SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



quinta-feira, 24 de abril de 2014

O MÉDICO E O MONSTRO


Rangel Alves da Costa*


O recente caso do médico aracajuano preso em flagrante após roubar estudantes para alimentar seu vício em drogas, reabre uma velha discussão que mais serve para se chegar à seguinte conclusão: o homem está sendo vencido pelo seu próprio monstro. O ser humano, vitimado pelas suas nefastas experiências, agora está sendo domado pela própria criatura que acabou fazendo surgir em seu ser.
Há um clássico da literatura mundial cuja narrativa também mostra um médico sendo vitimado pelos seus próprios experimentos. “O Médico e o Monstro” (O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde), obra-prima do escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894) publicada em 1886, relata exatamente a história de um médico que tenta provar que o ser humano possui um lado bom e outro ruim. Com tal objetivo,  faz experiências em laboratório até criar uma fórmula que se ingerida faria surgir no indivíduo a sua outra feição.
No livro, não havendo quem quisesse servir de cobaia para sua fórmula, acaba sendo o próprio médico quem irá ingeri-la. Vai fazendo isso aos poucos, procurando controlar as reações, mas de repente já não consegue inibir o verdadeiro monstro surgido dentro de si. Mas o pior é que aquela personalidade perversa surgida, sempre voltada para o cometimento do mal, acaba lhe controlando totalmente, que já não consegue responder pelos seus atos. Faz de tudo para domar o seu monstro, mas vai perdendo a batalha. Eis que não consegue produzir qualquer fórmula que provocasse efeito adverso. E acaba sendo acusado de homicídio.
No caso do médico aracajuano, qualquer aparência terá sido mera coincidência, mas espelha exatamente o fundamento literário de Stevenson. O autor quis mostrar a força do inconsciente humano, a dupla face que pode estar escondida num mesmo ser. O homem é possuidor de dupla natureza, uma boa e uma má, mas deve agir e preservar  sempre seu lado humano e benéfico, vez que ao querer dar impulso às perversões escondidas, pode acabar sendo totalmente possuído pelo seu lado monstro. Infelizmente, o caso do nosso médico. A droga se mostrou com mais força que o seu discernimento, a sua racionalidade.
As relações entre a literatura e o fato real são evidentes. Tanto o médico fictício como o real se mostram com pessoas boas, afáveis, insuspeitas. Experimentando mudanças nos seus aspectos comportamentais, os dois recorrem a formulas químicas, o fictício em laboratório e o real como cobaia dependente do mundo das drogas. Dr. Hyde, pensando que controlaria o uso da fórmula sempre que desejasse, vai consumindo cada vez mais; o médico aracajuano, imaginando poder abandonar o vício assim que quisesse, foi simplesmente se viciando. Os dois perderam totalmente o controle de suas vidas diante da fórmula química. Por consequência, o primeiro foi acusado de homicídio, e o segundo praticou roubos. E nos dois o surgimento do mesmo monstro: o da dependência. Não obstante as outras faces terrificantes da anomalia.
No caso do médico real, se noticia que o homem sempre se manteve na normalidade previsível em todos os indivíduos, exercendo seu ofício laboral, buscando levar uma vida social ajustada. Há notícias de ser um profissional competente, esforçado e que, temendo não superar por força própria o chamado do vício, já havia se submetido a tratamento especializado e até pactuado com a família acerca da indisponibilidade de seus bens e de seu próprio salário. Tudo num esforço terrível para não dilapidar seu patrimônio com a compra de droga para alimentar seu monstro. Mas este permaneceu apenas adormecido, esperando um instante de maior fragilidade para atacar. E o fez de forma extrema e absolutamente impensável.
E um desfecho lamentável e triste. O monstro despertou duma crise de abstinência e cegou completamente o homem, o médico, a vida, e passou a comandar as ações. Frágil demais diante do poder do vício, que sempre desperta vorazmente sedento e faminto, se deixou conduzir, foi subjugado pelo monstro da droga, da dependência. O espectro monstruoso tomou as rédeas do homem e foi agir em seu nome. E as terríveis consequências recaíram somente na sua feição humana, que tem de pagar com a desonra própria e familiar o terrível impulso provocado pela medonha criatura. E que infelizmente ainda se mantém escondida dentro dos frágeis labirintos do ser, esperando somente que o próprio homem deseje despertá-lo.
Como observado, o médico e o monstro estão num só, mas não se confundem. O médico, enquanto pessoa, apenas permitiu a criação do monstro que passou a habitar dentro dele. Enquanto criador se viu tomado pela criatura e esta, quando agiu, não foi apenas contra aquelas pessoas que tiveram seus pertences levados, mas principalmente contra si mesmo. E em casos tais, a mera condenação do homem, sem que lhe seja imposto tratamento compulsório adequado, apenas deixará o monstro livre para novamente agir.
E, neste caso, o Estado, que é a própria lei em ação, acaso deseje punir o homem - que também é vítima - deverá primeiro se perguntar o que está fazendo para também combater esse monstro que terrivelmente assola grande parte da sociedade.


Poeta e cronista
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O olhar e o mar (Poesia)


O olhar e o mar

Encontrei-te um dia
e o meu caminhar
logo quis navegar
diante do olhar
enxergava o mar
e diante do mar
queria amar

caminhei pelo cais
querendo viajar
eis que meu olhar
queria navegar
teu corpo abraçar
tua boca beijar
meu sexo molhar
no seu mar.

Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 589


Rangel Alves da Costa*


“Fé cega, missão a cumprir...”.
“Na religião toda a salvação...”.
“Carregando a cruz...”.
“Entoando orações...”.
“Nas missas e procissões...”.
“Nas promessas e juras...”.
“Nos rogos e piedades...”.
“Toda a fé de um povo...”.
“A ladainha irrompe na noite...”.
“A vela acesa flameja...”.
“O terço e o rosário...”.
“O santo na parede...”.
“O santo no altar...”.
“O santo em todo lugar...”.
“As fitas tremulam...”.
“A Bíblia antiga...”.
“Mas ninguém sabe ler...”.
“Só sabe rezar...”.
“A Santa Missão...”.
“A missa dominical...”.
“A reza de qualquer hora...”.
“A irmandade da fé...”.
“As penitências veladas...”.
“Os credos guardados...”.
“Em tudo além o pecado...”.
“O pecado humano...”.
“O pecado moderno...”.
“O pecado do namoro...”.
“O pecado da traição...”.
“Um covil de pecadores...”.
“E um rio de água benta...”.
“Para muitos não há salvação...”.
“O pecado corrói a alma...”.
“E a Igreja chora...”.
“Nos olhos da beata...”.
“E a beata jurou...”.
“Que não vai mais rezar...”.
“Para quem não quer se salvar...”.
“Pois em tudo pecado...”.
“Em tudo a perdição...”.
“Mas não para aqueles...”.
“Que vivem ajoelhados...”.
“Rezando nos oratórios...”.
“Fazendo o sinal da cruz...”.
“Acendendo mais uma vela...”.
“Ouvindo o sino tocar...”.
“Para olhar para os céus...”.
“E pedir apenas...”.
“A sorte da salvação...”.
“Em meio à perdição...”.


Poeta e cronista
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

O XEQUE-MATE NO TABULEIRO DE PIRRO


Rangel Alves da Costa*


No jogo de xadrez, o xeque-mate é dado quando o Rei, atacado por uma ou mais peças adversárias, não pode permanecer na casa em que está, não consegue movimentar-se para outra ou ser defendido por outra peça. Quer dizer, quando não há mais saída o Rei é considerado morto. Assim também o xeque-mate no jogo urbano, no tabuleiro da cidade, quando as peças se enroscam de tal forma que tudo parece não ter mais saída.
Ao projetar a nova capital sergipana, lá pelos idos de 1855, traçando o denominado “Quadrado de Pirro” (quadras geometricamente projetadas que iam da atual praça General Valadão até a avenida Barão de Maruim, e a área que vai da avenida Rio Branco até a rua Dom Bosco), o engenheiro Sebastião José Basílio Pirro certamente que estava mais preocupado em vencer as péssimas condições geográficas de então. Jamais imaginaria que o seu tabuleiro de xadrez mais tarde fosse tomado por peças tão desconcertantes.
Com efeito, o projeto de Pirro primeiro teve de vencer as dificuldades da escolha improvável de então. Uma localidade cheia de irregularidades topográficas, tomada por dunas, morros e mangues, de repente teve de ser em grande parte aterrada e planificada para dar lugar aos quarteirões de ruas que iam desembocar no Rio Sergipe. E tudo na pressa exigida para colocar no devido funcionamento a nova capital. Daí algumas indevidas intervenções no espaço geográfico que até hoje apresentam problemas.
Contudo, as imperfeições apresentadas hoje pelo tabuleiro de Pirro são minimamente geográficas e maximamente administrativas. Ainda que aqui e acolá a cidade seja alagada pelas imprevidências do antigo planejamento, ainda assim a culpa será de quem pode dispor da moderna engenharia para resolver ou minimizar os problemas surgidos. Mas parece praga: basta chover com maior volume e os mesmos lugares transbordam iguais a rios urbanos. E não só canais como bueiros de esquinas. Então o trânsito praticamente para em determinadas regiões da cidade.
Pirro pensou numa cidade de fácil locomoção, com ruas simetricamente dispostas, percursos geralmente retos, onde pessoas e meios de transportes de repente não se confrontassem num caos. E certamente ficaria atordoado se pudesse avistar o estágio atual de seu sublime e acolhedor tabuleiro. Não somente as peças do xadrez ganharam características totalmente diferentes como a sua bandeja quadrangular se expandiu de modo disforme e imprevisível. E desde muito se fala em Plano Diretor sem que tal norteamento urbanístico - com as novas exigências que a expansão da cidade tanto requer - se torne realidade.
São poucas as vias construídas para o futuro, para o crescimento da cidade e do número de veículos. Do mesmo modo, são raras as intervenções no trânsito que produzem resultados satisfatórios, que permitam maior fluidez e mobilidade. Pelo contrário, em muitos casos direcionam tanto o fluxo de veículos em determinadas vias que a solução acaba se tornando problema.
Vergonhoso exemplo acontece no trecho da Avenida Carlos Burlamaqui em direção à Praça Godofredo Diniz (ou praça da jogatina). Somente aí é mão dupla, com táxis lotação em alta velocidade cruzando em via apertada com veículos de passeio, colocando em constante risco a vida de pedestres e de moradores. E um verdadeiro caos na esquina da Rua Lagarto, com carros que chegam de três direções diferentes. Contudo, ao invés de tentar resolver o problema, os órgãos de trânsito se preocupam apenas em encaminhar guardas com seus formulários de multas.
Grande parte do centro da cidade se transformou em feiras livres a céu aberto, desorganizadas e imundas, num misto de informalidade e ilicitudes. Da Avenida Airton Teles até a Rua Geru, passando pelos arredores da Praça João XXIII e seguindo em direção aos mercados, a situação é verdadeiramente dramática para uma jovem cidade que se arvora de possuir tantas belezas e insiste em se apresentar com a ilusória roupagem de capital da qualidade de vida. A imundície, a desorganização e a criminalidade que povoam a Rodoviária Velha são exemplos maiores de uma cidade que se enfeia cada vez mais.
Não, Pirro não queria assim, mas o tabuleiro de xadrez aracajuano está tão avolumado que as peças parecem sufocadas, estagnadas, sem ter mais para onde ir. E é xeque-mate na cidade com sua imobilidade urbana, seu comércio clandestino tomando conta do centro, suas lixeiras a céu aberto, ruas estreitas com calçadas esburacadas, falta de engenharia de tráfego e seu descabido privilégio aos táxis lotação em detrimento de outros veículos e pedestres.
Mas xeque-mate principalmente nas administrações estadual e municipal que parecem totalmente omissas diante de situações que chegam a ser vergonhosas. Afinal de contas, será que vão deixar que o prédio do antigo Hotel Palace a qualquer instante caia por cima daqueles ambulantes, lojistas e transeuntes, ou vão tomar alguma providência?


Poeta e cronista
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Amor passarinho (Poesia)


Amor passarinho


Amor que voa
amor passarinho
deixe de revoada
volte pro seu ninho

amor com asas
voo de passarinho
deixe de esvoaçar
que estou sozinho

amor que partiu
que fugiu do ninho
deixe de ser vento
seja passarinho

pássaro que retorna
com canto mansinho
uma canção de amor
dentro do seu ninho.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 588


Rangel Alves da Costa*


“Ontem...”.
“Apenas a infância...”.
“A criança brincando...”.
“O moleque traquina...”.
“Um cavalo de pau...”.
“Uma bola de gude...”.
“Uma pipa no ar...”.
“Uma bola murcha...”.
“Uma correria danada...”.
“A euforia em tudo...”.
“E ainda ontem...”.
“A adolescência...”.
“Os planos e sonhos...”.
“Olhares amorosos...”.
“O poema rabiscado...”.
“O primeiro amor...”.
“O primeiro beijo...”.
“A primeira dor...”.
“A primeira solidão...”.
“E ainda ontem...”.
“O passo...”.
“O passo na longa estrada...”.
“O caminho e suas curvas...”.
“Os labirintos e os encontros...”.
“Os compromissos...”.
“A luta...”.
“A sobrevivência...”.
“Tantos olhares perdidos...”.
“Tantos beijos desejados...”.
“Tristezas e angústias...”.
“Sofrimento e solidão...”.
“Cultivando a esperança...”.
“Que dias melhores viriam...”.
“E na curva seguinte...”.
“Outras responsabilidades...”.
“Outras lutas...”.
“Desesperos e desesperanças...”.
“Saudades de ser criança...”.
“Quando o instante é bem outro...”.
“E o espelho adiante...”.
“Tão verdadeiro quanto o tempo...”.
“Apenas reflete...”.
“As marcas da idade...”.
“As rugas da estrada...”.
“O olhar sem brilho...”.
“O sorriso distante...”.
“E a incerteza...”.
“De quantas vezes...”.
“Ele ainda irá refletir...”.
“O que resta do ser...”.
“O que resta da vida...”.


Poeta e cronista
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terça-feira, 22 de abril de 2014

NOSSOS ABISMOS E NOSSAS SUPERFÍCIES


Rangel Alves da Costa*


Parecemos viver nos limites desejáveis, mas quase sempre estamos nos abismos e nas superfícies. E tudo ou tão profundo ou tão aparente.
Abismos fazem pensar em profundezas, precipícios, buracos, escuridão. Mas também grandes dificuldades, ruínas e caos. E ainda as trevas que assombram os seres.
Por sua vez, superfícies implicam pensar nas partes visíveis e exteriores dos corpos, naquilo que se apresenta externamente. Diz-se daquilo que está por cima de algo, daquilo que se pode ver. O que está apenas aparente se mostra superficialmente.
E por que, ainda que permanecendo nos limites, também estamos nas superfícies e nos abismos? Ora, quanto às profundezas, simplesmente porque não nos distanciamos de nossas culpas, nossos medos, nosso doloroso passado.
E quanto às nossas aparências exteriores, simplesmente porque tudo fazemos para demonstrar situações que nos tornem distantes ou esquecidos dos abismos, aparentemente resolvidos e com semblantes que expressem estados de felicidade e encorajamento.
A pessoa tudo faz para ultrapassar seu limite e tornar visível apenas aquilo que seja enxergado positivamente pelo outro. Por isso aparenta contentamento, tranquilidade, paz de espírito, comunhão com o que há de melhor na vida.
E sorri, e canta, e dança, e parece querer voar. Ainda que não tenha motivos para estar assim ou agir assim, tudo faz para repassar uma imagem de superfície positiva e cheia de exultação.
Mas terá validade uma superfície assim, apenas aparente, quando internamente, nas profundezas do ser, tudo se mostra diferente, medonho, destruidor? Contudo, impossível que os abismos estejam tomando o lugar da aparência. A pessoa sabe que está mentindo para si mesma.
Mas então surge outra questão: Mesmo reconhecendo seus abismos, suas lástimas interiores, deverá a pessoa optar por abdicar do fingimento bom, que ao menos lhe dá esperança de renovação, para entregar-se de vez ao que lhe aflige na outra dimensão?
Dependendo da pessoa, questão fácil ou difícil de ser resolvida. Fácil porque talvez não deseje abrir mão de sua felicidade, ainda que frágil e apenas superficial, e por isso mesmo luta contra seus abismos até não mais suportar.
E difícil porque pode correr o risco de complicar ainda mais a situação. Ao desejar enfrentar seus monstros interiores sem sair da superficialidade que lhe sustenta e dá força, a pessoa certamente não enfrentará aquela dura realidade com a determinação que deveria ter.
Por isso mesmo comumente se diz que é preciso cair para aprender levantar, é preciso padecer para encontrar soluções. Ciente da ilusória felicidade que estampa no rosto, e objetivando alcançar uma paz duradoura, não há outra coisa a fazer senão descer de vez ao seu abismo.
Descer, reconhecer os erros e as culpas, sofrer se preciso for para, enfim, alcançar a luz. Quem tem consciência desse seu próprio abismo e não teme encará-lo com todas as forças, certamente fará da dor e do sofrimento aprendizados essenciais para a posteridade.
Eis que abismos interiores não surgem para que as pessoas desçam pelas escadas dos erros e infortúnios e procurem submergir ainda mais. Surgem como espelhos, como oportunidades para que as pessoas aprendam com os desatinos e depois emirjam, ressurjam vitoriosos, prontos para a real felicidade.
Daí que os nossos abismos, nossos problemas interiormente profundos, sempre provocam mais lições proveitosas que as nossas superficialidades. Ademais, as aparências enganam tanto que a pessoa pode mesmo deixar de se reconhecer. E numa situação assim nada poderá ser resolvido, nem as dores da alma nem a mísera face do fingimento.


Poeta e cronista
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