
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
domingo, 25 de abril de 2021
Amor paisagem (Poesia)
Amor paisagem
Minha bocaé um sertão folha ressequidaé o meu coração meu lábio ressecaem sequidão meu desejo tantocinzas pelo chão e o amora mais bela floração só vem no relâmpagono trovão mas sem chuvaé tudo desolação sem amarquanto dói meu sertão. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - da ingratidão
*Rangel Alves da Costa
INGRATIDÃO (OU QUANDO A GENTE CANSA DE
ESTENDER A MÃO) – Por mais bondoso e generoso que seja o coração, um dia tudo
cansa pela ingratidão. Você enxuga a lágrima, você estende a mão, mas depois
recebe ingratidão. A mesa está vazia e você faz chegar o pão, as carências
somam e você nunca diz não, mas ainda assim só recebe ingratidão. Você sempre é
mais que amigo, você é como irmão, ouve, aconselha, dá atenção, mas depois só
vem a ingratidão. Nada que se dá é esperando algo em retribuição, pois tudo do
mais profundo do coração. Mas dói demais quando da pessoa só vem a ingratidão.
O que fazer, então? Quando chegar rastejando, apenas mostrar a imensidão do
chão.
Escritor
quinta-feira, 1 de abril de 2021
O JAGUNÇO, O CAPANGA
*Rangel Alves da Costa
O sangue escorrido na história nordestina e
sertaneja tem muito do jagunço e do capanga. Muitas vezes, a confusão se generaliza
na explicação dos atos brutais de ambos. Mas a verdade que nem sempre o jagunço
foi capanga e nem o capanga foi jagunço, mas aquele tendendo mais a praticar as
mesmas ações jaguncistas.
Vamos, contudo, ao que dizem os livros. Os
dicionários dizem que jagunço é sujeito criminoso, homem violento contratado
como guarda-costas por indivíduo influente. A Wikipédia erra feio ao dizer que
“jagunço ou capanga era, no nordeste brasileiro, o indivíduo que se prestava ao
trabalho paramilitar de proteção e segurança às lideranças políticas”.
Era feio pelo simples fato da generalização.
O modus operandi de um é diferenciado do outro. Até mesmo o tipo de armamento
utilizado por um se diferenciava do cano de fogo do outro. Arma na cintura é
coisa de capanga. Jagunço que se preze leva seu mosquetão à mão e pelos
escondidos do mato vai se entrincheirando até chegar o momento certo de apertar
o gatilho.
É no tipo de prestação de serviço que reside
a grande diferença. Ora, o jagunço não era, necessariamente, alguém que vivia a
serviço de um poderoso. Até que poderia viver aos arredores do coronel dando
suporte às suas ordens, mas não na sua rotina diária. Quem sempre estava com o
poderoso era o capanga.
O jagunço ganhava para matar, para
amedrontar, para aterrorizar a vida dos inimigos e desafetos daquele que o
pagasse. Através de suas mãos sempre sujas de sangue, os inimigos tombavam nos
beirais das estradas, criações eram sangradas, casas incendiadas, e por aí vai.
Já o capanga não se expunha tanto, não fazia o serviço mais sujo.
O capanga tinha a serventia de escudo ao
chefe, ao poderoso. Como os coronéis – principalmente aqueles sempre odiados ou
contando com inimigos – nunca saíam ou viajavam sozinhos, necessário que
tivessem sempre ao lado alguém que os protegessem de ameaças e ataques. Um tiro
dado era mais fácil atingir o capanga do que o coronel, pois para tal ele era
sustentado.

Imaginem a cena: Numa feira interiorana, um
senhor vestido de terno de linho branco, chapéu grande na cabeça, charuto
fumaçando na boca, caminhando cercado por homens em vigilância. Cena de um
coronel rodeado de capangas. Ora, o capanga estava ao lado para proteger, mas
também atacar, revidar agressões, matar. Matava, mas não como o jagunço.
O capanga não saía da presença do coronel
para ir fazer tocaia ou emboscada, para ficar escondido nos tufos de matos ou
atrás de troncos esperando a passagem do inimigo do coronel ou de quem
estivesse com a morte encomendada. Quem fazia isso era o jagunço. Era o jagunço
que recebia para dar conta da encomenda. Muitas vezes, o restante do pagamento
somente quando levasse a orelha do morto.
Capanga era uma espécie de segurança. Jagunço
era uma espécie de frio assassino. Capanga possuía serviço diversificado, pois
também ajudante-de-ordem do poderoso. Jagunço sempre agindo na surdina, no
escondido, tudo fazendo para não ser descoberto. Capanga matando aquele que
atacasse o seu patrão. Jagunço matando qualquer um que desejasse o seu patrão
ou outro mandante qualquer.
Não era cena comum a jagunçada se esgueirando
pelos centros urbanos à espera da passagem de alguém, e para matar. Mas era
cena comum avistar a capangagem armada até os dentes e em companhia de seus
patrões. Era uma demonstração de poder pessoal, mas também a força das armas se
sobrepondo a tudo e todos.
Outras coisas, contudo, não os distingue
muito. Nos dois, a exaltação de desmedida violência. Nos dois, o medo e o
terror pelos sertões antigos (e também atuais). Em ambos, a sina da desvalia da
vida do próximo, de qualquer um que caísse na desgraça da inimizade com o
poder. Em ambos, a escrita sangrenta de uma terra ferida de morte pelo coronel,
pelo jagunço, pelo capanga.
Então o coronel mandava o capanga chamar o jagunço e dizia: “Vá matar e mate ligeiro. Vou cuspir. E quero a orelha aqui antes de o cuspe secar!”. E de repente, ali a orelha chegava. O restante era dos urubus, dos gaviões, das aves carnicentas.
Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com
E por falar de amor (Poesia)
E por falar de amor
E por falar de amoreu senti saudadesaudade de vocêdaquela linda florque era seu amor no cálice da palavrabeber do silêncioapenas no sorrisoe derramar em nóso vinho da paixão ser do entardecero olhar em chamase se a noite chegarser o fogo ardentea chama que ama e por falar de amoreu preciso dizera estrada é a mesmae uma porta abertaesperando você. Rangel Alves da
Costa
Palavra Solta - Sertão
*Rangel Alves da Costa
Calango no chão, porteira se abrindo, um luar em clarão. Eu preciso sentir mais meu sertão. Fogo de lenha e tição, caneca no pote, uma história de assombração. Eu preciso ser mais meu sertão. Rosário de fé e de oração, tamborete antigo, na estrada uma procissão. Eu preciso viver mais meu sertão. Mandacaru em floração, um ramo para benzer, quartinha na janela do oitão. Eu preciso caminhar mais pelo meu sertão. Na boca da noite um pedaço de pão, um grilo cricrando, carcará, gavião. Eu preciso amar mais meu sertão. Secura e desolação, de vez em quando um relâmpago, de vez em quando o trovão. Eu num sei onde tô, mas eu queria o sertão!

