SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



terça-feira, 23 de maio de 2017

Lá no meu sertão...


Em Bonsucesso, povoação ribeirinha em Poço Redondo, no sertão sergipano...






Chuva de verão (Poesia)


Chuva de verão


Lá fora a chuva vai caindo
e a saudade molha o meu olhar
então me vejo escorrer pela rua
e todo o pensamento me levar

eu não queria sofrer assim
depois da tarde e do anoitecer
mas vem a chuva de saudade
e então eu choro sem querer

na vidraça há um coração
embaçado pelo frio e aflição
já não suporto amar assim
e sofrer a cada chuva de verão.


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - na rua


*Rangel Alves da Costa


Não gosto de estar na rua, no meio do povo, na multidão. Principalmente onde há grande comércio, a rua é feia, é desumana, é bruta, é arrogante, é barulhenta, é imbecil, é vaidosa, é orgulhosa, é execrável. Por isso não gosto de rua. Mas não só por isso, mas também por que nunca encontro velhos amigos, nunca avisto pessoas conhecidas, nunca encontro bancos e pombos. Além disso, há pessoas gritando ao seu ouvido, oferecendo produtos, bugigangas, quinquilharias. Há o silêncio na estátua humana. Mas outro dia derrubaram o homem da neve. Há o pregador de pouco juízo, já completamente rouco de tanto falar bradar sobre o fim do mundo. Há o pedinte espertalhão e a vendedora de água mineral da torneira. Não há mais cafés em cafeteiras antigas de balcão. Não há mais mesas onde se possa tomar um chope ou um suco bom. Não há mais jornaleiros passando com as notícias do dia nem o vendedor de pirulito de mel. Não há mais cinema nem cartazes escondendo o filme impróprio para menores de 18 anos. Certa feita colocaram um cartaz de sexo explícito e mais de duas pessoas chegaram a desmaiar, coincidentemente duas solteironas. Agora só preço alto, só carestia e gente olhando o outro com cara feia, como se a rua fosse para encontrar desafetos e não simplesmente andar. Distante imaginar uma rua ladeada de árvores ou tendo ao centro canteiros floridos. O povo não deixaria uma só violeta em pé. É o senso humano da desumanização em todo e por todo lugar.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O LAMPIÃO DE NELSON XAVIER


*Rangel Alves da Costa


Quem não se recorda daquela cena de abertura da minissérie “Lampião e Maria Bonita”, quando o Lampião protagonizado pelo ator Nelson Xavier aparece à frente de parte de seu bando e num instante, como se estivesse percebendo algo estranho nos arredores, primeiro levanta a mão direita e depois a esquerda, em sinal de alerta? Ao som de um refrão da maravilhosa “Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”, na voz plangente de Amelinha, a minissérie produzida pela Rede Globo de Televisão em 1982, passava a contar, embora de modo fictício, a história do mais famoso casal nordestino, senão do próprio cangaço.
Interessa notar, contudo, que desde esta cena de abertura já se percebia a força interpretativa do grande ator que foi Nelson Xavier. Ninguém jamais interpretou Lampião, o líder cangaceiro dos carrascais nordestinos, como o ator paulista nascido em 1941 e falecido recentemente, em 10 de maio. O que se tem a partir daí e ao longo de toda a trama é um ator vestido e revestido de corpo e alma num personagem. Não há caricatura, não há trejeitos forçados, não há mera imitação. O que há, na verdade, é a concepção mais original possível daquilo que de uma forma existiu. E Nelson Xavier traduz com máxima expressividade esse autêntico nordestino, com seus mistérios e segredos, sua tenacidade e carisma.
A minissérie da Rede Globo, escrita por Aguinaldo Silva e Doc Comparato, com direção de Paulo Afonso Grisoli e Luiz Antonio Piá, alcançou retumbante sucesso não pela história contada, descontextualizada que foi dos fatos reais. O pano de fundo é o cangaço, mas com trama fictícia. O que permitiu seu reconhecimento e aplausos foi justamente a beleza das interpretações conduzidas por Nelson Xavier como Lampião e Tânia Alves como Maria Bonita. Ao lado dos cenários nordestinos, da riqueza de detalhes que despertavam interesse maior pela saga, bem como da encarnação dos atores refletindo com exatidão os seus personagens, o resultado não poderia ter sido melhor.
Ora, impossível agora traduzir todo o gestual de Virgulino Ferreira da Silva, o seu modo exato de andar, de falar, de comandar e conviver com o seu bando e demais pessoas alheias à sua saga, porém não menos envolvidas. Sabe-se, porém, e através de relatos, que Lampião era místico, “cabreiro”, metódico, de palavras comedidas e ordens veementes. Mas pouco mais que isso se conhece do líder estrategista das caatingas nordestinas. Como chefe de bando, certamente impunha a seu modo a condução de sua luta. Já o homem em si, o Lampião de nome e sobrenome, na sua intimidade e como ser preocupado com o seu destino, ainda não foi totalmente decifrado. Contudo, Nelson Xavier expôs esse retrato com maestria.
E assim por que o Lampião encarnado por Nelson Xavier é verdadeiramente aquele que se mentaliza ou se imagina sobre o rei cangaceiro. Aquelas mãos entrecruzadas, cheias de anéis dourados, são as mãos de Lampião. Aquela figura cheia de cartucheiras, embornais, lenço ao pescoço, chapéu estrelado, armas e outros adornos, não pode ser outro senão Lampião. Aquele olho mais baixo atrás de óculos arredondados, cego, que nunca se abre totalmente em qualquer cena, é o olho de Lampião. Aquele rosto nordestino, moreno, queimado de sol, só pode ser o semblante de Lampião. Aquele gestual, aquela fala, aquele jeito de andar, só pode ser mesmo de Lampião. Sim, é Lampião, mas é Nelson Xavier.
O papel desempenhado pelo ator paulista foi algo incontestável em termos de dar contornos de revivência ao emblemático personagem. No gestual, na força interpretativa, no semblante e no olhar de olho cego, bem como nas demais expressões requeridas, em todos estes aspectos Nelson Xavier se fez imenso, enorme, essencial, como se nenhum outro ator pudesse captar e transpor com tamanha originalidade os passos, as lutas e os cotidianos do rei do cangaço. Por isso mesmo que nunca é demais afirmar que quem nunca conheceu Lampião pode encontrar a maior proximidade possível no personagem vivido por Nelson Xavier. O ator sempre dizia que o seu melhor papel havia sido o de Chico Xavier. Mas todo mundo o relembra sempre como Lampião.
E relembra também aquela abertura da saga cangaceira com os versos de Otacílio Batista e Zé Ramalho: “Virgulino Ferreira, o Lampião, bandoleiro das selvas nordestinas, sem temer a perigo nem ruínas, foi o rei do cangaço no sertão. Mas um dia sentiu no coração o feitiço atrativo do amor, a mulata da terra do condor dominava uma fera perigosa. Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor”.
“Santinha, hoje vamo arribar daqui...”. Dizia Nelson Xavier na trama. Mas eu tinha certeza que ouvia do próprio Lampião.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com

Lá no meu sertão...


               Eu e Myllinha...



Menino menino (Poesia)


Menino menino


Menino vá ali
catar carambola
e jabuticaba caídas

já vou
já vou!

menino vá ali
calçar sapato
e ser homem feito

vou não
vou não!


Rangel Alves da Costa

Palavra Solta - sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra


*Rangel Alves da Costa


Não é poesia, é verdade: sou o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra. Dura, esquecida no meio do tempo, sem amigo que chegue pra prosear, vencendo o sol e a chuva, eis a pedra. Pedra incompreendida, evitada, indesejada, malvista, culpada por tudo. Ora, sempre dizem que há uma pedra no meio do caminho, que no meio do caminho há uma pedra. Tida como insensível, embrutecida, arrogante, impenetrável demais. Contudo, apenas uma pedra. E esta pedra senão o meu eu petrificado na beira da estrada, no meio do mundo, nos beirais da vida. Quem me avista há de dizer que viu uma pedra. Não tenho palavras. Não tenho carinho. Não tenho afetos. Não tenho carícias a oferecer. Somente sou assim por que somente sou assim. Ano após ano e chega a ventania a me açoitar, ano após ano e chega a tempestade a me encharcar, ano após ano e chegam os redemoinhos e os vendavais querendo me açoitar. As pessoas fazem assim também. Ninguém chega para sentar ao meu lado e filosofar a vida. Ninguém chega e ao redor de mim canta uma canção tão bela e tão antiga. Ninguém reconhece a pedra senão como um estorvo. Mas melhor que seja assim. Eles passarão e eu, mesmo em pó transformado, aqui continuarei. Por enquanto sou apenas o silêncio da pedra e o grito silencioso da pedra.


Escritor
blograngel-sertao.blogspot.com