SAIA DO SOL E DA CHUVA, ENTRE...

A morada é simples, é sertaneja, mas tem alimento para o espírito, amizade e afeto.



sábado, 3 de maio de 2014

PALAVRAS SILENCIOSAS – 598


Rangel Alves da Costa*


“O arvoredo também entristece...”.
“Da semeadura o pão de amanhã...”.
“Tanto ter sem razão de ser...”.
“O alimento do espírito é grão de salvação...”.
“Um tempo de sol e um tempo de chuva...”.
“Janelas abertas para o bem e o mal...”.
“Vendavais e gritos na noite medonha...”.
“Precisa acender uma vela...”.
“A chama apagou e só restam as brasas...”.
“Tudo é tão pouco quando se quer demais...”.
“Lágrima de rio querendo ser mar...”.
“Cadê o trem que não vem?”.
“Algo virá naquela estação...”.
“A terra seca não fará brotar...”.
“A canção da noite traz uma lágrima no verso...”.
“Onde estará meu amor?”.
“Reescrevi e rasguei mil poemas...”.
“Escrevi um romance sem ter final...”.
“Pois não escrevo a morte de jeito nenhum...”.
“Já sinto os sinais do outono...”.
“O velho mira a vida sentado no banco...”.
“A folha entristece e seca...”.
“E não somos mais do que apenas somos...”.
“Querendo um pranto molhado de chuva...”.
“Uma lágrima para desenhar em vidraça...”.
“Afaste esse punhal de perto de mim...”.
“O cálice de sangue já foi derramado...”.
“Não vejo a lua lá em cima...”.
“As noites trazem a escuridão...”.
“Preciso tanto acender uma vela...”.
“E iluminar minha prece sem voz...”.
“Não há mais espelho na parede...”.
“Minha face sumiu da moldura...”.
“Não sei mais a idade que tenho...”.
“Perdi o relógio e não sei mais partir...”.
“Bebo o resto da moringa...”.
“E como a farinha seca da solidão...”.
“Não tenho medo de enlouquecer...”.
“Mas tenho medo dessa sanidade...”.
“Ouço passos lá fora...”.
“As curvas na estrada esperam medonhas...”.
“Espalho migalhas de pão...”.
“E caminho sem querer chegar...”.
“Tanto faz aqui ou adiante...”.
“Ainda não risquei a palavra do dia...”.
“Talvez a encontre além da janela...”.
“Ou muito além de todo além...”.
“Pois avisto outro mundo adiante...”.
“Mas prefiro o inexistente...”.
“Onde vivo fingindo viver...”.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

sexta-feira, 2 de maio de 2014

NAQUELAS VEREDAS DO SERTÃO CANGACEIRO


Rangel Alves da Costa*


Imagine o seguinte cenário: Mata fechada, tomada de catingueiras, aroeiras, angicos, quipás e tantas outras árvores de galhagens pontudas, ameaçadoras e traiçoeiras. Mais rente ao chão, urtigas e cansanções, cabeças-de-frade, xiquexiques, tocos pontiagudos e perfurantes, cactos agulhados, carrapichos, tufos com seus habitantes venenosos e indesejáveis. Pontas de pedras miúdas, lajedos cortantes, espinhos abertos em flor, cipós se entrelaçando, grotas e armadilhas. Tudo na natureza cerrada ou por veredas de difícil caminhada. E o calor insuportável se em tempos de estiagem, ou lamaçais escorregadios se em épocas de trovoadas. Além disso, os caminhos perigosos e traiçoeiros, as curvas perigosas, os olhos que pareciam escondidos por dentro da mataria. As incertezas em cada passo, o aperreio em cada instante da vida, seja debaixo do sol, seja debaixo da lua.
Imagine a seguinte cena: Um monte de gente caminhando apressadamente, cansada, esbaforida, tendo que seguir sempre adiante custe o que custar. Pessoas famintas, sedentas, sem tempo de parar para buscar qualquer alimento no embornal ou procurar um fio d’água perdido na mata. Homens correndo, homens fugindo, se entrincheirando, avançando, recuando, atacando, se movendo de canto a outro sem parar. Chovesse ou fizesse sol, todos cobertos com roupas pesadas, com armas, cartucheiras e embornais descendo dos ombros, cruzando os peitos, alojadas nas perneiras. Sempre em alerta, atentos ao menor barulho surgido na caatinga, muitas vezes tinham os olhares voltados apenas para frente e para os lados, para os tufos ao redor, sem ter tempo de dar a menor importância ao que seria encontrado ou pisado pelas grossas alpercatas de couro cru.
Agora imagine a seguinte situação: Na pressa do passo, no avanço rotineiro e até descuidado, ou mesmo já mais lentamente e com esmerado cuidado pelos barulhos suspeitos ouvidos, pela falsa imitação de canto passarinheiro escutado instantes atrás, de repente e alguém lá na frente, aquele que está com a função de abrir caminho, para e levanta o braço direito. Ou apenas parando para gesticular, fazer sinais, apontar direções, ordenar que parte do grupo avance atacando por um lado, enquanto outro deve adentrar na mata pelo outro lado, de modo que o inimigo se veja cercado e sem saída. Ou ainda soltando um grito de comando para recuar, avançar, atacar, se dissipar ou, já sentindo a presença do inimigo e o pipocar de suas armas, querendo dizer que mais uma refrega de vida ou de morte está para acontecer. E num segundo os tiros partindo de todas as direções, gente se entrincheirando rente ao chão, alguns procurando arvoredos ou pedreiras como proteção, outros correndo quase agachados, mas sempre com armas empunhadas. E atirando, contra-atacando, tendo o corpo lanhado da mata impiedosa, muitas vezes com o corpo sangrando pela bala desnorteada que não pôde evitar. Gritos, berros, sons terríveis das armas cuspindo fogo, gemidos abafados, últimos suspiros. A morte. Mas também a continuidade da vida.
E certamente as cenas seguintes: Após colocar o inimigo em recuada, afligi-lo de grandes perdas ou colocá-lo em fuga desembestada por cima de troncos e catingueiras, ter de se refazer no que restou, lamentar os mortos, tentar salvar os feridos, nada parece ainda seguro. Não raro que sequer há tempo para olhar pra trás, para sentir as perdas, para arrastar ou levar nos ombros aqueles que clamam socorro. Sabem que mais adiante a mesma luta será travada, as vidas estarão novamente entregues ao comando do destino Tantas vezes não há vencido nem vencedor, apenas opostos que lutam ferozmente e são vitimados de lado a lado. Cada vitória é comemorada na própria vida que milagrosamente foi preservada, mas não se sabe até quando. Dependendo das circunstâncias, os mortos são abandonados ali mesmo nas veredas da luta, deixados à sorte dos animais carnicentos e das cruzes invisíveis. E um rastro de sangue vai ficando para trás, demarcando a terra sertaneja nas costumeiras vinditas entre cangaceiros e volantes.
Parece filme, relato de uma saga travada nos carrascais nordestinos, um épico medonho que teve seu auge nos tempos de Lampião e seu bando, e com a polícia volante como personagem secundária, mas não menos importante. A película da história não afasta a ideia de que em muitas ocasiões e contextos tenha sido realmente assim. Ora, o cenário não poderia ser outro, as cenas também, e os personagens aqueles homens escolhidos pelo destino para combater as ilusões de um tempo injusto.
Filme longo, penoso, trágico, sangrento, abominável para uns, plenamente justificado para outros, mas sempre memorável em todos os sentidos. Mesmo que se negue o valor do cangaço, a coragem daqueles homens do sol e a sua luta infinda, não se pode deixar de reconhecer a grandiosidade do fato histórico. Eis que o cangaço representou o despertar do homem comum, totalmente renegado pelo poder vigente, e oprimido na sua própria terra, para a possibilidade de reconhecimento e valorização através da luta.
Luta inglória, sim. Mas o cangaço não buscava vitória. Lampião não buscava troféu. Talvez apenas mostrar que o sertanejo, igualmente ao seu sol, também se levanta.


Poeta e cronista
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Mel com mel (Poesia)


Mel com mel


O mel da colmeia
mel da abelha
o mel do pomar
mel da fruta
o mel da boca
mel do beijo

prefiro o mel
caindo do céu
saindo da boca
molhando o lábio
doçura de beijo
pólen doce de flor
sabor de desejo
seiva de beija-flor
mel que alimenta
o corpo de amor.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 597


Rangel Alves da Costa*


“Ame...”.
“E ame sempre...”.
“Ame todo amor que existe em você...”.
“Ame sem medo...”.
“Ame sem segredo...”.
“Ame com coragem...”.
“Ame com voragem...”.
“Ame de coração...”.
“Ame com paixão...”.
“Ame com abraço e beijo...”.
“Ame com desejo...”.
“Ame de corpo e alma...”.
“Ame na quietude e na calma...”.
“Ame sem temor...”.
“Ame sem rancor...”.
“Ame como doação...”.
“Ame com dedicação...”.
“Ame de ter saudade...”.
“Ame na maior liberdade...”.
“Ame com poesia...”.
“Ame como poema de alegria...”.
“Ame com sinceridade...”.
“Ame com toda verdade...”.
“Ame de carta e bilhete...”.
“Ame sem mentira ou falsete...”.
“Ame de correr atrás...”.
“Ame o que satisfaz...”.
“Ame com garfo e colher...”.
“Ame com o que bem quiser...”.
“Ame de sentir calafrio...”.
“Ame de ter no corpo arrepio...”.
“Ame de pétala e flor...”.
“Ame com aroma e sabor...”.
“Ame no outono e verão...”.
“Ame em qualquer estação...”.
“Ame na multidão...”.
“Ame também na solidão...”.
“Ame na noite estrelada...”.
“Ame na madrugada enluarada...”.
“Ame com retrato à mão...”.
“Ame recordando a feição...”.
“Ame pela música antiga...”.
“Ame cantando a cantiga...”.
“Ame com palavras ao vento...”.
“Ame em viagem do pensamento...”.
“Ame um amor artesanal...”.
“Ame como vento no varal...”.
“Ame o amor pelo cais...”.
“Ame de querer sempre mais...”.
“Ame...”.
“E ame sempre...”.
“Ame com todo o amor que exista em você...”.


Poeta e cronista
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quinta-feira, 1 de maio de 2014

COISAS DO MEU SERTÃO


Rangel Alves da Costa*


Recordo-me vivamente. Nos inícios da década de 70, no dia que foram testar a iluminação elétrica na povoação onde nasci, em Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo, no alto sertão sergipano, até então relegada ao breu dos esquecidos, aconteceu algo totalmente inusitado e inesquecível.
Assim que as lâmpadas dos postes foram acesas, provocando um clarão jamais visto naquelas noites sertanejas, além de os moradores tomarem as ruas para apreciar a novidade, não demorou muito e os logradouros da cidade ficaram completamente cheios de galinhas, galos, pintos, tudo que fosse galináceo.
Era uma cena indescritível. Completamente atordoadas pelo clarão, as aves andavam de lado a outro sem saber aonde chegar ou o que fazer. Deitadas que estavam desde a primeira sombra do anoitecer, de repente foram surpreendidas por aquela estranha claridade. Pensaram que já era dia e desceram dos poleiros e seguiram para as ruas.
Também atabalhoados pela novidade, pelo progresso que chegava através da luz, muitos sertanejos nem se deram conta desse fato. Dividiam ruas e calçadas com as aves e verdadeiramente não se sabe quem estava mais admirado com o dia debaixo da noite. Olhavam para as luminárias nos postes como uma coisa do outro mundo que estivesse invadindo o sertão.
Doutra feita, quando a terra sertaneja ainda possuía grandes áreas de vegetação nativa com catingueiras, aroeiras, cedros, angicos, umburanas e muitas outras árvores caipiras, bem como plantas rasteiras e cactáceas por todo lugar, e era possível encontrar bichos de caça não muito longe da cidade, também acabou sucedendo um fato inesperado.
O sertanejo lançava mão de sua espingarda e de seu perdigueiro e não demorava muito para garantir a caça que alimentasse a família. A nambu, a codorna e o preá eram os animais mais presentes nos embornais de retorno. Mas um acontecimento corriqueiro acabou fazendo com que a caça fosse parar na cidade, correndo pelas ruas, invadindo casas, se escondendo debaixo de camas e pelos cantos.
Assim aconteceu depois que uma coivara mal feita acabou provocando um incêndio num pasto de uma propriedade ao redor. Coivara, para quem não sabe, é a queima do mato, após ser derrubado e juntado, para limpar o terreno e prepará-lo para o plantio. Hoje já não se aconselha tal prática, vez que a terra acaba perdendo seus nutrientes. Pois bem, vamos ao caso. O incêndio ganhou proporções tais que milhares de preás, acossados pelo fogo e sufocados pela fumaça, correram desembestados e foram parar na cidade.
Entravam aos montes pelos quintais, seguiam adiante e ultrapassavam as portas dos fundos e da frente, e se espalhavam por todo lugar. O mesmo que se faz para matar ratos com cabos de vassouras se fazia com relação aos preás. Meninos jogavam pedras ou corriam atrás, adultos encurralavam os bichinhos e depois só era puxar o pescoço. E foi fartura de preá pra muitos dias, com panelas cheias e fogões tostando seus quartos e pernas.
Contudo, como as casas eram também celeiros de ratarias, com cada rato maior que preá, depois eu fiquei sabendo que no afã do pega-pega e da matança, muita gente acabou trocando gato por lebre. A aparência muito aproximada entre um e outro acabou fazendo que colocasse na brasa o rato pensando que era preá. E comeu do mesmo jeito. O que prova que a comida é rejeitada pela fama, não pelo sabor.
Mas um fato especial há de ser recordado. No dia da invasão dos preás uma senhora cochilava despreocupadamente na porta de casa, bem sentada numa cadeira de balanço, de vestido e com as pernas um tanto descuidadas. Eis que na correria um dos desesperados roedores pulou nas pernas e foi subindo coxas adentro. Sentindo a estranheza, ela despertou num salto e gritou: Socorro, socorro! Tragam uma ratoeira pelo amor de Deus!


Poeta e cronista
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Dentro da noite (Poesia)


Dentro da noite


Noites de frio e sonhos impossíveis
meu corpo clama por um abraço teu
minh’alma clama por saudade boa
mas chove lá fora e a lua sumiu
e não tenho mais verso nem grito
não tenho mais o retrato rasgado
nem janela aberta para querer voar

que os caminhos tragam os teus passos
e a tua presença faça surgir aromas
as fragrâncias tragam esperança à alma
e talvez o vento passeie pelo meu olhar
trazendo a pétala perfumada do amor
e assim envolto em jardim de desejo
a porta se abra para teu sorriso e abraço.


Rangel Alves da Costa

PALAVRAS SILENCIOSAS – 596


Rangel Alves da Costa*


“O trem é a vida?”.
“Ou a vida é o trem?”.
“Qual o significado...”.
“Da solidão nessa estação?”.
“Uma chegada...”.
“Uma partida...”.
“Uma despedida...”.
“Um adeus...”.
“Lágrimas de alegria...”.
“Lágrimas de tristeza...”.
“Um lenço à mão...”.
“É a vida ou o trem...”.
“Que está na estação?”.
“Um apito ao longe...”.
“Um apito no coração...”.
“Trilhos abertos...”.
“Imensas distâncias...”.
“Atrás da montanha...”.
“Os mistérios de tudo...”.
“E ouve o apito...”.
“Um apito de trem...”.
“Ou será que é a vida...”.
“Que adiante já vem?”.
“Agora o silêncio...”.
“E tanta solidão...”.
“Ventania chegando...”.
“Folhas secas ao desvão...”.
“Ninguém espera o trem...”.
“Ninguém espera a vida...”.
“Na estação...”.
“O relógio do tempo...”.
“Sem tempo de passar...”.
“Esperando a vida...”.
“Esperando o trem...”.
“O que haverá de chegar...”.
“Mas nada de trem...”.
“Nada de vida...”.
“Desponta ao longe...”.
“Apenas uma distância...”.
“De pedras e espinhos...”.
“Doendo no olhar...”.
“Mas enfim um sinal...”.
“Um barulho adiante...”.
“Um apito distante...”.
“E a mão apressada...”.
“Recolhe o buquê...”.
“O lenço acena...”.
“Para algo que vem...”.
“Mas não se sabe se a vida...”.
“Não se sabe se o trem...”.


Poeta e cronista
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