SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 3 de maio de 2010

SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – IV

SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – IV

Rangel Alves da Costa*



Um rapaz que estava ouvindo os relatos do velho perguntou a este se naqueles tempos também ocorria de as mocinhas casarem grávidas. E o velho respondeu: "Desde que o mundo é mundo essas coisas ocorrem, e muito mais por descuido do que por outra coisa. Mas naqueles tempos acontecia porque os namorados pouco sabiam o que era camisinha e poucas moças sabiam o que eram os anticoncepcionais. Mas se ficasse grávida e não casasse ficava desonrada, mal falada. Por isso mesmo é que quando as famílias não aceitavam o namoro, o rapaz não pensava noutra coisa senão engravidar logo a namorada. Aí as famílias tinham que passar a aceitar. Hoje não, pois é tanto faz como tanto fez. E o pior é que se pode avistar uma legião de meninos que nunca souberam quem são seus pais. É uma vergonha, mas é assim".
Logo após essa breve interrupção, o velho prosseguiu com a sua história:
Como eu vinha dizendo, uma vez realizada a fuga o rapaz levava a moça até a casa de um líder político do qual era eleitor. Nessas condições ele não poderia negar guarida. Como esse político geralmente era respeitado por grande parte da população local, a fujona ali estaria segura e não haveria o perigo de que sua família, quando soubesse do acontecido, fosse buscá-la à força, pois seria uma desonra muito grande para a casa do líder e para ele próprio.
O muito que a família podia fazer era pedir licença para visitar a moça e aconselhar, implorar o seu retorno ao seio familiar. Isto muitas vezes surtia efeito, mas quando a moça estava decidida a ficar o único jeito era amenizar as coisas, aceitar o ocorrido e providenciar logo o casamento. Muitas boas famílias tiveram origem assim, quase que na marra.
E mais uma vez o progresso passou a influenciar no namoro, asseverou o velho. Os avanços, o crescimento da cidade, a chegada de muitas pessoas estranhas com os seus modismos safados, as lições pouco proveitosas da televisão, o encurtar dos caminhos e a velocidade das coisas, tudo isso serviu para dar uma nova feição até mesmo às relações amorosas e abriram as portas e escancararam a pouca vergonha, a sem-vergonhice deslavada.
Não é difícil, hoje em dia, se ouvir falar que aos doze, treze anos, uma garotinha já está namorando; aos quatorze engravida, aos quinze já é mãe, e muitas vezes mãe solteira, e daí por diante será um deus-nos-acuda. Muitas delas passam a fazer das relações sexuais uma verdadeira brincadeira, dado ao sexo indiscriminado, com qualquer um e em qualquer tempo e lugar.
Hoje em dia, o que mais se vê é o namoro escondido dos pais; encontrando-se com o namorado do dia nos esconderijos, nos monturos de cama de capim ou de sujeira, em qualquer barranco de beira de riacho, no banheiro do quintal da própria família. Qualquer lugar, por mais inusitado que seja, é motel hoje em dia. E tudo só vem à tona quando os boatos se espalham, a gravidez não pode ser mais escondida (já abortou uma, duas vezes...) e os pais começam a fingir que estão morrendo de vergonha dos outros.
Certa feita, uma mocinha de família (já que toda mocinha tem família) apareceu grávida e como não sabia com certeza quem era o autor da proeza, vez que grande era a fila para visitá-la, quando foi forçada pela sua mãe a dizer quem tinha feito aquilo, ela não teve dúvidas e disse que tinha sido o filho do prefeito, o rapaz mais desejado do lugar pelas mocinhas.
Então essa senhora, toda cheia de si e querendo arrumar um pai para o futuro neto, foi procurar o rapaz e perguntou se ele ia assumir a paternidade do menino ou não. Este, com a maior cara de pau, foi logo dizendo: "Olha aqui minha senhora, já comi as suas outras duas filhas, mas essa eu garanto que não comi não e foi porque não quis, até por medo de pegar doença". E qual a reação dessa mãe? Nenhuma. E foi pior, pois procurou um buraco para entrar nele e ficar para sempre e não encontrou. Depois foi reclamar da vida, que nunca teve tempo de criar suas filhas como deveria, e coisa tal. Tarde demais, como sempre.
Como diria a rasa filosofia, um certo orgulho nojento bem que caberia no íntimo também nojento desses pais que só reclamam da sorte da vida quando esta começa a mostrar os frutos que foram vergonhosamente plantados. Queiram ou não, haverão de colher e se deliciarem com a parte mais podre e indigesta. Assim quiseram...


Após tal relato, o velho retirou novamente a fotografia antiga do bolso e olhou-a saudosamente. Tempos bons, não voltam mais... Cantarolou baixinho.




Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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domingo, 2 de maio de 2010

Amor, meu amor (Poesia)

Amor, meu amor


Meu amor, meu amor, meu amor
a pena não repete mais que o coração
as letras se refletem e se contentam
mas sem a força da expressão
do que expressam palavras de paixão

Amor, meu amor, meu amor
quantas vezes amor e meu amor
e mais ainda muito mais
na palavra que não satisfaz
porque não resta senão dizer
amor, meu amor, quanto amo você

Fiz pra ela um poema assim
com dez páginas de amor meu amor
e mais duas páginas deixei em branco
onde ela simplesmente escreveu
aceito contigo dividir todo esse amor
amor, meu amor, meu amor


Rangel Alves da Costa

QUALQUER COISA LÁ EM CIMA... (Crônica)

QUALQUER COISA LÁ EM CIMA...

Rangel Alves da Costa*


A qualquer instante do dia, mas principalmente ao entardecer e anoitecer, João, Marina, Pedro ou Maria sempre levantam o olhar para as distâncias lá de cima e ficam mirando os muitos mistérios que formam os horizontes e o firmamento. Nesse olhar, sempre carregado de saudade, angústia e tristeza, procuram encontrar respostas para os pensamentos povoados de retratos e fotografias, velhas cartas e bilhetes, faces não esquecidas, sorrisos que ainda sorriem e vozes que ainda se ouvem como se o adeus fosse dito agora.
Mas o que é que tem lá em cima, senão o azul do céu, o negrume da noite, o sol indeciso, a lua enigmática, as estrelas vaidosas e os astros cadentes, os asteróides e planetas, o homem na nave, as nuvens embranquecidas ou carregadas, o pássaro, o voo, os ventos que sopram, os raios incidindo, a poluição, os extraterrestres escondidos, a chuva que cai, o mistério e os mistérios?
Razão tinha o poeta ao afirmar que há mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina a vã filosofia. Verdade: há mais mistérios lá por cima, pelos horizontes etéreos, nas vizinhanças do céu, do que imagina qualquer mente humana, por mais perspicácia e inteligência que tenha. Ora, se tudo pudesse ser resolvido num olhar, os viventes das tardes e das noites não ficariam cotidianamente e instantes a fio com os seus telescópios astronômicos (olhos, coração, saudade, tristeza, voo sem sair do lugar, imaginação) tentando encontrar respostas para suas indagações e vazios.
Num canto, em qualquer canto, cada um no seu canto, perto da goiabeira no fundo do quintal, na cadeira de balanço na calçada, na janela do quarto, no meio da noite em qualquer lugar, sob a última luz do sol em qualquer brecha que se aviste, sentado nas areias da praia deserta, estendido nas pedras da montanha distante, de braços abertos em oração e cabeça erguida, no banco da praça, na porta aberta somente para os olhos, em qualquer lugar, os olhares se voltam lá pra cima, os olhos se fecham levemente ou miram fortemente, a mente ganha asas e o pensamento viaja. Ah! como é bom te encontrar, estou com saudades, me deixe te sentir ao menos nesse momento!...
Marina está com saudade de alguém que está muito longe e então abre a janela, olha para o azul e busca avistá-lo, e onde esteja, esse outro talvez esteja fazendo a mesma coisa no meio da rua, parado por um instante e tentando ver no espelho lá da cima como vai o seu amor. Pedro, poeta e solitário que é, não pode chegar ao final de uma tarde sem encontrar lá no alto suas deusas, seus motivos e suas queixas. Chama tudinho para perto de si e então escreve um poema bonito, cheio de mistérios insondáveis e que fará também viajar qualquer possível leitor. Com João e Maria também é assim. A chuva ou o sol, tudo é motivo para trazer alento ao desalento pela perda, pela partida, pela certeza de que não mais encontrará. E olham pra cima, fecham os olhos, e as lágrimas vão se formando como tempestade.
Lá em cima, dependendo de quem olha e o que quer enxergar, tudo é muito bonito ou muito feio, muito alegre ou muito triste. Mas não são só os daqui que sentem necessidade de olhar. Alguém lá por cima deverá estar nos vendo também e dizendo que nem tudo é refletido lá no alto, pois as pessoas primeiro devem enxergar o que está ao redor, bem ao lado e o que ainda não foi visto mesmo estando dentro de cada um. É que muitas vez as respostas estão por aqui mesmo, no que nos cerca e no que ainda não conhecemos em nós mesmos.
Então, que não esqueçamos de olhar lá em cima, mas procuremos também olhar um pouquinho pra dentro de nós mesmos. Alguém um dia fez isso e se encontrou de tal forma que hoje quem vive por fora era o que estava alegremente escondido por dentro.


Advogado e poeta
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SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – III

SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – III

Rangel Alves da Costa*


Se num determinado período o sertão esturricava e as oportunidades de trabalho sumiam, até mesmo no duro ofício da roçagem e capinagem, quebrar pedra e juntar o mato seco num aceiro para fazer coivara, o moço apaixonado e doidinho pra deitar logo com sua amada começava a sentir seus planos ameaçados. Sem trabalho não se ganhava dinheiro algum; sem vintém não poderia montar casa; sem tostão não podia nem pensar na feirinha básica sertaneja; sem "mirréis" adeus casamento, ao menos por enquanto. Pensava tanto em oferecer uns comes e bebes aos amigos, dar adeus na alegria e no encontro à sua vida de solteiro. Mas ficava difícil, sem ter o ganha pão tudo ficava muito mais difícil.
Ameaças desse tipo deixavam o rapaz apreensivo. Nessas ocasiões, a solução que se encontrava geralmente era no sentido de viajar para arrumar emprego, seguir rumo ao sul do país, estabelecer por um curto período de tempo no Rio de Janeiro ou em São Paulo na esperança de arrumar emprego. Nordestino escorraçado pela seca não tem outro destino, ou Rio ou São Paulo. Trabalhar de ajudante de pedreiro, qualquer coisa.
Assim, aquele que estava acostumado aos afazeres na lavoura, no chiqueirar e ordenhar o gado, no plantar e colher o que brotasse da terra, forçosamente tinha de partir para as distâncias desconhecidas, se submeter aos mandamentos capitalistas do trabalho naquele mundão amedrontador de concreto e sangue. Não havia outra saída. Fazendo massa, jogando tijolos, carregando verdadeiros baús de porcaria, sendo explorado sempre e mal remunerado sempre, mesmo assim o bravo sertanejo juntava alguns "caraminguás" e ia enviando, sempre que podia, uma parcela do ganho para que a noiva fosse arrumando as coisas para o tão desejado casamento ao retornar. Muitos desses noivos, contudo, ainda continuam por lá, misturados ao cimento de algum grande edifício.
As mãos calejadas do rapaz, sempre cansadas. não se cansavam de escrever cartinhas de difícil leitura (não sabia escrever direito aqui, lá não tinha tempo de aprender) para sua amada. A aliança estava amassada e sem cor, porém reluzia a cada saudade que batia. E por isso a aliança sem cor vivia reluzindo na saudade demais. Coisinhas assim pretendia expressar o moço nas suas missivas. Dizia eu volto logo Maria, não consigo te esquecer Joaninha, não agüento mais Estefânia...
E no sertão a moça saudosa sentia oprimir-lhe o coração cada carta que chegava, Mais de um mês entre a postagem e o recebimento, e mesmo assim porque ela ia perguntar à funcionária dos correios se tinha chegado alguma coisa. Mas ficava feliz toda vez que lia aquelas linhas que somente o amor decifrava. Logo logo o seu amado estaria de volta. Ele disse. Mas quantas vezes ele já disse isso? Esperá-lo fielmente, com todo o respeito do mundo, virtudes daqueles tempos sertanejos.
As famílias mais antigas surgiram nesse contexto. Mais antigas no viver de hoje e não no de ontem, quando muitas vezes se casava sem ao menos saber com quem deitaria na mesma cama. De qualquer modo, em qualquer cenário que estivessem, os pais sempre quiseram o melhor para os seus filhos e estes sabiam respeitar os pais e o próximo, principalmente os mais velhos.
O progresso fez desaparecer as cadeiras juntinhas dos namorados; as mães abriram a guarda; e o que era sagrado virou profano. O velho parecia ao mesmo tempo saudoso e entristecido com o próprio relato. E continuou espalhando suas pérolas.
O romantismo do amor, do namorar pela palavra, pelos segredos baixinhos nos ouvidos, esmoreceu quando os namorados descobriram táticas mais audaciosas. Até que os pais da moça se certificassem das intenções do rapaz, lá se ia um tempão perdido. Afoito, fogoso, com vontade de possuir logo a amada, o moço matreiro passou a ter uma ideia bastante original: fugir com a moça. Logo se via, a cada manhã, vez por outra, os comentários em cada esquina do lugar: Fulano roubou a filha mais moça de sicrano!; Fulana fugiu com sicrano! A sonsa da fulaninha surgiu. E então surgiam os outros comentários mais maldosos: Também pudera, já tava grávida! Num dou um mês e o besta entrega ela de volta aos pais! Até que enfim teve um besta pra salvar o nome daquela! Êta povinho sem jeito, meu Deus, disse o velho, deixando transparecer um sorriso.
Na verdade, a estratégia utilizada pelo rapaz cometedor do ilícito amoroso era muito simples. Os namorados acertavam que tal dia, em determinada hora, quando todos da casa estivessem dormindo, ela pularia a janela dos fundos da casa ou abriria devagarinho, sorrateiramente, a porta e sairia com cuidado, sem que ninguém pudesse ouvir ou desconfiar de nada. Levaria somente uma pequena sacola com roupas e um coração imenso, capaz de delatar suas vontades. Ele estaria esperando nas proximidades, num ponto combinado.


continua...



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sábado, 1 de maio de 2010

Amor quer silêncio (Poesia)

Amor quer silêncio


De gritos e assombros
foram aqueles dias
até chegarem esses dias
de brados e sustos
sem que diminuíssem
nos outros e outros dias
os estridores e ruídos
que tornaram impossível
ouvir o coração e saber
como estava o amor

O amor estava em silêncio
e em silêncio ficou
até os dois sentirem
que o amor deve ser
silenciosamente vivido
e não dilacerado no estampido
da explosão sem sentido.


Rangel Alves da Costa

SERTÃO ADENTRO... (Crônica)

SERTÃO ADENTRO...

Rangel Alves da Costa*


Sabia do sertão, sua história, seus "causos" e lendas, as peculiaridades do seu povo e as características interessantes que envolvem essa porção territorial nordestina pelo que a imprensa noticiava e mostrava, pelos discursos inflamados dos políticos em favor desse povo tão sofrido, apenas pelo que os outros diziam.
Achava interessante aquilo tudo, devendo ser mais instigante ainda se pudesse, um dia quem sabe, vivenciar de perto aquela realidade, pisar no massapé sertanejo e viver um pouco da vida de sua gente. Até que de hora pra outra resolveu viajar, arrumou as malas e partiu em direção ao sertão nordestino.
Assim que chegou na capital, porta de entrada para o semi-árido, procurou informações sobre o que deveria fazer para chegar ao sertão mais autêntico que havia naquele estado. Quem se propôs a informar parecia querer realmente ajudar ao turista, ao visitante. E por isso mesmo, antes de responder, fez uma série de perguntas instigantes:
Qual o sertão que pretende conhecer, o verdadeiro ou o que a imprensa afirma existir? Quer conhecer o que ainda resta da história do sertão ou quer conhecer o sertão de hoje? Quer encontrar o sertão invadido pelo progresso ou o sertão da miséria, da pobreza ou da fome? Quer sentir como é a vida do sertão e do sertanejo ou prefere tirar suas conclusões pelo cotidiano? Pensa em caminhar pelas caatingas, pelas matarias entre os bichos e xiquexiques ou prefere o asfalto invadindo os caminhos sertanejos? Afinal, qual sertão você quer conhecer? Pois tem sertão de todo tipo, menos o que você pensa que realmente é.
O rapaz ficou intrigado, pois havia feito uma pergunta e o interlocutor veio com mil indagações, sem que tivesse encontrado uma resposta satisfatória. Pelo contrário, lhe embananaram a cabeça. Mesmo assim, já que estava mesmo disposto a colocar em prática o seu propósito, alugou um carro, comprou um mapa e seguiu em direção ao sertão. Era corajoso, preferiu ir sozinho, mesmo que levasse consigo alguns objetos de valor, como se diz, tais como filmadoras e outras tralhas tecnológicas.
Assim que foi deixando pra trás os matos verdejantes da beira da rodovia e começou a observar uma vegetação mais morena, tendente ao marrom, com árvores desfolhadas, pastos acinzentados, palmas e mandacarus se espalhando pelos terrenos secos e pedregosos, com poucas e magras cabeças de gado espalhadas ali e acolá, logo sentiu que já tinha chegado às portas do sertão.
Quando enxergou num cercado adiante a carcaça de uma vaca morta, com urubus pairando sobre um resto de pele, não teve mais dúvidas: já estava no sertão. Parou o carro, desceu, tirou fotos, filmou e rabiscou algumas impressões num diário. Pensou consigo mesmo e disse que tudo estava se confirmando como esperava. A voz do sul estava certa, ainda pensou.
Rodou mais alguns quilômetros e encontrou uma casinha muito pobre, um pouco mais afastada da beira da estrada, onde pôde enxergar uma mulher sentada num tamborete e um garotinho, só de bermuda esburacada, brincando pelo terreno com alguma coisa que tinha uma lata vazia de óleo por cima. Era um carro-pipa, segundo ele, que ia trazer água para matar a sede de sua família. Pedindo licença pra se aproximar, abriu a pequena cancela e, após se identificar e dizer dos objetivos de estar ali, começou a fazer algumas perguntas próprias dos jornalistas, tais como: como vão indo as coisas, como era a família, onde estava o esposo, há quanto tempo não chovia, como estavam sobrevivendo...
Depois de mais de uma hora, após oferecer uma pequena ajuda em dinheiro à mulher e proporcionar ao garotinho sertanejo a alegria de comer um pacote de biscoitos inteirinho e ganhar dinheiro para comprar um carro novinho, o viajante saiu de lá com algumas lágrimas nos olhos, uma tristeza mortificante e uma imensa revolta não sabia de que. Não demorou muito e chegou na cidade.
Muito pobre na entrada, pôde perceber, mas que aos poucos foi tomando uma aparência que nem parecia a sede do mesmo município onde morava aquela senhora que havia conversado instantes atrás: comércio movimentado, pessoas alegres e trajando roupas umas mais bonitas do que outras, muitos carros e motos, casas que pareciam mansões, todos indo e vindo como num grande centro urbano. E se perguntou se estava mesmo no sertão.
Naquele resto de dia procurou conhecer melhor como era a vida naquela cidade sertaneja e descobriu que o sertão só estava no nome, pois o restante era tal e qual se via na telinha, nas novelas da televisão. No outro dia, logo ao amanhecer, quando começou a andar por lugares mais distantes, pela periferia e rumou pelos caminhos e estradas, foi reencontrando novamente o sertão pobre, faminto, mas bonito de alegrar e entristecer o coração ao mesmo tempo.
E foi quando descobriu que o sertão de hoje continua com muitas sedes: sede de ter e beber água e sede de não ter e nem beber da água do progresso que descaracteriza tudo e apaga de morte povo e história.



Advogado e poeta
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
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SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – II

SER SERTÃO: DA ARTE DE NAMORAR – II

Rangel Alves da Costa*


O velho remexeu pelos bolsos, escarafunchou no meio de papéis e documentos e encontrou uma velha fotografia toda embrulhadinha num plástico já amarelado. Olhou todo saudoso; ninguém sabia quem era; ninguém precisava saber. Essas coisas do coração só competem a quem ama. Tomou uma golada de limpinha com umburana – chega estava apurada, boa, amarelada, descendo ardente mas gostosa – e depois de limpar os beiços continuou suas explanações sobre a arte de namorar no sertão. E disse o velho:
Se um rapaz se engraçava por uma moça e desejava cortejá-la, depois que os olhares dela demonstravam interesse, o passo seguinte do moço era pedir o consentimento dos pais. Com a afirmativa positiva destes, logo eram impostas algumas condições para que o namoro pudesse efetivar-se. Neste arrastar de asa, o moço teria um horário determinado para chegar à casa da donzela, geralmente às sete horas da noite, ficando por lá até perto das nove. Naqueles tempos deitar às dez horas já era ir dormir muito tarde.
Quando chegava na casa da jovem, o apaixonado já encontrava três cadeiras bem posicionadas, duas dispostas lado a lado e outra um pouco mais afastada, numa distância estratégica e que não desse para ouvir tudo aquilo que os pombinhos conversavam e planejavam para um futuro recheado de crescente e fiel, fidelíssimo amor.
Porém, mesmo a mãe não podendo ouvir os juramentos e promessas mútuas, ainda assim ela não se descuidava um só instante de estar a par de tudo que estava se passando ali, nos gestos extrapolados, nas aproximações mais perigosas. Mas que perigo haveria meu Deus? Tinha daquelas que até levavam para a sala uma garrafa de café com xícaras que era pra não sair do local um só instante, talvez com medo que o bicho-papão papasse a sua filha ali mesmo. Foi por isso mesmo que Marina toda noite colocava sonífero no café da mãe. Dizem que a senhora roncava igual uma bacurinha.
Certa feita, de tanto a mãe ficar olhando para dois pombinhos pelo canto do olho e querendo a todo instante dizer uma palavrinha ao rapaz, uma mocinha teve a coragem de perguntar à sua própria genitora se ela estava interessada no seu namorado, se queria namorar com ele. A velha deu um chilique, desmaiou e foi pior: a responsabilidade pela vigilância passou a ser do pai, que só queria falar em plantação, melancia, espiga de milho, arado, enxada e coisas desse tipo. Foi pior, muito pior. Um dia o rapaz não agüentou mais tanto trelelê de roça e de terra que resolveu fugir com a mocinha no outro dia mesmo, logo cedinho.
Beijar somente no rosto, na chegada e na saída; nada de agarra-agarra, nem de passar a mão naquilo ou naquilo outro. Namorar de saia, mas de jeito nenhum; com blusa mostrando demais as formas dos peitos pior ainda. De vestido sim, mas olha lá, pois tinha que estar bem abaixo do joelho, de modo que ela sentada a roupa não subisse muito nas pernas. Naqueles tempos era assim e muitos dos pais de vocês tiveram que namorar assim, dizia o velho.
Em muitas casas as cadeiras ficavam geralmente na salinha de entrada. Os dois sentavam numa das laterais e a mãe nas proximidades da janela, pois, se por um lado queria vigiar a filha, por outro lado não podia deixar de ficar bisbilhotando a vida dos outros, prática vergonhosa essa que se tornou cotidiano desde que o mundo é habitado por pessoas que não têm o que fazer. Isto também servia como estratégia: se alguém falar de sua filha, alguma razão encontrará para falar mal das filhas dos outros também. Ninguém sabe mais da arte da fofoca do que o sertanejo. Quando não sabe inventa.
Foi esta preocupação dos pais que resguardou por muito tempo a imagem de pureza daquelas lindas mocinhas, mesmo que na imaginação destas tudo fosse diferente, prevalecendo sempre a vontade e o desejo de um encontro às escondidas, de um despojamento à beira do riacho, de troca de carícias mais íntimas no fundo da igrejinha ou na casa de uma amiga alcoviteira, ou seja, aquela de má pudor que serve de intermediária para encontros amorosos.
O relacionamento nascido sob os olhos atentos da mãe gerou, de certa forma, bons frutos. O rapaz que se submetia a esta forma de namoro só poderia ter as melhores intenções. Quando noivava, nada mais significativo do que esperar um casamento com lua-de-mel de verdade e tudo mais que a mulher dos sonhos podia oferecer.
Quando as alianças eram colocadas nos dedos era como se já estivessem casados. O respeito era máximo. A moça começava a bordar panos para o futuro lar; o rapaz trabalhava de sol a sol para juntar economias para as despesas futuras. Assim, todo o dinheirinho ganho servia para duas coisas básicas: comprar utensílios domésticos e fazer um "pé-de-meia", quer dizer, juntar algum trocado para o que pudesse ocorrer.


continua...




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