SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 23 de outubro de 2016

Lá no meu sertão...


Curralinho, povoação ribeirinha no município de Poço Redondo, sertão sergipano: um poema ao anoitecer, uma poesia ao alvorecer... E o meu olhar tão amante se derramando no espelho d’água...





Flores de sol (Poesia)


Flores de sol


O meu jardim é diferente
não é jardim de cidade
de praça ou de canteiro
mas embaixo do vivo sol
em cima da terra seca
onde nada mais brota
senão sua flor mais bela

o meu jardim é sertanejo
nascido na seca ardente
e florescendo em cactos
que não bebem gole d’água
ou são cuidados por mãos
senão pelos passarinhos
que se perfumam da flor

o meu jardim é de palma
é de mandacaru e facheiro
é de xiquexique e jurubeba
plantas espinhentas demais
mas guardam em suas mãos
buquês vermelhos e amarelos
ou apenas a flor da esperança.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Bob Dylan: a genialidade indelicada


*Rangel Alves da Costa


O músico, compositor, poeta e escritor norte-americano Bob Dylan, recentemente laureado com o prêmio Nobel de Literatura, agora vem juntar à sua biografia outras qualidades desconhecidas ou pouco reveladas. E não são boas tais qualidades: indelicadeza, arrogância, grosseria, descortesia e incivilidade, dentre outras mais no mesmo sentido pejorativo. Ora, até agora se reconhece o Nobel como um respeitado prêmio e desejado por todos e em todos os setores das ciências e do conhecimento, e não é atitude das mais respeitosas que a pessoa receba tal prêmio e sequer agradeça à Academia Sueca ou emita um comunicado se vai aceitar ou não. Certa feita, o filósofo Jean Paul-Sartre recebeu a mesma láurea e não aceitou, mas justificou tanto à academia como ao mundo. E por que Bob Dylan se acha melhor que os outros, fugindo de qualquer resposta e silenciando sobre o prêmio. Justo o reconhecimento pelo poeta que Dylan é em cada canção, pela sua escrita humana e compromissada, pela sua poesia musical, mas nada justifica que o artista adorado por todos agora se mostre - por egoísmo ou vaidade - tão deselegante e mal-educado. Quantos caminhos um homem deve andar para se transformar num ser tão indelicado assim?


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 22 de outubro de 2016

“TÔ LASCADO...”, DISSE O CABRA AVEXADO


*Rangel Alves da Costa


“Tô lascado”, disse o cabra avexado. E justificou a lasqueira:
“Conta pá pagar, probema de juntá de tacho, e a muié só falano em comprá pano novo, prato novo, chaleira e cuié. Tô lascado. E tô lascado e sem jeito de arresorvê. Dinhero contado, budega pindurada, carçado furado, e a muié falano em salão de beleza, em batom e peufume e inté em brinco novo. Tô lascado. Tô lascado, e lascadinho da silva. Deveno um montão, de borso sem fundo, e inda vem a muié falano em dinhero pá comprá calçola de chita, califon arrendado e sei mais o quê. Tô lascado. Tô lascado, e dessa veiz sem vorta, sem jeito a dar. Sem dinhero de troco, sem moeda pá um gole de pinga, e inda pru riba vem essa gota serena da mulesta falano em macarronada, comida melosa, coisa de rico ou gente besta. Tô lascado e nada me sarva, pelo jeito não. Digo que num tenho, repito que tô sem tostão, mai a disinfeliz inda fica dizeno que iscondo dinhero, que sô canguinha e munto mais. Será que a bixiguenta da peste num tá vendo que tô lascado, que tô em veiz de pedi ismola? Vê, a gota serena tudo vê, mai quer increncá a fia da gota. E só pá me lascá aina mais...”.
“Tô lascado, e inda pru riba com a lasqueira dessa muié. Triste o dia que eu oiei pá essa fia da peste e chamei pá forrozá. Mió um cascavé ter mordido meu carcanhá antes mermo de entrá naquele salão de forró. E tomem inté acho que joguei peda na cruiz, só seno. Tarvez eu tivesse pecado demai pá me aceguerá com essa desgraceira da gota serena. Tô lascado, num tem jeito. Tô lascado. E tô lascado desna que botei ela dento de parede e porta. Assim que entrou logo inventô de ter um cortinado e um sofá. Pá que pobe com sofá, pelo amor de Deus? Se tinha cadeira e tamborete já tava bom demai, mai ela inventô de comprá na prestação. E tomem um montão de coisa. O pote tava novim e ela acismou de beber água gelada e aí me endividou todim com uma tar de geladera brastempa. Os pano de mesa aina tava tudo novim, poi dado pru minha tia, mai ela dixe logo que tinha de ser fulorado, cheio de estripulia. E entonce tome mai gasto. E fui começano a ficar lascado daí. E nunca mai ele deixou de me lascá. E inté hoje tô lascado, e lascadinho de riba abaixo...”.
“Tô lascado, sem jeito mermo. Eu compava doi quilo de carne, arroiz, farinha e feijão e num deixava fartá nada. Mai ela vinha pru traiz e chegava cum macarrão inrolado, quejo afarinhado, um negoço vremeio de misturá, e dizia que aquilo era uma chiqueza só. E eu tomano no fiofó de tanto me endividá. Num queria tripa não, nem toucim de porco nem bucho na banha. Pão com mantega nem pensar, poi ela dizia que era comida de pobe. Entonce se lascava na sopa que era pá eu me individar mai aina. Desse jeito, quem é que num se lasca? Purisso que tô lascado. E veja o abisurdo da disgramada. Eu ia na feira e compava uma lavanda com o maior sacrifiço do mundo. Sabe o que ela fazia? Dava tudim a vizinha e adispois dizia que a pobezinha tava de namorado novo e percisava se peufumar. E adispois se metia em compá coisa de uma tar de avon, um tar de toque de amor. Minha roupa rasgava e ela nem oiava, meu chinelo quebrava e ela nem chite. Eu ficava doente de morrer e a fia da gota mandava era eu percurá foia de chá pelos quintá. E um dia dixe que já tava ficano cansada e eu tinha de arrumá uma empregada. Mai pra casa não, pra ela. A empregada era pá paparicá a fia da peste. Uma madama, só seno. Adispois dessa fui no boteco, derrubei pá dento umas duas e vortei com a gota serena, brabo mermo...”.
“Vortei com umas duas na cabeça e incrontei a fia da gota que mai parecia uma rapariga. Toda peufumada da avon, batonzada e quase só de calçola. Tô lascado, pensei na hora. Deitada pru riba do sofá, toda dengosa, fazia assim com o dedim pá me chamar. Mai quando avancei a disgramada me fez parar pá preguntá: e a empregada? Purisso eu tô lascado”.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


A cada dia sinto-me mais apaixonado pelas coisas do meu sertão. Às vezes tão simples, tão costumeiras, mas que provocam sublimes encantamentos. Observem as fotos abaixo que hoje me foram enviadas pela amiga professora Marleide: nesta manhã de sexta-feira, nas beiradas do Velho Chico, mulheres ribeirinhas lavando e quarando roupas...






Coração (Poesia)


Coração


Tenho coração
assim menino
que pula
que bate
que brinca

tenho coração
assim adulto
que pulsa
que sofre
que chora

tenho coração
assim tão meu
tão silêncio
tão rubor
tão dor e tão amor.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - Marte é de Marte e dos marcianos, e não adianta bisbilhotar por lá


*Rangel Alves da Costa


Assim como o homem não consegue domar a natureza, assim também com o espaço sideral. O planeta terra é insignificante demais diante da dimensão do espaço para ficar querendo domar toda a galáxia e demais corpos celestes. Ademais, o querem por lá se não conseguem domar a vida de cá? Os trilhões, bilhões, quatrilhões, tudo o que for gasto na exploração dos espaços, servirão apenas para o reconhecimento da ineficácia e da fragilidade do homem terreno. Querem alcançar no além o que não conseguem resolver diante de seus olhares. A cada ano surge a notícia que uma nave foi lançada para explorar determinado planeta e logo desapareceu, que simplesmente deixou de responder ao aterrissar. Há uma lógica para tudo isso: o espaço não é da terra, não tem dono da terra, e não é através da invasão do desconhecido que se vai obter conhecimento útil. Há em Marte, por exemplo, uma vida própria, com natureza peculiar e ciclos próprios de existência, e certamente seres que habitam os seus quadrantes. Sempre temem quando se fala em invasão marciana, porém se acham no direito de bisbilhotar o além-terra. Tal ambição humana ainda vai acabar muito mal. Chegará um dia que eles darão o troco. E bem dado. E pobre da terra diante das forças tão temidas e desconhecidas.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com