SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Efeito (Poesia)

Efeito


O cão ladra quando
o seu dono sai
o gato adormece se
o seu dono chega
o pássaro entristece se
o seu dono parte
as flores morrem se
o jardineiro some
o papagaio emudece se
o seu dono morre
a pedra chora quando
o doido não vem
a folha cai quando
a estação já é outra
a porta bate quando
o seu dono já não é

e eu que chego
que saio e que volto
será que sou meu dono
para saber o que sinto?


Rangel Alves da Costa

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 21 (Conto)

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 21

                                         Rangel Alves da Costa*


Mesmo sem abrir o pequeno envelope, porém já imaginando o que seria, Dona Leontina ficou tão emocionada que, com a voz completamente embargada, não conseguiu falar e apenas gesticulou que Carmen esperasse um instantinho. Não demorou muito e voltou com um antigo rosário na mão e foi logo dizendo que ela não poderia deixar de aceitar.
Outros abraços carinhosos e enfim a futura advogada deixou o Cafundó do Judas em direção ao outro lado da cidade, rumo a Quase Paraíso, local de residência de Dona Glorita, a mãe de Paulo. Com o mesmo problema a coitada, sofrendo a mesma enganação do safado, verdadeiro salafrário, do advogado Dr. Auto Valente. Mas que valente que nada, que valentia coisíssima alguma, covarde, pusilânime, um exemplar acabado do pior que existe na classe advocacia. E que são muitos, muito mais do que se supõe, imaginou a mocinha por instantes.
Contudo, assim que saiu da região do Cafundó e seguiu de mapa estendido ao lado para outras distâncias, o percurso foi sendo grande parte feito com o pensamento de Carmen voltado para a fotografia de Jozué na parede. Que belo, jovem e pobre rapaz, com um sorriso igualmente bonito no rosto, cara de satisfação e disposição para viver e agora sendo tão injustiçado.
Sabia que a penitenciária, suas imposições desumanas e as vidas jogadas ali em desvalia, tornava a pessoa mais linda do mundo no mais medonho ser humano. As feições vão se modificando pelo sofrimento, os olhos perdem o brilho da esperança na vida, a boca desaprende a sorrir, os cabelos ficam aos desvãos do tanto faz, o resto do corpo vai acompanhando todo o definhamento do espírito. E não há beleza que resista à violência causada por outros que estão na mesma situação, à falta de higiene, de amizade, de diálogo, de alguém que chegue e diga que tudo aquilo está próximo de acabar. Muitas vezes não há mais família, pois ali esquecidos do mundo lá fora, abandonados à sorte, muitas vezes, dos injustiçados. Dura, difícil, terrível, pesarosa demais era a vida de presidiário. E não há beleza que não se enfeie monstruosamente diante de uma situação de eterna agonia. Qualquer dia iria visitá-lo, faria isso sim. Mas preferia guardá-lo no pensamento como estava na fotografia, tão belo, tão cheio de vida.
Seguindo pista, entrando em ruas e avenidas, enfim avistou uma borracharia com o nome de Quase Paraíso e então teve a certeza de já haver chegado aos arredores da residência da mãe de Paulo. A mesma pobreza no semblante e na vestimenta do povo, nas moradias e nas construções, apenas um pouco mais limpa e organizada do que o local de moradia de Leontina. Com endereço agora à mão, mais adiante perguntou onde ficava a rua tal. Ainda estava longe, pois era lá no final.
Verdade é que quase o carro não consegue vencer os buracos por todos os lados, as ruas estreitas demais, os meninos correndo pra cima e pra baixo como se aquele mundo fosse somente deles e que tanto fazia que um veículo estivesse por ali ou não. Quando um desses meninos na correria que vinha quase entra de carro adentro, ela chamou-o para se certificar se era por ali mesmo que morava Dona Glorita, a mãe de Paulo.
Ao ouvir o nome de Paulo o garotinho nem respondeu, demonstrou repentinamente interesse e mostrando uma cara triste foi perguntando:
“A senhora veio trazer uma notícia boa sobre Paulo? Se a senhora for advogada dele solte ele logo porque todo mundo por aqui e por todo lugar tá muito triste com o que fizeram com ele. Uma pessoa tão boa, tão honesta, nunca fez mal a ninguém e nem nunca andou em meio ruim. A senhora sabia que de vez em quando ele até brincava com a gente, soltando pipa e jogando bola? Não sei porque fizeram isso com ele, inventando uma história que ninguém acredita, principalmente com ele que nunca usou droga nem roubou. Por favor, minha senhora, se a senhora for advogada dele solte o bichinho logo...”.
Coisa bonita de se ouvir, pensou Carmen. Comovida com o testemunho do garotinho, respondeu apenas que não era advogada dele não, mas que faria tudo pra ele ficar em liberdade o mais rapidamente possível. Mais alegre, sorridente, o menino apontou o dedo em direção a casa.
O carro foi acelerado e ela foi dizendo a si mesma o quanto seria bom que ele fosse mesmo logo libertado. Mas sabia que tão cedo isso não seria possível, que tão cedo os seus amiguinhos não teriam o prazer de compartilhar brincadeiras naquela pobre comunidade. Quase Paraíso!
Mas o menino correu mais que o veículo e quando ela alcançou o local a visita já estava sendo devidamente anunciada. Dona Glorita corou de surpresa e satisfação. E ao modo da outra, também pediu desculpas por receber uma pessoa tão importante numa casa tão modesta. Talvez porque ali morassem mais pessoas, pois a mulher além de Paulo tinha outra filha, a casa era um pouco maior e mais equipada, contando com o conforto que fosse possível a uma pobre família.
Como fizera com Dona Leontina, quando Dona Glorita perguntou quais as reais possibilidades de a sentença ser boa para o seu filho, ela disse toda a verdade. Falou sobre o descaso do advogado, a brincadeira que havia feito com a vida e a liberdade do rapaz, e por fim confirmou que ele seria condenado à pena máxima para os delitos de tráfico de drogas e roubo com uso de violência, causando lesões corporais.
E explicou o que tudo isso significava, dizendo por fim que o seu destino brevemente seria a penitenciária, de modo a cumprir a pena em regime fechado. E quando foi perguntada como seria a vida nesse tipo de penitenciária e lhe foi explicado, a mulher, que já chorava copiosamente, desmaiou de cair da cadeira.
Como não havia ninguém em casa, Carmen entrou sala adentro, procurou açúcar no armário, encheu um copo de água, misturou tudo e fez uma garapa providencial, lembrando das lições de sua velha avó. Que a mulher desculpasse se tivesse diabete, mas era o que podia e sabia fazer no momento. Assim, deu umas leves palmadas no rosto, fez com que abrisse os olhos e conseguiu que ela ingerisse meio copo da água açucarada. Num instante já estava recuperada.
Assim que recobrou totalmente os sentidos, a primeira coisa que Dona Glorita disse foi que achava que não só o advogado estava por trás dessa condenação, mas o Deputado Serapião Procópio também. Espantada, Carmen se perguntou: Será?

                                                   continua...






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domingo, 4 de setembro de 2011

ORATÓRIO (Crônica)

ORATÓRIO

                                     Rangel Alves da Costa*


Minhas duas avós sempre gostaram de oratórios. Acostumado em vê-las com tanta devoção e fé, fui me achegando ao gosto por aquelas verdadeiras igrejinhas e mais tarde, já conhecendo o seu significado religioso e espiritual, me achei no direito de herdar um ou outro.
Quando minha avó materna faleceu não sei que fim deram ao seu belo oratório, sempre exposto em cima de uma pilastra num canto de quarto. Sumiram também os santos, as fitas de devoção, o terço e o rosário, relíquias e relicários, expressões de uma vida profundamente religiosa. Se Dona Marieta soubesse o fim que dariam ao seu precioso objeto certamente que teria me presenteado em vida.
Mas como minha outra avó, a paterna, continua viva, de vez em quando perguntava aos parentes se aquele oratório de madeira nobre e cuidadosamente ornado ainda estava sendo preservado e seguro. Pela idade e porque nem pode mais caminhar, sei que infelizmente não consegue mais se ajoelhar diante da igrejinha e orar pelos seus, pedir a ventura da extensa família.
Sem os cuidados de Dona Emeliana, certamente que o objeto correria perigo de simplesmente desaparecer de uma hora pra outra, como aconteceu com tantos discos de vinil com repentes e coisas autenticamente nordestinas que o meu avô tanto gostava. Do mesmo modo sumiram outras relíquias, coisas simples, mas que ele guardava com tanto carinho, ainda que ninguém dissesse que por trás daquela pedra havia o sentimentalismo em pessoa.
Já tive vontade de chegar perante minha avó e até os parentes e demonstrar de uma vez por todas o meu interesse pela minúscula capela. Chegaria e diria que o móvel tão importante estaria bem protegido, guardado e conservado na minha posse, pois temia que o descaso com a preciosidade fizesse com que a madeira deteriorasse, a vidraça quebrasse, enfim, que os cupins dessem fim à madeira e até aos santos.
Mas nunca fiz isso porque bem sei o que poderia obter como resposta, não de minha avó, que certamente choraria de emoção ao saber do meu interesse, mas de outras pessoas que nem valorizam as pequenas, porém importantes coisas, e nem deixam que os outros passem a ter os cuidados necessários para conservação. Ademais, não seria difícil ouvir que a minha atitude era desrespeitosa por querer herdar um bem de uma pessoa ainda viva.
Contudo, para não ficar relembrando aos parentes que gostaria de ter comigo aquele oratório, vez que conhecendo bem como gostam de complicar as coisas mais simples e implicar com quase tudo na vida, então achei melhor resolver o problema por conta própria. Assim, recentemente encomendei, ao meu modo e segundo as medidas que desejava, a minha igrejinha particular, toda em madeira de lei, de verniz envelhecido e vidros nas laterais.
Hoje guardo pertinho de mim esse pequeno oratório que aos meus olhos e ao meu coração cheio de fé é maior que uma capela, superior a qualquer igreja, tão imensamente bela como a mais bela das catedrais. Imensa feito uma catedral, porém muito mais viva, mais significativa e importante, e simplesmente porque há um céu no meu oratório.
Há um céu no meu oratório e com tudo que de melhor possa existir no céu. Há um Deus, que é o meu Deus; os anjos passeiam por todo lugar, os santos distribuem suas graças de lá, e todo o sagrado canta louvores de agradecimentos, e as preces se espalham, as orações são ouvidas, a graça reina nesse reino do meu oratório.
Aquele magistral silêncio, pois somente eu ouço a voz daquele céu, só é interrompido quando chego diante deles, do meu oratório e do céu no meu oratório, e começo a gritar com o coração a oração que o Senhor nos ensinou:
“Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, vem a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”.
“Nosso Pai, que estás em toda a parte: Santificado seja o teu nome, no louvor de todas as criaturas; Venha a nós o teu reino de amor e sabedoria; Seja a tua vontade, acima dos nossos desejos, Tanto na Terra, quanto nos círculos espirituais; Pão Nosso do corpo e da mente dá-nos hoje; Perdoa as nossas dívidas, ensinando-nos a perdoar nossos devedores com o esquecimento de todo o mal; Não permitas que venhamos a cair sob os golpes da tentação de nossa própria inferioridade; Livra-nos do mal que ainda resista em nós mesmos; Porque só em ti brilha a luz eterna do reino e do poder, da glória e da paz, da justiça e do amor para sempre! Assim seja!”.




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A mais pura verdade (Poesia)

A mais pura verdade



Cadê os amigos?
onde estão agora os amigos?
perdi meu relógio de ouro
e minha caneta importada
lembrei que agora
faltam-me muitas coisas
esqueci de comprar o café
esqueci de comprar o cigarro
esqueci de comprar muitas coisas
tudo que eu gosto e uso
quase tudo que como e bebo
tenho esquecido de comprar
da última vez que recebi visita
também esqueci de oferecer
vinho bom e outras iguarias
talvez nem tenha esquecido
talvez a vida esteja esquecendo
que não pode me esquecr
mas agora estou sem dinheiro
estou sem um centavo sequer
mas não entristeço completamente
porque imagino que tenho amigos
mas onde estão os amigos?
cadê os amigos?


Rangel Alves da Costa

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 20 (Conto)

NAS MÃOS DE DEUS: UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA - 20

                                         Rangel Alves da Costa*


Realmente, Carmen estava com motivos de sobra para estar comovida. Não suportou e teve de chorar ao ver a inocência, o esforço, o desespero daquela pobre mulher juntando seu quase nada, coisas simples, relíquias de toda uma vida, achando que as vendendo iria conseguir dinheiro suficiente para pagar advogado, principalmente aquele advogado.
Depois de se refazer do momento emotivo, colocou o braço sobre o ombro da mulher e pediu para irem sentar um pouco, pois precisava conversar sobre algumas coisas importantes. Já na salinha, olhando mais uma vez para a fotografia de Jozué e sua moldura de plástico, Carmen falou:
“Dona Leontina, pelo amor de Deus, nem pense em se desfazer daqueles objetos, daquelas coisas ali que fazem parte de sua história e são muito importantes na sua vida. Até um par de alianças, sinal de uma bela história de amor, de uma união, de uma vida, iria ser vendido por qualquer preço. Alianças, aneis, lembranças de tempos mais jovens e fotografias são coisas que a gente não pode deixar de guardar enquanto viver, devendo passar de geração familiar a geração familiar. É a nossa própria história que está em cada um desses pequenos objetos. Por isso se desfazer jamais, de jeito nenhum, nem pense nisso. Ademais, vou ser muito sincera com a senhora. Nesse momento, não ia adiantar de nada procurar vender qualquer coisa, pois o seu filho Jozué, infelizmente, não tem chance alguma de sair dessa livre. É duro, é difícil, mas com sinceridade tenho a dizer que ele vai ser condenado e recebendo a pena máxima. Tudo que o verdadeiro bandido deveria receber, na qualidade de pessoa que já respondeu a outros processos, que era reconhecidamente criminoso e procurado pela polícia, o seu filho vai receber. Não foi e nem será provada a inocência dele, ao menos nesse estágio que está, e por isso mesmo vai receber uma pena muito pesada. Isso significa que seu filho, ainda que doa demais afirmar isso, vai sair daquela prisão que está agora, que não passa de uma penitenciária chamada casa de passagem, e vai para outro lugar, para um presídio ainda pior...”.
A mulher ficou totalmente desesperada ao ouvir tais palavras. Baixou a cabeça, colocou-a entre as mãos e conseguiu somente dizer:
“Mas o Dr. Auto disse que ainda tinha jeito de soltar meu menino, que essa tal de sentença podia ser boa pra ele. E agora a moça vem me dizer que não tem jeito mermo, que ele vai prum lugar ainda pior, que certamente é o lugar onde ninguém sai mai como gente. E como a mocinha sabe disso, se o juiz aina não disse que meu Jozué é culpado de alguma coisa? Esse home, esse juiz, não deve ser cego, não deve deixar de ver que se existe um bandido com o mermo nome do meu filho é outro e não ele...”.
Carmen aproximou mais a cadeira, passou a mão pelo lenço encobrindo os cabelos e tentou reconfortar:
“Se acalme Dona Leontina, se acalme, fique assim não que sou sua amiga e estou aqui para ajudar. Pode confiar em mim. O problema é que a senhora sabe, eu sei e todo mundo por aqui sabe que o seu filho é inocente, nunca foi envolvido com o mundo do crime e que isso que fizeram com ele foi um erro imperdoável, mas aquele juiz não pensa assim e não quer nem saber se houve erro da polícia ou não. Caberia ao advogado dele, Dr. Auto, provar por a mais b que aquele Jozué que está preso não se trata do outro indivíduo do mesmo nome, mudando só uma letra no primeiro nome. Mas provar isso não bastaria que juntasse documentos mostrando que um é Jozué com a letra z e ou outro é Josué com s, mas evidenciar outros meios de provas, periciais e testemunhais, que não deixasse nenhuma dúvida na justiça. Mas o pior é que o advogado não trabalhou nesse sentido, não se esforçou nem um pouquinho para provar nada disso. Pra dizer a verdade, o Dr. Auto não fez quase nada para defender o seu filho, não se esforçou como um advogado de responsabilidade e ética deveria fazer. E ao tratar com descaso um problema tão grave, logicamente que ele está ajudando a provar que o seu Jozué é mesmo o tal perigoso bandido. E digo ainda que ele já sabe que o seu filho está condenado a pena máxima que o crime requer porque o próprio ajudou a condená-lo, e quando o juiz assinar a sentença estará assinado também em nome do promotor que denunciou e do advogado que se omitiu em defender com honestidade o próprio cliente. Mas é aí que surge um problema maior...”.
“O que, pelo amor de Deus?”, perguntou a mulher, parecendo completamente fora de si. Então Carmen tentou explicar o que via como grave problema:
“O problema agora é tentar descobrir porque Dr. Auto agiu assim, de modo até a ajudar na condenação. E não somente com relação a seu filho Jozué, mas também com respeito ao Paulo, filho de Dona Glorita. Os casos são diferentes, mas os absurdos na defesa são idênticos, iguais mesmo, e é por isso que alguma coisa muita estranha, uma força muito poderosa, deve estar agindo para desviar a atuação do advogado e torná-lo completamente corrompido, comprado, vendido. Mas vou descobrir o que ou quem está por trás disso tudo, e a senhora não há que duvidar quanto a isso. E é pelo que falei que a senhora não deve se desfazer de suas coisinhas, vender nada daquilo que está no quarto. Se vendesse e o quanto apurasse colocasse nas mãos dele não iria fazer diferença alguma, pois ele receberia a quantia que fosse e prometeria que no tribunal conseguiria a absolvição, colocar Jozué em liberdade. Ele não ia conseguir isso nunca simplesmente porque nada ia fazer. Mas que jeito de soltar o seu filho tem, disso não tenha dúvida. Mas primeiro vou tentar descobrir o que está por trás dessa história toda e depois direi como deve ser feito. Mas como eu já afirmei lá no escritório, se preciso for irei até pedir ajuda aos órgãos internacionais de justiça, mas essa ou essas injustiças não podem ficar assim de jeito nenhum”.
“Mas o que eu vou fazer agora, pelo amor de Deus?”. E Dona Leontina quase não falava mais de tanta aflição. E levantando da cadeira Carmen respondeu:
“Esperar um pouco mais, só isso que tem a fazer. Depois de amanhã a senhora vai lá ao escritório que ele certamente vai dizer que o juiz já deu a sentença e que o seu filho foi condenado a tantos e tantos anos. Vai dizer que a senhora não se preocupe não que é assim mesmo e que tudo pode ser contornado, ser resolvido de uma outra forma e que não se preocupe que o seu filho vai ser solto o quanto antes. Depois ele vai perguntar se quer que continue no caso para entrar com os recursos cabíveis e por fim vai voltar a falar sobre o dinheiro. Quando ele chegar a esse ponto a senhora diga apenas que já está providenciando a parte inicial da quantia que ele deseja receber. Só isso. Depois eu entro em contato com a senhora”.
Em seguida Carmen se despediu e saiu, com o coração tão machucado quanto o da pobre e sofredora mãe. Mas antes de entrar no carro retornou para colocar a mão na bolsa e entregar a ela um pequeno envelope. Era pouca coisa, mas ajudava a comprar algum alimento.

                                                 continua...





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sábado, 3 de setembro de 2011

DE UM DIÁRIO ACHADO NUM BAÚ SERTANEJO (Crônica)

DE UM DIÁRIO ACHADO NUM BAÚ SERTANEJO

                                          Rangel Alves da Costa*


É até difícil de se acreditar que dentre os habitantes de uma recém formada povoação sertaneja, lá pelos tempos que havia paz, num passado distante a se perder de vista, alguém fosse letrado, sabendo escrever direitinho e sabendo mais ainda o que estava escrevendo.
Verdade é que sem querer, exatamente nos escombros de uma das primeiras residências levantadas onde se dera o marco da civilização sertaneja do São Francisco, num terreno mais alto em meio à caatinga, mandacaru e xiquexique, um visitante da história encontrou um pequeno objeto que se tornaria de muita valia para o conhecimento do cotidiano daquelas primeiras povoações.
Não foi exatamente o visitante que fez o achado, pois assim que chegou na hora do sol brilhoso à casa de um velho sertanejo, local bem vizinho ao escombro da morada antiga, chamando da porta apenas encostada para pedir uma informação, não pôde fugir de um dedo de prosa. E enquanto conversavam na sala de barro caindo aos pedaços, o jovem avistou um pequenino baú em cima de uma mesinha e o interesse foi logo despertado.
Então pediu licença para ver o objeto mais de perto e assim que segurou o baú nas mãos foi logo perguntando que idade deveria ter aquela relíquia. E o velho sertanejo, na sua sinceridade habitual, foi logo dizendo que aquilo ali estava pra ser jogado fora, pois havia sido achado dentre as velharias da casa vizinha, mas como ninguém sabia ler o que tinha dentro, então não tinha nenhuma valia. Ia para o monturo.
Sem saber que tipo de escrito havia ali dentro, mais uma vez o rapaz pediu licença para abrir a tampa de madeira magnificamente trabalhada e quando abriu o pequeno caderno ali encontrado, já num difícil estado de conservação, cuidadosamente levou-o diante dos olhos e sorriu pausadamente.
O sertão antigo, o sertão de antigamente estava ali em sua frente, sendo folheado, tocado. E como estava áspero, velho, quase sumindo aquele sertão de antigamente. Mas também que lindo sertão, simples, pacato, humilde, grandioso demais nos atos de sua gente, e esta de iguais qualidades e características. E se pôs a ler:
“Muita sorte a desse povo sertanejo que mora por esses lados. Parece que o bom Deus botou a tábua de salvação nas mãos de tantos desvalidos. Seco demais quase o ano todo, e de tempo em tempos passando mais de três anos sem uma gota de chuva, mas ainda assim o vaqueiro, quando chega o entardecer, sai aboiando e chiqueirando o seu gadinho até o leito do riacho seco. Quem olha só vê areia, nem uma porção de água num poço, mas basta cavar dois palmos e a água salobra começa a brotar alvinha. Então o gado bebe parecendo que é a coisa melhor do mundo. E depois o vaqueiro retorna feliz da vida porque, mesmo sem ter água em casa nem no pote nem na moringa, ainda assim não deixou seus bichinhos com sede. É assim nesse sertão...”.
“Acho bonito demais a vida desse povo daqui. Pra sobreviver não se cansa e nem se farta de procurar o que fazer. Comadre Maria achou barro liguento num barreiro e toda santa manhã desce pra o lado de lá pra fazer seus potes, suas moringas, seus tachos. Depois de tudo secado no sol que tem por demais, traz tudo na cabeça pra olaria de Cardoso. O homem que faz umas poucas telhas na beira do riachinho, aproveita e ajuda a mulher colocando tudo numa queimada só. Já Zuleica de Zé Vicente deu pra juntar sebo de vaca e agora faz sabão em barra pra vender. Juquinha de Totó sai pro mato e volta com o cesto cheio de remédio natural, do mastruço, da erva-cidreira, da raspa do angico e da aroeira. Mas se engana se pensa que ele faz garrafada pra curar doença braba, mas sim colocar as ervas em litros e depois encher de aguardente. Tem tanta gente que aprecia que até já botou uma bodeguinha só de cachaça com casca de pau...”
“A coisa mais bonita de se vê nesse sertão de meu Deus é o ofício da Jurema, viúva do vaqueiro Beraldo Aboiador. Não sei se a mulher tem mãos de fada, de médica ou enfermeiro, mas a verdade é que como parteira não tem igual. Dizem que já fez nascer mais de vinte meninos só por aqui nas redondezas, mas acho que muito mais. E muito mais porque todo menino que vejo chama a boa mulher de madrinha e dá a benção. E como todo mundo sabe, quem faz o parto do menino tem de ser chamada pra ser madrinha. Se não for, mais tarde vai ter doença ruim. É, aqui no sertão é assim...”.
Mas aquilo que leu era só o começo, pois o diário era extenso e, mesmo já muito envelhecido, era de fácil leitura, principalmente porque quem o havia escrito certamente era pessoa estudada. Mas quem, meu Deus do céu, quem naquele sertaozão nos seus tempos iniciais de colonização teria condições de escrever tão bem naquele diário?
O visitante, continuando admirado demais, perguntou ao velho sertanejo se ele sabia quem havia escrito aquilo ou se noutros tempos, num passado muito distante, alguma pessoa estudada havia morado ali. E o homem respondeu sem pensar duas vezes:
“O rapaz não sabia não? Os mais velhos diziam que aqui morava um rei muito inteligente e o nome dele era Sebastião, vindo de outras terras além-mar, depois chamado até de São Sebastião. Dizem que era primo do avô de Virgulino Lampião e também do de Antônio, o Conselheiro. Como se vê, era uma família inteligente demais”.



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Nunca esquecerei (Poesia)

Nunca esquecerei



Nunca esquecerei
tarde de brisa
uma doce paz
e uma mangueira
e embaixo dela
a rede armada
um balanço
um cochilo
um sonho
e vem a fruta
bem madura
amarelinha
cai por cima
do sono
acorda o sonho
e meu avô
me chamava
para chupar
uma manga
tão gostosa
e tão doce
que parecia sonho.


Rangel Alves da Costa