SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Palavra Solta - a lição


*Rangel Alves da Costa


Um retrato meu. Moldura de sertão, tudo de sertão. Desculpe-me dizer, mas seu não tivesse nada a fazer eu não iria aí. Se não tivesse nada a aprender eu não estaria aí. Há tufos de mato, há pedra espalhada, há mandacaru, há vegetação sertaneja, garranchos e restos retorcidos de sol. Para muitos, apenas coisas sem importância no meio do tempo. Não há nenhum livro e nenhuma letra, não há escola nem academia. Mas há um professor que tudo ensina: o Sertão. Sou sertanejo e preciso aprender a lição: o Sertão!

Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

ESTRADA


*Rangel Alves da Costa


O olhar avança e avista distâncias. Entre os arvoredos e tufos de mato, sempre a passagem para se seguir adiante. Na terra antes tomada de espinhos e tocos de paus, a veia aberta sem destino certo. A estrada.

Há que seguir. Ou mesmo retornar. Não há voo nem rio ou mar por cima da terra firma. O único caminho é a estrada. Tão necessário o seu percurso, que impensável viver sem sair do lugar, sem conhecer outros horizontes.

De terra nua, empoeirada, estrada. Chão batido, espinhento, com ponta de pedra por todo lugar, mas estrada. Reta, de poucas curvas ou curveada, sempre uma estrada. Um ponto de partida, um destino ou não, e o fim na estrada.

Quando a porta se abre o passo quer logo seguir. Tantas vezes, sequer sabe aonde vai, mas sempre quer seguir. Nada melhor na vida que seguir pelos beirais, passar por lugares, ir adiante, até que se chegue a algum lugar. Sempre pela estrada.

Sim, eu sei o que é uma estrada. Eu vejo estradas e caminho por estradas. Mas será somente o traçado do percurso ou diz muito mais?

Apenas uma estrada. Talvez assim se imagine. Uma estrada asfaltada, uma estrada na piçarra, uma estrada de chão espinhento, uma estrada nua, uma estrada torta, uma estrada morta.

A estrada se alonga no olhar, vai se distanciando até se perder entre curvas e horizontes. Quem pisa o pé na estrada sequer imagina sua importância, até onde ela pode levar, o que ela pode modificar em sua vida.

Bastaria saber que tudo é estrada, ainda que não esteja caminhando ou seguindo por uma estrada. Ora, o que é a vida senão uma estrada?

Da porta pra dentro e da porta pra fora tudo é estrada. O rio é estrada, a nuvem é estrada, ao céu se chega por uma estrada. Todo percurso na vida é estrada. O caminho da infância, as veredas da adolescência, as curvas da existência.

Quanto caminho até chegar ao lábio da menina bela e dar o primeiro beijo. E no beijo um voo por uma estrada até a nuvem. Quanto tempo até o amor de infância se tornar companhia de mão e de lar.

Uma estrada que vai desde o primeiro choro do nascimento às lágrimas de adeus de um dia. Uma estrada que distancia os que ficam e os que partem, as chegadas e partidas, os reencontros e as tristezas.

Como é longe a estrada que leva às verdadeiras amizades, aos amados corações, às ternuras e aos afetos. Estradas distantes demais em direção à felicidade, mas que podem levar ao abismo em questão de segundos.

Estrada da memória, da nostalgia, das relembranças. Quando o pensamento aflora em busca do passado e vai abrindo janelas e portas das vidas vividas, então a estrada se enche de flores para perfumar aqueles momentos.

E quanta estrada é avistada e percorrida pelo olhar. Olhar que se encanta ao encontrar a cor da primeira manhã. Olhar que entristece perante o candeeiro do sol que vai se apagando. Um olhar que avista onde não pode chegar e que lacrimeja pelo encontro do que não se faz presença.

Dar as mãos, segurar mão na mão, e seguir pela estrada. Deixar o vento soprar e assanhar os cabelos, espanar os panos da roupa, dar vontade de correr.  Dar vontade de chegar, sobre a relva se lançar e dizer: ainda não chegamos, apenas estamos aqui.

Nunca, nunca será possível chegar ao fim dessa estrada. Nem a morte será fim da estrada. A pessoa se vai, porém outras continuam com sua presença enquanto durar. E assim a vida vai, por estrada, por veredas, caminhos, por espinhos, pontas de pedras e flores.

Tudo se vai pela estrada que leva a um horizonte chamado destino. 


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com


Lá no meu sertão...


Curralinho, Poço Redondo, sertão sergipano






O querer (Poesia)


O querer

O desejo nasce
e vai brotando em flor
de amor
 
tanta esperança
que assim aconteça
que se deseja mais
 
se deseja o outro
o outro que queira
ser jardim
 
e do jardim a flor
um perfume suave
de amor.
 
 
Rangel Alves da Costa


Palavra Solta - morreu em meus braços...


*Rangel Alves da Costa


Triste coração, desolado e solitário coração, eis que, num sobressalto de agonia e aflição, pulou do peito e morreu em meus braços... Noites vagas e luas nostálgicas. Paisagens noturnas a atormentar. Uivos de lobos e urros de bichos atormentados na noite. Na semiescuridão, a chama da vela sequer mostrando a face dolorida do coração. E que, como num gesto de atormentada despida, estancou a vida e a pulsação, para se lançar voraz, desfazendo os laços, eis que pulou do peito e morreu em meus braços... Fazer o que com um coração em pedaços? Sem mais amor a amar, sem mais sorriso a sorrir, nada mais a ressuscitar. Somente a chama da vela testemunhando tamanha aflição, instante que o pulsar da vida vai apagando os passos, quando o meu coração pulou do meu peito e morreu em meus braços...

Escritor
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domingo, 25 de outubro de 2020

JOÃO DA BICHA, O FEITICEIRO


*Rangel Alves da Costa

Não me recordo bem o período, mas creio que aconteceu pelos idos dos anos 80 em Poço Redondo, no sertão sergipano. De repente, apareceu pelos rincões sertanejos sergipanos um estranho, misterioso e instigante forasteiro, mais conhecido como João da Bicha.

Há algumas versões, contudo, dando conta que desde os anos 60 o misterioso homem já andejava pelos sertões sergipanos. Situei os anos 80 como marco pelo fato de que foi a partir desse período que o mesmo se fixou na cidade de Poço Redondo e na casinha a seguir mencionada.

Como dito, conhecido como João da Bicha. E talvez esse nome por uma ferida que tinha numa das pernas e que nunca sarava, ainda que o mesmo se prontificasse, pelo uso de ervas medicinais e outros meios, a curar feridas nos outros.

Moreno de pele escurecida, de altura mediana, magro, caminhando compassadamente pelo problema na perna, de vez em quando levando um chapéu panamá e vestindo de preferência o branco.

Alagoano ou pernambucano, não lembro bem, mas a verdade é que foi se arranchando na cidade de Poço Redondo. Trazia consigo somente uma velha mala e outros pertences de seus afazeres no dia a dia.

Encontrou uma velha casa desocupada e sem portas na antiga Praça Arnaldo Rollemberg Garcez (Praça Eudócia) e a tornou como moradia. Seu viver na casinha se resumia a uma saleta onde deixava seus apetrechos num canto e dormia geralmente numa esteira de chão.

Não demorou muito e o forasteiro começou a mostrar seus dotes, de mandingueiro e de bebedor de cachaça. Logo se espalhou pela cidade que João da Bicha era rezador de mão cheia, passando o ramo pra qualquer coisa e aporrinhação espiritual, como feiticeiro dos bons.

E foi assim que os interessados na resolução de problemas do corpo, da alma e do coração, começaram a formar grande clientela para o benzedor e mandingueiro. Gente que desejava acorrentar o coração alheio, mulher querendo desfazer o casamento de homem, gente querendo apenas fazer maldade com o próximo, todo tipo de safadeza.

Essas pessoas geralmente entravam pelos fundos da casa para não despertar atenção do que ali iam fazer. O homem fez fama e enlaçou e desenlaçou muito nó, ao menos para aqueles que acreditavam em feitiçarias e coisas tais.

Mas outras pessoas iam ali apenas para serem rezadas e afastar pesos ruins do corpo. Certa feita, de tanto benzer, rezar e fazer secar ramos e mais ramos de uma mulher, João da Bicha chegou à conclusão que o problema dela não era de reza nem benzimento, mas de deixar de safadeza.

A mulher começou a chorar e acabou confessando que não era flor que se cheirasse, e saiu de lá prometendo nunca mais falar mal dos outros, viver espalhando fofoca e nem dar em cima de homem casado. Mas logo a fama de João da Bicha começou a ser atrapalhada pelo seu vício na cachaça.

De repente, outra coisa não fazia senão beber, passando dias e noites bebendo cachaça no seu canto imundo de chão. Quando a fase passava, então se banhava, vestia roupa branca, colocava chapéu, e saía pela cidade, mas sua direção acabava sempre sendo um bar, onde tudo novamente começava.

E assim viveu em Poço Redondo, entre mandigas e bebedeiras, até a passagem dos anos torná-lo quase esquecido. Mas muita gente ainda o lembra, principalmente aqueles que entraram escondidos pelo quintal e levando na mão um retrato, uma calçola ou cueca e um fio de cabelo, na esperança que a mandinga desse certo. 

Escritor
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Lá no meu sertão...


Sertões, passados e relembranças...