SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 21 de março de 2010

GESTOS DE DESPEDIDA (Crônica)

GESTOS DE DESPEDIDA

Rangel Alves da Costa*


Cada gesto de despedida não diz somente sobre o adeus, até mais, até breve, voltarei. Cada gesto de despedida não é somente um distanciamento, uma ruptura mesmo que momentânea entre quem vai e quem fica. Cada gesto de despedida não significa apenas a dor incontida no peito, a lágrima verdadeira, a saudade que já é antes da ausência. Cada gesto de despedida não se caracteriza somente por uma porta que fecha e um passo que anda, um aceno que vai sumindo e um horizonte diferente pela frente.
Não, não é, pois cada gesto de despedida é o instante que pode ser tudo: tudo pode ter acabado ali, desfeito para sempre, impossível de se ter novamente. Ora, mas dirá que a saudade e a lembrança tornam os distantes presentes, a fotografia diz que ainda está ali, a vontade de ter preenche o vazio, a certeza da volta é o toque na porta. Quem dera fosse assim, e nossa vida seria uma agenda e não uma página solta com nomes riscados ou apagados.
Alguém que se diz hoje tal qual ontem, seria o mesmo de uma semana atrás? Alguém cujo corpo tem saudade do vigor da mocidade espera que mais tarde a mesma força física retorne? Alguém que ontem feriu de morte outro coração que amava, deseja hoje o perdão e o mesmo sentimento de antes? Alguém que bate a porta na cara espera que o outro esteja esperando lá fora para amavelmente retornar? Alguém que bruscamente partiu sem dizer adeus pensará em retornar para depois partir novamente de forma diferente? Alguém que se despede do outro deixa com este a palavra e a presença? Não, e não porque o segundo que passa já é o segundo seguinte e alguma coisa já se encaminha para mudar.
O ato da despedida, tenha certeza, possui um simbolismo muito maior do que se imagina. Pois a despedida, diferentemente do que costumeiramente se pensa, é muito mais do que a separação mais ou menos prolongada, a ruptura de relacionamento, a consumação do adeus, o sinal da partida, o remate, o encerramento, a conclusão. Como conseqüência, a força do simbolismo do ato de despedida reside no seu aspecto psicológico, pois os verdadeiros sentimentos de quem vai e quem fica não são exteriorizados na lágrima, no adeus, na fúria ou no rancor, mas sim intimamente como sinal de perda ou de satisfação.
O gesto de quem se despede da esposa e dos filhos porque terá que se ausentar por algum tempo para trabalhar em outro lugar, é muito diferente do gesto de quem deixa o lar porque se separou da esposa. Do mesmo modo, a atitude de quem dá um beijo de boa noite no seu amor e espera ansiosamente para que retorne amanhã, é muito diferente da atitude de quem bate a porta nas costas do outro porque o relacionamento chegou ao fim. E ainda, o gesto de quem se despede de um familiar porque vai morar em outro país e não tenha previsão para retornar, é muito diferente daquele que se despede com a certeza de que não voltará a vê-lo nunca mais.
Como será a despedida do prisioneiro que não verá mais sua esposa porque irá pagar sua pena de morte daí a instantes? E do filho que vai partir e tem certeza que não verá mais seus pais com vida? E da esposa amada ao ver o rosto do seu amor pela última vez no caixão que está sendo lacrado? E da jovem apaixonada que entrega de volta sua aliança porque o seu noivo resolveu viver com outra? E do favelado que vê seu barraco sendo destruído pela enxurrada que caiu? E do suicida se olhando no espelho com a arma apontada para a própria cabeça?
Não sei quem disse que a despedida é a imagem da morte, mas possui razão tal pensamento, pois ontem mesmo, revirando o baú da memória descobri que sou órfão, viúvo, carente e abandonado por inúmeras coisas que já se despediram de mim. As fotografias são sinais dos muitos de mim que partiram e não voltam mais; as cartas de amor enlutecem a paixão que se foi; pequenas recordações entristecem um tempo que não pode mais ser revivido. Tudo já se despediu, foi embora. Mas o que dói, o que realmente machuca, é ter que dar adeus a mim mesmo a cada instante que passa.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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Sentença e pena (Poesia)

Sentença e pena


Sentença:
Você está
completamente apaixonada
por ele.

Pena:
Ele não te quer.



Rangel Alves da Costa

NO REINO DO REI MENINO – XL

NO REINO DO REI MENINO – XL

Rangel Alves da Costa*


A comitiva dos visitantes, que retornaria logo ao amanhecer do dia, teve que se atrasar porque na hora do embarque o velho sacerdote simplesmente havia sumido. Procuraram por todos os aposentos do castelo e nenhum sinal, sendo encontrado somente uma hora depois, totalmente embriagado, ao lado de dois duendes, alcoolizados do mesmo jeito, tomando vinho embaixo de uma árvore frondosa nos fundos da residência real.
Assim que Bernal os avistou, os verdinhos orelhudos saíram correndo aos tropeços, caindo e rolando pelos matos, deixando o sacerdote sorridente com uma garrafa na mão. Apagou num instante, e somente dois homens para transportá-lo até a carruagem. Antes de partirem, ainda abriu os olhos em direção ao pequeno rei e disse: "Não esqueça do nosso acordo, que eu quero comprar um vinhedo".
Assim que partiram, Gustavo puxou o feiticeiro pelo braço em direção a uma das entradas do castelo e disse que teriam que subir imediatamente até a torre, pois lá, sem ninguém para ouvir ou importunar, ele teria que passar aquela história todinha a limpo, nos mínimos detalhes.
O dia havia nascido com uma cor diferente em Oninem, com uma manhã de cores muito mais vivas, a natureza parecendo mais alegre, com folhas e galhos valseando ao vento, com plantas num sorriso verde que parecia o próprio paraíso. Os animais, que sempre ficavam mais afastados, corriam e brincavam pelos campos ali próximos, como se a presença dos oninenses não causasse medo e espanto. As pessoas, estas, representadas na face alegre e no leve sorrir do pequeno reino, pareciam prontas para viver novos dias de bonança, de fartura nas plantações, de segurança e paz, de desenvolvimento e prosperidade. Ao menos era isso que o menino rei esperava, mesmo tendo consciência das duras batalhas que teriam que enfrentar a qualquer instante.
Uma dessas batalhas já estava sendo travada ali na torre, fazendo a maior pressão psicológica possível para que o feiticeiro do bem contasse a verdade, sem omitir uma coisinha sequer em nome dos segredos da magia. "Mas meu rei, que força tenho eu para contar a um soberano verdades pela metade ou mentiras que encubram a verdade?", indagava assustado. "Acho melhor assim, pois do contrário...", ameaçava Gustavo. E o feiticeiro começou a destrinchar o que sabia:
- Em primeiro lugar, pequeno e assustador Gustavo, juro pelo sangue encantado de minha família, pelos meus guias e seres superiores, que não tenho nenhum envolvimento, o mínimo sequer, com o desaparecimento e surgimento da coroa em dose dupla. Não tem nenhum cabimento se pensar isso de mim, logo eu que estava botando o coração pela boca, andando feito um doido procurando essa bendita coroa. O próprio menino rei sabe que até as forças mágicas eu invoquei, e quase saio desse mundo dando até as minhas últimas forças para saber do seu paradeiro. Você mesmo sabe, menino teimoso, sobre os perigos que tive de enfrentar para ver se alguma luz me vinha à cabeça dizendo onde poderia encontrá-la. Se o que fiz não foi suficiente para prontamente atender o rei é porque reconheço minhas muitas limitações. E se a coroa não fosse encontrada e a honra do rei e do rei fosse ferida de morte, nem mesmo eu sei onde estaria agora, talvez por aí enlouquecido, jogado numa beira de estrada... – E começou a chorar.
- Não quero ver uma lágrima. Continue, continue seu paspalhão – Disse o rei, achando graça no ar choroso de Bernal.
- Em segundo lugar, e vou dizer logo, quem roubou a coroa foram aqueles danadinhos verdes das florestas. Pode castigar eles mais tarde, mas garanto que não foi propriamente um roubo, mais sim uma apropriação momentânea do que não lhes pertencia, porém com um objetivo mais que nobre, que foi o de ajudar o nosso rei e a salvar nosso reino dos problemas que está passando. E como fizeram isso, vou contar segundo eles me contaram. Tudo começou quando dois daqueles enxeridos estavam invisíveis no castelo naquele dia que você falava sobre a necessidade de vender a coroa. Com a maior cara de pau, imediatamente foram até lá em cima, atravessaram todas as portas sem mover uma chave, pegaram a coroa e sumiram mata adentro. E parte das conseqüências disso a gente sabe e sentiu na pele, mas a outra parte é que é complicada de explicar, pois diz respeito ao objetivos deles, que foi o de fazer uma cópia igualzinha da coroa, de modo que vendendo a cópia a original ficaria no castelo e o reino seria salvo. Foi essa a intenção. Mas como eles fizeram essa cópia com tanta perfeição em tão pouco tempo, utilizando os mesmos objetos preciosos contidos na original, acho que somente mesmo eles para contar, pois eu imagino como tenha sido, mas se eu abrir a boca pra contar o menino rei vai dizer que enlouqueci de vez.
- Mas louco você já é, então conte logo essa parte que deve ser muito interessante – Animou-se o menino rei.


continua...



Advogado e poeta
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CARTA DO OUTONO (Crônica)

CARTA DO OUTONO

Rangel Alves da Costa*


Aqui onde estou, nessa noite de muitas recordações, o clima ainda está entremeado de correntes de calor e de ar frio. Às vezes me bate um vento mais forte, próprio do anoitecer, embaixo dessa lua cheia que brilha no céu de poucas nuvens e muitas estrelas. Estou triste, bem sei, mas a minha história, meu percurso pelas horas e anos dessa vida nunca foi marcada por grandes alegrias. Por isso costumo estar triste, bem sei.
É dessa tristeza que me marca e me faz moradia que os outros, com razão, tecem suas considerações sobre o que sou e como sou. Dizem que quando saio por aí a passear, entre as estações do verão e do inverno, geralmente de 22 de setembro a 21 de dezembro em alguns lugares, e de 22 de março a 21 de junho em outros, a primeira coisa que faço é amarelecer e fazer cair as folhas das árvores e outras plantas, dentre outras coisas que dizem. Me criticam porque faço isso e sou assim, mas tudo tem uma razão de ser e explicarei.
Certa vez, caminhando nessas vastidões cumprindo meu destino, passei por um belo e florido jardim e avistei plantas lindas, de vários tamanhos e espécies, mas todas pareciam viver em palácios, distantes umas das outras, sem ter amizade alguma, num exacerbamento de egoísmo que fazia com que cada uma visse a outra como reles plantinha de canteiro de rua abandonada. Era linda a paisagem, mas era odioso de se ver o salto alto da roseira e o pedantismo da margarida.
Segui em frente e fui pensando em modificar aquela situação, em trazer humildade, compartilhamento e amizade entre aquelas plantas, nativas ou exóticas que fossem. E assim, já tendo idealizado o que iria fazer, retornei no ano seguinte e apliquei-lhes um castigo que foi mais uma lição, fazendo vê-las que a beleza que lhes foi concedida era tão frágil quanto às suas flores diante da tesoura do jardineiro.
E fiz mais, pois decidi que a partir de então, como forma de que aprendessem que todas são iguais na beleza e na fragilidade, assim que fosse o meu tempo de passar por ali, todas teriam de refletir mais sobre a vida, e nessa reflexão ir jogando fora todo o luxo em demasia, todo aquele aspecto de infinita superioridade, amarelando suas folhas até caírem, perdendo suas pétalas já sem perfume, para depois renascerem novamente belas e sem discriminação, que é a verdadeira essência daquela e toda natureza, inclusive a humana.
Insistem em dizer que sou sinônimo de decadência, de esmorecimento, de fraqueza, simplesmente porque moro ao lado do verão e do inverno, tidas como estações que possuem objetivos bem definidos na vida. Mas não sou o que dizem, pois sou o próprio reflexo do que as pessoas são, com instantes de grande prosperidade e outros de carência, com instantes de intensa alegria e outros de esmorecimento espiritual, com instantes para a fé e adoração e outros para a negação e o pecado. É assim que sou, também reflexo das muitas contradições de tudo que sobre o mundo tem existência.
Dizem também que sou chato, inseguro e indeciso porque aceito que sobre mim caia ora a chuva incessante ora o sol escaldante. Essa minha instabilidade climática atrapalha a vida de muitos, dizem. Na verdade, assumo minha culpa, porém não acho que esteja agindo errado, pois o que procuro fazer é simplesmente atender a todos que precisam de sol ou de chuva nos seus afazeres cotidianos.
E é fácil constatar que tenho razão: uma plantação não sobreviveria quatro meses seguidos sem a água da chuva para molhar as raízes e fazer brotar os frutos, do mesmo modo as pessoas precisam de sol para enxugar as roupas, para saírem às ruas, para passearem e tomar banho nas praias. Daí que o que faço é não tender somente para um lado ou para o outro, fazendo chover num tempo e chamando o sol noutro instante. O que não seria lógico era trazer os dois ao mesmo tempo. Se assim fizesse, com certeza diria que o outono enlouqueceu.
Contudo, não costumam apontar minhas qualidades, mas nem por isso deixo de cumprir meu papel sobre a terra, ajudar a natureza e o homem e fazer com que a vida tenha um curso normal. Geralmente esquecem que é na minha época que as terras e os jardins são limpos e preparados para novas plantações, que faço as folhas caírem para que renasçam com mais vida e beleza, que faço com que as folhas de algumas árvores adquiram umas lindíssimas sombras avermelhadas, que faço as temperaturas ficarem mais amenas, que faço os dias e as noites terem a mesma duração, que é na minha estação que ocorrem as grandes colheitas, pois as frutas já estão bastante maduras e começam a cair no chão. E o que é para mim o mais importante: chamo o inverno e peço que avise à primavera para trazer as cores e os perfumes que a vida tanto precisa.
Sou orgulhosa e digo mais: não sou apenas uma estação, pois sou a mais bela das quatro estações de Vivaldi. Procure me ouvir agora e reflita, sinta a natureza viva, frutos maduros e folhas caindo no jardim de sua casa. Isto também é sinal de que haverá sempre renascimento em sua vida.



Advogado e poeta
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Beijos (Poesia)

Beijos


No primeiro beijo
segurou nas nuvens
e caiu trazendo o temporal
No segundo beijo
conheceu o paraíso
mas desejou retornar
No terceiro beijo
sentiu a fúria da natureza
no corpo que estremeceu
No quarto beijo
sentiu-se acorrentada
enlouquecida de paixão
No quinto beijo
último beijo que beijou
congelou no polo norte
e lá mesmo ficou.


Rangel Alves da Costa

NO REINO DO REI MENINO – XXXIX

NO REINO DO REI MENINO – XXXIX

Rangel Alves da Costa*


Aos gritos do sacerdote apenas disseram que se ele continuasse entornando vinho daquele jeito daqui a pouco não estaria vendo somente fantasminhas verdes passando, mas também o grande elefante da Índia ali sentado na poltrona, querendo dialogar. "Mas eu vi, eu juro que vi, e carregavam dois objetos reluzentes nas mãos", confirmou, quase sem ser ouvido pelos compradores que se afundavam em óleos, guisados e em até naquilo que não conheciam, mas diziam estar um manjar dos deuses.
Apenas o pequeno rei se ateve àquelas palavras, e por isso mesmo pediu licença aos convidados e se dirigiu até onde estava o vinhático senhor, que mais uma vez confirmou tudo o que tinha visto. E os olhos de Gustavo passaram a ter um brilho diferente, de grande esperança em se concretizar aquilo que estava imaginando. Somente a coroa poderia reluzir tanto, e seria a coroa que eles estariam transportando de volta ao castelo? Indagou para si mesmo, muito mais aliviado, até esboçando um sorriso.
Contudo, precisava confirmar urgentemente a veracidade de sua intuição e somente Bernal poderia dar uma resposta definitiva sobre o retorno ou não da coroa. Olhava para as escadas, para cima, para baixo, para os lados, e nada do feiticeiro aparecer com gestos positivos ou negativos. Chamou um serviçal e ordenou que o procurasse e dissesse para ir até ali com urgência, pois o leilão estava prestes a começar e precisava de sua presença. Mas o serviçal retornou afirmando que não pôde encontrá-lo em lugar algum, parecendo mesmo que ele não estava naquele momento no castelo. E Gustavo tornou-se novamente temeroso e aflitivo.
"Agora creio que estamos mais do que preparados para apreciarmos esta preciosidade, pois então que faça vir tal preciosidade", disse um dos compradores, já em pé, juntamente com os outros, no local onde a coroa seria exposta e realizado o leilão.
- Sim, sim, chegou o grande momento para verificarem de perto o valor da antiga e reconhecidamente bela coroa do Reino de Oninem, que somente será vendida porque já possuímos outra de igual beleza e com motivos riquíssimos que retratam os grandes feitos de cada soberano que fez sua história aqui – Mentiu o pequeno rei, mas tinha que ser assim, para não expor a situação de dificuldes do reino – Porém, antes que eu ordene que tragam esse raro prazer aos olhos, convido vocês a mais um brinde, deliciado entre vocês mesmos, de um vinho muito antigo, que praticamente estava esquecido por anos e anos nos fundos mais escondidos de nossa adega. Por favor, serviçal traga até aqui duas daquelas garrafas de L'acrime de Tristèsse – Falou o pequeno rei, extremamente nervoso e tentando ganhar tempo a todo custo.
Assim que os convidados avidamente tomaram o vinho, acenderam charutos e esfregaram as mãos em sinal de que já estavam prontos para o início da apresentação, o pequeno Gustavo, totalmente desnorteado e sem saber mais o que fazer, simplesmente olhou para cima da escada que dava para o andar seguinte, bateu as mãos e mandou que trouxessem a coroa real. Completamente cego naquele momento, não sabia bem o que havia dito nem as conseqüências desse gesto. O seu reinado poderia estar sendo afundado ali, naquele momento, assim que ordenou que trouxessem a coroa.
De repente, completamente fora de si, tendente a desabar pelo chão a qualquer momento, ouviu um forte bater de palmas ao seu redor e ao se recompor para tentar entender aquilo melhor, olhou novamente para cima e viu Bernal, contagiado e sorridente, descendo a escada com a coroa real sob um manto de veludo com as cores do reino. Não podia acreditar no que via, no verdadeiro milagre que enxergava, mas ali estava a coroa mais preciosa e brilhante do que nunca.
Ao passar por Gustavo carregando nas mãos a salvação do reino, o feiticeiro do bem deu uma leve pisada no pé do amigo e disse baixinho: "Pelo trabalho que deu deve valer o dobro". O próprio menino decidiu colocá-la no local onde todos poderiam apreciá-la com cuidado e atenção. Ainda sem acreditar muito no que estava acontecendo, ele mesmo ficou parado diante dela alguns minutos, tocando levemente os seus contornos e chamando para si uma tristeza de outro tipo. O estado melancólico agora se devia à despedida daquela representação maior da história familiar. Mas teria que ser assim mesmo, procurou se reconfortar.
Quando os compradores iniciaram a análise e discussão dos elementos que compunham a coroa, seu valor histórico e financeiro, o lucro que poderiam ter transformando ela em joias menores, negociando à parte os rubis, diamantes, esmeraldas e outras pedras preciosas, Gustavo puxou Bernal para um canto e disse: "Você vai ter que me explicar tudo isso direitinho, tintim por tintim, sem esquecer um ponto ou uma vírgula. Afinal de contas ainda não estou entendo nada de tudo isso que está acontecendo aqui". "Não se preocupe, meu rei, relatarei tudo direitinho, nos menores detalhes. Mas adianto que isso é apenas uma parte do muito que precisa saber", afirmou o feiticeiro, em tom misterioso.
Para cisma e descontentamento dos demais, não demorou muito e o rico negociante Adeom, do Condado de Excalibur, ofereceu um lance que, pelo alto valor, não pôde ser mais coberto. Havia arrematado a coroa pela bagatela de oito medidas de Dindim, que era a moeda corrente no País dos Voantes e seus reinos. A entrega da coroa se daria em cinco dias, assim que os seus emissários viessem até o reino trazendo a grande soma de dinheiro.
Após o leilão, mesmo sem a presença do sacerdote, que já dormia a sono solto tendo sonhos com os fantasminhas verdes, e enquanto uma última rodada de vinho era servida, Bernal se aproximou de Gustavo e disse baixinho em seu ouvido: "Tanto dinheiro por uma réplica, uma falsa coroa, pois a verdadeira está lá em cima bem guardada".


continua...



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DÊ-ME TUAS MÃOS! (Crônica)

DÊ-ME TUAS MÃOS!

Rangel Alves da Costa*


As mãos de Whitman acariciaram as folhas de relva; as mãos de Baudelaire plantaram as flores do mal; Jorge Amado fez espalhar nas paisagens sangrentas as folhas do cacau; Graciliano mostrou que no Nordeste não haviam folhas a serem colhidas pelas mãos ossudas; as mãos de Machado mancharam a honra de Capitu; Goethe manchou de sangue as mãos do jovem Werther; Eça de Queirós tirava das mãos de Luísa a aliança que simbolizava a honra; Cervantes fez com que Dom Quixote enfrentasse os moinhos-gigantes com a mão empunhando uma lança; José Mauro de Vasconcelos enxugou com as mãos as lágrimas de Zezé quando cortaram seu pé de laranja lima; Fernando Pessoa com uma mão segurava o charuto e com a outra escrevia que o rio mais bonito é o rio que passa pela sua aldeia; Pedro Bloch deu uma fortuna quando Eurídice estendeu sua mão; Drummond apontou com a mão onde José deveria ir, mas este não foi, e agora José?
As mãos de Da Vinci não são mãos, são os olhos da Monalisa; Alfredo Volpi encheu minha rua triste com bandeirinhas coloridas à mão; Munch colocou a mão na boca na hora do grito na ponte; Tarsila insistia naquelas mãos enormes e pés desproporcionais; Picasso queria que todos colocassem as mãos nos olhos para não ver as atrocidades de Guernica; Almeida Júnior mostrou o sertanejo segurando com a mão a faquinha para picar fumo; as baianas e escravas enchiam as mãos de Debret de doces e guloseimas; Michelangelo aproximou as mãos do homem e de Deus na Capela Sistina; a mulher triste de Portinari estava segurando o menino morto nas mãos; Claude Monet espalhava com as mãos tardes, folhas, flores e jardins nas suas paisagens; Edouard Manet penteou com as mãos os cabelos da jovem bonita no espelho; Rodolfo Amoedo deixou estendidas na praia as mãos mortas do último tamoio; que belas são as mãos das morenas de seios fartos de Di Cavalcanti; por que as mãos não apararam o bigode de Dali?
Onde estão agora tuas mãos, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Zilda Arns? As mãos do bem não doam também além? A mão no chocalho ainda anuncia a fé ritual no terreiro de Mãe Meninha; as mãos de Maria Lenk espalharam as águas para a vitória; tuas mãos ainda acertariam bem no fundo da quadra Maria Ester Bueno; as mãos de Cecília Meireles ainda correm pelos canteiros; Maria Moura pega com as mãos as rédeas do destino e vai na direção de Rachel de Queiroz; por que mãos com tanto esmalte, anéis e alianças Viúva Porcina?; tal qual a cabana do Pai Tomás, tuas mãos também são sábias Harriet Beecher Stowe; quantas mãos alcançaram sucesso nos teus folhetins Janete Clair, Ivani Ribeiro e Glória Magadan?; o que tuas mãos assentaram ainda ressoam em movimento Chiara Lubich; por que não pegou a arma com a mão e atirou primeiro Maria Bonita?
E essas mãos sertanejas, que carentes imploram aos céus, que crentes se apegam aos céus, que sonhadoras limpam a terra, plantam, colhem, tangem o gado, tiram o leite, pegam na enxada, movem o barro, fazem a telha e o tijolo, pregam ripas, portas e portais, tiram o couro, adormecem o couro na água, trabalham o couro, fazem a sandália, a alpercata, o alforje e o gibão, serram a ponta, trabalham a ponta, fazem o berrante, seguram o berrante e sopram chamando o destino, pegam no copo e tomam a pinga, enrolam a palha e fazem o cigarro, pegam a faca, o facão e o punhal e pegam o inimigo, pegam os tostões e fazem a feira, pegam o saco com dois quilos de nada, entregam à mulher que cozinha o que não existe, que fazem mamadeira de água e enganam o choro dos pequeninos, que levam a farinha à boca e depois se benzem agradecendo a Deus pelo muito no pouco que tem.
E essas mãos que trabalham nas máquinas, apertam parafusos, acendem a fornalha, jogam a matéria, abrem a porta para o chefe passar, assinam o ponto, acendem e apagam a luz, tira o lenço do bolso e limpam o suor, recebem o salário do mês, fazem as compras, fazem os cálculos e batem na mesa com raiva; essas mãos que tocam o tambor, o cavaquinho o violão, o pandeiro e o zabumba, enchem o copo de cerveja, levantam a saia pra sambar; essas mãos que podam as árvores, varrem as calçadas, limpam o lixo, jogam os restos no caminhão, pintam as ruas, apitam para o carro parar ou passar, pegam na caneta para multar, pegam a propina escondido; essas mãos que engraxam sapatos, que pegam a cola e levam ao nariz, que furtam, que roubam, que pegam na arma, apontam, miram e atiram, que pedem esmolas, que limpam os vidros nos cruzamentos, que vendem jornais e não sabem ler a manchete escrita por outras mãos: "Fugiu com as mãos algemadas".
As mãos estão sempre unidas no instante da morte. No instante da vida as mãos sempre entristecem dizendo adeus. O que fazem tuas mãos agora? Dê-me tuas mãos!




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