A CONTADORA DE ESTÓRIAS
Rangel Alves da Costa*
Era uma vez uma contadora de estórias, que gostava muito mais de contar estórias do que histórias. Gostava de contar estórias porque podia aumentar, diminuir, reinventar, redimensionar e mudar o contexto e o final do que estava contando. É diferente na história, que tem herois muito certinhos e muitas mentiras que tem de dizer que são verdades. E também na história não se pode dizer "e foram felizes para sempre...", principalmente porque todos sabem que ela é marcada pela dor e não pela felicidade.
O nome da contadora de estórias era Marina, uma graça de pessoa que parecia não saber fazer outra coisa na vida do que contar fábulas, lendas, causos, contos. O pensamento dela vivia povoado pelo saci-pererê, pela mãe-d'água, pela boiúna, pelo patinho feio e o outro patinho que só tinha um olho e uma perna, pelo menino que era rei, pelo rei caçador e a rainha que virou caça, pela bruxinha que era boa, pelo fantasminha camarada, pelo menino que voava e a menina que pensava que era flor, pelo bicho-papão e outros seres fantásticos. Ficava triste quando tinha que narrar um final que não era feliz. Certa vez teve que ser consolada porque a rosa caiu do galho e morreu.
A contadora de estórias não contava as aventuras pra qualquer um não. Tinha que ser criança, estar na escola estudando ou fazendo tratamento de saúde em algum hospital e prestar bastante atenção no que ela contava. Cismou que tinha de ser assim porque certa feita um pai de aluno foi reclamar dela porque o seu filho chegou em casa e foi contar a estória de João e o Pé de Feijão, só que trocou o feijão pela melancia e o menino nunca chegava ao final porque a melancia nunca crescia. Outra vez foi uma mãe, que chegou na escola desesperada porque sua filhinha disse que não ia dormir porque estava com medo da estória que a contadora narrou sobre o fantasminha da cara amarrada. Até que fosse explicado a ela que o fantasminha era camarada e não tinha cara amarrada foi uma perda de tempo.
Contava estórias para crianças pobres, em escolas de comunidades carentes, em locais distantes, onde só ia mesmo quem tinha realmente o que fazer ou uma boa estória pra contar. Contava estórias para garotinhos e garotinhas internados em hospitais, principalmente para aquelas com problemas oncológicos. Contudo, em cada escola ou hospital logo se tornou amiga e confidente da criançada.
Chamavam ela num canto e reclamavam porque ainda não deram uma cadeira de rodas ao saci, porque o bicho-papão queria comer outras coisas e não comia papa, porque o cavalinho da estória era azul e ela nunca tinha visto um cavalo daquela cor, porque a mula-sem-cabeça botava fogo pelo nariz se não tinha cabeça. Assim, era um mundo de encantamentos e descobertas, de pura fantasia como são as estórias que contava. Para ela, entretanto, as descobertas eram outras: era a imensa felicidade em proporcionar instantes de felicidade àquelas crianças.
Um dia, porém, Marina, a moça contadora de estórias chegou na escola, no horário previsto reuniu o grupo de crianças e matutou sobre o que iria narrar naquele dia. Pensou e pensou e um verdadeiro branco se fez em sua mente. Estava triste, sabia, mas os problemas eram particulares e não poderiam interferir no seu prazer em contar estórias. Colocou sobre si uma falsa alegria, tentou contar uma estória qualquer, mas não teve jeito, não saía nada. E para aumentar sua tristeza, foi a primeira vez que deixou de contar uma estória para as animadas crianças. No segundo dia, prometeu a si mesmo que aquilo não se repetiria, mesmo assim não conseguiu contar estória alguma. O pior é que chorou em frente aos seus amiguinhos.
No terceiro dia, já com vergonha de seus pequenos ouvintes, levou uma estória escrita numa folha de papel. Assim não teria jeito de esquecer. Mas quando se reuniu com todos foi surpreendida por uma menininha que se levantou, pediu licença e disse: "Professora, hoje quem vai contar uma estória sou eu, e ela é curtinha mas diz mais ou menos assim: era uma vez uma amiga muito boa que contava estórias, mas de repente deixou de contar estórias porque ela também tinha uma estória que lhe deixava muito triste, mas como não contava a ninguém que estória era essa, continuava triste e sem saber contar outras estórias. Até que um dia ela contou sua estória triste aos seus amiguinhos, que ouviram com carinho e depois disseram a ela como resolver seu problema"
- E o que foi que disseram a ela...? – Perguntou Marina assustada.
- Disseram a ela que transformasse sua estória triste numa estória de brincadeira, pra ser feliz para sempre...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...
A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.
domingo, 21 de março de 2010
NO REINO DO REI MENINO – XXVIII
NO REINO DO REI MENINO – XXVIII
Rangel Alves da Costa*
Assim que irromperam no quarto com tochas acesas, os homens de Otnejon foram logo percebendo certa estranheza no lugar. Ninguém estava ali, revistaram por todos os cantos e só encontraram malas com roupas e outros objetos de uso pessoal de quem estava naquele local. Ora, haviam garantido que seria presa fácil, pois encontrariam os dois dormindo e depois o único trabalho seria conduzi-los amarrados até à presença do rei para serem acusados e jogados na prisão. Contudo, verdade é que conseguiram sair antes que chegassem.
Quando ia voltando para dar a má notícia ao rei, um dos homens percebeu um pequeno portão entreaberto e gritou: "Eles fugiram por aqui e parece que há pouco tempo, pois deixaram cair alguns pequenos objetos pelo chão". Haviam deixado rastros e certamente seriam implacavelmente perseguidos.
Assim que soube da fuga, Otnejon colocou a mão sobre o peito e mandou que lhe segurassem porque iria ter um troço ali mesmo e morrer, mas em seguida, todo faiscando de raiva, partiu com ferocidade para cima dos homens e, se fosse da altura deles, falaria empurrando o dedo no nariz:
- Vocês são todos uns imbecis, uns despreparados e sem astúcia nenhuma. O que é que estão fazendo aqui quando deveriam já estar no encalço daqueles ladrões do próprio reino. Deem já meia volta e mais que depressa vão atrás dos dois, seguindo as pistas que eles deixaram. Eles não conhecem o reino nem os perigos que rondam a noite por aqui, por isso mesmo é que vão ser presas fáceis. Andem, agora andem, chispem... – Mas nem deixou que saíssem da sala e deu outro grito – Esperem um pouco que vou à frente. Essas coisas que envolvem muita riqueza é sempre bom que o legítimo interessado vá à frente, comandando as ações. Além disso eu não confio nem um dedo de mindinho em vocês, palermas. Esperem aí que eu já volto.
Uns dez minutos depois e voltou o baixinho mal-afamado rodeado por cães ferozes, armado até os dentes e com um encorajamento que assustava. Após virar um copo cheio de uma bebida forte e colocar folhas de fumo na boca saiu com o seu bando noite adentro, pelas redondezas do castelo, pela trilha onde deveriam ter seguido os dois fugitivos.
Se os homens de Otnejon tivessem saído em imediata perseguição ao casal certamente que o encontraria. A noite dificultava enormemente a fuga, os dois não sabiam bem por onde caminhavam, o peso dos objetos que carregavam impedia qualquer avanço mais rápido, andavam um pouco e tinham que parar para Lize descansar. Contudo, aquela demora em terem ido avisar ao rei e o tempo que passaram ali até saírem em perseguição possibilitou uma vantagem enorme para eles. Estavam, sem saber, com boa frente sobre o bando que vinha no encalço. Mas aí começou a cair a maior chuvarada.
Com um verdadeiro temporal sobre eles, os objetos que levavam pareciam ter dobrado de peso. Ademais, não enxergavam um palmo sequer à frente, tendo que tatear cuidadosamente o desconhecido naquele breu amedrontador. Mas foi quando Lize escorregou e caiu que perceberam que não tinham mais condições de seguir adiante, ao menos por enquanto. A situação tornou-se ainda mais desanimadora, difícil de ser superada, e então procuraram cuidadosamente um abrigo onde pudessem descansar um pouco e esperar a chuva passar. Sabiam, entretanto, que a qualquer momento poderiam ser encontrados, e o medo ia aumentando à medida que ouviam ao longe cachorros latindo.
O temporal não afetou em nada o avanço do baixinho mal-afamado e seus homens. Quanto mais chovia mais pareciam dispostos a seguir em frente. Conheciam muito bem a região, todas as veredas e encruzilhadas, e por isso mesmo nada impediria que a qualquer momento encontrassem sinais da presença dos dois. Nada impediria a não ser a chuva, pois o barulho que fazia impossibilitava ouvir qualquer som que os fugitivos fizessem, dificultava o farejo dos cães, não deixava que acendessem tochas para iluminar os possíveis esconderijos.
Esse emaranhado de coisas, ao menos por aqueles instantes, serviu como tábua de salvação para os pais de Gustavo. Estavam protegidos dentro de uma pequena gruta de pedra quando ouviram o barulho dos cachorros e dos homens que estavam se aproximando. Pertinhos um do outro, se uniram em orações e perceberam quando iam passando sem darem conta de que estavam ali bem próximo, a uns cinqüenta metros.
O susto foi tão grande que não resistiram e adormeceram ali mesmo. Quando abriram os olhos a chuva já estava fininha e o dia começava a clarear. Quando Lucius quis levantar um pouco, ao olhar para cima percebeu quatro olhos estranhos mirando eles, em duas cabeças viradas para baixo.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Assim que irromperam no quarto com tochas acesas, os homens de Otnejon foram logo percebendo certa estranheza no lugar. Ninguém estava ali, revistaram por todos os cantos e só encontraram malas com roupas e outros objetos de uso pessoal de quem estava naquele local. Ora, haviam garantido que seria presa fácil, pois encontrariam os dois dormindo e depois o único trabalho seria conduzi-los amarrados até à presença do rei para serem acusados e jogados na prisão. Contudo, verdade é que conseguiram sair antes que chegassem.
Quando ia voltando para dar a má notícia ao rei, um dos homens percebeu um pequeno portão entreaberto e gritou: "Eles fugiram por aqui e parece que há pouco tempo, pois deixaram cair alguns pequenos objetos pelo chão". Haviam deixado rastros e certamente seriam implacavelmente perseguidos.
Assim que soube da fuga, Otnejon colocou a mão sobre o peito e mandou que lhe segurassem porque iria ter um troço ali mesmo e morrer, mas em seguida, todo faiscando de raiva, partiu com ferocidade para cima dos homens e, se fosse da altura deles, falaria empurrando o dedo no nariz:
- Vocês são todos uns imbecis, uns despreparados e sem astúcia nenhuma. O que é que estão fazendo aqui quando deveriam já estar no encalço daqueles ladrões do próprio reino. Deem já meia volta e mais que depressa vão atrás dos dois, seguindo as pistas que eles deixaram. Eles não conhecem o reino nem os perigos que rondam a noite por aqui, por isso mesmo é que vão ser presas fáceis. Andem, agora andem, chispem... – Mas nem deixou que saíssem da sala e deu outro grito – Esperem um pouco que vou à frente. Essas coisas que envolvem muita riqueza é sempre bom que o legítimo interessado vá à frente, comandando as ações. Além disso eu não confio nem um dedo de mindinho em vocês, palermas. Esperem aí que eu já volto.
Uns dez minutos depois e voltou o baixinho mal-afamado rodeado por cães ferozes, armado até os dentes e com um encorajamento que assustava. Após virar um copo cheio de uma bebida forte e colocar folhas de fumo na boca saiu com o seu bando noite adentro, pelas redondezas do castelo, pela trilha onde deveriam ter seguido os dois fugitivos.
Se os homens de Otnejon tivessem saído em imediata perseguição ao casal certamente que o encontraria. A noite dificultava enormemente a fuga, os dois não sabiam bem por onde caminhavam, o peso dos objetos que carregavam impedia qualquer avanço mais rápido, andavam um pouco e tinham que parar para Lize descansar. Contudo, aquela demora em terem ido avisar ao rei e o tempo que passaram ali até saírem em perseguição possibilitou uma vantagem enorme para eles. Estavam, sem saber, com boa frente sobre o bando que vinha no encalço. Mas aí começou a cair a maior chuvarada.
Com um verdadeiro temporal sobre eles, os objetos que levavam pareciam ter dobrado de peso. Ademais, não enxergavam um palmo sequer à frente, tendo que tatear cuidadosamente o desconhecido naquele breu amedrontador. Mas foi quando Lize escorregou e caiu que perceberam que não tinham mais condições de seguir adiante, ao menos por enquanto. A situação tornou-se ainda mais desanimadora, difícil de ser superada, e então procuraram cuidadosamente um abrigo onde pudessem descansar um pouco e esperar a chuva passar. Sabiam, entretanto, que a qualquer momento poderiam ser encontrados, e o medo ia aumentando à medida que ouviam ao longe cachorros latindo.
O temporal não afetou em nada o avanço do baixinho mal-afamado e seus homens. Quanto mais chovia mais pareciam dispostos a seguir em frente. Conheciam muito bem a região, todas as veredas e encruzilhadas, e por isso mesmo nada impediria que a qualquer momento encontrassem sinais da presença dos dois. Nada impediria a não ser a chuva, pois o barulho que fazia impossibilitava ouvir qualquer som que os fugitivos fizessem, dificultava o farejo dos cães, não deixava que acendessem tochas para iluminar os possíveis esconderijos.
Esse emaranhado de coisas, ao menos por aqueles instantes, serviu como tábua de salvação para os pais de Gustavo. Estavam protegidos dentro de uma pequena gruta de pedra quando ouviram o barulho dos cachorros e dos homens que estavam se aproximando. Pertinhos um do outro, se uniram em orações e perceberam quando iam passando sem darem conta de que estavam ali bem próximo, a uns cinqüenta metros.
O susto foi tão grande que não resistiram e adormeceram ali mesmo. Quando abriram os olhos a chuva já estava fininha e o dia começava a clarear. Quando Lucius quis levantar um pouco, ao olhar para cima percebeu quatro olhos estranhos mirando eles, em duas cabeças viradas para baixo.
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Amar de amar (Poesia)
Amar de amar
Espero te amar
mas não sei se vou amar
como quero te amar
Sei que vou te amar
mas não sei se esse amar
é o amor que quero amar
Pois amar
como sonhei te amar
não é mero amor de amar
mas amar amar
e mais que amor amar
amar e eternamente amar.
Rangel Alves da Costa
Espero te amar
mas não sei se vou amar
como quero te amar
Sei que vou te amar
mas não sei se esse amar
é o amor que quero amar
Pois amar
como sonhei te amar
não é mero amor de amar
mas amar amar
e mais que amor amar
amar e eternamente amar.
Rangel Alves da Costa
47 ANOS, O MENINO BRINCANDO E O ESPELHO (Crônica)
47 ANOS, O MENINO BRINCANDO E O ESPELHO
Rangel Alves da Costa
Consta de minha certidão de nascimento que vim ao mundo às 9:00 horas do dia 16 de março de 1963. Hoje, consequentemente, faço aniversário, completo 47 anos. Saído do ventre de minha mãe e entrando no ventre da vida. Garanto que no calorzinho da barriga da saudosa sertaneja era bem melhor.
Quando nasci fizeram uma coisa feia comigo, pois disseram que a vida não era brincadeira. Mas como não é brincadeira se a criança para aprender tem que brincar? A partir daí tentei levar a vida a sério, mas ela insistiu e insiste em fazer brincadeiras comigo.
Como não sou de brincadeiras, avisei a vida que só queria viver, só isso. E ela disse que já que eu queria assim, que me responsabilizasse sozinho pelos meus atos a partir daquele momento. Com tal responsabilidade, o que fiz foi brincar com a vida. Dei o troco.
Brincar porque acho que sei jogar a bola sem acertar ou ferir o próximo; sei brincar de esconder sem fugir de nada ou de ninguém; sei caçar passarinho sem destruir o meio ambiente, a natureza, os caminhos por onde cotidianamente passo; sei catar frutas no quintal sem levar o que é dos outros, furtar, roubar, me apropriar indevidamente; sei soltar pipas sem tirar os olhos do que está ao redor, ameaçando, procurando gratuitamente fazer o mal; sei pintar e desenhar no papel a lua e o sol, mas também as noites e as tempestades de cada dia; sei gostar de docinhos, mas muito mais das dietas; penso que sei, na medida que a vida me deixa brincar.
Dizem que cresci, que estou gente grande, quando se diz de quem só tem tamanho. Não acredito que tenha sido assim, pois a cada novo dia me vejo como ontem, a mesma pessoa de sempre, portanto ainda criança brincalhona. Não sei por que, mas as pessoas deviam mesmo eram viver suas vidas e deixar de mentir, de inventar, de dizer que enxergaram rugas se formando pelo rosto, viram alguns fios de cabelos brancos aparecendo, sentiram marcas do tempo em mim. Digo que é a mentira mais deslavada, pois o meu espelho nunca olhou pra mim e disse que era preciso eu me enxergar melhor e deixar de ser criança.
Ele sim, o meu espelho, que vejo estar envelhecendo, amarelando o sorriso, se comportando com ares de solitário, ficando mais triste e com um olhar menos brilhante e vazio. Já disse a ele para tomar cuidados, para deixar de brincadeiras e cuidar mais da aparência, da saúde, das escolhas que faz e das brincadeiras que insiste em brincar. Mas ele é teimoso, sempre teima, e fica lá impassível, indiferente, procurando somente refletir a vida que passa.
Gosto muito desse espelho, pois é o meu espelho e gosto de tudo que tenho. Jamais pensei a sério em vê-lo se quebrar, cair da parede da vida. Mas se um dia o destino disser que mais cedo ou mais tarde os espelhos tem que apagar, quebrar, sumir, não saberei dizer da dor que sentirei ao não mais vê-lo e nem me ver ali espelhado. Como posso saber o que senti se não posso mais ver minha face espelhada?
Talvez os outros digam que o espelho não se quebrou, mas foi um menino brincalhão que brincou com o espelho e ele se partiu.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa
Consta de minha certidão de nascimento que vim ao mundo às 9:00 horas do dia 16 de março de 1963. Hoje, consequentemente, faço aniversário, completo 47 anos. Saído do ventre de minha mãe e entrando no ventre da vida. Garanto que no calorzinho da barriga da saudosa sertaneja era bem melhor.
Quando nasci fizeram uma coisa feia comigo, pois disseram que a vida não era brincadeira. Mas como não é brincadeira se a criança para aprender tem que brincar? A partir daí tentei levar a vida a sério, mas ela insistiu e insiste em fazer brincadeiras comigo.
Como não sou de brincadeiras, avisei a vida que só queria viver, só isso. E ela disse que já que eu queria assim, que me responsabilizasse sozinho pelos meus atos a partir daquele momento. Com tal responsabilidade, o que fiz foi brincar com a vida. Dei o troco.
Brincar porque acho que sei jogar a bola sem acertar ou ferir o próximo; sei brincar de esconder sem fugir de nada ou de ninguém; sei caçar passarinho sem destruir o meio ambiente, a natureza, os caminhos por onde cotidianamente passo; sei catar frutas no quintal sem levar o que é dos outros, furtar, roubar, me apropriar indevidamente; sei soltar pipas sem tirar os olhos do que está ao redor, ameaçando, procurando gratuitamente fazer o mal; sei pintar e desenhar no papel a lua e o sol, mas também as noites e as tempestades de cada dia; sei gostar de docinhos, mas muito mais das dietas; penso que sei, na medida que a vida me deixa brincar.
Dizem que cresci, que estou gente grande, quando se diz de quem só tem tamanho. Não acredito que tenha sido assim, pois a cada novo dia me vejo como ontem, a mesma pessoa de sempre, portanto ainda criança brincalhona. Não sei por que, mas as pessoas deviam mesmo eram viver suas vidas e deixar de mentir, de inventar, de dizer que enxergaram rugas se formando pelo rosto, viram alguns fios de cabelos brancos aparecendo, sentiram marcas do tempo em mim. Digo que é a mentira mais deslavada, pois o meu espelho nunca olhou pra mim e disse que era preciso eu me enxergar melhor e deixar de ser criança.
Ele sim, o meu espelho, que vejo estar envelhecendo, amarelando o sorriso, se comportando com ares de solitário, ficando mais triste e com um olhar menos brilhante e vazio. Já disse a ele para tomar cuidados, para deixar de brincadeiras e cuidar mais da aparência, da saúde, das escolhas que faz e das brincadeiras que insiste em brincar. Mas ele é teimoso, sempre teima, e fica lá impassível, indiferente, procurando somente refletir a vida que passa.
Gosto muito desse espelho, pois é o meu espelho e gosto de tudo que tenho. Jamais pensei a sério em vê-lo se quebrar, cair da parede da vida. Mas se um dia o destino disser que mais cedo ou mais tarde os espelhos tem que apagar, quebrar, sumir, não saberei dizer da dor que sentirei ao não mais vê-lo e nem me ver ali espelhado. Como posso saber o que senti se não posso mais ver minha face espelhada?
Talvez os outros digam que o espelho não se quebrou, mas foi um menino brincalhão que brincou com o espelho e ele se partiu.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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NO REINO DO REI MENINO – XXVII
NO REINO DO REI MENINO – XXVII
Rangel Alves da Costa*
Realmente, não foram bons os sinais produzidos na revoltosa água da bacia, cujo significado maior só podia ser conhecido por Bernal. Este, mesmo diante daquela água turva e agitada, podia ver uma seqüência de cenas e imagens que lhe apertavam o coração já carregado de maus presságios quanto às conseqüências que poderiam ter aquelas visões.
Por cerca de três minutos os movimentos da água revelaram a instabilidade da situação envolvendo os pais do pequeno Gustavo, ali atônito e sem poder compreender nada. De repente, parte do líquido transbordou, a torre do castelo pareceu estremecer, relâmpagos e trovões agiram com violência e tudo voltou ao normal. Num segundo tudo voltou à mais perfeita normalidade da noite, como se lá fora apenas a brisa soprasse pelas paragens. Lá dentro, onde os dois estavam, até a água derramada estava completamente enxuta.
Bernal suspirou forte, soltou a mão do garoto e todos procuraram se refazer um pouco daquele transe, daquela verdadeira viagem. O feiticeiro chamou o menino e deram alguns passos até uma mureta da parte externa da torre. Ali no alto, em silêncio, avistavam o que permitia a escuridão e mais próximo enxergavam pequenas luzes que se deslocavam de um lado para outro. Eram as sentinelas enviadas pelos espíritos das florestas, disse o feiticeiro. Em seguida, este, de olhos voltados para o firmamento, começou a relatar as visões ao amigo:
- Pequeno rei e grande homem, não se assuste com o que vou dizer, pois tudo na vida pode ser modificado através da nossa ação. Contudo, pelo que pude observar com o auxílio dos espíritos, a situação não anda nada boa para os seus pais naquele reino onde eles estão. Senti como estivessem agoniados, desesperados, procurando a todo custo sair dali e fugir para bem longe dos olhos e das mãos daquele rei mal-intencionado. Vi que tentavam fugir, procuravam arrumar um meio de se protegerem da melhor forma possível, mas sempre ocorriam coisas inusitadas que impediam que conseguissem. Na verdade os dois estavam muito aflitos. Sua mãe talvez por estar numa cilada armada pelo esposo, seu pai, e o seu pai talvez por arrependimento de ter feito tudo o que fez e ir pedir refúgio logo naquela arapuca. Porém, quando a água subitamente derramou da bacia foi para dar um sinal de que essa situação pode ser resolvida, as enxurradas de perigos podem cessar e tudo caminhar por melhores destinos. Mas não se preocupe meu corajoso menino, tudo será resolvido o mais rapidamente e da melhor forma possível. Mas neste momento eu daria um reino, se tivesse um, para estar ao lado dos seus pais e conhecer todo aquele contexto de perto.
Com efeito, se naquela hora da noite Bernal estivesse no castelo de Otnejon, o baixinho, poderia ver que a situação de Lucius e Lize era realmente desesperadora. O ex-soberano e fugitivo de Oninem não tinha mais dúvidas de que a qualquer momento seria traído, atacado, roubado, feito prisioneiro ou enxotado das terras daquele reino, se não tivesse pior sorte. Temia pela segurança pessoal e também com o que pudesse ocorrer com sua esposa. Esta não poderia nem deveria sofrer as conseqüências daquele gesto impensado seu. Mas gesto apenas no sentido de ter ido buscar guarida com aquele rei, mas não em relação à fuga intencional, ao roubo praticado e a riqueza que guardava consigo. Aliás, dentre suas maiores preocupações a que mais lhe perturbava o juízo era a de não ser roubado pelo maldito baixinho. Por isso mesmo é que conversou com a esposa sobre a necessidade de fugirem dali imediatamente, naquela mesma noite, levando o máximo que pudessem da fortuna, aproveitando-se da porta que havia sido abertas nos seus aposentos, que os levaria até o solar e de lá tomariam o destino que a escuridão e os seus perigos permitissem.
Fizeram tudo conforme o planejado. Lucius insistiu para que levassem apenas o mínimo dos objetos pessoais, pois o seu interesse maior evidentemente era poder transportar a sua fortuna. Assim, silenciosamente deixaram o espaçoso quarto, se dirigiram até a varanda de sol, observaram cuidadosamente se estavam sendo vigiados e seguiram ladeando as tortuosas paredes do castelo, até alcançarem o pátio externo. Restava somente sair dos seus muros e entrecortar a noite em busca da liberdade, se não surgissem as tão temidas surpresas. Seria um verdadeiro desastre serem descobertos naquela situação.
Lucius e Lize não imaginaram, contudo, que Otnejon havia escolhido aquela mesma noite para surpreendê-los enquanto estivessem dormindo. Prenderia os dois sob a acusação de que estariam espionando o reino e depois os mandaria para as masmorras. A sorte deles seria decidida depois, sendo que o mais importante haveria de já estar assegurado, que era a fortuna.
Foi com esse objetivo que os malfeitores de Otnejon chegaram até o solar, na parte externa do quarto onde deveriam estar repousando o ex-soberano e sua esposa.
continua...
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Rangel Alves da Costa*
Realmente, não foram bons os sinais produzidos na revoltosa água da bacia, cujo significado maior só podia ser conhecido por Bernal. Este, mesmo diante daquela água turva e agitada, podia ver uma seqüência de cenas e imagens que lhe apertavam o coração já carregado de maus presságios quanto às conseqüências que poderiam ter aquelas visões.
Por cerca de três minutos os movimentos da água revelaram a instabilidade da situação envolvendo os pais do pequeno Gustavo, ali atônito e sem poder compreender nada. De repente, parte do líquido transbordou, a torre do castelo pareceu estremecer, relâmpagos e trovões agiram com violência e tudo voltou ao normal. Num segundo tudo voltou à mais perfeita normalidade da noite, como se lá fora apenas a brisa soprasse pelas paragens. Lá dentro, onde os dois estavam, até a água derramada estava completamente enxuta.
Bernal suspirou forte, soltou a mão do garoto e todos procuraram se refazer um pouco daquele transe, daquela verdadeira viagem. O feiticeiro chamou o menino e deram alguns passos até uma mureta da parte externa da torre. Ali no alto, em silêncio, avistavam o que permitia a escuridão e mais próximo enxergavam pequenas luzes que se deslocavam de um lado para outro. Eram as sentinelas enviadas pelos espíritos das florestas, disse o feiticeiro. Em seguida, este, de olhos voltados para o firmamento, começou a relatar as visões ao amigo:
- Pequeno rei e grande homem, não se assuste com o que vou dizer, pois tudo na vida pode ser modificado através da nossa ação. Contudo, pelo que pude observar com o auxílio dos espíritos, a situação não anda nada boa para os seus pais naquele reino onde eles estão. Senti como estivessem agoniados, desesperados, procurando a todo custo sair dali e fugir para bem longe dos olhos e das mãos daquele rei mal-intencionado. Vi que tentavam fugir, procuravam arrumar um meio de se protegerem da melhor forma possível, mas sempre ocorriam coisas inusitadas que impediam que conseguissem. Na verdade os dois estavam muito aflitos. Sua mãe talvez por estar numa cilada armada pelo esposo, seu pai, e o seu pai talvez por arrependimento de ter feito tudo o que fez e ir pedir refúgio logo naquela arapuca. Porém, quando a água subitamente derramou da bacia foi para dar um sinal de que essa situação pode ser resolvida, as enxurradas de perigos podem cessar e tudo caminhar por melhores destinos. Mas não se preocupe meu corajoso menino, tudo será resolvido o mais rapidamente e da melhor forma possível. Mas neste momento eu daria um reino, se tivesse um, para estar ao lado dos seus pais e conhecer todo aquele contexto de perto.
Com efeito, se naquela hora da noite Bernal estivesse no castelo de Otnejon, o baixinho, poderia ver que a situação de Lucius e Lize era realmente desesperadora. O ex-soberano e fugitivo de Oninem não tinha mais dúvidas de que a qualquer momento seria traído, atacado, roubado, feito prisioneiro ou enxotado das terras daquele reino, se não tivesse pior sorte. Temia pela segurança pessoal e também com o que pudesse ocorrer com sua esposa. Esta não poderia nem deveria sofrer as conseqüências daquele gesto impensado seu. Mas gesto apenas no sentido de ter ido buscar guarida com aquele rei, mas não em relação à fuga intencional, ao roubo praticado e a riqueza que guardava consigo. Aliás, dentre suas maiores preocupações a que mais lhe perturbava o juízo era a de não ser roubado pelo maldito baixinho. Por isso mesmo é que conversou com a esposa sobre a necessidade de fugirem dali imediatamente, naquela mesma noite, levando o máximo que pudessem da fortuna, aproveitando-se da porta que havia sido abertas nos seus aposentos, que os levaria até o solar e de lá tomariam o destino que a escuridão e os seus perigos permitissem.
Fizeram tudo conforme o planejado. Lucius insistiu para que levassem apenas o mínimo dos objetos pessoais, pois o seu interesse maior evidentemente era poder transportar a sua fortuna. Assim, silenciosamente deixaram o espaçoso quarto, se dirigiram até a varanda de sol, observaram cuidadosamente se estavam sendo vigiados e seguiram ladeando as tortuosas paredes do castelo, até alcançarem o pátio externo. Restava somente sair dos seus muros e entrecortar a noite em busca da liberdade, se não surgissem as tão temidas surpresas. Seria um verdadeiro desastre serem descobertos naquela situação.
Lucius e Lize não imaginaram, contudo, que Otnejon havia escolhido aquela mesma noite para surpreendê-los enquanto estivessem dormindo. Prenderia os dois sob a acusação de que estariam espionando o reino e depois os mandaria para as masmorras. A sorte deles seria decidida depois, sendo que o mais importante haveria de já estar assegurado, que era a fortuna.
Foi com esse objetivo que os malfeitores de Otnejon chegaram até o solar, na parte externa do quarto onde deveriam estar repousando o ex-soberano e sua esposa.
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Meu lugar (Poesia)
Meu lugar
Durmo na rede
pra não sonhar
ao lado da solidão
Caminho sozinho
pra não ter a companhia
dessa multidão
Minha casa é longe
ninguém nunca viu
e não existe não
Converso em silêncio
sorrio com os bichos
nessa vaguidão
Planejo o futuro
sei que vou construir
na palma da mão
Mas chamo teu nome
mas grito teu nome
nesse chamado em vão
Para fazer companhia
para morar comigo
nesse vão coração.
Rangel Alves da Costa
Durmo na rede
pra não sonhar
ao lado da solidão
Caminho sozinho
pra não ter a companhia
dessa multidão
Minha casa é longe
ninguém nunca viu
e não existe não
Converso em silêncio
sorrio com os bichos
nessa vaguidão
Planejo o futuro
sei que vou construir
na palma da mão
Mas chamo teu nome
mas grito teu nome
nesse chamado em vão
Para fazer companhia
para morar comigo
nesse vão coração.
Rangel Alves da Costa
sexta-feira, 12 de março de 2010
ANJO DA GUARDA DO CORAÇÃO ATEU (Crônica)
ANJO DA GUARDA DO CORAÇÃO ATEU
Rangel Alves da Costa*
Sem qualquer tipo de dúvida, o que dá sustentação à vida e a recobre de significado é a fé, a crença ou a certeza de que o que se vive ou se busca não é em vão. As metas, os sonhos e os objetivos de nada valeriam se não fossem alicerçados por uma possibilidade de realização. E essa possibilidade ganha força e sentido quando se tem um Deus ou deuses no coração, quando se acredita em uma força superior que interceda positivamente para que as coisas se realizem.
Pessoas existem que simplesmente negam a existência de Deus, de deuses ou de outras entidades divinas, superiores. Para elas, não existe religião, fé, força superior ou qualquer luz espiritual que indique que não estamos e não somos sozinhos. A descrença faz com que elas acreditem que os seres humanos simplesmente estão por aí por um acaso, que nada pode interferir no destino senão os próprios indivíduos, que o que foi e será feito só deve ser prestado contas a si mesmos. Presumem, enfim, realizados nos seus próprios poderes de grãos de areia sobre a terra.
Contudo, verdade é que muita gente confunde a descrença numa força superior com a ausência de Deus no coração. Aí se diz ateu simplesmente porque acha que Deus o abandonou, que o seu coração está vazio de fé porque implorou a Entidade e não foi atendido, porque rezou, fez promessa e acendeu todas as velas do mundo e mesmo assim o namorado não voltou. "Eli, Eli, lhama sabactani", Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E a partir daí já se diz ateu.
Desse jeito era Maria, com seu passo triste, seu olhar chorão e seu coração despedaçado. Se achava a pessoa mais infortunada do mundo, a mais feia, a mais sem sorte, a mais rejeitada, a mais abandonada, a mais carente de amor. Nunca havia arrumado um namorado porque era isso tudo, dizia. Daí que começou a odiar todo mundo e tudo no mundo, a se isolar, a não crer mais em nada. Não passava mais na frente da igreja, deu a sua bíblia, nem de longe queria ouvir falar em religião. E o que é pior, primeiro brigou com seu anjo da guarda e depois ficou de mal com Deus.
Maria vivia assim, jogada, sem crença e sem fé mais em nada. Não sabia, porém, que o seu anjo da guarda acompanhava tudo de perto, estava sempre ao seu lado, protegendo, interferindo silenciosamente nas suas ações, iluminado seu caminho e dando o apoio espiritual que ela tanto necessitava. Mas ela não sabia disso, e se soubesse não aceitaria, pois tinha a certeza que nada mais na vida faria voltar a fé naquele coração ateu.
O seu anjo da guarda, de nome Gabriel, aquele que é enviado por Deus, resolveu interferir mais fortemente na sua vida. Sabia que ela não era atéia e muito menos o seu coração se predispunha a ser ateu. Então, numa dessas circunstâncias do destino arranjou um namorado pra Maria. E que sorte a dela, pois o grande amor surgido do nada se dizia também ateu. Dois ateus juntos seria a perfeita conclusão de que as pessoas se encontram simplesmente porque andam por aí e não porque são predestinadas ao encontro.
Verdade é que Maria começou a ficar mais animada, tendo mais prazer nas coisas, fazendo planos para o futuro e mostrando cada vez mais felicidade. Por outro lado, o seu namorado ateu outra coisa não fazia senão falar mal de tudo, pensar negativamente em tudo, discordar de tudo que existia na vida. E ela foi ficando desgostosa com aquela situação, não suportando mais o jeito dele e até chegou um dia que disse: Deixe de ser assim e procure ter Deus no coração. Logicamente ele, como não acreditava em nada, também não acreditou no que estava ouvindo. E sumiu por dois dias.
Quando teve saudade e voltou encontrou Maria mais feliz que nunca. E a primeira coisa que ela disse foi que havia sonhado com o anjo da guarda dele. "Mas isso não existe Maria", retrucou ele. "Existe sim, eu tenho certeza, e tem dois anjos neste momento perto de nós, nos guardando. E eles, como todos os outros anjos da guarda são enviados por Deus para nos proteger durante toda a nossa vida, são espíritos superiores que estão ao nosso lado para nos guiar e nos preservar do mal, são aqueles seres invisíveis que nos socorrem e nos ajudam, nos envolve de paz e serenidade e nos leva a fazer o bem, são os mensageiros da esperança que estão a serviço de Deus. Eles nos faz chegar bons conselhos através dos pensamentos, idéias estas que nos inspira nas realizações da vida, e quando não os aceitamos ainda assim eles nos deixam adquirir experiência por nossa própria conta. É por isso que o Livro do Êxodo diz: "Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei". Foram as palavras de Maria, a que há bem pouco tempo dizia não ter crença nem fé.
Era inegável. Maria havia se convertido de vez novamente. Estava repleta de felicidade, de esperanças e valorizando a si própria como nunca. O seu namorado aos poucos também ia mudando, deixando de ser tão combativo aos poderes de Deus e a sua efetiva existência na terra a partir do coração dos homens. Simplesmente não defendia mais o ateísmo nem afirmava que o único responsável pelo homem é o próprio homem. E Maria quis saber o que vinha ocorrendo com ele.
"Agora sei Maria que o anjo da guarda que existe em mim é o amor que sinto por ti, eis que o amor é o anjo da guarda do coração ateu", disse.
Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@homail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
Rangel Alves da Costa*
Sem qualquer tipo de dúvida, o que dá sustentação à vida e a recobre de significado é a fé, a crença ou a certeza de que o que se vive ou se busca não é em vão. As metas, os sonhos e os objetivos de nada valeriam se não fossem alicerçados por uma possibilidade de realização. E essa possibilidade ganha força e sentido quando se tem um Deus ou deuses no coração, quando se acredita em uma força superior que interceda positivamente para que as coisas se realizem.
Pessoas existem que simplesmente negam a existência de Deus, de deuses ou de outras entidades divinas, superiores. Para elas, não existe religião, fé, força superior ou qualquer luz espiritual que indique que não estamos e não somos sozinhos. A descrença faz com que elas acreditem que os seres humanos simplesmente estão por aí por um acaso, que nada pode interferir no destino senão os próprios indivíduos, que o que foi e será feito só deve ser prestado contas a si mesmos. Presumem, enfim, realizados nos seus próprios poderes de grãos de areia sobre a terra.
Contudo, verdade é que muita gente confunde a descrença numa força superior com a ausência de Deus no coração. Aí se diz ateu simplesmente porque acha que Deus o abandonou, que o seu coração está vazio de fé porque implorou a Entidade e não foi atendido, porque rezou, fez promessa e acendeu todas as velas do mundo e mesmo assim o namorado não voltou. "Eli, Eli, lhama sabactani", Deus, meu Deus, por que me abandonaste? E a partir daí já se diz ateu.
Desse jeito era Maria, com seu passo triste, seu olhar chorão e seu coração despedaçado. Se achava a pessoa mais infortunada do mundo, a mais feia, a mais sem sorte, a mais rejeitada, a mais abandonada, a mais carente de amor. Nunca havia arrumado um namorado porque era isso tudo, dizia. Daí que começou a odiar todo mundo e tudo no mundo, a se isolar, a não crer mais em nada. Não passava mais na frente da igreja, deu a sua bíblia, nem de longe queria ouvir falar em religião. E o que é pior, primeiro brigou com seu anjo da guarda e depois ficou de mal com Deus.
Maria vivia assim, jogada, sem crença e sem fé mais em nada. Não sabia, porém, que o seu anjo da guarda acompanhava tudo de perto, estava sempre ao seu lado, protegendo, interferindo silenciosamente nas suas ações, iluminado seu caminho e dando o apoio espiritual que ela tanto necessitava. Mas ela não sabia disso, e se soubesse não aceitaria, pois tinha a certeza que nada mais na vida faria voltar a fé naquele coração ateu.
O seu anjo da guarda, de nome Gabriel, aquele que é enviado por Deus, resolveu interferir mais fortemente na sua vida. Sabia que ela não era atéia e muito menos o seu coração se predispunha a ser ateu. Então, numa dessas circunstâncias do destino arranjou um namorado pra Maria. E que sorte a dela, pois o grande amor surgido do nada se dizia também ateu. Dois ateus juntos seria a perfeita conclusão de que as pessoas se encontram simplesmente porque andam por aí e não porque são predestinadas ao encontro.
Verdade é que Maria começou a ficar mais animada, tendo mais prazer nas coisas, fazendo planos para o futuro e mostrando cada vez mais felicidade. Por outro lado, o seu namorado ateu outra coisa não fazia senão falar mal de tudo, pensar negativamente em tudo, discordar de tudo que existia na vida. E ela foi ficando desgostosa com aquela situação, não suportando mais o jeito dele e até chegou um dia que disse: Deixe de ser assim e procure ter Deus no coração. Logicamente ele, como não acreditava em nada, também não acreditou no que estava ouvindo. E sumiu por dois dias.
Quando teve saudade e voltou encontrou Maria mais feliz que nunca. E a primeira coisa que ela disse foi que havia sonhado com o anjo da guarda dele. "Mas isso não existe Maria", retrucou ele. "Existe sim, eu tenho certeza, e tem dois anjos neste momento perto de nós, nos guardando. E eles, como todos os outros anjos da guarda são enviados por Deus para nos proteger durante toda a nossa vida, são espíritos superiores que estão ao nosso lado para nos guiar e nos preservar do mal, são aqueles seres invisíveis que nos socorrem e nos ajudam, nos envolve de paz e serenidade e nos leva a fazer o bem, são os mensageiros da esperança que estão a serviço de Deus. Eles nos faz chegar bons conselhos através dos pensamentos, idéias estas que nos inspira nas realizações da vida, e quando não os aceitamos ainda assim eles nos deixam adquirir experiência por nossa própria conta. É por isso que o Livro do Êxodo diz: "Vou enviar um anjo adiante de ti para te proteger no caminho e para te conduzir ao lugar que te preparei". Foram as palavras de Maria, a que há bem pouco tempo dizia não ter crença nem fé.
Era inegável. Maria havia se convertido de vez novamente. Estava repleta de felicidade, de esperanças e valorizando a si própria como nunca. O seu namorado aos poucos também ia mudando, deixando de ser tão combativo aos poderes de Deus e a sua efetiva existência na terra a partir do coração dos homens. Simplesmente não defendia mais o ateísmo nem afirmava que o único responsável pelo homem é o próprio homem. E Maria quis saber o que vinha ocorrendo com ele.
"Agora sei Maria que o anjo da guarda que existe em mim é o amor que sinto por ti, eis que o amor é o anjo da guarda do coração ateu", disse.
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e-mail: rangel_adv1@homail.com
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