Certa feita, de tanto benzer, rezar e
fazer secar ramos e mais ramos de uma mulher, João da Bicha chegou à conclusão
que o problema dela não era de reza nem benzimento, mas de deixar de safadeza.
A mulher começou a chorar e acabou
confessando que não era flor que se cheirasse, e saiu de lá prometendo nunca
mais falar mal dos outros, viver espalhando fofoca e nem dar em cima de homem
casado. Mas logo a fama de João da Bicha começou a ser atrapalhada pelo seu
vício na cachaça.
De repente, outra coisa não fazia senão
beber, passando dias e noites bebendo cachaça no seu canto imundo de chão.
Quando a fase passava, então se banhava, vestia roupa branca, colocava chapéu,
e saía pela cidade, mas sua direção acabava sempre sendo um bar, onde tudo
novamente começava.
Escritor
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