SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 24 de maio de 2015

Da sinceridade (Poesia)


Da sinceridade


Sempre fui tão sincero
quanto minhas palavras
quando apenas te olhei
já conheci toda moldura
quando beijei tua face
já sabia o gosto da boca
quando disse que amava
o todo meu já era tudo teu
e quando todo me confessei
nada mais que amor revelei

por ser assim tão sincero
revelo-te mais um segredo:
o amor é recíproca do amor
e o eterno nesta compreensão.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 983


Rangel Alves da Costa*


“Eu deitado...”.
“No meio da noite...”.
“Com olhos abertos...”.
“Em direção ao mar...”.
“Ao mar no telhado...”.
“Em direção ao rio...”.
“Ao rio no telhado...”.
“Em direção ao porto...”.
“Ao porto no telhado...”.
“Em direção à estrada...”.
“À estrada no telhado...”.
“Só viajo assim...”.
“Só saio mundo afora assim...”.
“Só sonho assim...”.
“Deitado com o olhar no telhado...”.
“E me vendo numa ilha distante...”.
“E subindo numa nuvem...”.
“E abrindo as portas de Shangri-la...”.
“Amigo do rei de Pasárgada...”.
“Visitando as tumbas do faraó...”.
“Descobrindo a Atlântida...”.
“Ou simplesmente...”.
“Pulando a janela do castelo...”.
“Para beijar a princesa mais bela...”.
“Correndo entre flores do campo...”.
“E depois deitado na relva...”.
“Ao lado da flor do meu amor...”.
“Somente assim posso sonhar...”.
“Posso distante viajar...”.
“Posso ter asas e posso navegar...”.
“Posso ser um rei bondoso...”.
“Ou um jardineiro fiel...”.
“Somente assim saio de mim...”.
“Sou outro esperançoso...”.
“Muito diferente daquele...”.
“Que após todo mirar o telhado...”.
“Adormece para acordar às quatro...”.
“Sair ainda na escuridão...”.
“Amanhecer batendo cartão...”.
“E ouvindo a máquina voraz...”.
“E fazendo o mesmo na vida...”.
“No mesmo cansaço e na mesma desilusão...”.
“Para ganhar quase nada...”.
“E voltar pra casa sempre desalentado...”.
“Espero apenas deitar...”.
“E viver mirando o telhado...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 23 de maio de 2015

ABENÇOADA CHUVA


Rangel Alves da Costa*


Apesar dos muitos transtornos que causam numa cidade nunca preparada para receber chuvisco, as chuvas que vem caindo em Aracaju são verdadeiramente abençoadas. E mais ainda se as nuvens pesadas estivessem presentes nos céus de todo o Sergipe, principalmente na região do semiárido sertanejo, onde a seca continua como ameaça.
Já é o terceiro dia de chuvarada boa, ora mais intensa ora mais amena, porém constante. Amanhece e anoitece com aquele clima bom de molhação, de pingo caindo, de goteiras latejando e biqueiras jorrando. A não ser para os ofícios cotidianos, poucas pessoas se atrevem a sair pelas ruas, ainda que protegidas de guarda-chuva. E ali e acolá, porém desnecessariamente, um ou outro com casaco de frio. Frio em Aracaju é coisa inexistente, e desde muito.
O que se tem a partir de junho é apenas a diminuição do insuportável calor, mas nada que possa ser considerado como frio. Talvez uma ilusão nordestina num povo tão acostumado às mais elevadas temperaturas que basta o clima refrescar um pouco mais para já lançar mão de casaco cheirando a naftalina. Na região sertaneja é diferente da capital, pois a partir de julho até setembro as noites são verdadeiramente de geladeira.
Deitei com a chuva caindo, e chovendo muito, e acordei na mesma constância molhada. Mirando o horizonte, em direção a Barra dos Coqueiros, o que se encontra é uma formação carregada, fechada, sinalizando que muita água ainda vai cair por aqui. Melhor que seja assim. Olhando pelas ruas, avisto as correntezas que passam por cima do asfalto, lavando e levando os restos dos dias idos, como se preparasse a cidade para uma nova vida.
Esse banho essencial que a cidade toma não vem, contudo, senão também carregado de sacrifícios, dores, sofrimentos. Muitas famílias habitam moradias que nunca estão preparadas para uma chuva mais forte. Acostumadas com o tempo ensolarado, constroem em encostas, levantam paredes com pouco barro, encobrem seus barracos com folhas de madeira, palha de coqueiro ou papelão, e quando a chuvarada cai é um deus nos acuda.
Triste sina de um povo pobre, sofrido, vivendo na miséria e no esquecimento dos poderes públicos, que nem na chuva abençoada pode encontrar alegria. Pelo contrário, o que vem de cima em forma de pingos grossos sempre traz medo, angústia, desolação. E quanto mais chove mais as águas vão tomando conta do chão de barro, das esteiras e camas, dos caixotes de frangalhos. Somente quando um barraco desaba é que a defesa civil aparece para dizer que tudo faz para proteger a pobreza.
Contudo, como disse São Pedro, o chefe da torneira lá em cima, não há chuva que não traga vida e também sacrifícios. Estes são avistados nas regiões mais afastadas e pobres da cidade, nas casinholas de um povo desprotegido de tudo, nas esquinas empoçadas do centro e bairros, nas situações de perigo por todo lugar. Caminhar por Aracaju debaixo de chuva é certeza de a qualquer momento ter de nadar para atravessar um rio de lado a outro duma rua.
Mas, como disse o santo, também a vida pujante, nova, esperançosa. Na perspectiva de mudança climática, a chuva é boa para tudo. Não há nada melhor que a pessoa deitar com ela caindo, ouvindo seu respingar no telhado ou no lado de fora, levantar com o tempo molhado, as ruas lavadas, uma leve sensação melancólica. As plantas se fartam sozinhas, os jardins mergulham festivamente, as pétalas se deixam escorrer como lágrimas de alegria. E mais tarde o verde, a nova paisagem, a necessária crença no renascimento.
Mesmo num dia de sábado, acordei cedinho, ou ainda na madrugada, um pouco menos das três. Não precisei de banho de banheiro porque a biqueira parecia me chamar no quintal. Venha, venha, aproveite, e fui. E retornarei. Agora são seis e meia da manhã e após o ponto final neste texto retornarei. A biqueira me espera porque sabe que sou sertanejo e gosto de água. E principalmente gosto de chuva. Gosto do som da chuva caindo e da ressonância provocada nos sentimentos.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

Outro dia (Poesia)


Outro dia


Tem nada não
o pior já passou
e ficou passarinho
ficou beija-flor
ainda que sozinho

tem nada não
porque outra flor
há de brotar um dia
e o que hoje é dor
não será agonia

tem nada não
já vejo da janela
uma nova estação
e uma manhã tão bela
de renascer coração.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 982


Rangel Alves da Costa*


“No deserto...”.
“E a representação da vida...”.
“Na vastidão escaldante...”.
“Na aridez sem fim...”.
“E o passo do homem por todo lugar...”.
“E a existência espelhada...”.
“Nas miragens falsas...”.
“E muito da vivência humana...”.
“Deserto e vida se espelham...”.
“No deserto, a necessidade de seguir...”.
“E assim também na vida...”.
“No deserto, o passo incerto e perigoso...”.
“E igualmente na vida...”.
“A sede e o calor...”.
“A solidão e a ausência...”.
“O suor e o cansaço...”.
“A fornalha ardente...”.
“A desesperança e a desolação...”.
“Tudo existente na vida...”.
“Vida cujos oásis...”.
“Estão nas esperanças de cada dia...”.
“Vidas cujas dunas...”.
“Existem em cada novo dia...”.
“Vidas cujas tendas...”.
“Não apresentam qualquer segurança...”.
“E os seres humanos...”.
“Tuaregs do cimento e pedra...”.
“Errantes das distâncias do mundo...”.
“Perdidos na vastidão do viver...”.
“Simplesmente caminham...”.
“Tendo somente suas sombras...”.
“Como silenciosas companhias...”.
“E quanto mais caminha...”.
“E quanto mais se cansa...”.
“Mas perceberá que a estrada...”.
“Já ainda no além do além...”.
“Tudo ainda tão distante...”.
“Que a vontade de desistir...”.
“E desabar em cima da areia...”.
“Vem como chamado de todo instante...”.
“E é preciso muita perseverança...”.
“Para jamais desistir...”.
“Ainda que venha a tempestade...”.
“Ainda que venha um temporal de areia...”.
“Pois sempre haverá um destino...”.
“Que um dia será alcançado...”.
“E desfrutado como dádiva da luta...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 22 de maio de 2015

ENTENDER O CANGAÇO, COMPREENDER LAMPIÃO


Rangel Alves da Costa*


O fenômeno cangaço sempre se mostrou instigante em todos aqueles que por interesse investigativo ou curiosidade já lançaram um olhar sobre seu percurso histórico, contexto e acontecimentos. É deveras provocante, indagativo, pois à medida que se envereda nas suas trilhas mais se quer conhecer de seus escondidos. Por isso mesmo a afirmação de ser o cangaço a saga como mais revelações surgidas a cada dia.
Novos elementos da trama surgem a cada seminário sobre o fenômeno, a cada livro publicado, a cada tese defendida. Os historiadores não se cansam de vasculhar a história e, tantas vezes, ir além dos fatos por pura provocação. Ou lançar entendimento novo para questões tidas como resolvidas. Um redemoinho no cangaço, e do começo ao fim. Mas no centro dos debates geralmente as opiniões acerca do banditismo ou do heroísmo de Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião.
Quando as considerações se voltam para o caráter heroico ou bandido de Lampião ou mesmo para os seus aspectos comportamentais enquanto líder cangaceiro, logicamente que se discute apenas a face do cangaço enquanto bando atemorizando os sertões e desafiando o sistema legal vigente. Não há nenhuma preocupação em lançar um olhar para o cangaço como um todo, desde o clamor da terra sertão por justiça ao que motivou tantos homens a adentrar na difícil jornada.
Ora, nada surge ao acaso. Certamente nenhum daqueles rebeldes primitivos um dia cismou de brigar contra o mundo, deu um grito empunhando arma e foi acompanhado por tantos outros. Não foi por mera casualidade que homens se entrincheiraram nas caatingas e a partir daí começaram uma guerra sangrenta. As explicações e os entendimentos das reais causas ensejadoras do cangaço serviriam muito bem para afastar conclusões apenas pessoais e desarrozoadas. Avista-se a colcha do cangaço estendida, mas poucos têm o cuidado de procurar saber como e por que cada pedacinho foi sendo juntado.
É a compreensão do cangaço de forma generalizada, e não nas suas entranhas, que faz surgir partidarismos de todos os tipos e com os mais diversos objetivos. E logo se diz daquele bando de marginais que jogavam criancinhas para o alto e as esperavam na ponta do punhal, ou se afirma da justa luta dos cangaceiros contra os poderes opressores do sertão e do sertanejo. Ou ainda que Lampião não passava de um bandido cruel, feroz e sanguinário. E na defesa se afirma que o Capitão chamou para si a guerra que cabia a todo oprimido fazer. E por aí vai, com afirmações quase sempre exacerbadas ou distantes da realidade.
Certamente que nenhum daqueles homens das caatingas enveredou na luta inglória porque achava bonito viver na mira da volante, correndo constante risco de morte, tendo aos pés a incerteza da estrada. Certamente que o rapazote Virgulino não preparou nenhuma tocaia para o seu próprio destino. Seria dizer que o seu destino cangaceiro foi por ele mesmo semeado. E os fatos por trás disso tudo, por que tanto teimam em esquecer? Será que por desejo próprio ele forjou uma sangrenta situação para depois abrir caminho e mais tarde ser reconhecido como valente e destemido, e por isso mesmo reconhecido no bando de Sinhô Pereira?
O homem em si, o filho de Seu José Ferreira e Dona Maria Lopes, o companheiro de Maria Bonita, o pai de Expedita Ferreira, este nem sempre é compreendido. Acostumou-se com a visão mundana do homem sem se ater ao fato que ali também estava um ser espiritual, um indivíduo com alma e sentimentos. Sim, nele também residia a compreensão do sagrado e do pecado, do erro e do acerto, os limites do homem no mundo. Mas se poderia dizer então que um sujeito assim não cometeria tantas atrocidades. A resposta estaria na compreensão do sujeito enquanto produto do meio, principalmente quando o meio ou o embrutecia ou o submetia.
Mas o meio moldando o caráter de Lampião não foi somente aquele vivenciado quando decidiu ser cangaceiro, ou a partir de 1921, quando entrou para o bando de Sinhô Pereira, ou quando, mais tarde, assumiu o comando dos revoltosos. O meio desde o berço de nascimento nas terras de rixas e vinditas sangrentas de sua Vila Bela. Desde criança que Virgulino se rodeou de rivalidades, traições e todo tipo de violência. O rapazote logo foi forçado a partilhar dessa desdita sangrenta. Quando foi ser cangaceiro já estava marcado pelo ferro da opressão.
Contudo – e eis a grande verdade -, o Lampião não desumanizou Virgulino, nem este permitiu que aquele esquecesse o ser humano que havia dentro de si. Do contrário, acaso prevalecesse a ideia de que o homem nascido e crescido na violência tenderia a ser totalmente desumanizado, a grande maioria dos nordestinos não passaria de bestialidade em pessoa. Ora, naqueles idos chovia mais bala do que pingo d’água na região nordestina. E nem por isso o seu povo deixou de ser reconhecido pela fervorosa religiosidade.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Pássaro de pedra e dor (Poesia)


Pássaro de pedra e dor


Estou na tristeza
de fogo-pagô
no galho da tarde
gorjeios de dor

estou na solidão
de pedra do mato
distante de tudo
rasgado retrato

estou no silêncio
de ninho vazio
um resto de vida
tudo tão sombrio

quero uma canção
e asas para voar
pássaro avoante
teu céu encontrar.


Rangel Alves da Costa