SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



domingo, 3 de março de 2013

PALAVRAS SILENCIOSAS – 183


Rangel Alves da Costa*


“Se eu perguntar, você responde?”.
“A verdade que eu souber...”.
“E se não souber?”.
“A verdade que eu sentir...”.
“Você é feliz?”.
“Somente nas manhãs...”.
“Por quê?”.
“Depois de abrir a janela até o instante em que abro a porta...”.
“Não entendi...”.
“Na janela, a paz da manhã; na porta aberta, o homem...”.
“Você ama?”.
“Um amor não correspondido...”.
“Por quê?”.
“Sei que amo menos do que deveria...”.
“E outra pessoa?”.
“Sei que não posso amar mais do que poderia...”.
“Sente-se na solidão?”.
“Nascemos e vivemos assim...”.
“Ao lado de muitas pessoas?”.
“Tão sozinhas quanto eu...”.
“Gosta de poesia?”.
“Daquela que é lida sem palavras...”.
“Como assim?”.
“O poema do sentimento, da natureza, do entardecer...”.
“Gosta de viajar?”.
“Sempre no voo da tarde...”.
“Todos os dias?”.
“Quando passa a revoada...”.
“Já beijou?”.
“Beijo a cada instante, continuamente...”.
“Outra boca?”.
“Não. Meus lábios se tocam, se sentem...”.
“O que pensa do sexo?”.
“Diferentemente do que todos pensam a todo instante...”.
“Não entendi...”.
“Só penso no instante...”.
“Como vê a pobreza?”.
“Como me olho, me sinto...”.
“Está dizendo que é pobre?”.
“Não estou falando em riqueza...”.
“Como vê o mundo?”.
“Pelos olhos do próprio mundo...”.
“Então...”.
“Então não me iludo...”.
“Tem esperança na paz?”.
“Pergunte ao próximo...”.
“Por quê?”.
“Talvez seja meu inimigo...”.
“Gosta de música?”.
“Da que vem na brisa...”.
“Um som imaginário?”.
“Uma melodia do coração...”.
“Ciência ou religião?”.
“Tanto Deus como a máquina...”.
“Acredita nos dois?”.
“Somente naquele que faz tudo funcionar...”.
“O que é a vida?”.
“Um verbo em contínua conjugação...”.
“Passado, presente...”.
“E talvez o futuro...”.
“Quem é Deus?”.
“Nós...”.
“Mas somos tão diferentes...”.
“Não. Apenas não desejamos a igualdade...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sábado, 2 de março de 2013

O INTERROGATÓRIO (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


O tido como suspeito chegou à delegacia assustado, nervoso, vez que nem mesmo sabia por que havia sido intimado a prestar interrogatório sobre acusação tão pesada.
Ao adentrar no recinto, logo foi encaminhado para o gabinete da autoridade policial, o delegado de polícia. Este ficou de pé assim que apontou uma cadeira para o outro sentar. E dando voltas pela sala, começou:
“Então foi o senhor o responsável por aquele terrível acontecimento, não foi mesmo?”.
“Senhor delegado, mas nem sei sobre o que o senhor está falando...”.
“Típico de quem está omitindo a verdade. Não sei de nada, não fui eu, é o que sempre dizem...”.
“Mas realmente...”.
“Quer dizer que não foi você que atentou contra a vida de Pompon Lantô?”.
“Pompon o que?”.
“Pompílio das Lantejoulas, mais conhecido como Pompon Lantô, eis o nome daquele que você atentou contra a vida...”.
“O senhor deve estar com brincadeira, só pode ser. Passei seis meses viajando e cheguei há apenas dois dias, e por isso mesmo não sei nada do que o senhor está falando...”.
“Mas o carro era o seu...”.
“Nem tenho carro...”.
“Tem sim. Um fusca preto de propriedade de Laurentino Pascácio. Não é esse mesmo o seu nome?”.
“Não, pois o meu nome é Laureano Pafôncio...”.
“Já conheço esse álibi. Bate tudo com você, o carro, o nome, até o CPF. O seu CPF não é 010.005.000-00?”.
“Não, o número é totalmente diferente. Ademais, não tenho carro nem o meu nome é esse que o senhor disse aí...”.
“Mas é você mesmo. Três dias antes esteve rondando a casa de Pompon...”.
“Mas meu senhor, já disse que cheguei de viagem há dois dias...”.
“Mas é você mesmo. Estava de touca na cabeça e não há dúvida que aquele era você...”.
“Desculpe, mas o senhor está completamente equivocado...”.
“Equivocado está o senhor que afirma não possuir aquele carro, não ter esse nome e nem o CPF com esse número...”.
“Mas tenho como provar...”.
“Já estará preso antes disso. E se não tiver carro passará a ter assim mesmo, seu nome será Laurentino Pascácio e o seu CPF terá o número que citei. A não ser que...”.
“O que?”.
“Que queira mudar o nome novamente, deixar de ter carro e outro número no documento, mas isto custará caro...”.
“Não estou entendendo...”.
“Está valendo o nome, o carro e o CPF que eu disse, mas se pagar voltará a ser quem realmente você é, com o seu nome verdadeiro, sem carro e com o CPF normal. Quer dizer, voltando a ser quem você realmente é não será mais suspeito de nada...”.
“Mas então o senhor está me propondo que...”.
“Nada. Não faço proposta a quem tenta contra a vida de vulnerável. Já vou encaminhar o pedido de prisão preventiva à Justiça...”.
“Desculpe, mas quanto é para que eu volte a ser eu mesmo?”.
“Quanto você vale?”.
“Uns...”.
“Isso mesmo. Traga o triplo disso ainda hoje. Do contrário...”.
E ao sair da delegacia o homem estava mais desesperado ainda. E o pior, completamente arrependido de ter se valorizado tanto.

  
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Da arte de amar (Poesia)



Da arte de amar


Amor é arte
e amar faz parte

tela no coração
com afeto e afeição

riscar o nome
fazer seu o sobrenome

talhar no cinzel
aliança e anel

escrever poesia
musa que cantaria

pintar aquarela
com você na janela

desenhar a flor
pétala na sua cor

ser grande artista
o melhor paisagista

tudo enxergar você
arte de bem querer.

  
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 182


Rangel Alves da Costa*


“Os livros e os diários estão fechados...”.
“Os cadernos e rascunhos caídos num canto...”.
“Os esboços e rabiscos foram esquecidos...”.
“Mas ainda há poesia...”.
“Ainda há poesia no mundo...”.
“Em algum lugar ainda há sentimento...”.
“Olhos ainda avistam embevecidos...”.
“Carinhos e afetos são tocados e sentidos...”.
“Talvez não seja em verso...”.
“Em métrica e estrofe...”.
“Em plangência ou verso solto...”.
“Mas ainda há poesia...”.
“Pelos jardins escondidos...”.
“Nos dias dos envelhecidos...”.
“Nas noites dos amantes...”.
“No silêncio dos solitários...”.
“No motivo dos apaixonados...”.
“Na porta que será batida...”.
“Na janela por onde o vento entra...”.
“Poesia também pelo ar...”.
“Na folha de outono sendo levada...”.
“Na tela do pintor do entardecer...”.
“Na mão que se agarra à outra...”.
“Na estrada que se abre para os enamorados...”.
“Há poesia onde não se avista poema...”.
“Por trás das portas empobrecidas...”.
“Das mesas desvalidas e barrigas vazias...”.
“Na insônia de preocupação...”.
“No choro pedindo pão...”.
“Na manhã pedindo alimento...”.
“E tantos escrevem poesia no olhar...”.
“Naquilo que veem e que sentem...”.
“Naquilo que se deparam sem acreditar...”.
“Uma poesia da dor e do sofrimento...”.
“Das marquises e das vidas debaixo delas...”.
“Dos pés descalços e das mãos de esmolas...”.
“Da velhice na meninice...”.
“E que grande poeta é o tempo...”.
“Os anos e suas recordações...”.
“O calendário diante do espelho...”.
“Aquilo que era e não é mais...”.
“Naquilo que logo deixará de ser...”.
“Quem dera sempre um jardim...”.
“Uma saudade boa...”.
“Um bom motivo para sentir a vida...”.
“Toda a beleza transformada em poesia...”.
“Mas a poesia da flor...”.
“É a mesma do pão...”.
“A poesia do amor é a mesma do sofrimento...”.
“A poesia do sorriso é mesma da lágrima...”.
“A poesia da chegada é a mesma da partida...”.
“E poetas somos...”.
“Escrevendo versos sem fim...”.
“A cada dia, a cada instante...”.
“E tão grandes poetas somos...”.
“Mas seremos mestres, imortais...”.
“Ao cultivarmos no coração...”.
“A pena transformadora da vida...”.
“Reescrevendo o que nos impõem como medo...”.
“Em versos de humanismo...”.
“E de crença nos bons sentimentos do homem...”.
“Porque somos capazes...”.
“De sempre escrever poesia...”.


Poeta e cronista
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sexta-feira, 1 de março de 2013

ANTES QUE A LUA ADORMEÇA (Crônica)


Rangel Alves da Costa*


Esperei-te o dia inteiro; de ontem, dos dias passados, desde a despedida e da palavra que voltaria. E hoje, quando a noite chegar, lá debaixo da lua estarei antes que ela adormeça.
Os dias, com suas cores e suas luzes, seus barulhos e movimentos, não conseguem afastar tão belo pensamento, pois em você. Contudo, a grandiosa presença, ainda que na distância, se dá após as sombras da noite descerrem sobre a minha montanha.
Minha montanha está na planície do meu caminhar, chão do meu quintal, da minha janela, da minha varanda ou ao redor onde a noite me encontre. Mas é a maior e mais alta que existe, e em cujo cume posso ver todo além do mais distante.
Ao anoitecer vou logo subindo seus íngremes caminhos; quando a escuridão se completa já estou no ponto mais alto, ouvindo uma velha canção, folheando o álbum de uma só fotografia, relendo carta e bilhete. E diante da lua...
Diante da lua, debaixo da lua, olhando pra lua, falando com a lua, tocando a lua, sentindo a lua, amando a lua. Tudo na lua, e simplesmente porque nela a sua feição, o seu olhar, a sua palavra, o seu corpo, a beleza iluminada.
Noutros dias - instantes de paz espiritual e felicidade no coração -, era debaixo da lua que eu fazia promessas, ouvia cantiga de sua boca, as mãos se juntavam para o passeio, os lábios experimentavam o sabor um do outro.
Sob a luz do luar eu deitava no seu colo macio, rolava na relva molhada, catava flor escondida para embelezar meu amor. E na face molhada de luz, na pele dourada pelo brilho se derramando, tantas vezes enxerguei uma deusa, uma sílfide com sua magia.
Nas vezes que a noite chegava, a lua descia e você não estava, nos momentos assim eu adormecia ali mesmo, debaixo da escuridão brilhosa, para sonhar com o já vivido. E os braços do vento a me abraçar, o zunido da noite a cantar cantiga, e você na lua lá em cima.
Nossos instantes, nosso costume diferente de namorar, pois se aperfeiçoando na noite, na escuridão, debaixo da lua e do horizonte estrelado, terminava sempre sonhando com o alvorecer sobre o rosto.
Tantas vezes deitamos assim, adormecemos assim, sonhamos assim, sobre o leito de relva, nas folhagens do jardim, nos descampados distantes, em cima de nossa montanha. E a manhã chegava tocando suave no nosso rosto e dizendo que a próxima noite logo mais chegaria.
Depois daquele alvorecer que você partiu e esqueceu de voltar, toda manhã que encontro pergunta por que agora desperto sozinho. Respondo apenas que ainda naquela noite estaremos caminhando pelo leito enluarado da noite. E na manhã seguinte despertaremos juntinhos.
Mas ando repetindo muito a mesma coisa. Manhã nenhuma acredita mais no que digo; não há mais anoitecer que me traga o perfume do dia, não há mais escuridão que venha com espelho iluminado para refletir meu sorriso alegre. Todos já sabem que estou sozinho.
Por isso preciso que você chegue antes que a noite apareça e a lua adormeça. Como venho fazendo todos esses dias, após o sombreado chegar não consigo buscar outros caminhos senão aqueles tão conhecidos por nós dois. Caminho errante, sem mão de abraço, sigo e perco meu passo esperando você.
Solitário na escuridão, os vaga-lumes acompanham os meus passos até a montanha, até o relvado, até o leito sem flores. Sempre segui e consegui voltar na manhã seguinte. Mesmo triste, desalentado, aflito, sempre consegui voltar na manhã seguinte, logo após o alvorecer.
Mas hoje sei que vai ser diferente. Ontem a lua me disse que tinha uma lua de mel pra nós dois. Mas também disse que hoje é o dia do amor, do amar, se entregar. Só hoje, e talvez para a eternidade.
Por isso precise que você venha, que você chegue antes que a lua adormeça.

  
Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com  

Nós e nós mesmos (Poesia)



Nós e nós mesmos


Todos estão juntos
nos olhando e dizendo não
abrindo suas bocas
braseiros de chama e tição
não nos reconhecem
seres de alma e de coração
porque descreem no amor
vivem da discórdia e desunião
e por serem maldosos
o mal que houver é satisfação

semente ruim não brota do chão
o mal semeado jamais será flor
o joio não floresce na nossa união
nada que destrua destrói o amor
nós e nós mesmos e tanta devoção
não colhemos da vida senão o sabor
novos frutos em cada estação
mesa farta pois de ontem restou
o amor que eles nunca nos dão.

  
Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 181


Rangel Alves da Costa*


“Tanta verdade desde o início...”.
“Desde as primeiras escrituras...”.
“Os primeiros ensinamentos...”.
“Como dito: um dia passa e outro vem...”.
“E nada acontece de novo sob o sol...”.
“O joio continua em meio ao trigo...”.
“Ainda há tentações no deserto...”.
“Por quarenta dias e quarenta noites...”.
“Os templos estão cheios de infiéis...”.
“Os falsos profetas predizem a vida...”.
“O destino dos outros...”.
“Querem ser os deuses da fraqueza dos descrentes...”.
“Os lírios dos campos...”.
“Tão belos ao sopro do amanhecer...”.
“São invisíveis aos olhos de muitos...”.
“Aos corações que perdem a beleza...”.
“A beleza de sentir o pulsar da vida em plenitude...”.
“Os escritos na tábua foram relegados...”.
“Esquecidos diante dos mandamentos humanos...”.
“São poucos os que abrem a janela...”.
“Para o ar puro da manhã...”.
“Para lançar os olhos aos campos floridos...”.
“Para caminhar por estradas de borboletas...”.
“Para conversar com os passarinhos...”.
“Dizem que não há mais janela...”.
“Nem manhã nem jardins...”.
“E eis o quanto do homem falta ao próprio homem...”.
“Pois aquele que acredita...”.
“Que tem certeza de uma força maior...”.
“Capaz de jardins na aridez...”.
“Capaz de brisa perfumada na tempestade...”.
“Capaz de verdejar abundantes campos floridos...”.
“Abrir quando quer sua janela da fé...”.
“Encontra diante de si a paisagem que quer...”.
“Alimenta o seu espírito de paraíso...”.
“Mas esquece as lições...”.
“Por isso não há força...”.
“Não há mudança nem renovação...”.
“Por mais que o Deus do impossível continue existindo...”.
“Quem não sopra o pó do passado...”.
“Quem não afasta de si a poeira dos tempos...”.
“Quem não se purifica para a colheita...”.
“Continuará sem porta, sem janela...”.
“Sem manhã nem jardim...”.
“E virá dia após dia...”.
“Noite após noite...”.
“E nada acontecerá debaixo do seu sol ou de sua lua...”.
“Porque o homem precisa do homem...”.
“Nascido do homem que existe em si mesmo...”.
“Aquele que purifica o seu espírito de fé...”.
“Aquele que povoa seu lar de bálsamo...”.
“Aquele que queima o incenso em devoção...”.
“Aquele que acende a vela...”.
“E sente a chama como um grande portal...”.
“Porque passará com sua fé, sua crença...”.
“Sua certeza que o tudo e o nada...”.
“Dependem simplesmente...”.
“Do querer abrir a janela...”.
“Para avistar lá fora o seu Deus...”.
“Que nunca saiu de dentro...”.
“Do se lar e de sua vida...”.
“Mas na incerteza de onde ele está...”.
“Abra a janela...”.
“E deixe-o entrar...”.


Poeta e cronista
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